sábado, 16 de fevereiro de 2008

Internet e CyberMedicina

A medicina é uma área bem representada na Internet e, devido à globalização e ao "relativismo universal da opinião", sofre severa e preocupante concorrência das chamadas "medicinas alternativas", no quadro do "pluralismo médico" vigente nas sociedades ocidentais. Cada uma destas "subculturas médicas" possui as suas maneiras próprias de explicar e tratar as doenças e os "curandeiros" de cada grupo estão organizados em "associações profissionais", com regras de admissão, códigos de conduta e formas de relacionamento com o doente.
Em Portugal, a antropologia médica — o estudo científico de como as pessoas, nas diferentes culturas e grupos sociais, explicam as causas das doenças, os tipos de tratamento em que acreditam e a quem recorrem quando ficam doentes — nunca fez seriamente parte do currículo académico dos cursos de medicina e, quando está presente, constitui uma disciplina frouxa, leccionada com muita verborreia pseudo-filosófica ou pseudo-humanista. A antropologia, que deveria constituir o eixo de abertura da "medicina convencional", oficial e formal, à sociedade, abre-se levianamente às "etnomedicinas" e deixa-se envolver na demolição do chamado "modelo médico", tão maltratado pelos feminismos em voga.
Para evitar esta polémica demolidora do espírito da ciência na medicina, desgastada pelas críticas de Thomas S. Szasz, Ivan Illich, David Cooper, R. D. Laing, Géza Róheim e G. Devereux, de resto cérebros brilhantes que merecem a nossa atenção, prefiro avançar com o conceito de "cybermedicina" que não deve ser confundido com o de "telemedicina", embora o possa compreender como área de estudo, e articulá-lo com a "filosofia médica", uma disciplina ausente dos currículos nacionais, apesar de muitos médicos portugueses terem sido humanistas e excelentes intelectuais, dos quais destacamos evidentemente Jaime Cortesão e Abel Salazar.
Uma abordagem à cybermedicina seria estudar como é que os utentes dos "sites médicos" se relacionam com as medicinas convencional e não-convencionais e que tipos de informação procuram mais. Embora nunca tenhamos estudado este assunto, a nossa experiência em pesquisa interactiva parece revelar que muitos desses utentes, sobretudo os da nossa amostra, procuram informação que lhes permita auto-medicar-se e auto-examinar-se, sem recorrer à ajuda médica institucional e sem hostilizar as medicinas alternativas, frequentemente mais procuradas do que a medicina científica, ou procuram informação adicional sobre a doença e o seu tratamento que lhes foi prescrito por um médico. (Este aspecto merece ser pesquisado, porque a informação disponível on-line nem sempre é bem compreendida, podendo mesmo levar o doente a ficar desesperado ou angustiado.)
De facto, até mesmo no domínio da saúde, a Internet propicia os "cuidados de si" (Michel Foucault), em detrimento dos cuidados prestados por outros oficialmente creditados para exercer legalmente os cuidados médicos e de saúde. Os cibernautas mais inteligentes querem cuidar da sua própria saúde, sinal de conquista de autonomia. Neste aspecto, algumas críticas elaboradas por Ivan Illich são pertinentes, porquanto visam autonomizar o «doente» do sistema de saúde e dos seus interesses corporativos, permitindo-lhe cuidar de si:
«A saúde é a sobrevivência num bem-estar que se sabe relativo e efémero. É a viabilidade do animal desprovido de instinto, viabilidade que deve ser mediada pela sociedade. Esta saúde pressupõe a faculdade de assumir uma responsabilidade pessoal perante a dor, a inferioridade, a angústia e, finalmente, a morte. (…) (A civilização médica cosmopolita) substitui um programa de acção pessoal por um código pelo qual os indivíduos devem submeter-se a instruções emanadas dos terapeutas profissionais. Substitui uma higiene centrada no acto pessoal por outra, centrada na prestação profissional. A instituição assume a gestão da fragilidade, e ao mesmo tempo restringe, mutila e acaba por paralisar a possibilidade de interpretação e de reacção autónoma do indivíduo confrontado com a precariedade da vida» (Illich, p.123/127).
Daqui resulta ser necessário repensar o modelo médico, de modo a dar lugar, nos cuidados de saúde, aos cuidados de si. O médico deve estar aberto às preocupações manifestadas pelos doentes e, quando for necessário, ajudá-los nessa tarefa básica que é o cuidar de si. Nesta esfera pessoal ninguém deve ter autoridade e não há moral que possa justificar a intromissão alheia na esfera íntima da pessoa humana, nem Deus que supostamente criou este mundo imperfeito.
A bioética tem aqui uma palavra a dizer: respeitar o outro na sua alteridade radical. Outra palavra diferente desta é pura ideologia que visa legitimar as assimetrias de poder existentes e afastar as pessoas dos seus próprios cuidados de saúde, em nome de um «deus» manipulado por homens metabolicamente reduzidos, portanto sub-humanos. Alias, a fundamentação ética dos cuidados de si no âmbito dos cuidados de saúde pode ser encontrada na doutrina de Adam Smith dos deveres para consigo próprio e do autodomínio, que Ernst Tugendhat assimilou e reviu numa perspectiva não-utilitarista da ética.
A medicina carece de uma teoria geral da medicina e esta só pode ser elaborada levando em conta a filosofia: é em torno dessa necessidade de diálogo entre medicina e filosofia que giram todos os projectos de filosofia médica (Paul Vogler). Como escreveu Ernst Platner (1790): «O homem não é somente corpo nem somente alma; é a harmonia entre ambos os elementos, sendo que, segundo me parece, o médico não pode limitar-se ao corpo, como tão-pouco o moralista pode limitar-se à alma». Retoma-se assim o projecto filosófico da medicina antiga e clássica e é esse projecto que deve ser elaborado pela filosofia médica, em face de uma medicina cada vez mais farmacológica, tecnológica e genética. (Este post foi publicado no meu blogue "CyberBiologia e CyberMedicina", com este título: Cuidados de Si e Cybermedicina. Ou GaySex on the Internet.)
J Francisco Saraiva de Sousa

9 comentários:

bluegift disse...

Já agora acrescento que em vários países da Europa as medicinas alternativas aparecem como pós-graduações do curso de medicina, perfeitamente aceites pelo meio médico e que, por exemplo, o sistema de saúde Belga começou este ano a subsidiar medicamentos homeopáticos! Uma maior influência das correntes asiáticas não é inocente nesta nova tendência.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

É e aqui também já começou a haver abertura, até ao nível curricular. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Não percebo o que se passa no Ocidente, mas estão a ficar todos frouxos. Eles querem a nossa ciência e tecnologia, nós ficamos com as superstições deles! :((

bluegift disse...

Ó Francisco, francamente! E não são eles o berço desta civilização ocidental em que vivemos? Como é possível renunciar à imensa riqueza cultural que nos rodeia, no mundo inteiro? Não convém confundirmos anulamento com enriquecimento. Sou completamente contra a regressão socio-familiar que nos pretendem impor pelo extremismo muçulmano, por exemplo, mas no resto só temos a ganhar. Frouxos seremos se formos demasiado tolerantezinhos para com os fundamentalismos, isso sim. E mais grave ainda quando confundimos fundamentalismo com riqueza cultural, isso sim, não é grave é GRAVÍSSIMO!!!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

BlueGift

Não gosto de fundamentalismos mas de diversidade e respeito pelas diferenças. Defendo é a qualidade da democracia e a transparência! :)))

Manuel Rocha disse...

Francisco...cuidado com a Blue...esta mulher é um presente corrosivo...:))

Quando tiver tempo esclareça-me sff aquela relação que estabelece entre os feminismos e a prática médica...juro que me passou ao lado...:((

Concordo com a absoluta necessidade da presença da filosofia na medicina. Desde logo para estabelecer melhor os limites do conceito "vida humana" e ajudar a ética médica nesse ajustamento pela dignidade que muitas vezes desleixa quando simplesmente se deixa deslumbrar pelas possibilidades da técnica.

Das minhas leituras de Illich e das "investidas" que ele faz em direcção à medicina, eu tinha retido sobretudo o exemplo do empreendedorismo capitalista que cria o problema para depois criar e gerir a solução.
Hoje leva-se o puto ao pediatra e o gajo conclui inevitavelmente, para desespero dos progenitores, que a criaturinha está não sei quantos pontos abaixo ou acima de um percentil qualquer, como se alguma vez o ritmo de crescimento tivesse sido uma linha de produção em série por moldagem ! Claro que para cada "desvio" há uma "correcção", e é nessas supostas correcções que se faz o enorme negócio da saúde....:((

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Vou esclarecer essa ligação entre o modelo médico e os feminismos, com um caso real. Geralmente, eles seguem a via da desconstrção e acusam a medicina de ser «machista» ou coisa do género. Até existem artigos de neurociência ou mesmo de genética num ponto de vista feminista.
A Blue é boa pessoa! :)
Sim, o capitalismo invade tudo e Illich viu isso...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Existem boas obras de filosofia médica (em alemão fundamentalmente), mas inacessíveis em Portugal. É um projecto complexo e difícil, sobretuso neste momento de "ofuscamento tecnológico" protagonizado pelo governo de J Sócrates... Eles e os tugas não querem conhecimento e muito menos cultura. Eclipse da cultura superior! Dominada pelas ciências da treta! :(((

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Além disso, em Portugal não temos filósofos competentes. Daí que os cursos estejam a ser "eliminados" quando nos países que dizem seguir se passa o contrário! E a medicina está muito complexa e começa a ser reduzida a meras receitas: afinal, tb está em perigo! :(