quarta-feira, 29 de julho de 2009

Mente e Transplante do Cérebro

«O momento histórico que atravessamos recorda aquele em que se encontrava a biologia antes da Segunda Guerra Mundial. As doutrinas vitalistas tinham direito de cidadania, mesmo entre os cientistas. A biologia molecular anulou-as completamente. É de esperar que aconteça o mesmo às teses espiritualistas e aos seus diversos avatares emergentistas. As possibilidades combinatórias associadas ao número e à diversidade das conexões do cérebro do homem parecem efectivamente suficientes para justificar as capacidades humanas. A separação entre actividades mentais e neuronais não se justifica. A partir de agora, para quê falar de Espírito? Há apenas dois aspectos de uma mesma ocorrência que se podem descrever em termos emprestados, pelo vocabulário do psicólogo (ou da introspecção) ou pela do neurobiologista. A identidade entre estados mentais e estados fisiológicos ou físico-químicos do cérebro impõe-se com toda a legitimidade. O debate acerca do mind-body problem só existe na medida em que se afirma que a organização funcional do sistema nervoso não corresponde à sua organização neural. O homem não tem, portanto, nada mais a esperar do Espírito, basta-lhe ser um Homem Neuronal». (Jean-Pierre Changeux)
Fragmentos de Pensamento... sempre sujeitos a alterações.
A filosofia da mente tende a aceitar a visão científica do mundo, negando o mundo da mente consciente em nome do fisicalismo mais bastardo. As diversas versões do materialismo afirmam que o mundo físico é auto-contido ou fechado: os processos mentais podem ser explicados e compreendidos em termos de teorias físicas. Embora algumas versões materialistas admitam a existência de processos mentais e, especialmente, da consciência, o princípio da inviolabilidade do mundo físico (Popper) implica a redução dos processos mentais a processos físicos, donde resulta a negação da experiência subjectiva e de estados mentais subjectivos. Afirmar que nada existe a não ser o mundo físico é o mesmo que afirmar que a mente é o cérebro. A versão fisicalista do materialismo assume esta identificação dos estados mentais com os estados físico-químicos dos cérebros: a mente não é algo diferente do cérebro; é o próprio cérebro. Porém, as teorias neuroredutoras não explicam o funcionamento da mente consciente e a sua emergência biológica, porque não conseguem explicar como é que os padrões neurais se transformam em padrões mentais (Damásio): a consciência é um sistema neural de regulações em funcionamento (Changeux). Os neurónios são conscientes isoladamente e/ou nas suas conexões? Se isolarmos experimentalmente um grupo de neurónios, eles podem produzir sensações, percepções e consciência? Changeux considera que as operações mentais e os seus resultados são percebidos por um sistema de vigilância constituído por neurónios muito divergentes, como os do tronco cerebral, e pelas respectivas reentradas. Este sistema de regulações composto por teias de aranha neurais funciona como um todo, donde a consciência emerge, tal como um iceberg emerge da água. A teoria da consciência de Gerald M. Edelman redu-la a uma propriedade de processos neurais que não pode actuar causalmente no mundo, porque uma teoria científica tem de aceitar dogmaticamente o facto de o mundo físico ser causalmente fechado. A biologia da consciência não pode entrar em conflito com as leis da física e da química. Neste mundo da física e da química, somente as forças e as energias podem ser causalmente efectivas: a consciência está privada desse poder causal. Já é difícil aceitar este neuroreducionismo, mas mais difícil é atribuir consciência e inteligência aos computadores, como fazem os maluquinhos das ciências cognitivas e da mente computacional, os alvos da crítica pertinente de John Searle.
O objectivo derradeiro do programa da ciência física é elaborar uma teoria física unificada da mente e do corpo, isto é, uma teoria física unificada do universo. Dado ter conseguido progredir em termos de conhecimento do universo físico deixando a mente de fora do que tenta explicar, a ciência física nunca encarou o mundo como algo mais do que aquilo que pode ser compreendido por ela. Vamos supor que esta pretensão fisicalista seja plausível, imaginando que podemos realizar um transplante do cérebro com sucesso. Num laboratório de biologia avançada, existem duas peças anatómicas conservadas: o cérebro conservado de um indivíduo com um traço X que morreu num acidente de trabalho, e o corpo intacto de outro indivíduo, cujo cérebro com um traço Y foi esmagado pela queda de um tijolo. Os dois cadáveres foram artificialmente conservados: um cérebro sem corpo (X) e um corpo sem cérebro (Y). Uma equipa de neurocirurgiões desse laboratório resolve dotar o corpo sem cérebro com o cérebro sem corpo. A cirurgia foi realizada com enorme sucesso médico: o corpo sem cérebro com o traço Y recebeu o cérebro com o traço X sem corpo. A equipa que realizou a operação espera que o resultado confirme a hipótese de que os estados mentais são apenas estados cerebrais. Quando o cérebro com o traço X acordar no seu novo corpo hospedeiro, retomará - espera-se - a sua vida consciente, tal como a tinha vivido antes de ter morrido num acidente de trabalho.
Qual será realmente a sua "nova" identidade? O corpo recebe com o cérebro a identidade marcada pelo traço X, ou conserva os traços da sua identidade anterior? E, se o cérebro com o traço X conservar a sua identidade anterior e se se lembrar dela, não entrará em confronto com o novo corpo receptor? Um corpo desmemorizado recebe um cérebro estranho que se recorda das experiências subjectivas do seu outro corpo originário, sentindo-se alojado num corpo estranho, tal como um amputado masculino se sente quando recebe uma mão feminina. O novo ser resultante dessa cirurgia de transplante do cérebro será, neste caso de perturbação de identidade corporal, uma espécie de transsexual: uma mente/cérebro prisioneira num corpo estranho ou mesmo errado. A infância recordada não será a infância vivida por aquele corpo hospedeiro e o tal traço X pode ser o sexo, a orientação sexual, uma perturbação mental ou neurológica e outras características comportamentais e cognitivas. Um cérebro feminino colocado num corpo masculino produzirá um macho típico? Um cérebro masculino encarnado cirurgicamente num corpo feminino produzirá uma fêmea típica? Um cérebro gay colocado num corpo que funcionou de modo heterossexual mudará essa orientação corporal? Um cérebro heterossexual colocado num corpo que funcionou de modo homossexual mudará essa orientação corporal? Para as neurociências, o mundo da mente consciente continua a ser um milagre ou um enigma por explicar. Descartes defendeu o dualismo interaccionista entre mente e corpo, salvaguardando o espírito humano do peso das leis mecanicistas, mas o materialismo aboliu o cogito, reduzindo o ser humano a um mero autómato. O seu arqui-protagonista, La Mettrie, deu vida ao projecto Homem-Máquina: "O homem é um máquina e, em todo o universo, existe apenas uma única substância que se modifica diferentemente". Para não entrar em conflito com as leis físico-químicas, Gerald M. Edelman nega que a consciência possa actuar causalmente no mundo: o homem-máquina de La Mettrie converte-se assim em zombie consumado e submisso às leis darwinistas da economia de mercado capitalista, cuja filosofia foi elaborada por Daniel Dennett. Mas seremos nós - os humanos - meros zombies sujeitos servilmente aos caprichos dos invocadores-feiticeiros capitalistas ou seremos algo mais? A morte pode ser como um carro que desaparece numa curva: deixamos de o ver mas ele continua o seu percurso. A pessoa que morreu deixa de ser visível mas continua a ser, ou talvez não, porque não sei. O objectivo foi criar perplexidade e espevitar a mente crítica, nada mais.
A situação mais curiosa seria aquela em que o traço diz respeito à orientação sexual: Um cérebro gay é recebido por um corpo feminino que viveu experiências lésbicas. Se tivesse sido exclusivamente passivo e hiper-efeminado, o homem gay ficaria feliz por estar a viver num corpo de mulher. A vida clandestina faria parte do seu outro passado. Mas vamos supor que esse corpo tinha pertencido a uma lésbica butch hiper-masculina. Nesse caso, ele não seria completamente feliz, porque teria de tornar esse corpo mais feminino. Com o novo cérebro, o corpo passaria a ser passivo e receptivo, contrariando a orientação que lhe tinha sido dada pelo cérebro lésbico, mas, se guardasse memórias corporais da sua vida anterior, esse corpo sentir-se-ia revoltado com o uso que o cérebro gay faz dele: ser um corpo heterossexual atraído por homens. O cérebro que o comandou anteriormente e que foi esmagado era um cérebro lésbico e sentia atracção por mulheres; agora é um cérebro gay que, pelo facto de habitar um corpo feminino, se tornou heterossexual. Perplexidade total! Ora, nós estamos a supor que o cérebro transplantado guarda memórias, identidades, inscrições, marcas e outros traços comportamentais da sua encarnação corporal anterior, mas será que um cérebro transplantado se lembraria da sua outra identidade? Ou será que ele apenas moveria o corpo sem saber quem é, quem foi e quem será? Afinal, tanto o cérebro sem corpo como o corpo sem cérebro são meras peças anatómicas que fazem parte do mundo físico. A sua união operada por uma cirurgia de transplante do cérebro produzirá efectivamente vida mental dotada de consciência e de sentido? Ou apenas um mero zombie? A mente está ligada ao cérebro, mas pode não ser o cérebro, como defendem os fisicalistas que, por mais que se esforcem, ainda não conseguiram refutar a outra possibilidade: a mente pode ser algo diferente do cérebro e, enquanto mente encarnada num corpo em situação, ser dotada da capacidade para actuar causalmente no mundo.
J Francisco Saraiva de Sousa

74 comentários:

F. Dias disse...

Olá Francisco,

Já há muito que não digo nada. Neste artigo as suas interrogações são para mim muito interessantes. Aqui ficam os meus comentários:

O cérebro não se lembra. O cérebro não sabe quem é nem quem foi. Quem se lembra é a pessoa enquanto se está a lembrar. O cérebro e o corpo são indissociáveis. São farinha do mesmo saco. Uma pessoa = um corpo + a sua actividade. Uma pessoa dança num salão. Dança com as pernas, mas a dança não está nas pernas, nem tão pouco está no salão. A dança existe enquanto a música dura. A mente é como um salto. Depois de se ter dado o salto onde é que ele está?

Não faz sentido perguntar se sabemos se temos uma dor quando sentimos uma dor. Mas já faz sentido perguntar se temos consciência. Que tipo de entidade ontológica é ela? É duvidoso! É duvidoso que a consciência em si seja uma experiência tal como uma dor. Pode bem ser que a consciência exista apenas como conceito, como entidade lógica apenas, ou seja, como entidade linguística. Temos que contar com o quadro de referências da linguagem que herdamos, para dizer o que é válido e o que não é válido. É a linguagem que faz o enquadramento das nossas convicções.

Mas concedo que não se aplica às questões fenomenológicas da experiência vivida. Do ponto de vista da fenomenologia de raíz husserliana só pode existir aparência se houver aparecimento. Mas a aparência de uma coisa, que é o aspecto que ela toma para nós quando aparece, não tem nada a ver com o que a ciência natural diz que é. A ciência natural diz o que as coisas são através de conceitos, e os conceitos só existem na linguagem. Mas a fenomenologia da experiência vivida, pelo facto de ser prévia à linguagem, ainda assim não deixa por isso de ser real. O parecer, que está associado à aparência, na verdade não se distingue da ilusão. Mas quando uma coisa aparece, apresenta-se, torna-se visível, é mais do que aparência, e por isso é um acontecimento real, não é uma ilusão. Portanto, ‘parecer’ deve conjuga-se com ‘aparência’ e não com ‘aparecer’ ou ‘aparecimento’.

E é esta a confusão que alguns fisicalistas reducionistas fazem quando dizem que a consciência é mais um parecer, e por conseguinte uma ilusão. Eles não interpretam a consciência como um aparecimento, e ficam-se pela aparência. Eliminam pura e simplesmente a intuição natural de que temos uma consciência na primeira pessoa. Portanto, não existe, ou não é real. Para eles o mundo da subjectividade não existe. O mundo é tal como a ciência natural diz que é. E a ciência natural não encontra a consciência de primeira pessoa.

Um abraço

P.S. Peço desculpa não poder alimentar o diálogo. Vou dormir e não sei quando voltarei...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Outro abraço! E obrigado pelo belo comentário - muito esclarecedor! O que me intriga é o facto de não ver a consciência como se fosse um anjo de Walter Benjamin: aparece para depois desaparecer.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas se um transplante do cérebro bem planeado - sem erros - produzisse uma pessoa normal, com a identidade desse cérebro previamente conhecida, então começaria a olhar mais abertamente - sem reservas - para o materialismo, aderindo aos anjos cabalísticos.

A sua perspectiva é semelhante à de Max Scheler, que afirmava que a pessoa sobrevive à morte.

Maldonado disse...

É muito pertinente esta questão.
De facto muito se tem escrito sobre essa temática, tendo sido inclusive usada por alguns investigadores das neuro-ciências para demonstrar a inexistência da alma.
O cérebro é um dos elementos mais importantes da fisiologia humana, mas não define a nossa individualidade, pois esta é moldada pelas circunstâncias.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Maldonado

Pois, o F. Dias diz que o cérebro não se lembraria de quem foi ou de quem é. Nesse caso, o transplante cerebral desmentira o programa das neurociências, e foi com esse objectivo que o referi. (A tal polémica incendiou de vez com o vídeo.)

Maldonado disse...

É uma questão controversa, pois reduzir tudo à mera biologia, em vez de esclarecer a questão, na realidade aumenta ainda mais o mistério da individualidade...
Quanto à polémica em questão, é inútil, pois, ao fim e ao cabo, tornou-se num coming out para aquele deplorável duo lunático...
O melhor é responder com o silêncio, pois caso contrário é dar-lhes a importância que não merecem...


PS: Já nem me dou ao trabalho de publicar os comentários de tais execráveis criaturas, visto que passaram ao nível da linguagem de caserna... :))

Fräulein Else disse...

Ui. Eu ontem apenas deixei um comment à minha amiga Denise para q os ignorasse e logo uma besta chamada "miguelpontocom" defecou um comentário no meu blog q limpei de imediato. É gente reles. Eu só lamento é a Denise ter comentado no dito post. Se nos formos indignar com a estupidez, ignorância e pior q tudo, malvadez alheias, não faríamos outra coisa. O meu filtro blogosférico é altamente apertado e com os poucos contactos já sou distante; tem de ser levado de forma leve, mas com prudência senão, meus senhores é o descalabro!

Maldonado disse...

@Fräulein Else:
Nem mais!
Felizmente a blogo não é nenhum Zimbabué nem nenhuma Venezuela...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, silêncio, paz e amor! E muita paciência! Durmam bem!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, penso que o post está concluído! O objectivo foi alcançado! A mente é um enigma!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sobre o zombie, a Wikipédia diz o seguinte:

"Um zumbi, também grafado como zombi e zombie (em francês, no Haiti) é tradicionalmente um morto-vivo que foi associado erroneamente ao Vudu, crença espiritual do Caribe. O conceito do zumbi serve também como referência à servidão ou desgaste físico e doença.

"Esta criatura é um ser humano dado como morto que, segundo a crença popular, foi posteriormente desenterrado e reanimado por meios desconhecidos. Devido à ausência de oxigênio na tumba, os mortos vivos seriam reanimados com morte cerebral e permaneceriam em estado catatônico, criando insegurança e medo nos vivos. Como exemplo desses meios, pode-se citar um ritual necromântico, realizado com o intuito maligno de servidão ao seu invocador.

A figura dos zumbis ganhou destaque num gênero de filme de terror no qual essas criaturas manifestam apetite pela carne humana (canibalismo). Nesse caso, o termo morto-vivo (do inglês living-dead), é muito usado."

Ah, também há zombies insectos! :)

Sr disse...

Hello :)


Yep, o F Dias aflorou quase tudo sobre o q se podem considerar as questoes centrais desta problematica da consciencia.e fez-me até lembrar as pp "coordenadas" seguidas pelo a.damásio no "Ao encontro de Espinosa".
Quanto ao que q assumiu conceder à fenomenologia, talvez seja interessante notar que o Nietzsche:), no HDH, aforismo 16 "Fenómeno e coisa em si", relembra por sua vez, que o termo Erscheinung(fenómeno) é a forma nominal de Erscheinen(aparecer) e o seu significado o de "aparecimento" ou "aparição". Ora, se mais tarde se chega à oposições tipo Sein und Schein a partir de exemplos como este...
LOL, já dizia tb o nietzsche, q a metafisica era a ciencia dos erros fundamentais(mas tomados como verdades)

0/

Pino disse...

Mas o que é que isto quer dizer?

"A situação mais curiosa seria aquela em que o traço diz respeito à orientação sexual: Um cérebro gay é recebido por um corpo feminino que viveu experiências lésbicas. Se tivesse sido exclusivamente passivo e hiper-efeminado, o homem gay ficaria feliz por estar a viver num corpo de mulher."

Saberá o autor o que é um homossexual?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Pino

Refiro-me aos homens homossexuais hiperefeminados e absolutamente passivos: apenas a este tipo e ao tipo butch no caso das lésbicas.

Sr

Não sei se o compreendi totalmente, mas essas distinções são complexas: o meu argumento assenta nos dados das neurociências. E é nessa base que deve ser analisado.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tenho estado a lançar o baralho Tarot e tenho um certo jeito para ler as cartas. :)

Jorge Salema disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Jorge Salema

Vejamos o que defende:

1. Sustenta uma opção aceitável de materialismo.

1.1. O seu materialismo não nega a existência da dimensão subjectiva da mente.

1.2. O seu materialismo nega epistemologicamente a acessibilidade desta dimensão a uma esfera de gnose científica entendida no seu sentido positivo. Portanto, não aceita uma abordagem científica da mente consciente.

2. Para si, a mente subjectiva existe na medida em que é percepcionada pelo sujeito.

2.1. A existência da mente é subsidiária do cérebro e do interface neural com outros sistemas do corpo Humano.

2.2. Donde resulta que a mente não existe per si: "a mente não é o cérebro, mas este vivido por dentro".

E, sem avançar com uma explicação de como funciona esse vivido ou como emerge na teia neural, saca esta ideia que não compreendo:

"Logo não é Ser é Visão. Sendo a mente a percepção de certas actividades neurais realizada pelas mesmas, a divisão binómica estanque de congnoscente e cognoscível da episteme de Bacon naturalmente desaba. Mas disto não resulta que a mente seja mais que um processo fenomenológico neural e do seu interface com a realidade exterior captada pelos sentidos."

Portanto, preciso de compreender estas últimas ideias que defende para poder dialogar. Compreendi as teses 1 e 2, e não vejo nelas mais do que uma versão do materialismo. A ideia de interface é interessante: uma conexão que a mente estabelece entre o cérebro, o seu corpo, o meio interno e externo e o mundo dos outros. Mas se o compreendi bem esse interface é apenas um vivido ou uma visão: vivido e visão têm uma ligação estranha, porque quando diz que a mente não é ser mas visão = percepção de dentro - mas dentro de onde? a mente tem um interior? ocupa espaço? - nega-a ou materializa-a. Regressa à sua tese 1: a existência da mente é subsidiária. Portanto, a mente não é, porque depende das actividades do cérebro.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Caro Jorge Salema

Além disso, se a mente é esse vivido de dentro - mas donde? (volto a colocar a questão) -, então coloca-se - o JS - desde logo numa perspectiva aquem da relação de conhecimento, - e este vivido está imbuído de ideologia, de relações sociais, de lingua(gem). O vivido não é puro!

Porém, não compreendi bem se esse vivido é a mente que é também na sua perspectiva visão ou percepção desse vivido. Usando a linguagem que já aqui utilizei, a mente é uma espécie de anjo de WB que aparece na teia neural para finalmente desaparecer de vez. Falta saber como surgiu na evolução e como aparece nesse vivido subsidiário do cérebro. Se é subsidiária, então tem explicação científica. O seu materialismo sem a tal episteme de que falou desaba, porque ao negar a existência per si da mente a entrega ao bisturi científico.

Jorge Salema disse...

Caro J Saraiva de Sousa

Quando diz que não viu no que escrevi mais do que uma versão do materialismo, diz muito bem! É de facto isso que se apresenta.

Apenas peço cautela para não puxar o dito materialismo para a caricatura redutora ou simplista. Admito que esta tentação é favorecida por certo materialismo positivista ingénuo que se estabeleceu na história do conhecimento em determinado período.
Acho que nestes tempos Pós-Modernos já ultrapassamos essas ingenuidades do mecanicismo linear, e já nos podemos lançar numa visão positiva do conhecimento e da sua possibilidade como Popper tão bem sugeriu.

Esclarecendo; Neguei de facto a existência da mente em si mesma. Ao faze-lo pretendi chamar atenção para uma distinção entre a Coisa e a Ideia.
A mente é assim um conceito, existe na medida em que é pensado e partilhado como conceito através de um signo. Não existirá per si.

Não direi que a materializei (para utilizar a sua expressão arguta mas ardilosa•) antes a circunscrevi às ideias. Entenderá que o seu nome é uma coisa diferente de si. Na medida que o Francisco existe como a Lua e outros astros e coisas físicas, ao passo que o seu nome existe apenas como ideia.

Feita esta explicação, sobre o que existe no sentido positivo e o que existe como Ideia, passo a responder:

1. Não expliquei e não me propus a fazê-lo, como a mente emerge da “teia neural,” porque não saberia como fazer isso. Os Neurologistas que o façam em proveito do nosso debate. O meu silêncio sobre isso é consequência da ignorância. Esta não me envergonha muito, pois ao que sabemos, a natureza (os seus processos inerentes) da própria consciência ainda esta a ser estudada, mais difícil é a mente com as suas camadas infra conscientes.

2. Afirmando a mente como percepção, ou cérebro vivido por dentro, acrescentei “visão” devido à natureza caleidoscópica de uma parte da mente – a consciência, que é fenómeno vivido, que se observa a si mesmo desdobrando-se e vigiando-se (sobre este desdobramento vide Fernando Pessoa que a aborda). Aqui reside a hipercomplexidade da mente para o conhecimento, o sentido de si.

3. Na ideia de mente traduzi essa interioridade neural e para complicar não obnubilei que a ela não é estranho o interface com o exterior, da qual depende para funcionar.

4. Sobre ocupar espaço; - pergunta interessante – sim, uma parcela de processos neurais vividos ocupa um espaço intra-craneano.

5. Por fim, conclui bem, a mente não é em si mesma, per si. Ela não resulta de fenómenos ela é um fenómeno.

6. A mais importante consequência disto é que a mente não é permeável à abordagem crítica, á gnose positiva, cientifica. A mente é um engodo, quando concebida fora do fenomenológico. Mas os processos neurais que concorrem à sua percepção, esses que nos dão sempre a ideia que finda a reflexão ainda restam em nós sulcos mais fundos, esses são permeáveis à sondagem.

Não se estuda o fogo. Bem vistas as coisas, o fogo não existe. As coisas é que ardem.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Jorge Salema

Sim, o cérebro tem sexo e género: o núcleo do leito da stria terminalis parece ser esse centro do género: nos transexuais o seu tamanho é igual ou menor ao das mulheres, enquanto nos homens homo e hetero é maior. Daí talvez o desconforto corporal exibido pelos transsexuais. Repare que não identifiquei os transexuais e os homossexuais efeminados, porque estes últimos não exibem disforia de género, aceitando o seu género. Porém, muitos transexuais derivam deste grupo dos homossexuais hiperefeminados que detestam usar ou tocar no seu pénis. E há diferenças genéticas: os polimorfismos dos genes ligados ao transexualismo que tratei noutros posts.

Os "exemplos" são importantes para a minha hipótese que, apesar de tudo, não abdica das neurociências.

(Penso que respondi a tudo.) :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, agora introduziu novos elementos, o que me levará a falar de dois, três ou quatro cérebros, cada um dos quais pode ter a sua própria "consciência". Porém, há um cérebro demasiado rígido que controla o meio interior e as relações do organismo com o meio, enquanto o quarto cérebro - como lhe chamo - é mais espontâneo, sendo ele que garante a tal liberdade de que se fala. Amanhã estarei em melhor condição para tratar desses novos elementos. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Jorge Salema

O meu post move-se no ambito das neurociências, com o objectivo de introduzir alguma dúvida interior ao seu programa de pesquisa.

A consciência foi tratada em termos de propriedades jamesianas e, como uma consciência sofisticada implica a memória, introduzi esses "exemplos" - usando conceitos afins, para introduzir inquietude no programa de neuropesquisa. Muitas dificuldades encontradas nessa pesquisa podem ser resultado desse materialismo demasiado grosseiro que identifica estados mentais e estados neurais, como se houvesse neurónios da consciência. Noutros posts, já falei dos correlatos neurais de certas experiências, mostrando como os estudos de ressonancia magnética funcional implicam aquilo que o programa rejeita de algum modo: participação conscientes dos indivíduos.

Bem, com isto tudo apenas quero dizer que a última versão da mente como ideia ou conceito - mas estes não são a mesma coisa! - viola uma ou outra propriedade jamesiana da consciência - nomeadamente a sua integração quando refere o desdobramento pessoano que não é normal -, a menos que interprete isso como termos consciência de ser conscientes e tentarmos construir um cenário autobiográfico. E, sendo assim, a consciência como fenómeno - além de não poder ter "interioridade neural" - é configuada numa e por uma linguagem que não lhe pertence e da qual se apropria para uso privado. Temos aqui outra propriedade jamesiana: a consciência é privada, não se partilha como sugere. E o fenómeno mais parece ser aqui um epifenómeno dessa interioridade neural de que fala. Penso que deslocou a sua abordagem... para uma visão da consciência como signo, abandonando a consciência primária que partilhamos com outros animais.

Sr disse...

F

"Sr

Não sei se o compreendi totalmente, mas essas distinções são complexas: o meu argumento assenta nos dados das neurociências. E é nessa base que deve ser analisado."



Aludia apenas às questões dos problemas e jogos de linguagem, de como a ciencia, por mt desenvolvida q seja, ter sempre q fazer uso de principios, gramaticas, signos, significações etc, originados eles mesmos de ideias e percepções das coisas e do mundo estritamente humanas... Não ha como dar volta a isto e, por isso, mais q a impossibilidade gnosiologica cientifica q o JS refere, colocava tb as minhas serias duvidas sobre a legitimidade da pp fenomenologia para o estudo da mente.
Mas não q ela tb n esteja já sobejamente alertada para isso, obvio*

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sr

Então rejeita não só a abordagem científica como também a abordagem fenomenológica da mente, porque ambas são jogos de linguagem, usando o termo no sentido que lhe deu Wittgenstein. Uma atitude de cepticismo gnoseológico que nos reconduz para as estruturas objectivadas que moldam a nossa percepção/concepção do mundo e de nós mesmos no mundo com os outros?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

*configuada era "configurada".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A propósito do carácter privado da consciência: esta não se partilha com os outros nem pode ser vista pelos outros. Geralmente, usamos a heterofenomenologia para termos acesso aos estados internos dos outros, que, no caso humano, comunicam linguisticamente connosco, levando-nos a ter em conta o que dizem de si mesmos, embora o uso da linguagem tenha introduzido a mentira no mundo.

Sobre isso prefiro introduzir novos conceitos e começar por falar de efeitos da consciência. A consciência produz efeitos e estes podem ser pensados como efeitos de onda num campo de interacções complexas. (A chamada consciência social ou colectiva é um fenómeno deste tipo.) Este campo é tb um campo de probabilidade!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Enfim, usando um termo da física, podemos dizer que a consciência é, num sentido profundo, um buraco negro: não emite luz. :)

E nunca sabemos o que acontece nela e o seu próprio habitante nem sempre sabe que habita dentro desse buraco negro... :)

Jorge Salema disse...

Caro J saraiva de Sousa,

Fui claro. A coisa positiva e a Ideia da coisa não são o mesmo, tem apenas uma relação vinculativa.

Aceito a existência da mente apenas como conceito. Mas a mente não existe no sentido positivo. Foi tão só o que eu disse. Repare-se que é apenas um conceito usado para nossa conveniência. O que existe são processos neurais percepcionados por outros processos neurais.

Em relação à consciência, tem razão ao dizer que é fluida, é uma ocorrência simultânea de muitos fenómenos neurais. Mas nem por isso os mais significativos. A maior parte deles são subconscientes, associados a zonas reflexas que operam sistemas vegetativos por ex.

E será talvez útil ler-me com mais atenção; a consciência e a mente não são partilháveis, pois a mente é experiencia exclusiva do seu portador. Não insinuo o contrário. É como experiencia irredutivelmente fechada aos outros, que por seu turno, só possuem a sua própria mente como ecrã para ver.

Já os fenómenos neurais percepcionados como “mente” são passíveis de gnose crítica. Podemos incluso, atomizar os processos mentais e adivinhar qual o status mental naquele momento de uma pessoa. Só a experiencia subjectiva nos escapa sempre.

Fácil de entender, não?

Posto isto verá que o materialismo não veda, antes clarifica o objecto de estudo dos processos responsáveis pela consciência ou se quiser pela “mente” mais lato senso. Os processos mentais resultam de estruturas neurais, da forma como elas interagem em cadeia e de como estas se relacionam com partes não nervosas do corpo humano e do meio exterior. Resultam claro está, de um património genético herdado, e por isso analisável à luz da evolução natural. Esta abordagem evolucionista é das mais férteis actualmente em neurociências. Podemos nelas – deixo a ideia como um teaser – vislumbrar a utilidade adaptativa do neocortex, onde colhemos as armas da liberdade.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Jorge Salema

Eu vejo um conjunto de problemas nestas frases:

"Aceito a existência da mente apenas como conceito. Mas a mente não existe no sentido positivo. Foi tão só o que eu disse. Repare-se que é apenas um conceito usado para nossa conveniência. O que existe são processos neurais percepcionados por outros processos neurais."

1ª problema: "Aceito...". Utiliza a 1ª pessoa do singular e tudo isso que implica!

2ª problema: Aceita... mas só aceita a existência da mente como conceito. Mas pode haver conceito sem mente? O conceito é anterior a mente? A mente pode ser vista como um complexo de categorizações sensoriais, motoras, viscerais, perceptivas, etc.

3ª problema: um conceito usado para "nossa conveniência". Mas conveniência de quem? Porque logo a seguir afirma o seu materialismo:

4º problema: "O que existe são processos neurais percepcionados por outros processos neurais." Isso não diz nada: matéria que "percepciona" matéria tem consciência? Ou está a atribuir à matéria uma propriedade oculta? A emergência da consciência não foi explicada e a experiência subjectiva permanece um milagre. Repare que se o materialismo fornecesse uma explicação viável ela já tinha dado frutos, mas ainda não deu, apesar dos esforços. No fundo, a questão da mente consciente foi iludida. Porque não "aceita" abordar novas alternativas? Os argumentos da coisa e do nome, da coisa e da ideia da coisa, não me convencem, porque pressupõem uma consciência de ordem superior, aquela que estamos a utilizar neste momento. Porém, existe a consciência primária e esta não é apenas privilégio do homem. O materialismo ilude uma solução, mas não explica efectivamente a consciência.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E mesmo que o seu materialismo encare a consciencia como evanescência - resultante ou coproduzida por redes neurais fortemente ligadas - não consegue explicar essa evanescência: como processos neurais se transformam em processos mentais?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E já viu que a consciência não tem consciência da complexidade neural donde supostamente resulta? A noção de inconsciente precisa ser reformulada: o cérebro visceral e neurovegetativo é outro assunto ligado mas diferente.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O JS diz:

"os fenómenos neurais percepcionados como “mente” são passíveis de gnose crítica".

Mas percepcionados por quem? Por outros circuitos neurais? Por instrumentos fabricados para esse propósito pelas mentes humanas? Eu percebi a sua ideia, se assim posso falar e escrever, mas não a acho congruente consigo mesma, nem com a concepção que ontem apresentou da mente como vivido de dentro. A mente é um ecrã para ver o quê? E quem vê? A mente que é ecrã vê-se a si mesma no ecrã que é? Não soa bem...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E, se o ecrã é uma rede de neurónios, como exige o seu materialismo, a mente não os vê, o que significa que essas redes neurais não se vêem a si mesmas, nem podem ver a mente que supostamente produzem. Mas a mente aberta ao mundo produz instrumentos que permitem visualizar essas redes neurais que "habita".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Agora a brincar: Quando deitamos neurónios frequinhos para o lixo, eles devem pensar - que tipos ordinários estes que nos deitam no lixo e, caso estivessem na posse de um aparelho fonador, traduziam esse pensamento num enorme grito de protesto e em prole do direito dos neurónios à vida. :)

Jorge Salema disse...

Boa tarde Francisco,

Veja que emperrou na questão secundária, que é a mais simples do raciocínio que esbocei.

Como saberá “ganbuzinos” são plantas ou bichos imaginários com que se enganam os tolos. Pessoas maldosas apanham assim os desprevenidos, convidando-os a caça-los ou a colhe-los pelos campos. Mas de certa forma “gambuzinos” existem como conceito, embora não se achem em parte alguma fora da linguagem. Foi assim que aceitei na primeira pessoa e cheio de coragem a existência da mente!

Prefiro dizer “processos neurais percepcionados” como forma mais correcta de designar a realidade que chamam mente. Esta percepção subjectiva é, claro, realizada pelos mesmos processos. Como as bonequinhas russas que se abrem para nelas se descobrir outra bonequinha mais pequena.

Sobre a consciência, ai temos um problema cimeiro para a ciência. Ela será um fenómeno complexo que ocorre no interior do cérebro e que radica na simultaneidade correlata de fenómenos perceptivos, nemésicos e outros.

Interessante a sua referência à consciência primária de animais. Ou mais correcto; a percepção de awareness . Como encaro apenas fenómenos neurais acredito na justeza de formulações de “mente” intra-especificas e não Humanas.
Sobre a aceitação de novas alternativas; venham elas! Mas até agora o materialismo na acepção que explanei afigura-se-nos a melhor abordagem.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Olá JS

Talvez o dualismo interaccionista seja mais interessante, até porque permite continuar a sonhar acordado para a frente e para adiante, sem nos reduzir a zombies manipulados por algum maquinista cego e bruto. :)

Jorge Salema disse...

ERRATA.

Onde se Lê "intra-especificas" ler " inter-especificas".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Que já são estudadas pela etologia cognitiva!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Apetece-me gritar...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Vou tornar-me engenheiro informático, porque um deles colocou meu blogue em vídeo. Agora negocio com ele para não ser difundido. Apetece-me gritar com ele. :uuuaaaaauuuuh

Jorge Salema disse...

Qual o problema? O que se pretende de um Blogue? Não é que se difunda? Em video melhor. Talvez mais apelativo. Ora deixe de gritos! :)

Fräulein Else disse...

ahah! O Francisquinho sofre ocasionalmente de ataques histéricos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Else

O problema não é esse que aponta, até porque somos amigos, mas a falta de tempo para fazer face a estas tarefas da Internet: o gritar era uma metáfora.

Jorge Salema

Vou ver se desconstruo a tal transformação fenomenal: o meu problema reside no modo como poderei apresentar as teses sem recorrer ao conhecimento profundo do sistema nervoso, porque a maior parte dos leitores está a leste destes assuntos. Com tempo irei fazer isso e solucionar de algum modo essa dificuldade...

Fräulein Else disse...

"Else

O problema não é esse que aponta, até porque somos amigos, mas a falta de tempo para fazer face a estas tarefas da Internet: o gritar era uma metáfora."

Francisco

O problema n é esse que aponta, até porque o Francisco nunca percebe humor nem ironia, ainda bem q só somos amigos virtuais, pq na realidade deve ser muito chato, e deve fazer gritar os outros de tédio.

;)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Este comentário é dirigido para o senhor que anda a atacar aquilo que chama gayzismo e que já comentou dois ou três posts meus.

1. Resolva o seu problema de homofobia.

2. Estude o princípio de identidade e não faça um uso errado desse princípio, confundindo coisas diferentes.

3. Se está seguro da sua sexualidade, não queira controlar a dos outros.

4. A pessoa que elogia pode ser um homem: não seja ingénuo!

5. Sim, fui eu que forneci o link onde me "ataca", atribuindo-me coisas que lhe pertencem a si e não a mim. Disse ataca e bem, porque não soube criticar cientificamente o conteúdo dos posts em causa.

6. Não tem autoridade para falar em nome da medicina e da psiquiatria: reduza-se à sua mera opinião de leigo.

7. Se é homófobo, trate das mulheres e deixe os outros em paz: edite fotos de mulheres nuas e a "mamar cacetes", em vez de colocar homens a ser penetrados.

8. A zoofilia não tem nenhuma ligação com a homossexualidade. Quando falar de parafilias, faça antes trabalho de casa: informe-se.

9. Afinal, gayzista é o senhor que, em vez de assumir o gay que há em si, procura domesticá-lo, atacando os homossexuais que vivem a sua vida em conformidade com a sua orientação sexual genuína.

10. Toda a sua linha de pensamento é totalitária e fascista: vc não tolera a diferença - a dos outros e a que o habita. O sinal disso reside no facto de falar em "matança de homossexuais" e de induzir a violência. Comporta-se como um inquisidor. Não transfira para os outros os seus próprios problemas pessoais de identidade.

11. Homofilia não é o mesmo que homossexualidade, até porque há homossexuais latentes ou veladamente praticantes que não são homófilos.

12. Fala contra a cultura gay mas cita como referência homens que foram abertamente homossexuais: parasita-os! Vc é um paradoxo para ser resolvido pela Escola de Palo Alto. Baahhhhh

Fräulein Else disse...

Quanto aos homofóbicos sofrem todos de um problema crónico que é: caralho miúdo. E esse miguelpontobesta volta a deixar um comment no meu blogue ou a dirigir-se a mim noutros blogues, e quem lhe arranja uma visita de 2/3 gajos que lhe vão ao focinho sou eu.

Não se meta cmg, pq claramente n sabe quem sou. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Porém, como sou de cultura democrática e liberal, dou-lhe publicidade, senhor gayzista de si mesmo:

http://espectivas.wordpress.com/2009/03/14/agenda-politica-gay-%c2%abquem-nao-e-homofilo-e-%e2%80%9clele-da-cuca%e2%80%9d%c2%bb/

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ya, não dá para compreender estas cucas desfalecidas... Fogem de si mesmos...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, ou então - senhor gayzista - exiba o seu falo e o seu companheiro omisso mas sedento de desejo: deixe o falo dos outros em paz. Cuide da sua própria vida sexual! Controle sua pila; não queira controlar a dos outros, até porque não tem tusa para satisfazer todos os recursos que pretende roubar aos outros. A sua luta é ridícula!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, Else, o seu comentário que ele citou no post da Denise foi sacado daqui.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E outra coisa senhor gayzista de si mesmo:

Já reparou que os homossexuais não andam a atacar os heterossexuais, chamando-lhes heterozistas ou coisas do género? Sintomático: a heterossexualidade não os preocupa, mas a homossexualidade preocupa aqueles que sentem uma atracção erótica compulsiva por pessoas do mesmo sexo, atracção que querem negar eliminando os alvos que despertam esse desejo secreto e não-assumido! Homofobia é doença! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Senhor gayzista de si mesmo:

Ou em linguagem directa e forte:

A sua pila deseja aquilo que lhe nega e, como não consegue reprimir o seu despertar pelos estímulos sexuais do mesmo sexo, quer eliminá-los fisicamente - a tal matança de homossexuais de que fala. Vc é um hitler...

Maldonado disse...

@J. Francisco Saraiva de Sousa:
O tal gayzista aspira a ser o Jorg Haider português... :))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Maldonado

Ya, tem mesmo tudo fechado, mas deve ter fechado com a publicação do último post. Não consegui colocar lá um comentário. Mas vou estar atento, porque ele é mesmo reaccionário.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, o gayzista que luta contra o seu próprio fantasma colocou no fim do post o email: a porta aberta para a sexualidade virtual ou talvez para o insulto. :O

Fräulein Else disse...

Deve ser mesmo para a sexualidade virtual, pq a pila dele deve ser tao microscópica q n satisfaz nenhum c* nem nenhuma vagina.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, Else, trata-se da janela que lhe permite - ao gayzista - exibir a sua "arte de apanascamento", para usar um termo dele, isto é, do "panasca".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Porém, lendo por alto a produção do gayzista ou do pseudogayzista - tanto dá -, percebemos que o alvo político dele é José Sócrates: ele usa o tema da homossexualidade não só para atrair os jovens e os homens gay (motivo que alega para ter fechado os comentários), mas também para chamar "panasca" ao PM e para fazer oposição de direita laranja podre ao governo e à esquerda em geral. Embora não escreva mal, usa a filosofia de um modo abusivo para chamar aos outros aquilo que ele é - um "panasca".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Enfim, para aquela mente mórbida, como diria W. James, a cultura de esquerda é cultura gay. A cisão psicológica que o atormenta internamente leva-o a esta situação caricata: projecta para fora o fantasma que ele é e que deseja secretamente consumar, talvez dando o email. A sua luta contra a esquerda projectada é, afinal, uma luta interna. Que alma triste e doentia a desta criatura desalmada!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Não há outra maneira para compreender essa homofobia a não ser nestes termos: o que leva uma pessoa a insultar os outros - chamando-lhes "panascas" - que não são como ela a não ser um conflito interno? Porque razão a sexualidade diferente dos outros os incomoda tanto a ponto de serem violentos física e verbalmente? A homofobia só pode ser entendida como negação da sua própria homossexualidade!

Fräulein Else disse...

Sim qd se ouve/lê esses termos: "pretos", "panascas", "putas" - qd se fala das mulheres, etc., revela medo, medo da mudança. São por princípios "conservadores", mas no mau sentido, porque o pensamento precisa de ventilação para se poder exprimir e circular, e eles cortam o ar, putrificam, em vez de conservarem. :(

Viva a liberdade! (a minha palavra preferida) Vivam as pessoas emancipadas. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Exacto: as mulheres casadas com estas criaturas homofóbicas são forçadas a procurar satisfação sexual fora da relação. Porquê? Porque os maridos são "panascas" não-assumidos. Que nome eles dão a estas mulheres? Sim, esse mesmo - "put*". Logo, o heterosexismo pode ter uma vertente homofóbica: os castrados mentais querem castrar os outros - mulheres e homens.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O contra-natura do gayzista é ele próprio... e não os outros, homens e mulheres livres.

Mudando de assunto, ainda não vi o Sr!

Fräulein Else disse...

Sim, n conseguem lidar com a sua sexualidade, por isso n percebem a dos outros e são maus amantes.
Por isso é q bom as meninas procurarem homens um pouco femininos. Homem q é mto "macho", é sempre egoísta e mau amante.
É verdade, confiem em mim.

Elsa dixit.

Fräulein Else disse...

Francisco tem saudades do Sr.
O Sr. deve estar a ouvir música. Eu vou ali até à zona mai linda de Lx: Belém. Xau.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ok, aproveite para comer um pastel de Belém, que eu vou ler Hyppolite em espanhol: uma prendinha que me deram.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Jorge Salema

Não sei se conhece a "Fenomenologia do Espírito" de Hegel, onde o mestre trata aquilo que humanamente nos interessa, usando uma outra fenomenologia. A secção CAA Razão, V Certeza e Verdade da Razão, a e b, apresenta uma crítica da frenologia que tem relevância para este tema tratado neste post. Já o analisei algures, mas não me lembro em que post. Essa crítica hegeliana da razão observante é também uma crítica da ciência matemática da natureza: a mecânica de Newton. Hegel usa a imagem da ossificação quando se refere à frenologia: espírito ossificado. Bem pensado!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A fenomenologia hegeliana tem afinidades com a fenomenologia husserliana, porque ambas procuram ir às próprias coisas, embora a primeira seja superior no sentido de ser uma história concreta da alma ou consciência, desde a sua saída da caverna até à sua ascensão à ciência. A fenomenologia é uma ascese necessária da consciência para atingir o verdadeiro conhecimento filosófico. A filosofia da ciência - a de Newton - procura eliminar o subjectivo, enquanto a fenomenologia hegeliana o liberta, conduzindo-o por um itinerário até ao conhecimento. O itinerário é um desespero efectivo. O texto de juventude de Hegel faz um distinção entre o cepticismo moderno e o cepticismo antigo. O cepticismo moderno - o positivismo - procura demolir a metafísica sem tocar nas certezas do senso comum. O cepticismo antigo procura demolir essas certezas, num movimento de purificação da consciência ingénua, de modo a levá-la a superar os seus erros: uma introdução a metafísica. Hegel não é um anti-empirista; pelo contrário, é um empirista mas não é um empirista ingénuo. O positivismo que ainda domina o projecto fisicalista é uma filosofia da regressão, que reduz o vivo ao morto, o complexo ao simples... Uma nova hermenêutica de Hegel permite compreender melhor o tema deste post, bem como o nosso tempo indigente e corrupto que tudo faz para manter prisioneiros os homens na caverna do consumo e da imbecilidade dos seus governantes-pastores de rebanhos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, há um problema que surge sempre que alguém tenta resolver o problema mente-cérebro, adoptando desde logo uma atitude reflexiva extremamente idealista: procurar constituir o mundo a partir da perspectiva do homem interior. É uma atitude pouco fenomenológica: em vez de se abrir ao mundo, fecha-se ao mundo, iludindo-se. O homem está no mundo e é no mundo que ele se conhece. Voltar a mim é encontrar-se consagrado ao mundo e aos outros. É preciso ter uma certa cautela com a experiência na primeira pessoa: ela não é pura. O ponto de vista da primeira pessoa não é puro e é aqui que reside uma das dificuldades do Fernando Dias...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

No seu último post - relação mente-mundo (A Fisga)-, Fernando Dias saca esta conclusão geral:

"Na relação mente-mundo não tem que haver uma exterioridade para o mundo e uma interioridade para a mente. Na concepção de experiência de segunda pessoa não faz sentido exterioridade e interioridade, pois há só uma realidade.

"A mente é uma relação no mundo. Estar no mundo não é estar dentro da cabeça. Na relação no mundo não há interfaces, não há limites entre o que é mente, ou o que é cabeça, e o que é mundo."

Embora tenha dito coisas interessantes sobre o problema mente-mundo, Fernando Dias anula-as nestes dois parágrafos e isto porque recorre à noção estranha de experiência de "segunda pessoa" - o tu? - que mistura com uma concepção arcaica da linguagem como expressão do pensamento que implica um interior e um exterior que ele pretende ter superado com a segunda pessoa. Em vez de dizer que há mundo, ao qual a mente é aberta, Fernando Dias afirma que há uma única realidade, mas esta afirmação acaba por ser idêntica ao positivismo que pretende ter exorcizado. Existe sempre a interface entre a minha mente encarnada no meu corpo e o mundo que me circunda. Certo, a mente não ocupa espaço na cabeça, mas o seu alcance é confinado pela superfície do seu corpo. A mente não se difunde nessa relação no mundo; mente é corporizada e, enquanto tal, é no mundo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

As distinções que o Fernando Dias faz entre primeira pessoa e terceira pessoa, entre epistemologia e ontologia, são distinções metafísicas no sentido de serem absolutamente estáticas, não levando em conta a própria história da mente consciente na sua abertura essencial ao mundo. A tentativa de as superar com a segunda pessoa não é dialéctica, mas dogmática: a consciência não é apenas consciência de si, mas também e desde logo consciência do objecto. O positivismo e o dogmatismo da análise reflexiva foram superados por Hegel, que permite ver o mundo-aí de outra forma, não como um simples exterior, mas como um resultado...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

No entanto, quando nomeia a segunda pessoa, o Fernando Dias introduz a luta, desde que essa segunda pessoa seja usada no plural, o que nos reconduz à dialéctica do senhor e do escravo e à luta pelo prestígio de Hegel, mas já estamos com isto num outro terreno: o da história.

O problema reside no facto das pessoas tentarem resolver o problema mente-cérebro-mundo numa perspectiva instrumental: dominar a mente tal como se domina a natureza. O conhecimento como posse e, neste caso, como posse das experiências subjectivas do outro. Ora, a indústria cultural já é uma tentativa de realizar essa posse: indústria da consciência, indústria psico-técnica, manipulação. Para a ciência instrumental, só se pode conhecer aquilo que é susceptível de ser manipulado. Eis o interesse cognitivo que a move: a dominação.

Nós como seres conscientes ou seres mentais sabemos muita coisa sobre a mente e a mente consciente, mas alguns de nós o que querem não é esse conhecimento emancipador, mas sim dominar a mente dos outros, instrumentalizá-la. Isto não significa que a ciência seja o diabo; significa apenas que devemos criticar a filosofia espontânea dos cientistas que se apoderou da ciência. Uma das missões da filosofia poderia ser esta: dar à ciência uma outra filosofia de modo a responsabilizá-la pelo mundo comum.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, as distinções entre epistemologia, ontologia e causação reconduzem-nos para a obra de John Searle. São distinções entre respostas dadas a estas questões:

1. a ontologia responde à questão "O que é isto?";
2. a epistemologia responde à questão "Como podemos tomar conhecimento disto?": e
3. a causação procura solucionar a questão "O que causa isto?".

Com estas distinções, Searle procura demolir o materialismo, embora ele seja também um materialista ou, como diz, um naturalista biológico. A afirmação - o cérebro causa fenómenos mentais - é materialista e a solução dada pela causação é adiada, isto é, o materialismo é sempre adiado.

Searle combate a atitude objectivadora das soluções materialistas, segundo a qual a única forma científica de estudar a mente é vê-la como um conjunto de fenómenos objectivos. O carácter de terceira pessoa da epistemologia cega-nos para o facto de que a ontologia efectiva dos estados mentais é uma ontologia de primeira pessoa: os estados mentais são sempre estados de alma de alguém. A noção do mental depende da noção de consciência. Nem toda a realidade é objectiva; há também a realidade subjectiva: ontologia dos estados mentais é subjectiva. Searle capta noções importantes, mas não as consegue levar a bom porto, porque é prisioneiro do naturalismo biológico que o impede de apreender a natureza social da própria mente, bem como o seu desenvolvimento. Searle filosofa sem conhecer a história da filosofia e as suas problemáticas: ele quer parir uma filosofia a partir da sua cabeça dotada apenas de noções de análise linguística ou lógica. Esta sua teimosia invalida o seu próprio contributo para a clarificação do problema mente-cérebro: o alguém que escreve o que ele escreveu é um produto social, não só pela via do corpo, mas fundamentalmente pela via da mente. Além disso, a ontologia subjectiva implica outra epistemologia - ou talvez uma hermenêutica -, mas Searle está prisioneiro da concepção científica do mundo que é materialista, como se sabe. E esta cega-nos mais do que nos ilumina!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, estou a refazer dois dos meus blogues, o que implica alterações nos outros. O de ciberfilosofia passou a "CyberPsicologia e Comportamento Sexual", e o de neurofilosofia, a "Neurociências e Filosofia da Mente".
A matriz deles todos é CyberCultura e Democracia Online, mas terão um toque peculiar, com artigos originais ou substancialmente modificados. Outras novidades poderão surgir: depende do tempo disponível. CyberPhilosophy e NeuroFilosofia continuam na mesma com a sua autonomia.

Armei-me em engenheiro e fiz um clip: ficou uma porcaria. Tenho de aprender mais ou estar mais atento.