quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Que é feito do Museu de Etnografia do Porto?

Saquei da Internet esta informação sobre o Museu de Etnografia e História do Porto, que está fechado ao público desde 1992. Disseram-me - um mero boato - que muitas peças do espólio deste museu do Porto foram transferidas para outros museus, talvez para o Museu de Etnologia de Lisboa: um roubo injustificável que, até agora, ainda não foi explicado pela Câmara Municipal do Porto e pelo Ministério da Cultura! Sistematizar o inventário do museu significa roubar - e centralizar - as suas peças: eis a cultura patrimonial portuguesa! A aposta no turismo e na requalificação da cidade do Porto exige a reabertura de um Museu de Etnologia ousado! O Império Colonial português foi absolutamente negligenciado e esquecido: os vigaristas portugueses não têm sensibilidade cultural e, por isso, não coleccionaram artefactos culturais dos povos dos territórios ultramarinos colonizados. Maldito país que nem sequer uma antropologia soube elaborar! O culto em torno da figura de Jorge Dias - outro portuense de nascimento - não se justifica: a sua obra tem escasso valor teórico. (Porém, admiro a sua obra etnográfica e recordo aqui Vilarinho da Furna: Uma Aldeia Comunitária.) Quando assisti às conferências da exposição dos artefactos da Melanésia, uma colecção da Universidade do Porto, aqui na Ribeira, fiquei chocado com a ignorância vestida de arrogância intelectual dos conferencistas: os zombies universitários não tinham estudado essa área cultural da Oceânia, optando pela improvisação opinativa. Lembro-me de ter confrontado a indigência cognitiva de um deles com os estudos etnográficos de R. H. Codrington, B. Malinowski, Margaret Mead, F. Bell, J. Guiart e C. Belshaw, mas obtive como resposta uma charada à maneira de Lewis R. Binford: a arqueologia é, por excelência, a Ciência do Homem, e, no momento presente, já é toda a Filosofia! (A relação entre arqueologia e filosofia - Julian Thomas, Mathew Edgeworth, Th.C.W. Oudemans, Tim Ingold, Ian Hodder, Kent Lightfoot, Paul Newall - é uma outra história que poderei contar num outro post, até porque alguns estudantes de doutoramento em arqueologia estão interessados em conhecer a minha perspectiva. Porém, devo dizer que a arqueologia do saber de Michel Foucault não clarifica essa relação: «A arqueologia descreve os discursos como práticas especificadas no elemento do arquivo» - «a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento dos enunciados como acontecimentos singulares» (Foucault). Escavar a imaginação metafórica da arqueologia é uma das tarefas da Filosofia, na execução da qual ela afirma a sua superioridade cognitiva! No entanto, a Filosofia - em especial o marxismo - já deu diversos contributos fundamentais para a arqueologia, bastando pensar na obra de V. Gordon Childe e de A. Leroi-Gourhan. As metáforas arqueológicas de Heidegger são avessas ao discurso arqueológico: o próprio Heidegger rejeitou uma leitura antropológica da sua ontologia fundamental. Fazer com que os calhaus arqueológicos - artefactos e monumentos, objectos e utensílios da cultura material - transpirem sem a ajuda da linguagem - a linguagem usada pelos fabricantes desses artefactos arqueológicos - uma tal ontologia é puro delírio arqueológico pós-moderno. A Filosofia não é um calhau e, conforme mostrou Hegel, resiste tenazmente à sua ossificação. A crítica hegeliana da frenologia - o Espírito não é um osso - pode ser retomada para criticar a arqueologia pós-moderna que tenta erguer-se à altura da Filosofia. A arqueologia hegeliana do espírito é completamente distinta das práticas discursivas da arqueologia pós-processual. Engels estabeleceu um paralelo entre a Fenomenologia do Espírito de Hegel e a Embriologia e a Paleontologia do Espírito: a Fenomenologia do Espírito é assim o desenvolvimento da consciência individual concebido, através das suas diferentes etapas, como a reprodução abreviada das fases por que, historicamente, passa a consciência do homem.)

Eis a informação:

«O Museu de Etnologia do Porto foi criado em 1945, sob a designação de Museu de Etnografia e História do Douro Litoral. Desde a sua fundação, o museu encontra-se instalado no Palácio de S. João Novo, datado do séc. XVIII, que estudos recentes apontam tratar-se de um projecto de arquitectura da autoria de António Pereira (mas geralmente atribuído a Nicolau Nasoni). O Palácio de S. João Novo sofreu uma degradação acentuada desde 1970, com reflexos particularmente negativos nas condições de conservação das colecções etnográficas. Em 1989, o museu transitou para a tutela do IPPC e, em 1991, para o IPM, vindo a ser encerrado ao público em 1992 dado o avançado estado de ruína do imóvel. Desde então, o IPM tem vindo a diligenciar pela salvaguarda do espólio do museu, traduzida, numa primeira fase, pelo depósito das suas colecções em diversos museus, com vista à sua protecção. Numa segunda fase foram efectuadas, com a colaboração da DGEMN, obras nas coberturas e na fachada do Palácio. Numa terceira fase, o IPM procederá à resolução da actual situação do Museu, o que ocorrerá posteriormente ao processo de sistematização do seu inventário» (CMP).

J Francisco Saraiva de Sousa

9 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, afinal a colecção dos artefactos da Melanésia pertence à Universidade do Porto. Fui ver o catálogo! :)

Porém, se o museu reabrir em novos moldes, essa colecção devia ir para esse museu.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O FCPorto venceu o agressivo Sevilha na Liga da Europa. Com classe e relativa calma! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tadinho, só o Braga perdeu com aquela neve toda... :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, introduzi mais ideias! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Este museu, considerado o mais rico deste género em Portugal, possui um acervo de mais de 4000 peças. Mas no início dos anos 80 começou a dar mostras da sua degradação, situação que se veio agravar no incêndio de 1984. Até que em Maio de 1992 o museu teve que ser encerrado devido à falta de condições de segurança do edifício.

Carlos Oliveira - Herança Magna disse...

Tanto quanto sei, o espólio do Museu Etnográfico encontra-se encaixotado e guardado no Museu Soares dos Reis. É pena, pois visitei-o várias vezes e achava que era o museu mais interessante do Porto, a merecer tratamento especial. E logo agora que o Porto é o destino turístico nº 1 segundo a AOL Travel! Os brinquedos antigos, os artefactos religiosos, o quarto do pescador, enfim, tudo serviria hoje para sublinhar a razão se sermos Património Mundial! Reabram o museu ou pelo menos deixem-nos ver o espólio!

Carlos Oliveira - Herança Magna disse...

Tanto quanto sei, o espólio do Museu Etnográfico encontra-se encaixotado e guardado no Museu Soares dos Reis. É pena, pois visitei-o várias vezes e achava que era o museu mais interessante do Porto, a merecer tratamento especial. E logo agora que o Porto é o destino turístico nº 1 segundo a AOL Travel! Os brinquedos antigos, os artefactos religiosos, o quarto do pescador, enfim, tudo serviria hoje para sublinhar a razão se sermos Património Mundial! Reabram o museu ou pelo menos deixem-nos ver o espólio!

Carlos Oliveira - Herança Magna disse...

Tanto quanto sei, o espólio do Museu Etnográfico encontra-se encaixotado e guardado no Museu Soares dos Reis. É pena, pois visitei-o várias vezes e achava que era o museu mais interessante do Porto, a merecer tratamento especial. E logo agora que o Porto é o destino turístico nº 1 segundo a AOL Travel! Os brinquedos antigos, os artefactos religiosos, o quarto do pescador, enfim, tudo serviria hoje para sublinhar a razão se sermos Património Mundial! Reabram o museu ou pelo menos deixem-nos ver o espólio!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fico contente se o espólio estiver no Museu Soares dos Reis. E concordo: é uma estupidez o museu estar desactivado.