quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Jacques Derrida: Espectros de Marx

«Um espectro ameaça a Europa: o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa se uniram numa Santa-Aliança para esconjurar este espectro». (Marx/Engels, Manifesto do Partido Comunista)
A filosofia contemporânea ilustra o fenómeno da inflação da linguagem e esta obsessão verbal centra-se, na filosofia de Jacques Derrida, na escrita, cujo tema funciona como antídoto contra o idealismo, a metafísica e a ontologia. O alvo da crítica de Derrida é o logocentrismo que caracteriza a história ocidental enquanto gravita em torno da noção de logos (razão e linguagem), destacando o pólo da razão, entendida como pensamento, sentido puro, ideal ou espírito, em detrimento do pólo verbal (material, sensível) do logos. Este esquecimento da materialidade da escritura, constitutivo do pensamento ocidental, deve-se à experiência da voz, do enunciado oral que expressa o que se "quer dizer", isto é, a referência. A proximidade do significante do sujeito falante cria a ilusão de que a consciência pensante e as significações que "quer dizer" (intenções) existem, como se a consciência pensante estivesse imediatamente presente a si mesma e ao referente puro para o qual aponta. Deste fonocentrismo resultam o idealismo, a metafísica e a ontologia, para os quais o significante é de tal modo transparente que deixa o conceito apresentar-se a si mesmo, como o que é, sem remeter a nenhuma exterioridade, excepto à sua própria presença. Este "engodo estrutural" está inscrito na prática da própria linguagem humana, que dá origem a um mundo e a uma forma de vida, nos quais a multiplicidade, as diferenças e as contradições parecem ser superáveis.
A consequência do fonocentrismo é a desvalorização geral da linguagem, em particular da escritura, que é concebida como o instrumento marginal e imperfeito para conservar o sentido enunciado. A materialidade da escrita mancha o sentido puro que recolhe com os resíduos impuros do mundo sensível. Uma ordem hierárquica atravessa toda a história ocidental: 1) o real (o Significado e o Referido), 2) a expressão oral (contingente, imperfeita, mas quase invisível), e 3) a escritura (cópia material dura e acessória do oral). Neste movimento que vai do real à escritura, passando pela expressão oral, afastamo-nos sempre da "própria coisa" (o So/Ro ou Significado/Referido), que se mantém pura na "origem", isto é, presente sem distância na consciência com "vontade de dizer". A escritura é uma espécie de refugo do pensamento ocidental.
O logocentrismo é a "matriz do idealismo" e do espiritualismo em todas as suas versões, que Derrida pretende desmontar com a desconstrução: o conjunto das técnicas e das estratégias usadas para desestabilizar, fissurar, rasurar e deslocar os textos explicita ou invisivelmente idealistas, mostrando que a materialidade (escritura) e o "sem-sentido" (indizível) afectam todos os textos idealistas ou mesmo materialistas. Tanto a fenomenologia de Husserl como o estruturalismo estão contaminados pelo fonologismo. Afirmar que "tudo é linguagem", como fazem os estruturalistas da Escola de Saussure, é retomar a concepção central da filosofia grega: a supremacia do discurso (logos), assimilado à palavra viva ou à voz e considerado como doador originário do sentido, a qual repousa, por sua vez, sobre a metafísica do Ser concebido com o "ente supremo", ou seja, sobre uma onto-teo-logia, para a qual o próprio significante se apoia sobre um significado transcendental que funciona como garantia suprema de toda a doação de sentido. Pretender determinar uma forma de pensamento "puro", tomado como a origem e a essência de todo o discurso cientificamente rigoroso, como faz Husserl, é esquecer que esse pensamento só pode ser apreendido através da mediação linguística dos signos que o exprimem, em especial dos signos escritos que o anotam. Contaminada pela presença secreta dessa escrita, a origem atingida por Husserl não é "pura": toda a origem é "impura", ou melhor, não há origem. A presença ausente da escrita corrompe desde o início a própria origem.
Colocando "em perspectiva" diversos textos pertencentes a épocas diferentes da metafísica da presença ocidental, Derrida mostra que, no momento em que tentam demonstrar a supremacia do logos reduzido a palavra viva, acabam por minar e implodir essa supremacia, na medida em que pressupõem a existência de uma arqui-escrita anterior ao logos para explicar a "articulação" que o define. Com a introdução deste "suplemento", a "aparição" da origem é infinitamente "diferida" e o sentido está condenado à "disseminação". Contudo, Derrida evitou explicitar a teoria desta arqui-escrita, isto é, do "grammé", do vestígio, da inscrição e da rasura, talvez por suspeitar que a própria noção de teoria é solidária da metafísica, e, em vez da sistematização da metodologia da gramatologia, dedicou-se ao exercício da subversão textual devastadora que assimila ao movimento da "différance", substantivo construído a partir do particípio presente do verbo "différer" (diferir), popularizada sob o termo desconstrução e divulgada nos meios literários por Paul de Man. A desconstrução aplica-se a textos, em especial a textos filosóficos, e, como prática de escrita, opera sempre nas suas margens, de modo a fazer aparecer os termos não-ditos nesses textos aparentemente homogéneos e atravessados por uma intenção de sentido unívoco. Operando uma inversão nos pares conceptuais hierarquizados, seguida de uma neutralização do conceito valorizado, a desconstrução revela a parte do significante (Se) em todo o significado (So), bem como a inércia da matéria na subtileza do espírito e as ambiguidades e aporias do uso que se pretende lógico. A desconstrução é uma espécie de leitura sem a priori que procura escapar ao discurso metafísico, às suas oposições binárias e à ideia de hierarquia dos conceitos.
A desconstrução não visa somente destruir a metafísica da presença, mas também é alimentada por uma ambição revolucionária: a desconstrução gera necessariamente efeitos políticos que Derrida abordou na sua obra "Espectros de Marx", onde denuncia o mito do "fim da história" difundido por Francis Fukuyama na peugada de Kojève, lembrando que a democracia liberal, além de não estar realmente estabelecida na maior parte dos países do mundo, é incapaz (sozinha) de resolver os graves problemas causados pelo agravamento constante das injustiças sociais e da miséria. Por isso, após a queda do Muro de Berlim e em face da globalização e da intolerância ocidental, torna-se necessário regressar a Marx, aos seus textos e, sobretudo, ao "espírito do marxismo". Ou, como diz Derrida, Marx está "entre nós". É certo que Derrida realiza uma crítica da herança de Marx a partir da perspectiva filosófica da desconstrução, mas faz uma espécie de confissão: um certo espírito do marxismo nunca foi alheio à sua filosofia. Com efeito, Derrida afirma que, se existe um espírito do marxismo a que não renuncia e a que nunca renunciou, mesmo durante o terrível período do predomínio totalitário da dogmática comunista soviética, esse espírito não é somente "a ideia crítica ou a atitude questionadora", sem a qual não é possível a própria desconstrução, mas também e fundamentalmente "certa afirmação emancipadora e messiânica, certa experiência da promessa que pode ser liberta de toda a dogmática e, inclusivamente, de toda a determinação metafísico-religiosa, do messianismo".
Esta promessa deve prometer ser cumprida, isto é, "produzir acontecimentos, novas formas de acção, de prática, de organização", enfim, uma Nova Internacional, na conjuntura social e política desfavorável e intolerante do mundo contemporâneo, dominado por um novo dogmatismo e por uma nova intolerância que se apoderou da actual "Europa da Santa Aliança" (UE): o dogmatismo capitalista que insiste na morte de Marx e do marxismo. Insurgindo-se contra os discípulos franceses de Althusser, em especial Balibar, que dissociam o marxismo de toda a teleologia ou de toda a escatologia messiânica e, sobretudo, contra as interpretações antimarxistas, Derrida conjura todos os espectros, os diversos "espíritos marxianos" e antimarxianos, em "nome de novas Luzes para o século vindouro", sem "renunciar a um ideal de democracia e de emancipação", que procura pensar e colocar em marcha de uma maneira efectiva que evita a repetição da experiência soviética, bem como o oportunismo da experiência social-democrata europeia. O resultado é a extraordinária elaboração, linguística e conceptualmente rigorosa, da espectrologia de Marx: "A desconstrução só tem sentido e interesse, pelo menos para mim, confessa Derrida, como uma radicalização, isto é, também na tradição de um certo marxismo, com um certo espírito do marxismo". O marxismo de inspiração messiânica de Walter Benjamin, mas também o de Ernst Bloch, obriga-nos a pensar, neste mundo global, tomado pela virtualização do espaço e do tempo, "outro espaço para a democracia" por vir e, por conseguinte, para a justiça. De certo modo, ao reconhecer a sua dívida para com o marxismo e ao reatar a sua obra com a tradição marxista de cariz messiânico, Derrida procura, no jogo de espelhos perigoso em que se move a sua prática filosófica, escapar à "armadilha" que ameaça a própria desconstrução ou a crítica radical da razão. Afinal, "quer queiram ou não, saibam ou não, todos os homens, em toda a terra, são hoje, em certa medida, herdeiros de Marx e do marxismo" (Derrida). E o tempo presente assiste e pertence à (re)aparição de Marx: o desejo de justiça e a promessa devem ser cumpridos, isto é, o mundo deve ser transformado, tendo em vista a realização dos sonhos de um mundo melhor.
J Francisco Saraiva de Sousa

14 comentários:

Goggly disse...

Este senhor Derrida pelos vistos era um homem obcecado pelos significados e significantes. É claro, não podemos relegar homens preclaros a meros espectadores, testemunhas, ou mesmo vítimas da linguagem. É necessário depositar nestes homens as mais brandas esperanças para compreender a natureza das coisas.

Mário Mongo Loy disse...

O caro Francisco fala em "inflação da linguagem" e aparece logo o Goggly! Não podia vir mais a calhar, não o crê?

Goggly disse...

Caro amigo, apenas publiquei o comentário na esperança de não ser acusado de judas ou mesmo medroso. Não aproveitei qualquer circunstância até porque acho J Saraiva bastante eloquente. Além disso, acho de uma maior falta de respeito mencionar o meu nome com falsas intenções morais.

Goggly disse...

Caro Mongo Loy, não esperava de si uma falta de respeito tão boçal depois do obséquio que permiti ter em relação aos seus textos. Sempre o achei deveras inteligente, mas não, não esperava que fosse tão sarcástico ao ponto de mencionar o meu nome tão devassamente.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Amigos

Façam amizade e não a guerra, porque, como ainda não terminei este post, não estou em condição para mediar um eventual conflito linguístico! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tinha escrito isto:

"Bem, o post já pode ser lido, porque o que acrescentar não altera a unidade alcançada...".

Contudo, fiz alguns acrescentos, de modo a esclarecer melhor o procedimento da desconstrução.

Continuação de boas férias! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Amigos

Preparo mais um post sobre filosofia do habitar que vou editar ainda no decorrer deste mês de Agosto, apesar de estar cheio de trabalho. Mas gosto de trabalhar, porque, como dizia Reich, o trabalho é gratificante e dá saúde: os que não trabalham, a não ser ao abrigo do emprego, são a encarnação dos pensamentos negros e obscuros: perdem-se para a vida e morrem sem ter vivido esta vida. O meu lazer sou eu que o controlo e, por isso, vejo a casa como um espaço feliz, que devemos defender das invasões do poder público e dos poderes económicos. Pensar é aquilo que se devia fazer durante as férias...

Denise disse...

Gostei imenso deste seu post, Francisco, por me ter permitdo repensar Marx à luz de Derrida para além da fenomenologia linguística.
A questão de desconstrução da linguagem tem-me sido particularmente entusiasmante no que diz respeito à metapoiesis, à escrita sobre a escrita e sobre a aventura da escrita alvo das reflexões de Barthes e Genete e também explorada pelo Nouveau Roman, com consequências muito nítidas, presentes e recorrentes na pós-modernidade literária.

Um abraço, Francisco, depois desta ausência quase quase resolvida ;)

Denise disse...

Sim, devemos defender o nosso espaço dos poderes público e económicos e outros e todos os que nos ameaçam a integridade moral.
A nossa casa é o ex libris da propriedade privada.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Denise

Bom regresso ao meio virtual. Já estava com saudades suas. Temos de conservar o nosso grupo!

Bons sonhos! Abraço.

Aveugle.Papillon disse...

Ui! Luta de galos no CyberCultura! Que cómico! :)

Acabaram os Jogos Olímpicos e agora o meu coração deprime - que poderei ver na televisão que me possa banhar de prazer? Nada. Por isso, vou beber café e comer chocolate e sonhar com corpos belos e vencedores:

«Eu louvei o filho querido de Arquestrato, ouvi o vencedor com a força da mão junto do altar em Olímpia. Naquele tempo quando o seu aspecto era belo e estava implicado na força da vida. quando conjuntamente com a deusa de Chipre - Afrodite impediu Ganimedes de uma morte vergonhosa»
Olímpiada X

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Olá Papillon

Eu não vi os jogos Olímpicos, porque não vejo a China com espírito olímpico. Ainda alimentei a esperança de a ver desgraçada mas infelizmente nada de catastrófico acontece nessa terra árida e feia. :(

Aveugle.Papillon disse...

Feio e árido é o Francisco.
E insolente: como é capaz de pronunciar tal ignomínia? Há 3 meses morreram 60 mil cidadãos chineses numa grande catástrofe sísmica!

Viva o Michael Phelps! Viva o Usain Bolt! Vivam todos os atletas que se sacrificam pelo hino ao triunfo! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Não sou feio e muito menos árido: sou fértil e apaixonado pela vida do espírito! :)