terça-feira, 30 de março de 2010

Prós e Contras: Quem manda na escola?

«A Pedagogia transformou-se em uma ciência do ensino em geral a ponto de se emancipar inteiramente da matéria efectiva a ser ensinada. /Aquilo que, por excelência, deveria preparar a criança para o mundo dos adultos, o hábito gradualmente adquirido de trabalhar e de não brincar, é extinto em favor da autonomia do mundo da infância. /Na educação, essa responsabilidade pelo mundo assume a forma de autoridade. A autoridade do educador e as qualificações do professor não são a mesma coisa. Embora certa qualificação seja indispensável para a autoridade, a qualificação, por maior que seja, nunca engendra por si só a autoridade. A qualificação do professor consiste em conhecer o mundo e ser capaz de instruir os outros acerca desse mundo, porém a sua autoridade assenta na responsabilidade que ele assume por este mundo. Face à criança, é como se ele fosse um representante de todos os habitantes adultos, apontando os detalhes e dizendo à criança: - Isso é o nosso mundo. /A autoridade foi recusada pelos adultos, e isso somente pode significar uma coisa: que os adultos se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo ao qual trouxeram as crianças. /A função da escola é ensinar às crianças como o mundo é, e não instruí-las na arte de viver. /A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos as nossas crianças o bastante para não expulsá-las do nosso mundo e abandoná-las aos seus próprios recursos, e tampouco arrancar das suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum». (Hannah Arendt)
O debate Prós e Contras de hoje (29 de Março) tratou das relações problemáticas entre alunos e professores nas escolas portuguesas. Em Portugal, a história do ensino e da educação é, pelo menos desde o 25 de Abril, a história de um fracasso total: as escolas portuguesas deixaram de ensinar, convertendo-se com o passar do tempo em fábricas de exclusão (Helena Matos) e em espaços de violência perpetrada por alunos sobre professores e de violência entre alunos, o chamado bullying. Dois casos mediáticos recentes testemunham estes dois tipos de violência: um professor maltratado pelos alunos e um aluno agredido constantemente pelos colegas suicidaram-se, atirando-se ao rio. A indisciplina e a violência que grassam pelos estabelecimentos de ensino foram atribuídas a uma ideologia pedagógica errada que aboliu a tradicional trilogia - autoridade do professor, disciplina e aprendizagem - a favor de um esquema facilitista. Curiosamente, os professores, os representantes dos pais ou mesmo os alunos, presentes na plateia, negaram a existência dessa violência, usando o velho argumento mentiroso: «Na minha escola, não há esses problemas» ou «A minha escola não é problemática» (António Gouveia). Cultura do silêncio (Paulo Portas) e cultura da omissão (Helena Matos) são dois atributos da cultura docente: os professores levam pancada e são insultados, mas, para não arranjar conflitos com os colegas e com a escola, preferem ficar calados e recusam escutar as queixas daqueles que ousam denunciar a indisciplina e a violência, acompanhando o discurso lunático do Ministério da Educação. Os principais agentes da educação são profundamente masoquistas e falta saber qual será a raiz deste terrível masoquismo docente: ser maltratado, insultado e agredido na sala de aula ou no recinto da escola, sem denunciar tais situações de violência, revela alguma falha de carácter, até porque não é silenciando aquilo que todos conhecemos - o que é público - que conseguem conquistar o respeito da sociedade. Os professores estão descredibilizados e os próprios alunos, sobretudo os mais inteligentes, questionam com razão as suas competências científicas e pedagógicas: ser professor para garantir um emprego é um acto avesso e contrário à tarefa de transmitir conhecimentos às gerações futuras. Sempre que escuto os professores fico com a impressão de que, por causa do medo de perder o emprego, estão completamente alienados da escola e do conhecimento que devem ou deveriam transmitir: Helena Matos mostrou isso quando falou da cultura do silêncio - o estranho desaparecimento da Acta ou da omissão das queixas do professor - a propósito do professor que se suicidou.
Afinal, quem manda na escola?: eis a questão que Fátima Campos Ferreira colocou a todos os seus convidados do palco: Paulo Portas, Nuno Crato, António Gouveia e Helena Matos. A colocação da questão significa que, no momento presente, ninguém sabe quem manda na escola. Segundo Nuno Crato, na actual escola portuguesa, mandam todos e não manda ninguém. Ora, é o mando de ninguém que devia ter chamado a atenção dos participantes deste debate: o domínio de ninguém é o domínio da burocracia, no qual não há ninguém para assumir a responsabilidade pelo mundo comum. Não sei o que é a pedagogia romântica de Nuno Crato e, por isso, não posso atribuir àquilo que não existe a responsabilidade pelo presente caos escolar. Desconheço a existência desta pedagogia romântica associada à Esquerda e, mesmo que tivesse de recorrer ao romantismo para a elaborar, ela confirmaria que, na escola, quem deve mandar são os professores: a concepção romântica do ensino é incompatível com o «medo de exercer a autoridade» (Helena Matos). Paulo Portas tem razão quando afirma que na escola manda - ou deve mandar - o professor. O caos escolar foi gerado pela pedagogia administrativa, neste caso pela burocracia pesada e sufocante do Ministério da Educação, que está ligada à Direita e não à Esquerda genuína, como supõe Nuno Crato. Porém, ao referir a defesa da autoridade do mestre feita por Gramsci, Nuno Crato corrige o seu equívoco: há uma autoridade que não é de Esquerda ou de Direita. Para a pedagogia crítica que permanece fiel à teoria de Marx, a autoridade é uma relação dialéctica. Na discussão com o anarquismo anti-autoritário dos bakuninistas, Engels destacou o carácter dúplice e dialéctico da autoridade, elaborando um novo princípio de autoridade (Autoritätsprinzip), de modo a evitar a sua colocação em termos exclusivos de princípio absolutamente bom ou de princípio absolutamente mau. Para Engels, existe uma autoridade que é inseparável da «organização em geral»: a subordinação, baseada em condições factuais e racionais, a uma direcção e eficácia reais - a disciplina no trabalho ou, no caso que nos interessa aqui, na escola. Não há organização social viável sem esta autoridade-coisa, completamente distinta da autoridade como manifestação da relação dominação-servidão como relação social de dependência. O marxismo não rejeita a autoridade: a sua luta é contra a dominação e não contra a autoridade-coisa indispensável ao regular funcionamento das instituições sociais. E, no caso da escola, essa autoridade assume uma feição peculiar derivada da relação naturalmente desigual entre professores e alunos.
Ora, depois de termos reposto a verdade no seu devido lugar, podemos aceitar algumas noções avançadas por Paulo Portas e Nuno Crato, levando em conta a réplica inteligente de um aluno da plateia. A principal função da escola na sociedade é ensinar e transmitir conhecimentos, e, para ser bem sucedida nesta missão, é preciso proteger a autoridade do professor (Paulo Portas), porque sem disciplina não há aprendizagem (Nuno Crato). Na escola, o professor ensina e o aluno aprende (Paulo Portas), ou, como o formulou Nuno Crato, a escola ensina o que os alunos não sabem, porque são seres novos - seres humanos em formação e não meros "ratinhos" - num mundo que lhes é estranho. Helena Matos usou uma imagem mais neutral, talvez mais próxima do espírito do texto de Hannah Arendt que citei em epigrafe: a noção da escola como uma aposta intergeracional. A função primordial do professor e da escola é preparar a entrada das crianças no mundo dos adultos, através do hábito gradualmente adquirido de trabalhar de modo disciplinado e de não brincar. Entre o mundo das crianças e o mundo dos adultos, entre as crianças e os adultos, entre os novos e os velhos, entre os alunos e os professores, não existe - nem pode existir - nivelamento ou relação de igualdade, mas sim uma relação de autoridade baseada no respeito recíproco. A autoridade do professor não é a manifestação de uma relação de dominação, mas sim a assunção da responsabilidade colectiva pelo mundo. A escola situa-se entre o domínio privado da família e o mundo público e, por causa desta sua posição entre-mundos, compete-lhe tornar possível a transição salutar da criança da família para o mundo. A noção de escola democrática colide com esta noção originária de escola como entre-mundos, na medida em que implica desde logo a falsa identificação entre escola e mundo, bem como a autonomia do mundo das crianças: a escola democrática é, pois, um oxímoro.
A crise da educação foi vista por Paulo Portas como uma inversão do ciclo da autoridade quando, na verdade, se trata tão-somente de perda da autoridade: a autonomização do mundo das crianças - a entrega das crianças aos seus próprios recursos - acarretou o nivelamento entre professores e alunos e, por conseguinte, a perda da autoridade do professor. Actualmente, os professores precisam negociar quase tudo com os alunos, incluindo os critérios de avaliação (Nuno Crato). Em nome da autonomia do mundo das crianças - a cultura dos direitos sem deveres de Paulo Portas?, reforçada pelo sistema da indústria cultural, a essência da escola foi completamente subvertida, como se os alunos já nascessem ensinados (Fátima Campos Ferreira): «Ora, na educação esta ambiguidade relativamente à actual perda de autoridade não pode existir. As crianças não podem recusar a autoridade dos educadores, como se estivessem oprimidas por uma maioria adulta - ainda que, efectivamente, a prática educacional moderna tenha tentado, de forma absurda, lidar com as crianças como se se tratasse de uma minoria oprimida que necessita ser libertada. Dizer que os adultos abandonaram a autoridade só pode portanto significar uma coisa: os adultos se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo em que colocaram as crianças» (Hannah Arendt). A discussão girou em torno do Estatuto do Aluno, que, segundo Nuno Crato, desvaloriza o saber e, em nome da inclusão, promove a exclusão real e efectiva. A escola, sobretudo a escola pública, deixou de ser um meio eficaz de mobilidade social: os alunos provenientes das classes mais desfavorecidas ficam privados do conhecimento que lhes permite a ascensão social. A partir daqui o debate tornou-se ideológica e politicamente confuso, na medida em que tomou direcções - escola pública versus escola privada, o papel dos pais e das empresas na escola, a escolaridade obrigatória, a mobilidade social, a massificação do ensino, enfim o sistema de penalizações - favoráveis à ideologia educacional predominante e ao seu fiel aliado economicista. Para finalizar, retenho apenas esta frase de Paulo Portas dirigida contra o representante de uma Associação de Pais: «A família educa, a escola ensina». A distinção entre educação e ensino aqui explicitada responsabiliza os pais pela educação dos seus filhos, ao mesmo tempo que protege e garante a autoridade e a autonomia do professor - a ideia central deste debate televisivo.
J Francisco Saraiva de Sousa

40 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, não me apetece desenvolver mais o post, até porque já tratei deste tema em diversos outros posts. No fundo, para melhorar a qualidade do ensino, deverse-ia rasgar todas as reformas posteriores ao 25 de Abril, regressar ao ponto de partida e melhorá-lo. O pior não são as reformas mas os agentes que as implementam... :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O assunto é muito complexo e exige uma explicação sociológica mais detalhada: o ser humano atinge a maturidade sexual antes de atingir a sua - digamos - maturidade intelectual. Mas isto não implica que a escola se converta - como é também o caso - num lugar de iniciação sexual. A autonomia ilusória do mundo das crianças concedeu-lhes também o direito ao sexo. O bebé está demasiado sexualizado - a sociedade sexualiza-o - e, no entanto, persegue irracionalmente sem critério os pedófilos. Incongruências sociais! É uma sociedade doente... :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A imagem que acompanha este post diz respeito à homofobia e à violência antigay nas escolas. Aliás, na barra de video, há um video português sobre isso: o abuso sexual dos jovens gays. Outro assunto do conhecimento dos professores e do ME e, no entanto, sistematicamente omitido e silenciado. E os casos em que os professores abusam sexualmente dos menores? Também são silenciados... O ME é o garante da Mentira!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

É preciso dizer a verdade do sistema de ensino em Portugal! VERDADE, verdade, verdade... e não a eterna MENTIRA!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Em Portugal, a mentira é patológica!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Afinal, o governo diz que o bullying nas escolas vai ser crime. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Na RTP1, Pinto da Costa deu uma entrevista brilhante a Judite de Sousa, onde revelou a natureza clubística da Coisa-justiceira e do seu orelhas de rato encarnado. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A coisa vai acabar a carreira na assembleia murina encarnada... A coisa é nervosa e vingativa, mas pensa que engana: um rosto nunca engana; basta lê-lo e eis a alma vingativa da coisa amiga das orelhas murinas. É tudo um bando de ratazanas... :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Amanhã termino o post sobre maffesoli. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bam, o conceito de autoridade é um conceito maldito para a teoria crítica, tendo em conta o seu uso pela teoria contra-revolucionária e pela teoria restauradora da autoridade, à primeira das quais corresponde o romantismo político. Daí que tenha dito que uma pedagogia romântica seria autoritária. Porém, estas duas teorias excluem o povo da educação: o povo deve ser formado nos preconceitos e mantido submisso, sem participação na vida política. A escola é, nesta perspectiva, escola de elites - elites esclarecidas e massas ignorantes. Ora, a escola pública traz a educação e o ensino ao povo, e, neste cenário, podemos libertar o conceito positivo de autoridade de Engels - direcção, disciplina no trabalho escolar, esforço, aprendizagem. É neste contexto que usei a autoridade.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

BEm, Bem, eu próprio alimento-me no romantismo, retomando certos conceitos tais como tradição, pátria, regresso ao lar e outros, mas uso-os num outro sentido, claramente libertador. Portanto, não defendo o tradicionalismo ou o patriotismo irracionais. Eu actualizo a tradição, trago-a à nossa presença, mas com a intenção de lhe restituir a justiça plena - salvar o passado do naufrágio do esquecimento.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

No caso da escola, a autoridade também se liga à autoridade do conhecimento e do seu legado: o conhecimento liberta, dá autoridade a quem o possui...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Por exemplo, Ricardo Costa - o Tal da Liga, tem uma noção autoritária da justiça, vendo-se a si mesmo como um outsider: ele absolutiza irracionalmente a autoridade do magistrado, retomando à terrível e violenta ideia conservadora da infalibilidade do soberano. Ele desvaloriza a razão e o diálogo: é um justiceiro no sentido horrível do termo: ele não suporta os clubes, o Porto em particular, fingindo colocar-se acima quando na verdade faz o jogo do Benfica. Esta sempre foi a táctica da contra-revolução e do fascismo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Aqui no Porto o tempo convida à meditação e eis que medito as filiações das minhas ideias: regressei ao meu marxismo fenomenológico e transcendental e descobri a sua filiação subterrânea. Entretanto, redescobri a sensualidade emancipada de Feuerbach na sua relação com Marx: há uma ontologia em Marx que irrompe novamente no meu pensamento. A tonalidade afectiva da filosofia de Marx não pode ser esquecida, porque dela emerge uma outra praxis distinta - mas não incompatível - com a praxis política da luta de classes.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Em suma, quem ler os textos em tradução portuguesa fica impossibilitado de compreender o pensamento filosófico destes autores, porque as traduções são péssimas.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E só a partir dessa ontologia fundamental podemos elaborar uma filosofia médica: o princípio médico deriva do ser necessitado como único ser necessário. O problema é descolar desta base para a luta política marxista, a menos que reformule o ser autêntico.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Devo pensar tudo isso sem apostar na revolução radical - o acto radical, o que introduz um forte elemento positivo no meu pensamento. Porém, não entregar tudo à revolução é imprimir um novo rumo ao marxismo e à dialéctica: o regresso a Marx é desde logo um avanço para a frente, o momento presente. A dialéctica vai ser confrontada com constrangimentos ontológicos, aquilo a que Marx chamou afirmações ou determinações de essência. Ora, este confronto com a inércia ontológica abre novos caminhos para a luta política - uma multiplicidade de lutas políticas. De certo modo, todos estes novos conceitos já funcionam nos posts, falta articulá-los.

A Filosofia feita carne e sangue é uma tentação: pensar a carne do mundo. Feuerbach escreveu:

"A verdadeira dialéctica não é um monólogo do pensador solitário consigo mesmo, mas um diálogo entre o Eu e o Tu».

Marx iluminou esta definição, dando-lhe um outro alcance.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, o conceito de eu de Feuerbach é muito monolítico, não é internamente diferenciado. Apesar da sua crítica magoar a lógica de Hegel, deixa escapar o núcleo eterno da dialéctica hegeliana. Marx deve ser lido nesse confronto entre Kant e Hegel: a relação entre sensibilidade e entendimento.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Porque é nesse domínio que pode emergir um humanismo verdadeiro. :)

Brasil Empreende disse...

Ola visitei seu blog e gostei muito e gostaria de convidar para acessar o meu também e conferir a postagem de hoje: Momento de Reflexão: Seqüestrada usa lei para capturar seqüestrador!
Sua visita será um grande prazer para nós.
Acesse: www.brasilempreende.blogspot.com
Atenciosamente,
Sebastião Santos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Olá Sebastião Santos

Obrigado pela sua visita! Já adicionei o seu blogue nas actualizações e, logo que tenha tempo, deixo-lhe um comentário. :)

Quanto à vida quotidiana, eu tratei-a noutros posts no âmbito da dialéctica alguém/ninguém. Mas estive a pensar Certeau e julgo ser necessário operar um alargamento dessa dialéctica, de modo a minar o tom afirmativo predominante: a vida quotidiana é a opressão do presente e a sua relação com a história é complexa. Porém, o quotidiano não é somente fadiga e desejo, também é o mundo da violência. A partir de Heidegger, podemos ir até Kosic, passando por Lefebvre. Mas o núcleo está em Schutz.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, a crítica do quotidiano é também a crítica do ordinário em Wittgenstein e em Austin: a dialéctica reconquista o seu lugar desalojando estas figuras do presente pensamento filosófico. A dialéctica é, neste momento, a despedida dessa filosofia do ordinário que nos aliena nas rotinas e nas repetições do quotidiano. A dialéctica retoma a grande filosofia. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Portanto, preciso pensar a dialéctica entre a quotidianidade e a História, de modo a exorcizar o fetichismo do quotidiano e o fetichismo da história. É preciso superar esse dualismo...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E, paradoxalmente, a teoria do fetichismo da mercadoria de Marx permite denunciar o fetichismo do futuro, quer dizer que Marx vai ajudar-nos a avançar um passo em frente...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A História é a guerra que interrompe a vida quotidiana, dominando-a. Porém, o homem consegue criar para si um ritmo de vida até no ambiente menos habitual, como o demonstrou a vida nos campos de concentração ou a vida de um condenado à morte.

Sr disse...

Robert Kurz é o novo marx, tudo o resto é conversa de sacristia comunista!





:P

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sr

Já agora dou-lhe o nome de outro marxista: Helmut Thielen, que preconiza a mundialização ou globalização da esperanaça.

Porém, o problema deles reside no facto de terem uma visão frouxa da Esquerda: os projectos políticos não podem ser implementados. Essa esquerda quer realizar um projecto sem saber como o realizar.

A Esquerda precisa ser repensada e, para isso, é necessário retomar a grande teoria. A crise actual também envolve a esquerda. Ora, os seus projectos passaram ao lado da crise, aliás deram espaço à globalização. Doravante o marxismo só pode ser pensado em termos ocidentais; o resto é política externa.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Eles falam do partido? Que partido? De um partido socialista renovado. Porém, dizem que o partido deve promover as vanguardas com a sociedade civil e, ao mesmo tempo, permanecer como instância crítica frente a cada um dos governos. Além disso, falta definir as novas classes trabalhadoras...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O importante mesmo é ler Marx, regressar aos textos de Marx, e isso está a ser feito, através da crítica da dominação em todas as suas frentes. Além disso, a esquerda precisa fazer a sua autocrítica para se renovar. O fracasso do neoliberalismo trouxe Marx à nossa presença: o tempo é de mudança e de construção. É o tempo para o renascimento da esquerda unida.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A crítica da vida quotidiana visa fazer emergir diversas revoluções moléculares: é assim o terreno da nova luta política. É precisar libertar as pessoas do pesadelo neoliberal...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, e no caso português, é preciso superar o seu atraso: estratégias moleculares que favoreçam o tal princípio de autolimitação, com forte aposta na cultura e no desenvolvimento cognitivo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O marxismo sempre disse que a queda do muro de Berlim seria o fim do ocidente: o oriente e o ocidente são as faces da mesma moeda - a dominação. O comunismo soviético fracassou, o neoliberalismo fracassou... Porém, o Ocidente é mais do que o modelo capitalista: é uma civilização que é ameaçada pela emergência da China.

Ora, o ocidente, incluindo o ex-oriente - a Rússia, devem unir-se contra essa ameaça. Até os angolanos dizem que os chineses são todos "iguais". A China está a colonizar África.

Há outra dificuldade nesse pensamento de esquerda: se o modelo social europeu faliu, devido ao neoliberalismo, como podem defendê-lo em relação às Américas? A ética não ajuda a mudar o mundo; precisamos é de nova imaginação política.

O capitalismo não vai morrer de morte natural: a situação é favorável ao seu derrube. Mas precisamos redefinir o socialismo, levando em conta o mundo global e as suas ameaças. A solidariedade com o outro - o pobre - é fundamental, mas é preciso ter políticas alternativas: não é uma questão de esmola.

O tempo exige a renovação do socialismo e do seu partido!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E temos outro problema - a desagregação da União Europeia! A situação é explosiva; a qualquer momento o protesto pode converter-se numa revolução.

Porém, sendo marxista, defendo o uso do domínio para impôr uma ordem internacional.

Outro dado curioso é Obama: os USA podem mudar e a reforma da saúde vai estimular essa mudança interna.

Outro problema é bloquear o pensamento conservador que se tornou intolerável no nosso mundo decadente. Doravante não podemos tolerar os conservadores - grau zero de tolerância.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E em Portugal a renovação do PS exige uma ruptura com as figuras incompetentes que o conquistaram. O PS renovado deve protagonizar a mudança, a grande mudança ansiada pelo povo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

No entanto, as pessoas querem e não querem mudar, porque ainda continuam a reinvindicar aumento de salários e a desejar consumir compulsivamente. Ora, não há economia racional capaz de satisfazer a voracidade desta gente. De facto, a mudança só pode ser revolucionária e, quando chegarmos aí, não saberemos como irá terminar o processo revolucionário. A UE vai fragmentar-se, o euro vai desaparecer... e os europeus vão regressar à penúria, vendo os chineses a assumir aquilo que foram - animais devoradores e colonizadores do mundo.

Para não chegarmos a esse ponto de penúria extrema, é preciso acabar com a corrupção e matar as suas moscas - os políticos e gestores incompetentes e corruptos. A Europa - e cada um dos seus países - anda a ser governada por burrecos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Essa Esquerda não quer o capital e o Estado: confia na emancipação da sociedade civil. Uma utopia bonita! Mas, no contexto global com a China a colonizar o mundo, como é que as federações da sociedade civil nos podem defender desse poder igualitário - o império daqueles que são todos iguais? Sim, esse império alia Estado e Capital! A utopia bonita torna-se num pesadelo - a escravidão e a desonra. Imaginação política é a solução: um ocidente solidário consigo mesmo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O post anterior sobre Maffesoli já está concluído. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, eu acho que a esquerda estabelecida e reaccionária e conservadora e isto está bem manifesto em certos filósofos ditos de esquerda.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

José Gil tem razão: em Portugal não há uma comunidade de filósofos; há - isso sim - uma comunidade de nabos! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E aposto que alguns desses nabos têm piercings na pila ou na careca, tal é a sua estupidez.