sábado, 19 de julho de 2008

Economia Sexual e Violência Conjugal

Em Portugal, a violência conjugal é um fenómeno cada vez mais frequente, banal e ubíquo, e, devido à regressão mental e cognitiva e ao atavismo cultural, está normalizada. No entanto, ainda não foi alvo do reconhecimento social e jurídico-político: a violência conjugal constitui um problema social importante. Os portugueses têm esse hábito terrível que é omitir tudo aquilo que os revele na sua verdadeira essência ou fingir que nada de grave se passa com eles. Quando se tomam algumas medidas legislativas, estas são claramente discriminatórias: a violência doméstica é vista como um fenómeno que ocorre unicamente no seio de casais heterossexuais. Portugal silencia as suas "vítimas" para manter o seu auto-retrato de um «país de brandos costumes», apesar dos meios de comunicação social exibirem diariamente imagens e notícias de violência preocupante, incluindo homicídios com contornos muito violentos e macabros.

Apesar das dificuldades teóricas, metodológicas e sociais, já existem muitíssimos estudos (Neilson, 2004; Brand & Kidd, 1986; Burke & Follingstad, 1999; Bryant & Demian, 1994; Gardner, 1989; Bradford, Ryan & Rothblum, 1994; KurdeK, 1994; Marrujo & Kreger, 1996; Merrill, 2001; Miller et al, 2001; Poorman & Seelau, 2001; Renzetti, 1992) que mostraram que os incidentes de violência ocorrem frequentemente tanto nos casais heterossexuais como nos casais homossexuais (11-12%). Estes estudos refutaram a premissa de que a violência é perpetrada somente por homens sobre mulheres heterossexuais e sugerem que a violência doméstica constitui um "abuso de poder" que pode ocorrer em qualquer tipo de relação íntima, independentemente do género ou da orientação sexual (Rohrbaugh, 2006).

Além disso, os tipos de violência, muito sumariamente, o abuso físico, o abuso sexual e o abuso psicológico, entre outros, são similares em todos os casais, excepto no facto das vítimas do mesmo-género sofrerem frequentemente de stress adicional devido ao seu isolamento social e jurídico e ao medo de que o abusador(a) possa expor, de modo hostil, a sua (das vítimas) orientação sexual. Aliás, em Portugal, as vítimas tendem a silenciar os abusos que sofrem nas suas relações íntimas, até mesmo das famílias, talvez porque, neste país, algumas das características extravagantes dos abusadores (infidelidade conjugal, agressividade, falsas imagens de masculinidade, alcoolismo, homofobia suspeita, o ditado segundo o qual "entre marido e mulher não se deve meter a colher", heterosexismo irracional) sejam admiradas e incentivadas publicamente.

As características dos abusadores parecem ser similares em todos os tipos de relações. Geralmente, os abusadores têm uma história de doença mental grave e sofreram abusos sexuais durante a infância. Os abusadores também são emocionalmente dependentes, sentem-se impotentes, tendem a responsabilizar os outros pelos seus problemas e usam a violência como um meio para impor poder, controle e dominação nas suas relações íntimas. É provável que o tipo de violência seja mais suave nos casais do mesmo-género do que nos casais de diferente-género, mas alguns estudos mostraram que a violência do mesmo-género não se reduz somente ao abuso ou terrorismo íntimo, mas abrange igualmente o uso de violência física e psicológica para dominar, controlar, intimidar e degradar o parceiro(a).

Uma meta-análise dos estudos disponíveis mostra claramente que os homens e as mulheres iniciam tais actos de violência íntima na mesma proporção, embora os homens possam causar mais danos graves (Archer, 2000). As ligações entre a actividade sexual e o abuso masculino, feminino ou recíproco, foram estudadas por DeMaris (1997) numa amostra de casais violentos. Embora o sexo fosse relativamente raro durante os episódios de violência, estes casais têm, em geral, mais relações sexuais que os casais não-violentos. Esta elevada frequência de actividade sexual parece reflectir um padrão no qual a vítima pode tentar apaziguar ou aplacar o parceiro violento através da oferta de sexo. DeMaris descobriu uma assimetria nos padrões de apaziguamento sexual: a elevada sexualidade era somente observada nos casos em que o marido era violento. Os casais com mulheres violentas não exibiam elevadas taxas de sexo.
Ora, esta assimetria confirma a teoria da troca social, segundo a qual o sexo é algo que as mulheres oferecem aos homens. Uma vítima feminina de violência pode frequentemente apaziguar ou aplacar o seu marido violento através da oferta de sexo-extra ao seu parceiro. Pelo contrário, uma vítima masculina não pode escapar à violência através da oferta de favores sexuais à sua mulher violenta. Isto significa que, até mesmo neste contexto de violência doméstica, a sexualidade feminina possui um valor para a troca social, enquanto a sexualidade masculina carece de valor.
Dois estudos providenciam duas versões institucionalizadas da troca de sexo para reduzir a vitimização violenta. Quando a Austrália era uma mera colónia penal, o açoite público severo dos condenados era uma forma comum de punição das infracções graves. As mulheres condenadas tinham uma opção: se concordassem permanecer nuas durante a punição, podiam ver reduzidas para metade o número de golpes (Hughes, 1988). Isto pode significar que a exibição dos corpos nus dá prazer aos observadores. Os prisioneiros masculinos não tinham essa opção e, por isso, as suas sentenças não eram apaziguadas ou reduzidas. Actualmente, nos EUA, alguns gangues de jovens iniciam os novos membros através do seu espancamento pelos membros do gangue. Porém, as mulheres têm a opção de ser "sexed in", isto é, de ter relações sexuais com qualquer membro do gangue, em vez do espancamento grupal (Miller, 1998). Neste caso, o sexo é visto como um recurso feminino e os homens não têm outra alternativa a não ser sofrer o espancamento físico, porque não têm nada para oferecer. O valor de troca da sexualidade feminina possibilita às mulheres usar o sexo para reduzir o número de açoites que deviam sofrer. Aliás, em Portugal, muitas mulheres oferecem sexo para obter "cargos universitários" ou outros privilégios profissionais.
Os dados da minha pesquisa de campo revelam uma associação forte entre o abusador e o seu papel sexual preferido: os homens gay sexualmente activos e as lésbicas butch tendem a usar mais a violência física do que os seus parceiros com preferências sexuais complementares às suas. A maior parte dos casais do mesmo-sexo diferenciados sexualmente revela uma assimetria idêntica àquela observada nos casais heterossexuais violentos: elevada frequência de actividade sexual, nudismo e terrorismo íntimo: os parceiros sexualmente atípicos oferecem sexo-extra para apaziguar a agressividade do parceiro violento e, muito frequentemente, são alvo de práticas sexuais humilhantes. Contudo, nos casais homossexuais masculinos, a escalada de violência pode ser muito grave, porque as vítimas tendem a defender-se mais do que as vítimas heterossexuais. O isolamento social é favorecido pelo abusador e a vítima pode ficar completamente isolada no mundo, até mesmo da família e dos amigos, e perder a oportunidade de uma vida profissional segura, com graves efeitos na sua saúde.
Os espaços residenciais deveriam garantir intimidade, segurança psicológica e socialização. «Estar em sua casa» significa dispor de um espaço pessoal que, por um lado, se pode assinalar com a sua marca e que, por outro lado, delimita um território inviolável sobre o qual se exerce um direito. Desta ideia destacam-se dois aspectos funcionais: a protecção contra o mundo exterior (função de protecção) e o apego a um lugar, factor de um sentimento de identidade (função de ancoradouro). No universo doméstico, a vida de cada pessoa não deve ser perturbada de maneira imprevisível, mais ou menos brusca ou violenta, por perigos que transformariam esse espaço numa espécie de lugar estratégico que obrigasse a defender-se permanentemente de tal ou tal ameaça eventual. No entanto, quando se partilha a habitação com outras pessoas, em particular com o companheiro, a vida de cada um pode ser perturbada, de maneira mais ou menos violenta, pelo próprio companheiro e/ou pela intromissão de terceiros. É frequente um dos membros do casal chegar a casa e surpreender o seu companheiro na cama com outro indivíduo ou ser espancado e agredido pelo companheiro. Nestes casos, a habitação deixa de ser um espaço de segurança e transforma-se num espaço de humilhação: os casais homossexuais em que um dos membros não «alinha em esquemas a três», enquanto o outro anda sempre à procura de novas experiências sexuais, tendem a viver num clima de permanente tensão e de agressão.
Apesar da sua inclinação sexual promíscua, muitíssimos homossexuais de ambos os sexos estabelecem uniões estáveis, fechadas ou abertas. Muitos destes casais têm uma vida conjugal normal, semelhante ou mesmo superior à dos casais heterossexuais normais, mas outros vivem em conflito permanente, com episódios regulares de violência doméstica. Os incidentes de violência doméstica ocorrem com a mesma frequência nos casais homossexuais como nos casais heterossexuais. Os tipos de violência doméstica são similares em todos os casais, embora a violência do mesmo género tenda a constituir terrorismo íntimo. As suas vítimas tendem a defender-se das agressões mais vezes do que as vítimas do género oposto e esta elevada reactividade leva frequentemente a uma escalada de violência física (Pitt & Dolan-Soto, 2001).
As avenças conjugais começam quando um membro do casal descobre que o seu companheiro o traí frequentemente ou quando este procura negociar uma relação aberta. Quando após longa negociação concordam em abrir a relação a terceiros, o casal pode comprometer-se num tipo de ligação em que ambos se envolvem sexualmente com terceiros, não devendo nenhum deles fazer sexo sem a participação do outro, ou numa ligação do tipo «cada um por sua conta». Mas, independentemente do tipo negociado de abertura do casal, estas relações abertas tendem a gerar situações de conflito, inveja e ciúme, conduzindo frequentemente à violência psicológica, sexual e física, ao mesmo tempo que desgasta a qualidade do sexo conjugal. A relação torna-se abusiva e um dos membros adquire mais poder e controle sobre o outro, sobretudo quando este está numa situação social vulnerável e precária. Este poder é usado de um modo que prejudica o outro e lhe provoca medo.
Geralmente, os abusadores conseguem isolar o seu companheiro dos amigos, da família e da comunidade gay, tornando-o mais dependente. Este isolamento é acompanhado frequentemente por outros comportamentos de abuso, incluindo agressões físicas graves e destruição do património. Estes padrões de abuso isolam efectivamente a vítima, reduzem a sua auto-estima e geram medo. Com as vítimas isoladas, os abusadores tendem a procurar mais sexo ocasional com múltiplos parceiros e/ou a sair regularmente com «amigos coloridos» e a manter relações paralelas, a que chamam «amizades coloridas». Quando procedem deste modo, os insultos começam a ser acompanhados por agressões físicas de todos os tipos. Paradoxalmente, muitas destas relações violentas não se dissolvem e tendem a durar, através de renegociações que objectivamente não alteram o ciclo de violência doméstica. Os casais que andam juntos no engate agridem-se frequentemente em lugares públicos, por causa da escolha do terceiro elemento e, quando fazem sexo com terceiros, um deles fica sexual e emocionalmente prejudicado. Com a excepção de uns poucos casos de agressões físicas públicas, provavelmente desencadeadas sob o efeito do álcool ou de drogas (cocaína), os abusadores da nossa amostra não revelaram um padrão de associação com o uso de drogas, mas de associação com baixa auto-estima e comportamento sexual compulsivo.
Outros padrões de abuso frequentes são insinuar que o companheiro é gay, incitá-lo e/ou forçá-lo a frequentar os circuitos de engate gay, tentar prostitui-lo, fazer periclitar o seu emprego, destruir os seus bens ou propriedade, insultá-lo com palavrões ofensivos e preconceituosos, fazer sexo de modo a magoá-lo ou feri-lo, fazer "chupões" em zonas do corpo visíveis, culpá-lo por todos os problemas, controlar o seu dinheiro e gastos, enfim usar abusivamente os seus bens.
As vinculações dos casais gay são muito mais fixas e permanentes do que as dos casais de lésbicas, que, pelo menos em Portugal, dissolvem mais rapidamente a relação quando surgem dificuldades, além de serem menos duradouras. Os casais gay resistem ao tempo, com durações observadas de muito mais de 16 anos, e à violência doméstica. Os abusadores justificam-se perante as vítimas, dizendo-lhes «ando com outros mas não te troco por ninguém». Além de revelar mais um aspecto da dissociação entre afectividade e sexualidade, este dado sugere que os abusadores temem perder os seus companheiros.
Numa sociedade homofóbica, as vítimas do mesmo sexo ficam sozinhas, entregues a si mesmas e às agressões do parceiro, social, legal e policialmente isoladas, como os judeus de Arendt. De facto, «a psique humana pode ser destruída mesmo sem a destruição física do homem» e, em muitos casos o terror heterosexista português leva as suas vítimas à morte sem designar tal acto como suicídio. Esta ausência de homofilia (Weinberg, 1977) é um problema preocupante da sociedade portuguesa, que mata jurídica, moral e individualmente os homossexuais. Nenhuma instituição apoia as vítimas do mesmo sexo. Apenas a Internet possibilita o seu desabafo e, se não fosse ela, teríamos negligenciado um dos problemas preocupantes da vida quotidiana dos casais homossexuais.
J Francisco Saraiva de Sousa

26 comentários:

Manuel Rocha disse...

Já volto para uma releitura mais atenta, mas para já apeteceu-me deixar-lhe uma questão.
Quando afirma que o fenómeno é "cada vez mais frequente" qual é a referência de comparação que utiliza ?
Explico-me: tenho a sensação que em relação a muitos fenómenos que hoje merecem particular atenção e portanto são objecto de estudo, o que mudou é a visibilidade que por essa via lhes é dada, e não necessariamente a realidade sobre a qual incidem.
Recordo a proposito ter lido há algum tempo uma noticia que reportava para um estudo em que se demonstrava o aumento da incidencia do cancro do pulmão em Portugal nos ultimos trinta anos. E em lugar nenhum vi esclarecido se se tinham mantido identicas as capacidades de diagnóstico. Não estaremos perante caso semelhante ?
Depois, há outra questão: o conceito de violência manteve-se ou altereou-se ? Há cinquenta anos uma chapada anual seria considerado violência e reportada como tal ? Tenho dúvidas...

Abraço

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

Sim, a visibilidade mudou: tornou-se mediática e brutalmente visível nos espaços públicos e comerciais.

Sabe que não sou muito sensível aos argumentos do construtivismo social e cultural. Pode haver um certo exagero ou excesso de medidas estúpidas de controlo e de regulação, mas estes fenómenos estão preocupantemente banalizados e merecem estudo sério, dado estarem associados à regressão mental e cognitiva. O que está em causa não é uma bofetada anual, mas um padrão de comportamento quase diário.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Quero agradecer os convites que alguns professores universitários do Brasil me têm feito. Muito obrigado pelo vosso interesse e simpatia.

Aqui em Portugal predomina a corrupção universitária e o cunhismo maldoso e medíocre. Fico feliz por ser algo diferente no Brasil. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ontem fiquei chocado com o que António Costa disse sobre a habitação na "Quadratura do Círculo": muito pouco social-democrata ou socialista. Aliás, revelou não compreender o espírito da verdadeira social-democracia... :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Socialistas deste tipo deviam ser dispensados do Partido Socialista!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Em matéria de habitação, um verdadeiro socialista deve partir de um facto e de um direito.

Facto: todos os terrenos são propriedade privada ou pública de alguém. O capitalismo apropriou-se de tudo, criando necessidades e dependências onde elas não existiam.

Direito: todo o ser humano precisa de uma habitação, de uma casa, e a Constituição portuguesa ainda garante esse direito à casa.

Em Lisboa ou no Porto, os bairros da lata foram demolidos. Convém ter em conta que essas habitações foram construídas pelos próprios habitantes e com os recursos que tinham. Exibiam alguma autonomia e competência: o homem constrói a sua própria casa. Estes bairros foram substituídos por habitação social, mal ou bem pensada. O Estado tem responsabilidade nesta matéria, porque, seguindo uma lógica capitalista, desabrigou milhares de pessoas e reconduziu-as para onde quis. Criou as condições para o surgimento dos sem-abrigo, porque a maioria dos portugueses não tem dinheiro para comprar casas supercaras.

Esta lógica capitalista não é altruísta: enriquece os ricos e empobrece os pobres. E, em vez da autonomia, cria dependência e miséria crescente. Afirmar que as pessoas não têm direito à habitação é um acto de maldade e António Costa foi ontem muito maldoso e egoísta.

Lisboetas: estejam atentos à política da habitação da vossa CM. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Aliás, António Costa foi uma decepção para os socialistas: invocou erradamente os direitos humanos para justificar as figuras de um tal Obama.

Isto significa que não preza a liberdade de pensamento e de expressão. Nega os direitos humanos na questão da habitação, abraçando o capitalismo selvagem, e invoca-os para banir a liberdade, abraçando novamente o capitalismo corrupto, o das "vacas sagradas", expressão usada por Pacheco Pereira e bem.

Aveugle.Papillon disse...

http://bempelocontrario.blogspot.com/2008/07/montesquieu-tinha-razo.html

Li agora isto: sobre o calor, o frio e o pensamento. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Agora estou fresco e o tempo refrescou ou, pelo menos, parece.

Sim, gosto do frio (moderado) para pensar; com o calor excessivo fico irritado, cansado e lixado. Aliás, conseguimos combater melhor o frio do que o calor excessivo. No Verão, é tudo líquido e fluído... :)

Aveugle.Papillon disse...

É isso mesmo: frio para pensar, calor para viver. :) A vida é líquida, como diz Hilda Hilst.

Aveugle.Papillon disse...

Só um apontamento engraçado: falava dos The Prodigy de uma lado e o Francisco de violência conjugal do outro, e um dos seus singles, quase mítico, Smack My Bitch Up, foi banido precisamente por incitar, a sua letra (mas o seu vídeo tb foi muito controverso), à violência conjugal e à misoginia:
Switch up change my pitch up
Smack my bitch up like a pimp!

Para quem quiser recordar e dançar, já que eu não vou estar em Gaia hoje à noite: http://www.youtube.com/watch?v=v2Gv3X-iyR8

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ya, a violência conjugal é terrorismo íntimo, em casa... Deve ser um suplício para as pessoas envolvidas: não estarem seguras em casa.

Aveugle.Papillon disse...

Ya é um suplício ficar em casa e hoje vai estar uma noite maravilhosa; mas estou em convalescença. :(
Vou ver o Harvey Keitel mais logo, para compensar. :)))
Agora vou ler Kant.

Desculpe, caríssimo, mas não me apetece pensar em violência conjugal, deve ser do calooooooor. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ya, Papillon

Existe outra música "Bate-me... etc." que é curiosa de ouvir, embora de momento não sei quem a cantava. Lembro-me de um gajo abusado emocionalmente pelo namorado cantarolar essa letra. Irónico ou masoquista? Chorava e acusava o boyfriend de o trair com todos e, no entanto, gostava de sexo bruto! Era uma mente feminina num corpo masculino submetido à "secagem": perda de peso e musculação.

Aveugle.Papillon disse...

Sim, mas "sexo bruto" deve-se distinguir de violência conjugal: sexo é uma forma de violência; assim o consideravam os gregos, e por isso nunca o representavam nas tragédias (todas as mortes e cenas sexuais são sempre subentendidas na história e nunca representadas cenicamente)...Mas é violência consentida!

Pergunta Sócrates a Hípias: o que é o belo?
Hípias: é o que dá prazer.
Sócrates: e o que dá mais prazer, Hípias?
Hípias: o que dá mais prazer é fazer amor.
Sócrates: mas fazer amor não é belo, por isso não se faz à luz de todos...

Os meus gregos sempre no meu coração!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bom dia Papillon

Hoje o dia está mais fresco! Era bom que continuasse assim: sem calor excessivo. :)

Aveugle.Papillon disse...

Ai, Francisco! Não há Sol! E ontem à noite na praia apanhei frio :((

Foi fazer a Porto bike tour? :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Não fiz bike tour, mas já vi alguns bikers...

F. Dias disse...

Há a violência conjugal como preço dos ditames da organização da família monogâmica pós-judaico-cristã. A violência conjugal nas poligamias é uma outra narrativa. E a ideal função de “âncora-de-ouro” vê-se nas várias modalidades dos Tantras, para além do mais conhecido Kama Sutra.

Esta é uma abordagem do sexo como viagem e outração, que é a ‘alê-theia’ ou divina vadiagem ao gosto de Papillon, menos Platónica claro… É uma experienciação da criação, em movimento lúdico com a alteridade, da seminação cósmica. Cabe perguntar neste Jardim das Hespérides, se a conotação exclusivamente negativa da hybris, inerente ao instinto de auto-perpetuação, não tem sido redutoramente forjada em obediência ao perfil ordenador, em termos ético-intelectuais, político-jurídicos e técnico-pragmático-utilitários, da prudência e da justa medida apolínea.

Há de facto uma desmesura da pulsão caótica, sempre insatisfeita, quando desata a violência, mas é a partir dela que o acto se gera e reproduz, transcendendo toda a forma de compreensão ôntico-ontológica.

É animado pela pulsão revolucionária da Saudade que Camões entra na ilha dos Amores. Terra e Eros primordiais emergem directamente do Caos/Abismo. Por paradoxal que pareça, Camões comunga com o genuíno Cristo, através da gnose, a oposição à justiça romana e à religiosidade hebraico/romana.

A hipotética relação do que acabei de discorrer com o tema do Francisco poderá ser remota, mas não tão remota com uma instância dionisíaca, em sentido lato, que se liga ao ímpeto radical de libertação que vem sendo defendida nas intervenções hierogâmicas de Papillon. Mas isso só ela o poderá confirmar ou infirmar.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Se entendi o seu comentário, parece fazer uma apologia do Kama Sutra e de uma espécie de vadiagem sexual, condenado o cristianismo e responsabilizando-o pela violência conjugal.

Que posso dizer? Que Kama Sutra não é um manual interessante de sexo e que não precisamos de importar modelos que são estranhos à matriz ocidental.

Tratei apenas aspectos da sexualidade numa perspectiva ôntica; não pretendi fazer uma ontologia do sexo. Como dizia Heidegger, a ontologia trata do ser; as ciências do ôntico. Curiosamente Heidegger deixou o sexo na penumbra: não tratou dele, como se o dasein que é o homem não tivesse sexo! :)

Porém, a concepção grega da sexualidade marcou a tradição ocidental e não vejo ligação com o Kama Sutra: a vida social reduzida à vadiagem sexual plural significa decadência. O sexo pode ser visto como um indicador de decadência cultural...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E outro aspecto: as concepções da sexualidade que tenho exposto e desenvolvido situam-se no âmbito do pensamento ocidental, desde Platão até Marx, passando por Kant.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A Filosofia nos seus grandes momentos nunca defendeu a vadiagem sexual, a começar pelos gregos: a busca do conhecimento sempre foi o seu objectivo primordial; a busca do prazer sexual por si mesmo não dá sentido a nada... E Kama Sutra deve ser lido no seu contexto local e cultural: não é um texto transhistórico.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Práticas relatadas pelo Kama Sutra, tais como as dentadas como marcas de posse, são demasiado animalescas e doentias; a filosofia tem uma missão: contribuir para a emergência da humanidade e da responsabilidade, além da sua missão primordial: a vida justa.

Aveugle.Papillon disse...

Caro Fernando Dias,

É-me surpreendente ver o meu nome ao lado de "divina vadiagem", porque, de facto, não sou vadia, por mais divina que a vadiagem possa ser. E hierogâmica também não, porque os deuses já morreram há muito; ficaria solteirona! :)

A sexualidade dos antigos era, realmente, mais inocente que a dos modernos, porque não conheciam pecado, o que não significa que desconhecessem regras de conduta e ideais dos mesmos. Celebravam Diónisos (que não é o deus do sexo e da mulher, mas deus da fertilidade e da embriaguez - da vida (bios) na sua totalidade, é representado muitas vezes como uma criança, cf. Dionysos: Archetypal Image of Indestructible Life de Károly Kerényi, mas celebravam Apolo também, o deus que cura as feridas dionisíacas, ou da hybris. Aliás, o deus grego por excelência - em todas as civilizações houve deuses análogos a Diónisos, mas só na Hélade surge um deus como Apolo, o deus da justa-medida. O deus do sonho e da Filosofia, isto é, da cisão entre aparência e ser. Deus domador de lobos (irmão-gémeo de Ártemis, deusa da caça), ou seja, domador da animalidade, e só somos verdadeiramente livres se domarmos os nossos instintos: assim diz o mestre Platão, o mestre Kant.
Advirto-o, como amigo, de ler Nietzsche com cautela, sobretudo A Origem da Tragédia; Nietzsche interpretou mal a figura de Apolo. Ele vê-o como deus da serenidade, mas Apolo é cruel, é o deus que mata à distância. Para perceber melhor Apolo na Grécia Antiga, leia La sapienza Greca de Giorgio Colli (volume I).

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Olá Papillon

Exacto: devemos defender o legado e protegê-lo desse uso ideológico. :)

Interpreto certas coisas que se dizem como banalização do falso-sexo, porque amor, esse evaporou-se, foi despedido. E estou com vontade de deixar de compreender os portugueses..., nem na praia existe sossego e educação. :(

F. Dias disse...

Obrigado pelos esclarecimentos e alertas, Francisco e Papillon. Os vossos reparos proporcionaram-me um exercício mental, não sem esforço, para manter uma consciência impecavelmente atenta sem tensão. Ou seja, resistir àquelas saudades depois de ter atravessado o Amu-Daria e ter deixado para trás Bactriana, aquela Grécia encastoada em pleno coração persa. Ainda me encontro no noroeste da Índia, numa zona onde houve um reino chamado de Oddiyana e onde jesuítas portugueses estiveram no século XVI. Tensiono daqui seguir a rota de Samotrácia, passar depois a Delfos e por fim acabar os últimos dias em Atenas, a fim de ter tempo para visitar os túmulos dos nossos mestres da velha Academia.

Espero depois prosseguir a vida quotidiana como se nada tivesse acontecido, e continuar a criar aquela natural harmonia que brota espontaneamente do fundo do nosso ser.