quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Ociosidade e Filosofia

«Assim como chamamos homem livre aquele (homem) que pertence a si mesmo e não tem dono, de igual modo esta ciência (a Filosofia) é a única entre todas as ciências que pode ser chamada livre. Só ela depende efectivamente de si própria.» (Aristóteles, Metafísica)
Tenho lido na blogosfera textos envenenados pelo ódio e, como sou homem de pensamento, sou obrigado a responder em cima do acontecimento, sem mencionar os seus diabólicos autores. Recentemente, li que nos acusam, a nós filósofos profissionais, de ser ociosos e alguns, os mais sociologistas e atarefados, inventaram um novo "ramo do saber": a ócio-logia, talvez entendida como uma "socio-logia" com a primeira letra rasurada (o "s"), o que equivale a dizer que praticamos "filosofia" entendida preconceituosamente como uma actividade alienada do mundo e, portanto, «inútil», imagem gravada no riso da mulher da Trácia (Hans Blumenberg), e/ou como discurso teorético que trata o homem sem ver que este é um produto da sociedade.
Assumo a ócio-logia pela simples razão do ócio ser uma categoria filosófica pensada pelos gregos, em especial por Aristóteles, como uma condição necessária para o exercício do pensamento e da vida teórica (contemplativa), por oposição à vida activa (Arendt) e, como não me vejo como uma marioneta manipulada por poderes obscuros que escapam ao controle da minha inteligência, dado ser racional e livre, aceito retomar a designação de ócio-logia e repensá-la no âmbito da meta-filosofia. De facto, sem ociosidade, isto é, "tempo livre" controlado por mim próprio (autonomia versus heteronomia) e não pelas indústrias culturais e de diversão (Adorno), não podemos pensar, isto é, dialogar comigo mesmo, longe do mundo (Arendt/Sócrates), visando a destruição dos ídolos (Nietzsche), mediante o seu exame e o seu questionamento; pelo menos, nós filósofos não conseguimos pensar enquanto estamos sentados na retrete a defecar, façanha realizada diariamente pelos sociólogos ocupados que dispensaram o pensamento autónomo, porquanto, de acordo com a sua própria concepção de homem, são meros portadores de determinações sociais que escapam ao seu controle.
Mas vamos com cuidado: nós filósofos somos "profissionais do pensamento" (Kant) e, mesmo quando julgamos estar a ironizar, traçamos linhas de demarcação entre teses justas e teses não-justas e, como se constata facilmente, acabei de enunciar, mediante este procedimento teórico, várias teses filosóficas que merecem ser pensadas e justificadas. Dito de modo incisivo, enunciei a tese fundamental de que a "sociologia" não pensa e, mesmo quando julga estar ao serviço da transformação do mundo, presta um serviço administrativo, não a favor da mudança social qualitativa, mas a favor da manutenção do sistema estabelecido, simplesmente porque a sua concepção do Homo sociologicus, bem desenvolvida por Ralf Dahrendorf, bloqueia o elemento rebelde ou, como diria Hegel ou mesmo Sartre, a negatividade inerente à condição humana.
A sociologia como tarefa dos ocupados com os negócios da vidinha metabolicamente reduzida (Platão) "explica" (ou julga explicar) e, sobretudo, ajuda a manter a ordem estabelecida e é, por isso, que Marx nunca afirmou ser um "sociólogo": ao contrário dos seus maléficos discípulos intoxicados por lugares-comuns, Marx sabia que a sociologia era a arma ideológica usada pela burguesia para justificar ideologicamente a conservação da ordem estabelecida e a sua dominação, apresentando-a como uma "ordem natural". Para quem conhece bem o pensamento de Marx, sabe que estamos diante de uma das operações utilizada frequentemente pela "ideologia dominante" para apresentar a sociedade estabelecida como um sistema incontornável, acima da "vontade humana" e da história.
Ao proceder assim, a ideologia dominante deturpa e encobre tudo, não só as possibilidades históricas de mudança social, como também o espírito da própria ciência, como se esta tivesse por missão descobrir ou revelar leis naturais incontornáveis e verdadeiras de uma vez para sempre. Daí a sua obsessão pelos fundamentos últimos, que, como todos sabemos, constituíam (e constituem) a preocupação fundamental do idealismo. Também neste aspecto Marx foi o primeiro filósofo a romper com o discurso fundacionalista e a esboçar uma epistemologia crítica adequada à nova ciência que criou: o "materialismo histórico" ou ciência da história.
Mas já ouço os "comunistas pseudo-revolucionários" a relembrar aos berros a famosa XI Tese sobre Feuerbach, onde Marx diz que, em vez de interpretar o mundo de diversas maneiras, é preciso mudar o mundo, como se esta tese enunciasse o primado da praxis sobre a teoria, portanto, uma filosofia da praxis! Erro de interpretação! Althusser mostrou que esta tese enuncia uma «nova prática da filosofia» ou talvez, como penso, novas práticas de fazer filosofia, não uma filosofia alheia ao mundo, mas uma filosofia que, atenta ao mundo e à empiria, pode ajudar a melhorá-lo, mostrando que as categorias filosóficas devem orientar a praxis que visa transformar qualitativamente o mundo.
Mas, como disse Lucien Sebag, que procurou reconciliar a fenomenologia e o marxismo, de resto tentativa que já tinha sido realizada pelo jovem Herbert Marcuse, discípulo de Heidegger, «o marxismo é incompreensível sem o reconhecimento desta essência humana que, independentemente dos seus modos de exteriorização, o define como Negatividade, Trabalho, Acção, Prática social, etc,; é na medida em que todas as sociedades são formalizações desse essência que simultaneamente a desenvolvem, marcam e alienam, que o projecto de uma comunidade humana, em que a alienação tivesse sido assumida/superada, uma vez levantado o véu, se torna concebível». Isto significa que a obra científica de Marx «assenta» numa antropologia, a que foi explanada nos seus escritos de juventude, que não podem ser vistos como obras não-marxistas, como fez Althusser que, ao abraçar o estruturalismo, se impediu de pensar a possibilidade de uma mudança social qualitativa, caindo inadvertidamente nas armadilhas do funcionalismo e do seu problema fundamental: Como é possível uma ordem social?, quando, na verdade, o problema de Marx era este: Como é possível mudar a ordem estabelecida?
O facto do próprio Marx ter gastado mais tempo a estudar o modo de produção capitalista (objecto abstracto/formal) e a formação social capitalista (objecto concreto/real) do que a lutar politicamente pela causa do proletariado mostra que, para ele, não pode haver transformação qualitativa da "sociedade" burguesa (uma categoria ideológica, não-científica) sem antes ter elaborado, isto é, criado, o seu conhecimento. Isto equivale a dizer que, sem conhecimento daquilo que se pretende mudar, não pode haver mudança racional do mundo (Sebag). O próprio vector epistemológico (Bachelard) que vai do racional ou abstracto ao real ou concreto evidencia a linha geral da nova epistemologia que Marx coloca ao serviço da nova ciência: aquela que visa melhorar o mundo. Mas este "interesse de emancipação", associado à autoreflexão (Habermas), que orienta a ciência de Marx foi, por vezes, formulado em termos historicistas. Gramsci protagonizou esse historicismo, na esteira de B. Croce, mas preferimos ilustrá-lo recorrendo a Marcuse que, na sua obra "O Homem Unidimensional", escreveu: «Teoria social é teoria histórica e a história é a esfera da possibilidade na esfera da necessidade. (...) A teoria social interessa-se pelas alternativas históricas que assombram a sociedade estabelecida como tendências e forças subversivas. Os valores ligados às alternativas tornam-se realmente factos quando transformados em realidade pela prática histórica. Os conceitos teóricos terminam com a transformação social».
Com este primeiro post, iniciámos um conjunto de reflexões dedicadas à clarificação das relações existentes entre o ócio e a filosofia, denunciando o carácter ideológico, portanto, não-científico, da "socio-logia ocupada", aquela que abdicou do pensamento em nome da produção de discursos apologéticos de alguma ordem estabelecida. (Continua)
J Francisco Saraiva de Sousa

36 comentários:

F. Dias disse...

É isto mesmo!

Julgamos e estamos a ironizar, não propriamente no sentido paroquial wittgensteiniano, mas não paroquial.

A força da ironia consiste em mover o leitor de uma posição em que ele não reconhece a ironia para uma posição em que ele vê a sua possibilidade. A força da ironia não paroquial depende da sua capacidade de ignorar qualquer fronteira entre “nós” e “os outros”.

Assim, o irónico deve sempre contar com a possibilidade de se tornar a vítima da sua própria ironia, ou de ver a sua ironia tomada literalmente, ou ainda descartada como uma tolice.

A sociologia que critica é paroquial, porque não tomou a devida distância dos processos sobre os quais se tem debruçado. Alguns wittgensteinianos paroquiais, contudo, pensam que o que há de importante em relação às teorias científicas é o facto de haver algumas pessoas convencidas da sua validade.

Aveugle.Papillon disse...

Ai!



Adiante...

A fundação da filosofia acontece nessa cisão entre pensamento e vida, quando o pensamento vivo dos verdadeiros sábios morre e nasce a forma escrita do pensamento, a partir de Platão (Colli).
Deleuze tenta fazer a ponte com os pré-socráticos, os verdadeiros sábios, que constituíam a tal unidade vida-pensamento, entretanto esquecida pelos filósofos: o filósofo apareceria como o criador de conceitos, mais do que um pensador e dialogante sobre os mesmos.

Aveugle.Papillon disse...

A filosofia mais criativa e menos crítica. Mais artística! (Muito Nietzsche leu o sr. Deleuze)... mas parece que a Filosofia está votada à dialéctica.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ui... Papillon

Vejo que não concorda comigo, mas efectivamente li com atenção a obra de Lukács, A Destruição da Razão, onde ele denuncia essa ligação entre pensamento e vida, visando as filosofias da vida, nas quais viu com razão um prenúncio do fascismo. A nmeu conceito de vida é biológico e não vitalista! Daí a di-ferença...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E também ao regresso de Aristóteles... :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Um dos erros que critico nos mestres da Escola de Frankfurt, embora a crítica possa ser contornada, porque eles eram inteligentes, é a tendência a estetizar a vida: a estética não pode ocupar o primeiro lugar no seio da Filosofia, porque foi completamente arrasada pelo capitalismo. Já não existe arte! Mas mercadorias pouco criativas! :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

F. Dias

A ironia é praticamente um procedimento filosófico, pelo menos desde Sócrates. Um obra interessante a esse respeito é a de Kierkegaard, O Conceito de Ironia. :)

Aveugle.Papillon disse...

Hmmm...

Acho que a Arte consegue sempre escapar às ideologias. Que agora esteja condicionada a um preço, de acordo, mas com o mesmo problema a Filosofia se confronta, ou esta obsessão com a utilidade advém do quê? Acho, por enquanto, a arte superior à filosofia, como aliás penso que já lhe tenha dito noutras ocasiões; não acho que a filosofia deva prevalecer-se sob forma de estética, até porque a estética, em certa medida, já estrangula a forma de vida artística. Acho que em tempos indigentes, como costuma dizer, acredito que a filosofia, mas da mesma forma e sobretudo! a arte, nos podem salvar.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Adorno que escreveu "teoria Estética", uma das maiores estéticas da história, diz (ele que era músico a apaixonado pela arte):
«... está a operar-se uma transformação na natureza do objecto de arte. A novidade não reside no facto de ser mercadoria, mas assumir-se deliberadamente enquanto tal; a arte renuncia à sua autonomia e ocupa orgulhosamente o seu lugar entre os bens de consumo.»
Veja o que se produz actualmente como arte e diga-me como é que a arte pode ser superior ao pensamento? A arte é mero objecto efémero de consumo; a outra está nos museus ou nas casas dos homens de negócio que a usam para exibir status: o que conta é o valor (preço), não a forma autonomizada! :(((

Aveugle.Papillon disse...

Esse raciocínio é falacioso, porque a arte é objecto de consumo e o pensamento é tido como quê? É da mesma forma tido inautenticamente, se quiser. Acredito no poder criador, de se transcender e de se renovar do homem, e a plasticidade e universalidade da arte é a melhor expressão para tal. É vida. E quer queira quer não o teorético afasta-se dela para, precisamente, conjecturar. A obra de arte plasma-se na vida, é força centrípeta, mesmo na sua excentricidade.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Então, a arte que se produz actualmente carece de autonomia, porque faz parte da vida tal como a vivemos, de forma "alienada". Logo o pensamento deve incidir sobre a crítica dessa arte-vida, vendo-a como feia ornamentação do status quo! É assim que pensamos de Frankfurt a São Francisco e New York, passando pelo Porto (eu), como diria o F. Dias. :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Contudo, este problema é marginal, até porque não está no centro do conjunto de teses que enunciei a favor da filosofia. Aceito debatê-lo porque citei Aristóteles que fala do "artista", considerando o homem de pensamento (digamos) "superior" ao mero "produtor de coisas".
Preferia discutir o assunto em questão! :(

Aveugle.Papillon disse...

Ok, e então eu penso o contrário. Que a imprevisibilidade e força artística pode revolucionar o pensamento e a vida. (Lisboa).

N precisa de me fazer favor de debater o que quer que seja. Este é o seu espaço: pensa, escreva e "debata" o que entender.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Hummm... Vou brincar consigo, Papillon...
Lisboa, a capital de Portugal, pensa muito mal e a prova está na situação nacional! :)))

F. Dias disse...

Desde as 9:30 que tenho andado fora de casa. Há mais vida…
Mas como verifico que inaugurei aqui os comentários às 9:11, e como isto é estimulante, após ter lido a conversa de hoje entre os dois, digo o seguinte para abreviar razões:
Inclino-me a concordar mais com o Francisco. De resto, humanamente não conheço nem Francisco nem Papillon. Vou conhecendo epistemicamente. Humanamente ambos me merecem muita consideração e estima. Epistemicamente apoio Francisco. Meta-filosoficamente é mais complicado, porque não tenho arcaboiço.

Mas deixo-vos este tópico para reflexão: pensamento e conhecimento são coisas diferentes. Pensamento é meta-filosofia. Conhecimento é epistemologia.

Manuel Rocha disse...

A disciplinaridade sem retorno integrador, nunca me pareceu uma mais valia nas ditas ciências sociais. A procura de “leis” para o social esbarra sempre na incontornável mutabilidade permanente do objecto do seu estudo. A sociologia é caso paradigmático desse processo. O mesmo grupo nunca reage exactamente da mesma forma ao mesmo estímulo duas vezes consecutivas, pela simples razão de que a segunda reacção conta com uma nova variável – a experiência da primeira. Por isso a sociologia se limita, direi assim, a fazer história sociológica. Estudará com razoável precisão acontecimentos verificados, mas deles não pode deduzir com segurança comportamentos futuros, por mais que nisso se atarefe. O mesmo se passa com a economia ou a demografia. A filosofia é um caso á parte, pois sempre se manteve livre da obrigação de produzir instrumentos de governança e talvez por isso esta se dispersa em redor de politicas disciplinares sem um fio condutor sistémico e integrador. Mas para consolidar esse necessário contributo, a filosofia também terá que ensaiar a sua própria “descida à terra”, de onde se afasta demasiadas vezes…:)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Concordo consigo, Manuel.
De facto, a filosofia já desceu à terra, mas, por vezes, volta a alienar-se, como sucede com muitas filosofias da chamada pós-modernidade.
Por isso, penso ser necessário desconstruir as chamadas ciências sociais que no seu momento teórico parasitam a filosofia, tirar-lhes Marx e restitui-lo à filosofia. Afinal, não precisamos dessas disciplinas e cursos correspondentes: os clássicos chegam...
F. Dias coloca outro desafio... Gostei da designação: Sociologia Paroquial! E o seu comentário reconduz-me à filosofia social de Peter Winch, outro wittgensteiniano...

Manuel Rocha disse...

Quanto ao ócio...vocês nem imaginam a quantidade de reflexões que se produzem quando se passa um dia em cima de um tractor a gradar aveia....::)))

Pena que ainda esteja por inventar um sistema que "descarregue" para uma "pen" para uso posterior....::))

O Francisco tem que experimentar...quem sabe se não sai uma teoria original na sequência de uma dessas jornadas filosóficas...::))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Concordo com a sua perspectiva, F. Dias. Mas ainda não tenho uma filosofia do conhecimento bem elaborada, porque sou tentado a subordinar a memória à imaginação. Heidegger marcou-se com o seu estudo sobre Kant: o papel da imaginação no processo cognitivo. Não será a memória uma "exercício" da imaginação?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A filosofia tem sempre privilegiado a memória e não rejeito essa herança, até porque desejo zelar pela memória daqueles que morreram, fazendo-lhes justiça, de modo a que a sua morte não tenha sido em vão. Mas a memória não é "depósito" e, neste aspecto, afasto-me de Hegel e da sua remomoração e prefiro sonhar com Ernst Bloch. A imaginação abre-nos o mundo e deixa-o livre, sempre livre...

F. Dias disse...

Uma questão recorrente nas minhas “meditações” é a questão acerca das relações entre a linguagem, o pensamento e o mundo. Qual é a melhor maneira de colocar isto?

Sigo Wittgenstein quando diz +/- isto: aquilo que fazemos com as palavras através de conceitos ou através da nomeação dos objectos, não pode ter pretensões de verdade acerca da forma como o mundo é. Aliás, é com esse ponto polémico que ele abre as Investigações Filosóficas, com a citação das Confissões de Santo Agostinho, numa passagem em que este descreve como aprendeu a usar palavras para nomear objectos. Ao contrário de Frege, Wittgenstein defende que o “paroquial” é incontornável quando se trata de conceber as condições de correcção do pensamento. Para conceber a natureza da correcção é preciso considerar um tipo específico de pensador, bem como as consequências de representar em pensamento a forma como as coisas são.

Quanto ao “paroquial” – fui buscá-lo aqui.
Tanto quanto percebi, a visão paroquial do “conhecimento” e não do “pensamento” remonta a Durkheim, em que ele defendia que todo o conhecimento se origina do processo por meio do qual as pessoas partilham certas crenças em circunstâncias sociais determinadas. Se conhecer é partilhar crenças, e se partilhar crenças implica pertencer a um grupo, então não faria sentido outro conhecimento fora do grupo.

Penso que é a este tipo de paroquialismo a que as teses wittgensteinianas se referem. Não há conhecimento fora das regras que regem o uso de palavras determinadas em comunidades determinadas.

Thomas Kuhn retomou este tipo de paroquialismo ao dizer que o conhecimento é pertença de um grupo. Por exemplo, tanto a configuração atómica, quanto a representação gráfica, quanto a adequação entre ambas, são o resultado de acordos estabelecidos entre os cientistas e circunstâncias sociais particulares.

Claro que os “sociólogos ironistas paroquiais”, levaram isto ao extremo ao dizerem que são as circunstâncias sociais envolvidas na obtenção do consenso, que fazem de um enunciado o que ele é. Não querem saber das determinações do enunciado, mas apenas das circunstâncias sociais que levaram uma determinada comunidade científica a chegar a esse consenso.

Manuel Rocha disse...

Gosto de encarar a memória como dinâmica de conhecimento numa lógica de sedimentação de sabedoria. Nesse sentido mais que depósito, é fertilidade latente ou potencial - cultive-se que ela produz futuro!

Como podem ver hoje estou particularmente agricola...::))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O que conduz ao relativismo ou ao anarquismo, tal como protagonizado por Feyerabend.
Tenho meditado sobre isso mas a partir da hipótese de Sapir-Whorf, levando em conta o "pensamento selvagem". Os sociologismos e culturalismos baralharam tudo e Arendt procurou, noutro campo, bem como Heidegger ou mesmo Davidson, destruir as ciência humanas, de modo radical e não à Strauss ou Foucault, o último demasiado relativistas. A linguagem configura uma concepção do mundo e nesse sentido não podemos omitir o seu papel activo no conhecimento.
Sim, o pensamento permite-nos escapar a essas prisões e tb aqui Arendt mostrou isso.
Refere-se aos ironistas de Rorty? Ele tb é um pouco laxista! :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Está a estabelecer uma distinção entre memória/rural e imaginação/urbano? Até pode ser uma hipótese a explorar por um estudo empírico. :)))

F. Dias disse...

Sim, Rorty vai buscar a ideia de ironismo a Nietzsche, e a Sartre (qualquer coisa meta-estável pode ganhar um aspecto positivo ou negativo); tendo como pano de fundo Davidson (somos incapazes de fugir da nossa linguagem para a comparar com outra coisa) e Heidegger como placa giratória (contingência e historicidade da linguagem).

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Nunca aceitei a teoria do eterno retorno do mesmo de Nietzsche por uma razão muito tuganacional.
Em Portugal, o eterno retorno significa:
1) na presidência da república, Américo Tomás;
2) na presidência do governo, Oliveira Salazar.
São sempre as mesmas figuras, as mesmas coisas, as mesmas trapalhadas. Daí o eterno retorno da mesma miséria nacional. O nosso tempo é cíclico: pura repetição do mesmo. Não avançamos! :(

Aveugle.Papillon disse...

Sim o eterno retorno mete medo...
"O homem voltará eternamente! O homem mesquinho voltará eternamente![...]Aqui está o que me desgostou de toda a existência."
Mas isso n é boa razão para desconfiar dele.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas para desconfiar da política nacional! Era uma graça política, Papillon! Avançar na luta contra está sempre eterna miséria nacional!
Ontem, Pacheco Pereira disse que nunca se deve contar toda a verdade ao povo, porque este não quer! Isso é democrático? Deviam ler H. Arendt: a verdade na política!

Aveugle.Papillon disse...

Ele disse isso? N é nada democrático, é pedante.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Disse e outras barbaridades caprinas! :(((

Manuel Rocha disse...

Memória rural vs imaginação urbana ?!

::)))

Não tinha pensado nisso, mas parece-me uma linha de inovação filosófica interessante. Tente começar por contrapor a capacidade de produzir alimentos a uma forma imaginativa de sobreviver sem eles...::)) Que me diz ??

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas o meio deve ter o seu impacto nessas faculdades! O tempo no campo é mais lento; na cidade é mais acelerado... perspectivas diferentes... :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Aquilo que estávamos a falar é corrupção constantina! Portugal é visceralmente corrupto e de pais burros não nascem filhos espertos! Pena é os tugas não darem caça a tal fauna corrupta! Só um terramoto dirigido por Deus nos pode livrar destes malandros! Por isso, a filosofia respeita a violência revolucionária! Merleau-Ponty fez o seu elogio em Humanismo e Terror. Morte aos fascistas, diria Sartre!

Aveugle.Papillon disse...

de pais burros não nascem filhos espertos


oh Francisco! nada mais fascizóide.

Helena Antunes disse...

Acho que nem vou comentar este post!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ui Helena

Não se entregue a esse trabalho de comentar! Isto é artilharia pesada só da competência daqueles que não estão satisfeitos com a sociedade tal como ela é! É luta filosófica e política! Não sociologia metabolicamente reduzida! :)