segunda-feira, 18 de maio de 2009

Fernando Pessoa e a Metafísica

«Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
Que mistério das coisas? Sei lá o que é o mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das coisas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas destas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum». (Alberto Caeiro, V Poema de O Guardador de Rebanhos)
Alberto Caeiro é um dos três heterónimos de Fernando Pessoa; os outros são Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915 e, embora tenha nascido em Lisboa, "viveu quase toda a sua vida no campo", na casa dos pais que morreram cedo e na companhia da sua tia-avó. A sua educação reduz-se à instrução primária, mas, apesar disso, colocou a questão da metafísica de um modo que contrasta com as perspectivas de Fernando Pessoa e de Álvaro de Campos. A questão da metafísica é sempre uma questão actual e pertinente, não só porque abarca a totalidade da problemática metafísica, sendo ela própria a totalidade, mas sobretudo porque só pode ser formulada de modo a que aquele que interroga, o homem enquanto tal, esteja implicado na questão, isto é, seja problematizado: a questão da metafísica "desenvolve-se na totalidade e na situação fundamental da existência que interroga" (Heidegger). Caeiro está ciente de que a questão da metafísica implica a existência que interroga e, quando afirma que a melhor metafísica é a das coisas que não sabem para que vivem, nem sabem que o não sabem, reconhece que o homem é o único ente que existe: a árvore de que fala é, mas não existe. Caeiro pode não saber nada do mundo, não ter uma ideia das coisas e uma opinião sobre as causas e os efeitos, e não ter meditado sobre Deus, a alma e a criação do mundo, pode até mesmo fechar os olhos e não pensar, mas sempre que decide suspender o pensamento, não pensando em nada, abre as portas à questão do nada pela qual se põe a si mesmo, como sujeito que interroga, em questão, mesmo que não problematize a morte. Quando diz ser "um animal humano que a Natureza produziu", (:::)
Há muitas maneiras de colocar a questão da metafísica. Se Álvaro de Campos e o próprio Fernando Pessoa perguntaram "O que é a metafísica?", Alberto Caeiro preferiu o modo mais simples de interrogar a metafísica: "Metafísica?" Interrogar deste modo a metafísica não é o mesmo que perguntar "O que é a metafísica?" A última pergunta interroga para além da metafísica, enquanto a primeira anseia, pensando-o, o aquém da metafísica. No entando, os dois modos de colocar a questão da metafísica nascem de "um pensamento que já penetrou na superação da metafísica" (Heidegger), embora ainda continue a falar a sua linguagem. Fernando Pessoa e as suas máscaras identificam a metafísica com a Filosofia, à qual Caeiro acrescenta a Poesia: Filosofia e Metafísica são a mesma coisa, isto é, pensamento que pensa, segundo a definição aristotélica, "o ser enquanto ser e os acidentes próprios do ser". Fernando Pessoa conhecia esta definição de metafísica e sabia que a sua origem se devia a uma denominação especial na classificação das obras de Aristóteles feita no século I por Andrónio de Rodes: os livros do Estarigita que tratam da filosofia primeira foram colocados a seguir aos livros da Física e, por isso, foram chamados Metafísica, mas esta designação adquiriu posteriormente um novo sentido, passando a constituir um saber que penetra no que está situado para além ou detrás do ser físico enquanto tal, dedicado ao estudo das primeiras causas e dos princípios. (:::)
(Post em construção) J Francisco Saraiva de Sousa

7 comentários:

Fräulein Else disse...

Sim, concordo com o que diz, Caeiro sendo aquele que renega a metafísica, porque só "doente" pensaria nisso - inevitável remeter a Nietzsche -, é talvez o mais filósofo de todos, porque enuncia as questões mais radicais. Essa ambiguidade é preciosa para o seu entendimento.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi

Mas estou a ver que não consigo levar a cabo esta tarefa, porque vislumbro a obra toda e é preciso tempo e muito trabalho, mas vou ver se me safo neste post. De repente, vi as ligações a outros poetas, mas não dá para explicitar, até porque habita em mim o desejo secreto de metafísica.

Afinal, não sou assim tão mauzinho para o Pessoa! :)

Fräulein Else disse...

Sim é difícil pensar poesia, sem se ser ideólogo.

Ainda bem, Francisco. Pessoa merece a sua atenção e sensibilidade.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ya, é difícil pensar poesia, sobretudo on-line...

A ideia do post está elaborada, mas estou a reler os textos, para expor o Campos e o Pessoa, sabendo que muitas das dúvidas estão resolvidas ou iluminadas noutros poemas. Sim, Caeiro é substancialmente mais filosófico, mesmo ou sobretudo quando rejeita a filosofia. Essa tarefa de pensar cada um individualmente é mais fácil, embora não esteja realizada, na minha perspectiva...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

No fundo, penso ser possível concluir as "capelas imperfeitas" (Serrão) de F. Pessoa, dando-lhe uma unidade.

augusto cardeal disse...

René Guénon atribui ao que é metafísico a qualidade de não mudar, sendo a universalidade da metafísica que faz a sua unidade essencial, «exclusiva da multiplicidade dos sistemas filosóficos assim como dos dogmas religiosos e, por conseguinte, a sua imutabilidade profunda», embora não seja a totalidade...

Na Introdução ao Dictionnaire de René Guénon, Jean-Marc Vivenza estabelece a diferença entre a metafísica oriental e a ocidental, dizendo que «ao contrário do Oriente, que oferece um acesso à universalidade da metafísica quase «naturalmente», o Ocidente acede-lhe apenas através do filtro limitado da religião, ou seja, reduzindo a sua verdadeira dimensão pela presença de um elemento sentimental inerente ao domínio religioso exotérico».

Para se alcançar a «verdadeira metafísica» é necessário, segundo Guénon, enveredar por uma ultrapassagem teórica (a verdadeira maneira de voltarmos efetivamente aos princípios, ultrapassando o apego afetivo, de modo a alcançar essa mesma «verdadeira metafísica», pois a metafísica pura, na sua essência, é independente de todas as formas, não sendo, por isso, nem oriental nem ocidental, mas universal), embora as suas formas exteriores possam ser orientais ou ocidentais, segundo as exigências impostas pelas necessidades contingentes. Guénon diz ainda que, depois da limitada visão aristotélica do «ser enquanto ser», a metafísica se identifica com a ontologia (que tradicionalmente é um dos seus ramos).

Assim, segundo o pensador francês, a metafísica «amputada» ocidental deve, imperativamente, abrir-se ao «conhecimento supra-racional intuitivo e imediato», sendo o verdadeiro objeto da metafísica, ou melhor, o próprio conhecimento metafísico, a tomada de consciência efetiva dos estados supra-individuais que levam (podem levar) a um estado de libertação, de «modo a livrarmo-nos dos vínculos concetuais com que a metafísica ocidental nos prende há longos séculos», impedindo, deste modo, «qualquer possibilidade de acesso a um nível de compreensão superior», ou seja, limitando a perspetiva de realização pessoal e supra-individual.

Acho que é a este nível de compreensão superior que se refere Caeiro quando diz que «há metafísica bastante em não pensar em nada» -- ele, o poeta «terra-a-terra» que pensa que «a luz do sol vale mais que os pensamentos de todos os filósofos e todos os poetas»...

Quando citas a frase (vaga) de Heidegger sobre a questão da metafísica, que se «desenvolve na totalidade e na situação fundamental da existência que interroga», Caeiro, o pastor de sensações/emoções mais do pensamentos/reflexões, «passa» (tacitamente) para o «avatar Pessoa», o plano do conhecimento supra-racional (a consciência efetiva dos estados mútiplos do ser), o «pensamento que já penetrou na superação da metafísica», intuitiva e imediatamente numa perspetiva epistemológica supra-individual que liberta do apego afetivo que prende Caeiro ao «sentido íntimo das coisas», i.e., «elas não terem sentido íntimo nenhum».

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ainda não terminei o post, mas não penso ir até as chamadas metafísicas orientais, até porque esse termo foi cunhado para designar um conjunto de obras aristotélicas localizadas para além das obras de física: meta-física.

Bem, a metafísica ocidental acabou por não pensar a verdade do ser, dissolvendo-se nas ciências, mas depois trato desse assunto...