sábado, 5 de fevereiro de 2011

O Café Marx (1)

... e a Revolução Árabe.

Com este quadro de Edward Hopper - Sunlight in a Cafeteria, 1958, inauguramos um novo espaço virtual: O Café Marx. O objectivo deste novo espaço de intervenção não é tanto gerar o debate mas sobretudo partilhar alguns pensamentos de Karl Marx e dos seus seguidores mais ilustres. Hoje debati-me com a necessidade de refazer a filosofia política marxista, de modo a redefinir novas políticas marxistas - uma das quais continua a ser a teoria do proletariado -, capazes de dar resposta aos desafios do mundo global. A revolução árabe em andamento constitui um desses desafios e, nesta área da política civilizacional, o marxismo é, ao mesmo tempo, conservador e revolucionário. Conservador no sentido de não abdicar da emancipação e da cultura ocidental, e revolucionário no sentido de depositar alguma esperança nas revoltas que emergem no mundo árabe. Porém, se não forem esclarecidas e orientadas pelo conhecimento redentor, as revoltas árabes podem converter-se em vingança contra o Ocidente, cujo desabrochar civilizacional sufocou a alma mágica. A Europa decadente e corrupta é uma velha cadela que já não consegue fechar as pernas aos invasores externos: os muçulmanos morrem em nome do Islão, os ocidentais abrem as pernas para não morrer; os muçulmanos ainda não perderam o vigor capaz de dar expressão a uma civilização, os ocidentais já perderam a força e a ligação com a sua tradição. Se quiserem contribuir para o desabrochamento da alma mágica, os rebeldes muçulmanos não devem escutar os ocidentais: os direitos humanos e a democracia liberal - colonialismo serôdio sem vigor! - são produtos tóxicos que o Ocidente tenta exportar para adiar o inevitável: a sua própria morte. A América está a gerar os coveiros da Europa e do Ocidente, e o terrorismo que inventou - desde que julgou ter o mundo aos seus pés - ameaça bani-la do palco mundial. Mas, quando falamos da América, estamos a identificar o inimigo: o capitalismo de Wall Street. A história segue o mau caminho que conduz a uma guerra entre o Islão e o Ocidente: o responsável por este rumo catastrófico é o capitalismo americano, isto é, o neoliberalismo. Há, portanto, uma maneira de evitar esse cenário terrível: globalizar a resistência e a luta contra o capitalismo. Os jovens e os deserdados europeus - as vítimas da crise financeira e económica, os desempregados - deviam desafiar o poder vigente nas ruas e nas praças, tal como estão a fazer os seus pares árabes. A solidariedade - assim exibida - entre jovens e deserdados europeus e árabes ajudaria os últimos a tomar consciência do inimigo comum: o capitalismo que lhes nega o futuro para garantir uma vida longa e fácil aos velhos - a geriatria no poder! - que dominam a Europa, o Ocidente, o Oriente e o Mundo. O conflito intergeracional pode evitar a Grande Guerra Mundial e o retrocesso civilizacional. Os jovens de todo o mundo devem rejeitar o diálogo e optar pela luta revolucionária contra o status quo que os infantiliza para lhes roubar a possibilidade de um projecto de vida autónoma: a segurança de vida das gerações grisalhas é conquistada e garantida à custa do sacrifício das gerações mais novas.

O texto de Marx - sacado de A Sagrada Família - que partilho hoje define claramente o núcleo duro da política marxista, perfeitamente adaptável às tarefas do nosso mundo global, bastando substituir o termo proletariado por jovens rebeldes e deserdados do mundo e da vida: a abolição do capitalismo e da miséria que gera une sem atrito todos os indivíduos do mundo, sem destacar as suas identidades religiosas ou culturais, de resto atiçadas pelo capitalismo americano:

«Quando os autores socialistas atribuem ao proletariado este papel histórico, não é de maneira alguma por considerarem os proletários como deuses, ao contrário do que a Crítica crítica parece crer. Antes pelo contrário, no proletariado plenamente desenvolvido encontra-se consumada a abstracção de toda a humanidade, até da aparência de humanidade; nas condições de vida do proletariado encontram-se condensadas todas as condições de vida da sociedade actual no que elas podem ter de mais inumano. Com efeito, no proletariado o homem perdeu-se a si mesmo, mas adquiriu ao mesmo tempo a consciência teórica desta perda; além disso, a miséria que ele já não pode evitar nem mascarar, a miséria que se lhe impõe inelutavelmente - expressão prática da necessidade - obriga-o directamente a revoltar-se contra tal inumanidade; é por isso que o proletariado pode e deve libertar-se a si mesmo. Ora, ele não se pode libertar sem abolir as suas próprias condições de vida. Não pode abolir as suas próprias condições de vida sem abolir todas as condições de vida inumana da sociedade actual, o que resume a sua própria situação. Não é em vão que ele passa pela rude mas fortificante escola do trabalho».

J Francisco Saraiva de Sousa

5 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, criei o Café Marx para criticar p tratado de política de Catlin e de outros vigaristas de Direita! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Porém, estou a achar piada a Catlin e à ligação que estabelece entre democracia e mercado, enfim a perspectiva do consumidor, esse monstro do nosso tempo.

Zekzander disse...

Não sei se o sr. já viu, mas talvez goste do documentário "Inside Job" de Charles Ferguson. É sobre a crise financeira de 2008-2009. Bem que gostaria de saber sua opinião sobre o filme.
Atc.
Cláudio

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ainda não vi esse documentário, mas logo que tenha a oportunidade vou ver.

Adicionei o seu blog nas minhas actualizações.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estive a ver a apresentação no youtube. :)