sábado, 19 de janeiro de 2008

Linguagem, Pensamento e Realidade (2)

II. A HIPÓTESE DE SAPIR-WHORF
«A linguagem é a coisa mais quotidiana de todas: é preciso um filósofo para dela se ocupar. (...) Todo o pensamento consciente só é possível com a ajuda da linguagem. (...) Os mais profundos conhecimentos filosóficos repousam já prontos na linguagem.» (F. Nietzsche)
A hipótese de Sapir-Wholf foi formulada explicita e directamente por B. L. Whorf (1956), na sua obra Language, Thought, and Reality: Selected Writings of Benjamin Lee Whorf. Contudo, o seu mestre, E. Sapir (1929), já tinha formulado as asserções gerais que Whorf procurou preencher de conteúdos empíricos, mediante a pesquisa da língua da tribo dos Hopi, que fala o shoshone (língua da família uto-asteca) e ocupa essencialmente aldeias situadas sobre os relevos tabulares (ou mesas) nos arredores de Flagstaff (Arizona), numa zona actualmente organizada em reservas.
Edward Sapir (1884-1939) defendeu que a língua de uma dada sociedade humana, que pensa e fala nessa língua, é organizadora da sua experiência e, por conseguinte, modela o seu "mundo" e a sua "realidade social". Isto significa que, segundo Sapir, a língua socialmente formada influencia a maneira como a sociedade concebe a "realidade", ao mesmo tempo que exerce uma função heurística na percepção da realidade. Daqui também resulta que a linguagem desempenha um papel activo no processo de conhecimento: as formas da linguagem predeterminam certos modos de observação e de interpretação do "mundo".
Assim, tal como já tinha sido enunciado por Humboldt, cada língua contém uma visão específica do mundo, isto é, uma ontologia. Mas a formulação da tese da participação da linguagem na experiência realizada por Sapir é muito mais moderada que a defendida por Wilhelm von Humboldt e seus discípulos. Para Sapir, a linguagem é um sistema que determina a experiência, no sentido em que a significação não é descoberta na experiência, mas imposta à experiência, através da acção das formas linguísticas sobre a nossa orientação no mundo. Isto significa que «a linguagem é um guia na "realidade social"» e que, portanto, o "mundo real" é uma mera projecção, em grande medida inconsciente, dos hábitos linguísticos adquiridos sobre a realidade envolvente. Estando à mercê da língua particular que constitui o meio de expressão da sua sociedade, os homens adaptam-se à realidade servindo-se da linguagem. O "mundo real" em que vivem é, em grande medida, construído inconscientemente na base dos hábitos linguísticos do grupo social a que pertencem.
Desta tese decorre que não existem duas línguas que sejam suficientemente semelhantes, para que possam ser consideradas como representando ou exprimindo a mesma "realidade social". Os "mundos" em que vivem as diferentes sociedades são mundos distintos: não são simplesmente um só e mesmo "mundo", ao qual se possam colar etiquetas diferentes. Como escreveu Sapir: «Vemos, entendemos e experimentamos como o fazemos, porque os hábitos linguísticos da nossa comunidade nos predispõem para certas escolhas de interpretação».
A teoria da linguagem de Sapir distancia-se do idealismo linguístico em dois aspectos fundamentais: 1) o "mundo objectivo" dos objectos físicos e dos fenómenos sociais, e 2) os indivíduos que vivem nesse "mundo objectivo", percebem, pensam e, graças às suas funções cognitivas, agem. Mas, como diria Lenine, «o idealismo inteligente (o de Humboldt) está mais próximo do materialismo do que o próprio materialismo estúpido». Não basta fazer uma profissão de fé na existência de um "mundo real independente da consciência"; é preciso apreender os indivíduos, conjuntamente com os seus produtos, em termos de «relações sociais» (Marx). A linguagem, enquanto "reflexo" da realidade física e social, é também um produto social e, como tal, é provida de um enorme poder educativo em relação aos indivíduos. Como depósito específico dos estereótipos sociais, a linguagem desempenha um papel activo: ajuda a moldar o comportamento dos indivíduos, em especial o seu comportamento cognitivo. Assim, os diferentes sistemas linguísticos, que constituem o "reflexo" específico dos seus respectivos meios sociais, influenciam, por sua vez, de um modo activo, as visões do mundo, próprias dos homens que usam esses sistemas.
Esta clarificação, que salvaguarda a teoria de Sapir do idealismo linguístico, permite definir os dois enunciados da sua hipótese:
1) a linguagem é um produto social e o sistema linguístico definido, no qual fomos educados e pensamos desde a infância, influencia a nossa maneira de perceber o mundo que nos rodeia; e
2) em virtude das diferenças entre os sistemas linguísticos, as quais reflectem diferentes meios sociais, os homens percebem e interpretam o mundo de diferentes maneiras.
Estas duas asserções enunciadas por Sapir são generalizações empiricamente verificáveis e essa será a tarefa levada a cabo pelo seu discípulo Whorf. (Continua)
J Francisco Saraiva de Sousa

20 comentários:

Aveugle.Papillon disse...

Afinal, sempre continua! ;)

A linguagem, ou as palavras, sempre foram caras à Filosofia, pois é a partir delas que o conhecimento se torna possível. E o "nosso" objectivo é apurarmo-nos nesse sentido: no tratamento rigoroso dos conceitos e significados.
Contudo, os próprios filósofos, ou aspirantes a..., cometem muitos preconceitos no uso autómato de determinadas palavras e expressões, derivadas de assimilações e reproduções académicas profusas. Ora, em consequência à tese de Sapir e também à citação de Nietzsche, cabe ao filósofo dar a ver esse modo de ser que constitui a língua e os seus sub-tipos sociais, de modo que a dada perspectiva não esgote o sentido das coisas. Pelo menos, alguns professores souberam-me passar o cuidado extremo com a palavra, talvez porque saibam melhor que ninguém o valor que ela possui - "a nossa maneira de perceber o mundo que nos rodeia".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

É muito interessante a perspectiva de Sapir. A seguir edito a versão de Whorf mais radical mas também mais fundada. A linguagem pertence a todos e sem ela não conseguiamos diferenciar-nos como seres individuais. Será que a nossa consciência é mera "ideologia"?
Não sei já como pensar... :)

Aveugle.Papillon disse...

Sim, a consciência também é ideologia, na medida em que corresponde a um eu colectivo, tal como a linguagem.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Pelo menos hoje mereci comentário, embora a Papillon não tenha ligado aos dois posts anteriores. :)))
Se somos mera "ideologia", não vale a pena viver! Pura ilusão! Estou a pensar em abolir a vida carente visceralmente de sentido e de realidade sustentável! :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Puff Papillon: Bakhtin dizia isso... :)

Aveugle.Papillon disse...

Ora, o Francisco merece sempre comentários. É muito difícil conseguir ignorá-lo. :)))

Pois. Que interessante, há pouco num aula falava-se precisamente no sentido da vida. E em Sísifo...
Não pense nisso. Ficaria sozinha e abandonada no mundo blogosférico, entregue à bicharada. Desistiria, por fim. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

«Todo o signo é, por natureza, social, tanto o exterior quanto o onterior».
«A palavra é o fenómeno ideológico por excelência».
«A consciência individual é um facto sócio-ideológico». Mikhail Bakhtin

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E que concluiram? Sempre sisifar sem luz ao fundo? :)

Aveugle.Papillon disse...

Um aluno estava resoluto quanto ao absurdo da vida. E, sinceramente, é difícil fundamentar que o sentido pode ser mais que o prazer pessoal (mesmo o mascarado), por isso ficou aberto.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Este post pode ser ligado ao post sobre ateísmo e teísmo.

Aveugle.Papillon disse...

A única saída, a liberdade, está sempre ligada à consciência... :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Exacto. É isso... :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Uma matriz sócio-cultural e ideológica-linguística nos embebeda: precisamos dela para formar o nosso "verdadeiro self", podemos lutar contra ela ou modificá-la, e, por fim, somos um mero fenómeno (no sentido fenomenológico) sócio-ideológico! A teologia tem outra saída: no diálogo interior está Deus que nos deu a Língua(gem)! Ou simplesmente nos drogamos com teias simbólicas para tornar o nosso fim certo (a morte) menos doloroso!

Manuel Rocha disse...

uupppssssssssss....entrei sem bater...desculpem-me e à intempestiva interrupção... e continuem sff...::))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem-vindo Manuel Rocha: estávamos a fazer metafísica... à procura do sentido da vida... :)

Aveugle.Papillon disse...

Não é a morte que se quer tornar indolor, mas a vida finita.
Sim, Deus é sempre uma saída; mas nesta época secular, há sempre o receio de endoutrinar. Enviei-lhe um e-mail. :))

Sim, Nietzsche falava da intoxicação simbólica, com o "drogar e "embebedar" lembrou-mo. :)

Manuel Rocha disse...

pois, pois.....

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estive no shopping a observar e a ver livros: está tudo mesmo indolor... e sairam livros mesmo empacotados. Precisamos de filosofia pura, não das tretas das letras e ciências sociais. Não pensam, opinam e opinam mal... Fiquei com vontade de os "matar"...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

É tudo orgia, na vida e na morte! Foi uma e seguiram-se as outras e, no final, ficou o deserto sem vida do Inverno. Aguarda a Primavera! :))

F. Dias disse...

podemos ir às palavras artífice, artifício, artificiar