sábado, 26 de janeiro de 2008

Sartre: Juramento, Violência e Terror

«Toda a aventura humana, pelo menos até aqui, é uma luta obstinada contra a escassez.» (Jean-Paul Sartre)
Infelizmente, não posso expor neste post toda a filosofia de Jean-Paul Sartre (1905-1980) e mostrá-la em toda a sua riqueza conceptual, sobretudo quando Sartre, como sucede na Crítica da Razão Dialéctica (1960), tenta a "fusão" entre o marxismo e o existencialismo, de resto já bem visível no seu ensaio introdutório Questões de Método, publicado originalmente numa revista polaca em 1957. Por isso, vamos restringir o nosso tema a uma breve análise da sua teoria dialéctica da origem da sociedade.
Para explicar o antagonismo mútuo, um conceito presente desde "O Ser e o Nada", Sartre introduz o "princípio da escassez", originalmente elaborado por Locke mas sobretudo por David Hume e retomado por Malthus: «tal substância ou tal produto manufacturado existe, em determinado campo social, em número insuficiente, levando em consideração o número dos membros dos grupos ou dos habitantes da região: não existe o suficiente para todos» (Sartre).
Toda a história humana é uma história da escassez e da luta obstinada contra a escassez. O mundo não dispõe do suficiente para distribuir por todos os homens. A escassez tanto une como divide os homens. Une-os, porque somente unindo os seus esforços podem os homens lutar com êxito contra a escassez. Divide-os, porque cada homem sabe que o obstáculo à abundância individual reside na existência dos outros. Segundo Sartre, a escassez é o «motor passivo da história». Como os homens não podem eliminar completamente a escassez, são «forçados» a colaborar uns com os outros para minimizar os seus efeitos.
Contudo, esta colaboração é paradoxal. Cada homem sabe que a escassez se deve exclusivamente à existência dos outros. Isto significa que os homens são rivais uns dos outros e, sempre que colaboram ou trabalham juntos para minimizar a escassez, estão a alimentar os seus rivais. A escassez molda não somente a nossa atitude em relação ao mundo natural, mas também a nossa atitude em relação aos vizinhos: os outros homens. A escassez faz dos homens rivais, obrigando-os ao mesmo tempo a colaborar uns com os outros. Sozinho o homem é impotente: a luta contra a escassez só pode ser travada com a divisão do trabalho e outros empreendimentos colectivos.
A natureza é "inerte" e indiferente ao bem-estar humano. O mundo que habitamos é composto pelo mundo da natureza e pelo mundo construído pelos nossos antepassados no decorrer da sua longa história de luta contra a escassez. Sartre chama-lhe o "prático-inerte": campo que compreende o mundo da praxis, na medida em que é o resultado do trabalho e dos projectos dos seus habitantes passados e presentes, e o mundo natural que foi transformado mediante o seu trabalho sobre a materialidade passiva ou inerte. Ora, neste universo hostil definido pela escassez, o homem torna-se o inimigo do homem ou, como diz Sartre, converte-se em "anti(contra)-homem".
Esta é a explicação económica que Sartre dá dos antagonismos ou conflitos entre os homens. Considerado dialecticamente, o antagonismo é a reciprocidade negativa, negada na e pela colaboração dos homens imposta pela necessidade de superar a escassez. A partir daqui Sartre elabora a sua teoria dialéctica da origem da sociedade.
Sartre distingue duas formas significativamente diferentes de estrutura social: as séries e os grupos. Uma "série" é um ajuntamento de pessoas unidas somente pela proximidade exterior e, por isso, não existe como um todo «dentro» de nenhum dos seus membros. Sartre ilustra a série com a fila de pessoas numa paragem de autocarro: todas as pessoas que observamos numa fila têm a mesma finalidade, embora não partilhem um objectivo comum ou colectivo. Devido à escassez de lugares no autocarro, cada elemento da fila é um rival dos demais membros e vice-versa: os outros também desejariam que ele não estivesse ao lado. Por isso, como cada um é "um a mais", todos acordam entrar ordenadamente na fila, formando assim uma série para evitar uma luta pelo acesso de entrada no autocarro. Esta série ordenada é uma relação recíproca negativa que constitui a negação do antagonismo, portanto, a negação de si mesma!
Além das séries que são «pluralidades de solidões», existe outro tipo de reuniões na sociedade, a que Sartre chama "grupo". Um grupo é um conjunto de pessoas que, ao contrário daquelas que formam uma série, têm um objectivo ou uma finalidade comuns. Sartre dá como exemplo uma equipa de Futebol. O que distingue o grupo da série é o facto de cada membro ter-se comprometido (ou ter jurado) a agir como um membro desse grupo. O grupo é reunido e constituído pelo juramento (le serment): cada membro converteu a sua própria praxis individual numa praxis comum ou social. Isto significa que a origem do grupo se deve ao facto de termos de trabalhar juntos ou morrer a lutar uns contra os outros. Ao contrário da série, o grupo não é impotente e, por isso, pode realizar e fazer coisas.
A força motriz continua a ser a escassez, porque é ela que obriga os homens a trabalhar juntos, tendo em vista um fim comum. Sartre introduz três noções que ajudam a compreender a origem das sociedades humanas a partir da escassez: o "juramento", a "violência" e o "Terror". Com efeito, o grupo começa a existir quando cada indivíduo assume o compromisso de se tornar um membro do grupo e de não o trair ou desertar dele. A sociedade como grupo é, portanto, um conjunto ajuramentado. Mas, para que o juramento seja cumprido e os membros do grupo tenham a certeza de que será cumprido, são necessárias a violência e o Terror, porque, segundo Sartre, é o medo que impele os homens a formar grupos e que os mantém unidos nos seus grupos.
Ora, o medo que os vincula ao grupo é o Terror. O juramento em si é, como diz Sartre, um pedido de violência a ser usada contra alguém que não cumpra a sua palavra, e a existência do Terror é uma garantia de que essa violência será usada contra qualquer membro que não cumpra a sua palavra. Os grupos correm o risco de se dissolverem em séries e cada indivíduo está consciente da ameaça de dispersão em si próprio e nos outros. O terror é, segundo Sartre, «a garantia estatutária, livremente assumida (jurada), de que ninguém recairá na série». Ou, por outras palavras, o Terror é a "solicitude mortal", graças à qual um homem se torna um ser social, criado por si próprio e pelos outros. O Terror é, portanto, a violência que nega a violência e, com tal, é a "fraternidade", porque é a garantia de que o meu vizinho permanecerá o meu irmão. O Terror vincula-o a mim pela ameaça da violência que poderá ser utilizada caso ouse tornar-se "não-fraterno".
Sartre analisa o Estado como um grupo que «se reconstitui incessantemente e que modifica a sua composição por uma renovação (descontínua ou contínua) dos seus membros». O "grupo em fusão" cria lideres e, mais tarde, perpetua-se fundando instituições. Esta é a base da soberania. A autoridade está ligada ao Terror, porque o soberano é o homem autorizado a exercer o Terror. Enquanto numa sociedade serial o homem obedece porque tem de obedecer, num Estado o homem obedece a si próprio, porque foi ele que, pelo seu compromisso juramentado, se incorporou ao grupo e autorizou o soberano a comandar. Cada homem desse grupo não fez o juramento pessoalmente, mas por "procuração": um compromisso não deixa de ser um compromisso. O Terror não é somente fraternidade, mas também é liberdade. O homem incorporou livremente o seu projecto individual no projecto comum quando se comprometeu ou foi comprometido por procuração com o Estado. Assim, quando o soberano comanda em nome do Estado está a devolver-lhe a sua liberdade.

J Francisco Saraiva de Sousa

28 comentários:

Manuel Rocha disse...

Fez-me bem este regresso a Sartre por onde já não passava há décadas !

Coincidência ou não sintetiza aqui magistralmente o pensamento de Sartre que mais me cativou.

Muito daquilo que depois passei a defender nas abordagens ambientais ( conflitualidade inerente em antitese ao paradigma do paraiso ) deve ter vindo precisamente daqui...:)

Gostava de fazer um link deste seu post para o meu último, mas como bom rústico que sou ainda não atingi esse nivel técnico...::))Será que o Francisco o consegue fazer a partir daí ?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Basta copiar o título (sublinhado)e colá-lo no seu post! :)

Manuel Rocha disse...

Não resito...

Se Sartre tivesse vivido em Portugal teria caracterizado outro tipo de ajuntamentos de pessoas: a "molhada"...

:::))))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Pois, a "molhada"! :))

Manuel Rocha disse...

À noção de "inerte" de Sartre faltava-lhe quanto a mim a dimensão ecológica...e mesmo assim soa-me redutor, pois a natureza transformada pelo homem é cultural ...:(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, concordo, embora a noção de inerte dele tenha outras coordenadas, em especial temporais, que ainda não foram explicitadas. Sartre tem uma escrita densa e, quanndo o lemos, ficamos presos, quase sufocados.
É o "em si" do Ser e Nada, praticamente, embora ele quando analisa o caso do cultivo na China mostre que essa acção do homem possa virar-se contra o homem, o seu "contra-homem". Talvez se possa ir ao encontro da ecologia, embora ele negue a "dialéctica da natureza". :)

F. Dias disse...

Duvido que seja “inerte” (à moda dos mecanicistas).

Do estadio do medo + terror + caridade + misericórdia – em que se ouvem os tambores, passou-se para o estadio da compaixão +justiça + humanidade – em que se ouvem os clamores “queremos justiça não queremos misericóoóór...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

É difícil expor o pensamento de Sartre como fiz, porque deixei de lado o aspecto dialéctico.
Sim, Sartre não concebe uma dialéctica da natureza, simplesmente porque só a praxis individual pode "refazer" a história... Contudo, o seu existencialismo pode ser lido como uma "reacção" a Darwin, e neste aspecto é interessante.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Como Sartre tem sido tão maltratado pela filosofia contemporânea, prometo publicar mais posts sobre ele. O próximo será sobre o corpo.
Espero que as pessoas dispam os seus preconceitos e admitam que Sartre moldou o seu mundo, ao contrário de outros... que ruminaram sem efeitos mundanos. :)))

Aveugle.Papillon disse...

ahahahah...

Primeiro pressuposto: os pensadores têm que produzir efeitos na mundaneidade? A filosofia tem que ser sempre política?

Segundo pressuposto: se respondeu sim à primeira pergunta, esses efeitos têm de ser positivos ou negativos, ou tanto faz? O que interesa é moldar o mundo? Além disso, ele é moldado em função dos intérpretes, e muitas das vezes esta hermenêutica desvirtua o sentido, constituindo uma aberração! (E acho que n preciso de exemplificar...)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sempre deixamos vestígios no mundo: pisadas, sinais da nossa passagem. Quanto à aberração, confesso que não a compreendi! Sartre uma aberração? Deixou marcas positivas no mundo: a liberdade!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Por momentos, pensei que a Borboleta ia questionar a escassez e contrapor-lhe o excedente económico de Marx! Uma boa questão filosófica, embora as duas teses não sejam incompatíveis, suponho! Da escassez resulta a violência: está a mais, logo... abolimos esses excedentários. A reforma administrativa actual segue Sartre! :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Aliás, o Ministro das Finanças parece conhecer bem Sartre!

Aveugle.Papillon disse...

N pensava em Sartre quando falava de aberração. Apenas me dirigi à oposição do seu comentário entre os ruminam e os que deixam efeitos... A "inovação" sartriana é de uma liberdade secular. Mas a noção de liberdade, como ele a entende, como uma condenação, em que o homem tem de se carregar a si mesmo, já vem de Kierkegaard e Heidegger!
Por outro lado, a sua dialéctica do reconhecimento, a alienação pela alteridade, até Rousseau falava disto e Marx, como sabe.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Daí que Sartre tenha visto o existencialismo como uma ideologia que deveria diluir-se no seio da grande filosofia: o marxismo, após ter cumprido a sua missão de reintroduzir o homem concreto nesse horizonte. Infelizmente ainda não conhecemos bem a teoria da alienação de Sartre! A alteridade foi um grande conceito de Sartre e está implicada no conteúdo deste post! :)

Aveugle.Papillon disse...

Sim, o mais interessante dele, é a sua concepção existencial de "autrui". :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, o Outro que me olha e me converte nesse momento em objecto! estou a tratar disso... O olhar! As nossas relações com outrem: sadismo e masoquismo, enfim o mitsein... A psicanálise existencial... É bem interessante! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E a relação hipotética que estabeleci entre a escassez de Sarte e o Ministro das Finanças? Penso que a Europa se confronta com a escassez a todos os níveis, mesmo na imaginação política! :(

Aveugle.Papillon disse...

Hmmmm...
A virtualidade é uma variável interessante no mitsein: o olhar pode ferir, e deste modo esquivamo-nos a tal!

Se eu pudesse olhar para si já o teria fulminado, mas assim não. A virtualidade é um bom método para a estabilidade.


Quanto à escassez: se é a escassez que nos faz unir artificialmente em sociedade de trabalho, como é que da escassez faz derivar falta de estratégia?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Boa questão: Política serial é antipolítica!
De facto, as relações online colocam um desafio ao modo como vemos o corpo. Em meio virtual, o corpo não está visível e até podemos transfigurá-lo... Somos eus-virtuais, múltiplos, difusos, descentrados... Já pensei nisso mas ainda não escrevi! Fulmine-meeeeeeee com o olhar virtual ... :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Referia-me às bolsas de excedentários da função pública...

Aveugle.Papillon disse...

Vou tentando, com a minha ironia. Mas, ironia+olhar é infalível.

Sim, mas eles estão, de facto, a mais. E são preguiçosos e incompetentes.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Pois... tadinhos mas, como diz, estão "a mais" e são "rivais" incompetentes! Desertifiquemos a função pública!

Aveugle.Papillon disse...

Rivais? Não. Porquê?

Desertificação, n é preciso. Eles tiveram benesses excessivas e agora tem que ser resposto o equilíbrio.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Porque, segundo Sartre, "o inferno são os outros".
Sim, Papillon, eles engordaram muito mas há outros que tb engordam e muito... São rivais, porque se apropriam de todos os recursos e nada fica para os outros...

Aveugle.Papillon disse...

Sim, o meu comentário não era de exclusividade sobre os funcionários públicos; foi em sequência ao seu comentário. :)

Rui Caetano disse...

Sartre.ESte nome traz-me boas recordações da Universidade onde o estudei e adorei.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Hoje já não se aprende Sartre e tantos outros: mera conversa de café, sem conteúdos objectivos de conhecimento. :(