quinta-feira, 15 de maio de 2008

Génio Maligno e Destruição da Fábrica do Mundo

«Vou supor, por consequência, não um Deus sumamente bom, fonte de verdade, mas um certo génio maligno, ao mesmo tempo extremamente poderoso e astuto, que pusesse toda a sua indústria em me enganar». (Descartes)
O tema que pretendo elaborar surgiu de um comentário que fiz ao último post do Manuel Rocha, embora ele derive de um estudo da filosofia da natureza de Descartes. A tese básica que proponho é a seguinte:
Face à actual mediocridade cognitiva dos consumidores/devoradores, aquilo a que tenho chamado regressão cognitiva, indigência de espírito e atrofia das funções mentais superiores, o mundo é, para estes sujeitos metabolicamente reduzidos, uma "caixa negra" que usam mas sem conhecer o seu funcionamento. Se um Génio Maligno eliminasse selectivamente os fabricadores do mundo e do seu sentido, a manada metabolicamente reduzida regressava à Idade da Pedra ou, pelo menos, a um tipo de sociedade anterior ao pacto social atravessada pelo obscurantismo e pela violência. O procedimento do behaviorismo, a psicologia do capitalismo, tem sido matar a alma, de modo a criar pessoas apáticas, passivas e submissas. Este procedimento teve e tem como resultado a barbárie cultural predominante: estímulos e respostas selectivamente condicionadas são suficientes para manter a "malta satisfeita", porque as pessoas foram de tal modo seduzidas pelo consumo conspícuo que «deixaram» secar a alma. A economia de mercado tardia condiciona-as para o consumo irracional e as pessoas não se apercebem disso, mesmo que sejam constantemente alertadas. O capitalismo assimila tudo o que o ameaça: um modo de produção, de informação e de vida que seca tudo à sua volta.
Contudo, a esta tese é, como já disse, muito anterior e foi tematizada pela primeira vez num estudo sobre a filosofia da natureza de Descartes. De facto, o horizonte instrumental que Descartes tematizou e legitimou nas suas obras, desde as "Regras para a Direcção do Espírito" até aos "Princípios da Filosofia", passando pelo "Discurso do Método" e pelas "Meditações sobre a Filosofia Primeira", é inseparável da expansão da economia de mercado. O cogito cartesiano afasta-se da natureza para a dominar e, neste acto em que afirma a sua infinita liberdade na solidão, mergulha, qual "ser-sem-abrigo", no abismo, onde impera o sistema que sempre o dominou. A dúvida hiperbólica revela que o cogito não é livre diante do sistema económico emergente. O génio maligno engana Descartes, insinuando-se no seio do seu pensamento, sem que ele se aperceba disso, como um «embuste». Forçando um pouco as palavras de E. Husserl, seria fácil encarar o cogito cartesiano como um resíduo do horizonte instrumental, cuja presença não é detectada pelo procedimento da dúvida. O génio maligno que enganou Descartes era a lógica da exploração da natureza inerente ao sistema capitalista que iniciava então a sua conquista do mundo.
Embora tenha triunfado sobre a cultura tradicional, a razão cartesiana não conseguiu transcender, mantendo a sua autonomia, a racionalização económica levada a cabo pelo sistema capitalista: a sua racionalidade é, pois, a racionalidade funcional do novo sistema económico. O cogito cartesiano é uma auto-ilusão, na medida em que se engana sempre que se julga infinitamente livre e autónomo, à imagem de Deus, quando, na verdade, mais não é do que uma criação de uma sociedade, cuja reprodução social exige a mecanização da natureza, encarada, desde o início, como uma fonte inesgotável de matérias-primas para a indústria nascente. Assim, a filosofia de Descartes, como a caracterizou F. Borkenau, é a «filosofia da era da manufactura».
Como foi dito neste segmento de texto, o génio maligno é algo bem real: é o próprio sistema económico capitalista e a sua lógica do lucro que colonizou o mundo da vida e, portanto, o próprio cogito. Como tal, ele é o principal agente responsável pela actual barbárie cultural que ainda não triunfou completamente devido à necessidade de conservar e de fomentar o desenvolvimento das forças de produção. O alargamento universal da educação tem um efeito contrário ao previsto: os criadores são cada vez mais escassos, sobretudo os criadores de sentido. Se estes criadores escassos e sujeitos à fragmentação do conhecimento fossem eliminados por um génio maligno, a humanidade seria incapaz de manter o actual nível de vida, de resto já muito degradado em termos culturais e cognitivos. O progresso está a produzir o seu contrário: a barbárie e o regresso à mitologia.
A teoria crítica é a Filosofia que visa transformar qualitativamente o mundo. Ora, a mudança qualitativa implica agentes e, na actual conjuntura social, não temos agentes mas seres metabolicamente reduzidos. Isso dificulta a tarefa política da teoria crítica, porque exige recriar os agentes como obra. Além disso, o modelo económico dominante é auto-destrutivo e extremamente irracional na sua lógica de funcionamento cego. De facto, o génio maligno de Descartes, o nosso inimigo, colocou toda a sua "indústria", sobretudo a indústria cultural, para nos enganar: os sujeitos metabolicamente reduzidos são seres-enganados e auto-enganados que vivem prisioneiros na caverna do consumo conspícuo. A missão é precisamente libertá-los dessa prisão, mas eles preferem a servidão em vez da libertação, como se verifica nesta polémica em torno do discurso do Presidente Cavaco Silva sobre o afastamento dos jovens da política. O problema é mais grave e reside na própria regressão cognitiva e no modelo de sociedade que a promove e que T. Veblen reconduz ao consumo conspícuo: «O consumo improdutivo de bens é honorífico, principalmente porque é uma marca de proeza e um requisito da dignidade humana; secundariamente, torna-se tal consumo por si mesmo substancialmente honorífico, especialmente no caso das coisas desejáveis. (...) O consumo de artigos de luxo, no seu verdadeiro sentido, é consumo que visa o conforto do próprio consumidor; é, portanto, atributo do senhor. (...) Para o homem ocioso, o consumo conspícuo de bens valiosos é um instrumento de respeitabilidade».
J Francisco Saraiva de Sousa

74 comentários:

F. Dias disse...

O behaviorismo é de facto o paradigma perdido do cartesianismo. Cingia-se apenas à vida/natureza de um conjunto mais vasto que os descendentes de Descartes dividiram em três níveis não comunicantes entre si. O nível da física e da química; o nível da vida e da biologia; o nível do espírito e da cultura. E como não sabiam onde haviam de arrumar Deus, tornaram-se laicos ateus.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Procuro sistematizar as ideias dispersas pelos posts, mas ainda não consegui clarificar as teses básicas, embora já tenha refeito o texto.
Os demónios, os anjos e os génios malignos são figuras recorrentes no conhecimento e na filosofia. Seria interessante tematizá-los. O génio maligno de Descartes tem um estaturo peculiar, sobre o qual não há consenso entre os seus comentadores.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Agora vejo que este tema pode ser elaborado como outra via de acesso à grande filosofia de que necessitamos, com o recurso à caverna de Platão.
Estou aberto a sugestões e a cooperação. :)

Manuel Rocha disse...

O Saramago andou a perseguir essa ideia na "Caverna". A meu ver, não conseguiu, mas também não é fácil...

Bom Dia, ilustres !

Um dos tópicos do texto, inclui, a meu ver, uma dificuldade central de entendimento dos discursos de ruptura que se possam ensair sobre o capitalismo como sistema: a noção de racionalização económica e da própria economia.

Formatados dentro de uma determinada maneira de entender a lógica das relações de produção e de lhes atribuir a "utilidade", as noções que temos de racionalidade económica obedecem por sistema a uma matriz de leitura que assenta no custo/ beneficio monetário. A economia é boa ou má, conforme gera ou não "receita" e não "recursos".

Julgo que não era exactamente esta a ideia de economia que herdamos dos gregos ( help, Papiloska...:)).

E muito a propósito, segue um desafio à Papillon: brinde-nos com um post sobre a noção de economia na antiga Grécia. O Bolinas està à sua disposição.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

Não percebo o modelo económico que defende! Regressar ao tipo de modelo económico da Grécia Antiga? Parece-me uma ideia pouco realista...
A racionalidade económica pode ser melhorada, levando em conta a "sustentabilidade" e outros factores. Mas não temos alternativa à economia de mercado! Devemos é "humanizá-la" e insuflar-lhe um novo ar... ;)

Manuel Rocha disse...

Não, Francisco, não defendo nada disso.

A questão é outra. Nada contra a economia de mercado, mas tudo contra os principios monetaristas que a gerem.As bases em que se organizam as trocas e a lógica de valorização dos produtos, subvertem a racionalidade ecológica de gestão dos recursos.Os bens definem-se indistintamente pelo que seja essencial ou acessório, como se a produção de uns não interferisse com o abastecimento de outros.Veja este caso de cereais vs agro combustiveis.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

É necessário criticar o monetarismo e a especulação financeira. E tentar regular a economia de mercado de modo a impedir que ela invada cada vez mais o mundo da vida, como está a suceder com consequências nefastas.

Concordo:

"As bases em que se organizam as trocas e a lógica de valorização dos produtos, subvertem a racionalidade ecológica de gestão dos recursos."

A logica da valorização! Por isso, evito elaborar uma ética ou seguir a via ética para resolver a crise em que estamos instalados. Heidegger evitou a ética, porque considerava que a valorização estava prisioneira do paradigma reinando: a valorização é sempre valorização de um objecto...

Manuel Rocha disse...

Exacto!

Daí o desafio à Papillon...porque julgo que a lógica fundadora da economia se regia por principios diferentes de governança da casa...mas aí sou marujo em seco...;))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

Quanto aos Gregos, uma excelente introdução é a obra organizada por Peter V. Jones: "O Mundo de Atenas", bem como os clássico de M. Rostovtzeff ou de M.I. Finley.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Contudo, Jean-Pierre Vernant é excelente a pensar o mundo dos gregos e as suas realidades lexicais. Já em Hesíodo a terra é a terra do trabalho (cultivada) por oposição à terra selvagem.

F. Dias disse...

O Francisco desafia-nos a recorrermos à caverna de Platão. Estou com um problema porque se ele era um realista, num certo sentido estou numa de anti-realismo. Para mim as leis da natureza, ou as ideias não existem lá fora. Os cartesianos também são realistas, partem de um mundo em que a matéria existe e que esta é independente da experiência humana.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Recorrer mais à imagem da caverna do que a Platão, embora este tenha acentuado o papel da educação ou mesmo a necessidade de uma "ditadura pedagógica".
Vejo a caverna como sendo a sociedade de consumo actual: estamos na caverna. A missão será ver como libertar os homens dessa caverna do consumo que ameaça a vida na terra.

F. Dias disse...

Quanto à racionalização económica. Para racionalizar uma acção é sempre necessário atribuir a um agente uma intenção e para falarmos de intenção precisamos de (pelo menos) um desejo e (pelo menos) uma crença relevante. Ora, que crença poderá ser?

É certo que não podemos meter no mesmo saco razões e causas. Dizer que uma razão causa uma acção é cometer uma transgressão conceptual. Mas precisamos de correlacionar relações de estados do mundo físico natural com crenças e desejos. Para isso o mental não pode ser uma super-veniência do físico como dizem os “neo-cartesianos” mas uma com-veniência físicomental como dizem os neo-espinosianos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ou melhor: A Caverna em que vivemos tem algumas saídas que ainda ontem referi, uma das quais é o êxtase.

O êxtase tem relevância metafísica e política. Para confrontar a condição humana sem mistificações consoladoras, precisamos de nos afastar das rotinas corriqueiras da sociedade estabelecida e das suas definições oficiais.

O marginal e o rebelde são figuras autênticas, porque neles a liberdade pressupõe um certo grau de libertação da consciência. Eles desafiam as definições da própria sociedade de consumo. O mundo (socialmente) aprovado e dado como evidente é questionado: não é uma fatalidade; existem alternativas históricas.

A sociedade de consumo oferece-nos cavernas quentes e confortáveis, onde nos aconchegamos com os outros, batendo os tambores que silenciam os uivos dos lobos na imensão escuridão cognitiva.

Ora, êxtase é o acto corajoso de sair sozinho ou acompanhado da caverna quente do consumismo e contemplar a noite. O que está aqui em causa é a invenção de uma nova dialéctica da libertação, a qual deve esburacar a consciência endurecida das pessoas satisfeitas.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A racionalização deve ser colocada ao serviço da libertação e da convivência saudável dos homens com o mundo e no mundo. Não existe somente a racionalidade instrumental: Habermas explorou a racionalidade comunicativa e podemos criar outras.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Prefiro a dialéctica de Ernst Bloch que transforma a fome em docta spes, clarificando o desejo, o apetite, o instinto e a crença. Nessa dialéctica da esperança, a matéria é dinâmica (natura naturans) e carrega consigo no seu interior novas potencialidades que podemos ajudar a actualizar, sonhando a pátria da identidade.

F. Dias disse...

Como eu tinha dito que não acreditava que existissem leis da natureza fora da mente, concebo um tipo de racionalidade monista/holista sem precisar do monismo anómalo de Donald Davidson. E ele pensava assim porque aceitava por um lado as leis da natureza fora da mente e por outro o mental não susceptível de se submeter a leis.

Por monismo/holismo entendo que a natureza do mundo é só uma, na qual a mente está incluída. O neo-espinosismo prescinde do termo ‘substância’ que Espinosa tinha ido buscar a Aristóteles. Ora é precisamente à substância que está ligado o consumismo, e por isso temos de libertar as pessoas da ideia de substância. Em termos técnicos diz-se desreificar.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Exacto: Desreificar a consciência e a praxis. Reificação foi o termo forjado por Lukács para pensar o pensamento burguês, a partir do fetichismo da mercadoria de Marx. Sem saber, Lukács apresentava a teoria dos Manuscritos de 1844 de Marx.

Sim, Davidson e outros movem-se no horizonte instrumental, no qual a racionalidade é dominação.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bloch reactualizou a Natura Naturans de modo a libertarmos a natureza do mecanicismo e do domínio. :)

F. Dias disse...

Em todo o caso o homem utópico de Ernst Bloch, precisa de uma teoria crítica, porque uma crítica voluntarista pós-moderna sem teoria, pretensamente libertadora e purificadora, é enganadora. A História tem-nos mostrado exemplos desses completamente desastrosos. Como está em comemoração, dou o exemplo do Maio de 68, em que as actuais mães (ex-68) de filhos que se suicidaram, ou morreram por droga ou SIDA dizem que os educaram mal com o slogam ‘é proibido proibir’. É o chamado efeito bumerangue que os ‘sages’ antigos há muito que o tinham descoberto.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Exacto

Maio de 68 foi uma terrível mentira, uma desilusão, enfim uma falsidade.
A geração de Maio é tirana: eles negam o futuro! Moléculas gordas de mau colesterol eles são! :)

A História é um processo sempre aberto; não vale a pena projectar modelos definitivos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bloch foi um dos teórocos da corrente quente do marxismo: a sua utopia é concreta, não é abstracta como a de Platão ou Bacon ou More.

Consiste em apreender todas as possibilidades inerentes à realidade e tentar ajudar na tarefa de facilitar a sua emergência, o seu parto, tendo em conta todos os sonhos diurnos da humanidade.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Não concordo muito com esta sua visão:

"Por monismo/holismo entendo que a natureza do mundo é só uma, na qual a mente está incluída."

Ou com o abandono da substância que se torna Sujeito em Hegel.

A natureza do mundo, diz. Que natureza? Ou interpreta o monismo/holismo no sentido "todo em um"? Mas qual a natureza desse todo em um? Se não é material, energético ou quântico, é o quê? afinal, o que é a realidade?

A filosofia da natureza de Bloch implica uma co-produtividade de dois sujeitos; o homem e a natureza, portanto uma outra praxis técnica não-violenta.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Enfim, vejo nesse Todo em Um ou Um em Tudo uma ameaça totalitária, portanto, negadora da pluralidade e da diferença. Com esse conceito não se pode pensar uma ontologia da relação.

F. Dias disse...

Muito bem!
No meu conceito também prescindo da ontologia, e portanto tem razão, não pode haver uma ontologia da relação, mas pode haver uma fenomenologia da relação. “Tudo” é só fenomenologia, não há necessidade de haver qualquer coisa. Portanto aquela pergunta: “por que há qualquer coisa em vez de nada?” não faz sentido. É o eterno devir heraclitiano. Mesmo que seja lenda, digamos que foi aqui que Heráclito se pegou com Parménides. E parménides levou a melhor durante 2.500 anos. Agora é a vez do Heráclito. É o eterno retorno, mas em espiral, porque nunca regressa ao mesmo ponto de partida. É só relação e mais nada. A substância é uma ilusão, é virtual.

Seja como for, como é que vamos sair desta globalização que temos – em que a ciência tecnológica tem evoluído em concubinato com o capitalismo, e a busca de respostas imediatas para as necessidades correntes da vida material – tem levado ao esquecimento das questões perenes da vida dos seres humanos, isto é, tudo aquilo que tem a ver com os sonhos diurnos da humanidade.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Quanto ao eterno retorno não digo nada, porque acho a ideia assustadora. A espiral leva a raúl Brandão, mas como "localizar" o ponto de partida? O Pan não teria nem começo nem fim. Prefiro a noção de ABERTURA.

A fenomenologia da relação parece estar ao abrigo de Lévinas. E também neste aspecto Bloch traz a fenomenologia da consciência antecipante que implica uma ontologia do ainda-não-existente.

Sim, a filosofia deve estar atenta aos problemas humanos! :)

F. Dias disse...

A morte é relativa, porque é que o Francisco se preocupa com o que será depois da morte e não se preocupa com o que era antes de nascer? Antes de nascer, não existia no mundo relativo e isso não o preocupa. Existia no Universo porque não podia ter vindo do nada em termos absolutos, mas aqui não havia preocupação.

De facto não há ponto de partida nem de chegada. Não há começo nem fim. Não pode haver começo do nada. Nem se pode fazer do Universo nada, no fim. Não pode haver fim. Para haver um começo tem de ser a partir de alguma coisa. E então donde partiu essa coisa? Logo não pode haver alguma coisa. O Universo é eterno, sempre existiu e sempre existirá. O Universo é também consciência, “localmente” ou relativamente multipolar ou plural (portanto não há aqui nenhum totalitarismo), e globalmente una, unitária.

A fome é relativa. O universo não se preocupa com os birmaneses do ciclone, ou os chineses do terramoto. Isso só tem importância relativa. Ao nível da relatividade desta existência. E é só a este nivel que entra a angústia existencial dos existencialistas. A sua ideia assustadora é angústia existencial. O Universo não tem angústia.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Eu não me preocupo com a morte, porque não tenho medo da morte: vejo-a como libertação. Um morto liberta espaço e regressa à cadeia trófica, dando oportunidade a novas formas de vida. É bom morrer.

Quanto ao Universo, existem muitas teorias, mas à nossa escala o universo é demasiado extenso para merecer muita preocupação, quer seja aberto ou fechado. Pouco importa! Ele só faz sentido à luz da consciência humana. De resto, o universo não parece precisar de nós para estar aí, existir. Ele existe e as gerações humanas sucedem-se e ele permanece quase muito idêntico.

A fome é importante para os seres vivos: o impulso fundamental que, se não for satisfeito, leva à morte. Por isso, a partir dele podemos ir até ao sonho diurno de um novo mundo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, também não me preocupa os birmaneses ou os chineses: "O universo não se preocupa com os birmaneses do ciclone, ou os chineses do terramoto." É como diz... Que morram e libertem a Terra de tanto desperdício energético! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Quanto a isto...

"O Universo é eterno, sempre existiu e sempre existirá.",

não sei mas também à nossa escala não vale a pena pensar nisso.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas com tanta certeza das relatividades não vale a pena viver: o suicídio constitui efectivamente o único acto livre e corajoso. Ninguém se interessa com a nossa morte e o universo não nos liga nenhuma. Porquê viver sabendo que não somos nada! Tudo em vão, como dizia Nietzsche! Deixemos o devir na sua "inocência", mas até dizer isto carece de sentido, porque este se tornou ilusão, sonho de eternidade! Morramos em paz e corajosamente! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Somos lixo estelar, poeira das estrelas!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A menos que se faça do terror ou da guerra o sentido da vida! De certo modo, recuperávamos Heráclito: a guerra como matriz! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Cada vez estou mais convencido que o nosso atraso se deve ao facto de não termos entrado nas guerras mundiais. A guerra renova e dá oportunidades a novas vidas mais fortes e dinâmicas. Que venham as guerras para nos libertarem de tantos animais reduzidos!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Por isso, já não temos grandes políticos no sentido de Nietzsche: são animais da engorda corrupta e não lideram guerras... :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Não estou a brincar consigo: mesmo no abismo sou dialéctico! Medite e veja se o que digo provoca explosão conceptual!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Se os procuradores e outros que tais (os falsos justiceiros) escutassem este diálogo, dado serem mental e emocionalmente reduzidos, ficavam chocados, pensando que estávamos a corromper a corrupção estabelecida! Que invejosos!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Afinal, o futuro está nos jovens que se exibem no programa "Quem quer milionário": já nem conhecem o mapa de Portugal e, talvez, Braga fique no Sul de Portugal! E o Presidente preocupado com o afastamento dos jovens da política?! Eles não ligam a nada: só comem e gostam energia sem merecer a vida!

F. Dias disse...

Francisco,
Estes seus últimos pensamentos despertam-me para a poesia. Vou responder-lhe na Fisga em poema acompanhado de um quadro que pintei à dez anos.

Um abraço

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias escreveu:

"De facto não há ponto de partida nem de chegada. Não há começo nem fim. Não pode haver começo do nada. Nem se pode fazer do Universo nada, no fim. Não pode haver fim. Para haver um começo tem de ser a partir de alguma coisa. E então donde partiu essa coisa? Logo não pode haver alguma coisa. O Universo é eterno, sempre existiu e sempre existirá. O Universo é também consciência, “localmente” ou relativamente multipolar ou plural (portanto não há aqui nenhum totalitarismo), e globalmente una, unitária."

O começo, a coisa e o fim, não o acompanho nesse pensamento, até porque ele pressupõe um materialismo muito mecanicista.

Os conceitos de consciências locais e consciência global é simpática, mas depende muito do ponto de vista. Na primeira parte deste parágrafo que citei, parece ser demasiado materialista, mas nas frases finais parece insinuar um panpsiquismo ou um hiperespiritualismo à maneira do último Durkheim e da sua noção de sociedade como consciência colectiva.

Aveugle.Papillon disse...

Claro que o F. n se preocupa com os birmaneses e os chineses: n deixa de ser um cretino egoísta como qualquer ser humano comum que deseja a sobrevivência e sanidade, o que me faz perguntar pela viabilidade dessa liberdade autêntica q tanto fala... É uma liberdade de valor, porquê?

Nota: A República de Platão, onde é contada a Alegoria da Caverna, também são tecidos argumentos contra a ékstasis - êxtase, provocada pelas manifestações artísticas, nomeadamente, pela tragédia ática; daí n ter percebido a relação que estabelece...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

ok depois vou ler o seu poema!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Cretinamente eu pretendo abrir as portas e as janelas ou os buracos da caverna em que vivemos cativos: sair da rotina e dos esquemas definidores da sociedade estabelecida.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Claro, a minha dialéctica é muito diferente da de Platão! Eu disse que retomava a imagem dialéctica da "caverna"... E já devia ter reparado que prefiro falar da libertação ou da liberdade como tarefa, em vez de simplesmente Liberdade. Os cativos não são livres!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ou melhor: os cativos são seres não-livres.

Aveugle.Papillon disse...

Pode sair da rotina filmando o seu próprio suicídio libertador e pô-lo a passar no YouTube.

Sim, conversão à liberdade de facto, à Sartre... mas esta sua liberdade autêntica manifesta-se em valores... ele próprio dirigia-se para uma ética q não enuncia. Por outro lado, acima diz que tb n pretende nenhuma "valorização", tal como Heidegger..., logo n percebo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Essa é uma ideia: filmar o suicídio e exibi-lo no YouTube? Mas já existe algo semelhante!

Heidegger evitou a ética e na Carta sobre o Humanismo justifica a sua posição, sempre elaborada posteriormente. Não vejo a liberdade ou a libertação como uma valorização.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Aliás, essa crítica dos valores encontra-se em O Capital de Marx e Simmel viu isso de maneira tortuosa por vezes mas sempre interessante na sua Filosofia do Dinheiro. O valor é a moeda falsa do espírito. Ele encobre a exploração e a desigualdade: é abstracto e falso.

Aveugle.Papillon disse...

Não, mas o seu seria algo de muito especial, porque seria eu a realizá-lo!
Depois do falecido Stockhausen afirmar que o ataque às Twin Towers foi a maior obra de arte que ele assistiu, eu faria do seu suicídio o cúmulo da expressão estética conceptual pós-moderna... isto tudo porque ouço o Requiem de Mozart e apetece-me dar a extrema unção a alguém. Seria extasiante, prometo!

Aveugle.Papillon disse...

Repare: se a sua liberdade n é uma valorização, como pode falar em Grande Conversão? Conversão em quê? Ou a sua liberdade é meramente destrutiva?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A Papillon não consegue ver para além da falsa identidade. Liberte-se dos valores e respire a vida em conexão e, já que está mórbida, ouça a Cantata a Lenine de Hanns Eisler.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Para me transformar ou converter, preciso de valorizar? Como posso valorizar os tesouros escondidos no seio da natureza? Eles ainda não-são: sonho-os... e desejo-os em oscilação permanente sob o abismo.

Aveugle.Papillon disse...

Oh sim sim, tem toda a razão. N consigo ver para além do belo, e como tal vou continuar a ouvir o Requiem... em replay...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ok Papillon prisioneira da metafísica da presença que Heidegger pretendeu destruir...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas, se a Papillon arriscar uma interpretação daquilo que foi escrito aqui em diálogo aberto, prometo pensar na ética e nas valorizações, apesar de pensar que mais vale viver a vida arriscando-a do que viver cativo da ignorância, completamente entregue a metabolismo. A vida bela é arte: um modo de ser responsável no mundo que partilhamos com outros em relação.

André LF disse...

Que conversa fúnebre, amigos!Francisco tem muita vida pela frente, tem de vergastar, por muitos anos, os lombos dos humanos metabolicamente reduzidos.
Agora mesmo estava a ouvir os Concertos para violino, de Mozart. Quando estou deprimido, escuto Mozart para atenuar o meu crepúsculo interior.

Francisco, concordo consigo a respeito das conseqüências resultantes da ação do Génio Maligno.
Acho que, apesar do excesso de técnica, ainda estamos em um período muito atrasado, numa época repleto de trevas.
O behaviorismo é muito poderoso. Produz seres "bem adaptados", gados mansos e incapazes de alterar o mundo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Como foi a consulta? Tem razão: isto hoje esteve muito mórbido, mas era ironia: um despertar para a vida.

André LF disse...

Poema de Walter von der Vogelweide

"Ai de mim, onde estão tantos anos que me foram?
Terei sonhado ou vivido a minha vida (Habe ich mein Leben geträumt oder ist es wirklich wahr?)
Aquilo que me parecia real existiu realmente? Nesse caso, adormeci e já não sei de nada.
Desperto-me agora, e parece-me estranho
O que me era familiar como a palma da minha mão.
Pessoas e cousas que me viram criança
Tornaram-se estranhas, como se tudo fosse ilusão.
os que brincavam comigo estão velhos e abatidos.
Lavrado está o campo,
arrastado o bosque."

André LF disse...

Francisco, tive a sorte de encontrar um médico Humano, o que é raros nos nossos dias. Prescreveu-me alguns remédios (antibióticos) e sossego. Ainda estou fraco, com muita tosse, sibilo no peito e falta de ar. Mas a aurora chegará.

André LF disse...

Papillon é uma Borboleta inflamável :))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

O poema é lindo e verdadeiro. Infelizmente, os que amamos envelhecem ou adoecem e morrem, e nós ficamos cada vez mais sozinhos repletos apenas de memórias e de fantasmas. É como diz o Fernando Dias nas Barcas no Cais e na sua pintura...

Vai ficar bom dentro de pouco tempo. As minhas depressões são racionais e hiperactivas, isto é, não as tenho verdadeiramente. Talvez saudade daquilo que não tenho...

A Papillon é fogo inflamado!

Aveugle.Papillon disse...

Ah! Boa noite André! Hj estou terrível... estou em carne viva! Tenho de acordar cedo, nem sei se conseguirei adormecer...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A Borboleta inflamável é um insecto larvar sedento de beleza: precisa de armazenar a energia para concluir a metamorfose...

André LF disse...

Francisco, veja só a coincidência:
Eu ia lhe escrever agora "tenho saudade dos lugares e das pessoas que não conheci".
Vc escreveu "Talvez saudade daquilo que não tenho..."

André LF disse...

Kafka não teve imaginação para conceber este belo inseto :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oh que palavras terríveis do poeta:

"parece-me estranho
O que me era familiar como a palma da minha mão."

Quando isso acontece, traz a marca a ferro e fogo do "em vão", "perda de tempo", liquidação do tempo escasso...

Aveugle.Papillon disse...

Ui, n preciso de energia, tenho energia a mais...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ui Papillon

Está como eu hiperactivo e hiperexcitado: vai ser noite em branco, apesar de cansado.

Aveugle.Papillon disse...

A minha conclusão será na nadificação do meu ser.
Adeus amigos...saio.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Amanhã completou a metamorfose e depois já pode voar como uma Borboleta adulta... Ou prefere reler Kafka: A Metamorfose?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Afinal, esteve a ler Sartre! Vou comer um yogurte com cereais...
Boa Noite

André LF disse...

Boa noite, Papillon!

André LF disse...

Boa noite, Francisco!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Boa Noite André (Vou acabar de ver o filme de terror na cama. Pode ser que adormeça rápido, porque o filme é ridículo com tanta facada.)