sexta-feira, 15 de maio de 2009

Época de Indigência: Técnica e Ausência de Deus

«Mas nós, amigo, chegamos demasiado tarde. Certo é que os deuses vivem,
Mas acima de nós, lá em cima, noutro mundo.
Aí o seu domínio é infinito e parecem não se importar
Se estamos vivos, tanto nos querem poupar.
Pois nem sempre pode um frágil vaso contê-los,
O homem apenas algum tempo suporta a plenitude divina.
Depois toda a nossa vida é sonhar com eles. Mas os erros,
Tal como o sono, ajudam, e a necessidade e a noite fortalecem,
Até que haja suficientes heróis, criados em berço de bronze,
De coração corajoso, como dantes, semelhantes aos Celestiais,
Depois eles chegam, trovejantes. Entretanto penso por vezes
Que é melhor dormir do que estar assim sem companheiros,
Nem sei perseverar assim, nem que fazer entretanto,
Nem que dizer, pois para que servem poetas em tempo de indigência?
Mas eles são, dizes, como sacerdotes santos do deus do vinho,
Que em noite santa vagueiam de terra em terra». (Friedrich Hölderlin)
O tempo de indigência foi tematizado por Hölderlin na sua elegia Pão e Vinho, retomada por Rilke e pensada por Heidegger. É o tempo de idolatrias, em especial da idolatria do dinheiro e do poder que corrompem o homem, afastando-o da sua essência, como viu Marx, onde as mediações elevam-se a finalidades e o desejo atomiza-se em necessidades, e onde tudo começa e acaba no princípio da acção, do qual não escapa a dor que atravessa a Terra. Em vez de despertar uma mudança, uma viragem, a dor do mundo é experimentada como um objecto que se oferece à acção que a socorre, à acção humanitária ou à assistência que pensa a penúria como defeito do seu próprio sistema assistencial, esquecendo e ocultando a dimensão ontológica da indigência: a indigência como ausência de Deus, tal como a tematizou Hölderlin. Para Heidegger, a técnica como organização da indigência oculta e encobre a ausência de Deus, cuja falta aconteceu desde que Herácles, Dionísio e Jesus abandonaram o nosso mundo, cavando um abismo sobre a Terra, cuja devastação é poetizada por T.S. Eliot: o a-bismo da ausência de sentido e de carência. Com a partida de Cristo, acontece o crepúsculo do Ocidente e inicia-se uma outra cronologia no decurso da qual não surgiu até hoje um único Deus novo, com excepção do deus-milhão poetizado por Guerra Junqueiro, o poeta português que cantou melhor do que qualquer outro a conexão essencial entre o céu e a terra, entre o divino e os mortais. O desaparecimento dos celestiais, o a-Deus de Lévinas, implica o desaparecimento da mediação e da ponte estendida entre o Céu e a Terra, entre a verticalidade e a horizontalidade: a conexão crucial entre o divino e o mortal.
O deserto das zonas industriais e comerciais avança a um passo de tal modo acelerado e devastador que faz dos homens seres apátridas ou seres estrangeiros e estranhos à sua terra de origem, a terra natal. O interregno entre o já-não dos deuses foragidos e o ainda-não dos deuses vindouros é o tempo da "morte de Deus", vislumbrada por Rilke e anunciada por Hölderlin, Hegel e Nietzsche: "O tempo da noite do mundo é o tempo indigente, porque se tornará cada vez mais indigente. Ele tornou-se tão indigente que já nem é capaz de notar que a falta de Deus é uma falta" (Heidegger). Carente de fundamento e de fundo, a partir do qual possa enraizar-se e erguer-se, a noite do mundo encontra-se suspensa no abismo e, sem experimentar e suportar o abismo do mundo, entregue ao tempo do declínio, os mortais não estão preparados para operar a viragem e banhar-se no fulgor da divindade regressada: a viragem só pode ocorrer "quando os mortais encontrarem a sua própria essência", isto é, chegarem primeiro ao abismo. A poesia autêntica de Rilke, as Elegias de Duíno e os Sonetos a Orfeu, experiencia claramente a indigência do tempo: "O tempo permanece indigente, não apenas porque Deus está morto, mas também porque os mortais já não conhecem nem dominam a sua própria mortalidade. Os mortais ainda não estão em posse da sua essência. A morte retira-se para o enigmático. O segredo da dor permanece velado. O amor não se aprendeu. Mas há mortais. Há-os na medida em que há linguagem. Demora-se ainda o canto sobre a sua terra indigente. A palavra do cantor retém ainda o vestígio do sagrado" (Heidegger).
O "louco" de Nietzsche anuncia à multidão que "Deus está morto", mas a morte de Deus já tinha sido anunciada por Hegel. A consciência infeliz é "a dor que se expressa nas duras palavras: Deus morreu": "A morte é o sentimento dolorido da consciência infeliz de que Deus mesmo morreu". O homem deve afirmar a morte de Deus, protegendo-se de um niilismo estéril que alarga as sombras da meia-noite a todos os cantos do mundo. Os valores que guiaram a história do Ocidente radiavam do valor supremo de Deus. Com a morte do divino, toda a axiologia que se fundava nesse valor supremo é derrubada, ameaçando precipitar o próprio homem na voragem da a-narquia, do sem princípio, sem origem. Para Nietzsche, a afirmação da morte de Deus deve ser acompanhada pela tentativa de "transmutação de todos os valores": os valores já não descem do Céu, mas são instaurados pela "vontade de poder". Heidegger viu nesta instauração dos valores pela vontade de poder o culminar da metafísica, um novo gesto do subjectivismo ocidental, a terrível noção de que o sujeito "cria" valores. A morte de Deus é, para Heidegger, a morte do Deus da tradição judaico-crista ou do Deus pensado como valor supremo: o Deus como fundamento e causa de todos os entes, o Deus como ente supremo que, situado no mais-além, despotencia e fagocita a vida neste mundo terreno e temporal, o Deus moral da ascética que se alimenta do desprezo pelo mundo sensível e pela carne do mundo. Sim, este Deus morreu e, tanto Hegel, Feuerbach, Marx e Bloch, como Nietzsche e Heidegger, cantam o seu requiem. E, no seu lugar, emergiu o capital e a sua nova ordem económica, o capitalismo, que, a partir da expropriação generalizada, o seu pecado teológico original (Marx), se apropria desumanamente da natureza, devastando-a. A transformação do homem em sujeito e do mundo em objecto, já operada por Descartes, é, segundo Heidegger, consequência do estabelecimento da técnica: o querer instaurou o mundo como totalidade dos objectos elaborados e, como tal, define a essência do homem moderno que encara a terra e a atmosfera como matéria-prima, entregando a essência da vida à elaboração técnica e colocando o próprio homem, enquanto funcionário da técnica, ao serviço dos objectivos propostos, de modo a vedar-lhe o caminho para o aberto (Rilke). O domínio técnico da natureza não só coloca todos os entes como algo elaborável no processo de produção, como também distribui os produtos através do mercado. Porém, nesta noite de declínio, Heidegger considera que, na fossa do Deus sepultado, se abre novamente, quando cavada até ao fundo, como exige a poesia hermética de Paul Celan, espaço para o divino. Na morte de Deus manifestam-se, na sua ausência, os vestígios da divindade. Para pensar essa divindade, é necessário um outro tipo de pensamento, completamente distinto do pensamento instrumental e calculista. Em vez de abrigar-se no Deus conhecido, representável e representado, o pensamento essencial abisma-se no divino de Deus desconhecido e, como poesia, procura realizar o itinerário traçado por Mestre Eckhart: o caminho que nos (re)conduz a Deus é o caminho que, com a sua ajuda, nos "livra de Deus", portanto, o caminho que nos despoja de nós mesmos e nos desnuda da vontade, do querer ter e do querer fazer, renunciando-a, aniquilando-a e conformando-a à vontade divina que nos permite tudo, de modo a fruirmos das coisas apenas como emprestadas, deixando-as ser, e não como dadas, como propriedade ou como posse. Nessa entrega completa a Deus, "eu e Deus somos uno".
Mas o homem sem-Deus, prisioneiro da sua vontade de poder, ainda não é capaz de experimentar a ausência de Deus como uma ausência e, por isso, não reconhece nas dores do mundo os vestígios do divino, o inteiramente-outro de Horkheimer. Somente alguns poetas possuem agudeza de ouvido para escutar o chamamento do divino, isto é, para prestar atenção aos vestígios dos deuses foragidos: "Os poetas são os mortais que, cantando com seriedade o Deus do Vinho, sentem os vestígios dos deuses foragidos, permanecendo sobre estes vestígios e assim apontando aos seus irmãos mortais o caminho da viragem" (Heidegger). Entre os poetas, Heidegger destaca Hölderlin: o testemunho da ausência de Deus e da indigência do mundo. Ao retomar e transformar a experiência pré-metafísica do Deus da tragédia grega, Hölderlin garante a possibilidade de uma teologia que, no tempo da retirada de Deus, se abriga sob a invocação e a convocação do divino: "O éter, no entanto, onde somente os deuses são deuses, é a sua divindade. O elemento deste éter, no qual a própria divindade ainda se essencia, é o sagrado. O elemento do éter para a chegada dos deuses foragidos, o sagrado, é o vestígio dos deuses foragidos. Quem será, porém, capaz de sentir tal vestígio? Os vestígios são geralmente pouco visíveis, sendo sempre o legado de um aviso mal pressentido. Ser poeta em tempo indigente significa: cantar, tendo em atenção o vestígio dos deuses foragidos. É por isso que, no tempo da noite do mundo, o poeta diz o sagrado. É por isso que a noite do mundo é, no idioma de Hölderlin, a noite divina" (Heidegger). Para Hölderlin, Deus é o desconhecido e, como tal, constitui a medida para o poeta. O seu aparecer mediante o céu consiste num desvelar que deixa ver aquilo que oculta. Este manifestar-se velado é a medida na qual se mede o homem: "Enquanto a amabilidade pura habitar no seu coração não será uma atitude infeliz o homem medir-se pela divindade. Será Deus desconhecido? Será manifesto como o Céu? Antes isso creio. É a medida do homem. Cheio de mérito, mas poeticamente, vive o homem sobre esta Terra" ("No Ameno Azul"). O poeta que recebe a medida mede a sua palavra poética ou a palavra que escuta. Elevando o olhar e permanecendo na ausência de Deus, o poeta, neste caso Rilke, descobre na ausência o vestígio que o notifica sobre o divino e sobre o homem. O ser do homem constitui o tema da poesia de Rilke, pelo menos do seu poema "Versos Improvisados", e trata da sua mortalidade como sendo a sua essência, embora o homem tenha desejado esquecer a própria morte que constitui a sua essência, talvez porque a imposição da objectivação técnica nega a morte, tornando-a algo negativo: o morto, o cadáver, já não passeia o esqueleto e não se abastece nas grandes áreas comerciais, enfim, já não consome mas é consumido pela terra e pelos vermes que reiniciam novos ciclos vitais. Quando se interroga "O que é o homem?", Hipérion é assaltado pela ideia do nada. O homem não pode falar da determinação humana, porque sente-se atingido pelo nada que sobre ele reina: "nascemos para nada", "amamos um nada", "acreditamos em nada", cansamo-nos para nada e, gradualmente, "desaparecemos no nada". Estes pensamentos afundam quem neles pensa. O homem que habita o abismo da noite do mundo não consegue dominar esta verdade gritante: "Quando olho para a vida, qual é a última realidade? Nada. Quando me elevo em espírito, qual é a realidade mais alta? Nada." O homem é simplesmente mortal, o ser efémero, que, quando deixa de sentir a ausência de Deus como falta, festeja na companhia da morte aniquiladora: sobre ele e diante dele vigora o vazio e o deserto, porque nele "há vazio e deserto". Sem a medida da divindade, o homem é nada: a morte de Deus e a morte do homem correspondem-se. O homem vazio e deserto, indigente e atrofiado mental e cognitivamente, entregue aos cuidados da sua mera animalidade desalmada e desumanizada, é o nosso contemporâneo que se abastece nas praças da alimentação, sem medida e sem saber donde vem, onde está e para onde vai.
J Francisco Saraiva de Sousa

50 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Deus ama-me e muito! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O poema de Paul Celan a que fiz menção é o seu último poema antes de cometer o suicídio:

"Vinhateiros cavam
o relógio das horas sombrias
cada vez mais fundo,

tu lês,

o Invisível
desafia
o vento,

tu lês,

os Abertos trazem
a pedra atrás do olho,
ela te reconhecerá,
no dia do Sabbath.

Fräulein Else disse...

Ahahah...

Sim, Deus tem uma foto de si na mesinha de cabeceira.

Fräulein Else disse...

Eu amo-o qd escreve sobre ciência.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas agora ando poeta... :)

Fräulein Else disse...

Então escreva um poema, senhor trovador.

Por falar em Deus e Amor, já foi publicado um "kama-sutra" católico, por um sacerdote polaco. Os católicos já podem fornicar sem pecado, além da posição de missionáro.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, pelo menos esse sacerdote parece não ser hipócrita, porque eles sempre fornicaram com as paroquianas, em posições diversas, e, de muitas dessas relações, resultaram "bastardos". E o que dizer dos padres gay que vão para Fátima em procissão, isto é, "em comboio" ou "debixo das batinas"!?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ou das "congregações" exclusivamente gay? Sim, elas existem... Ou das relações cruzadas com as "irmãs"? Deviam silenciar o seu egoísmo e a sua estupidez manhosa!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Else. estava a pensar que o "espiritismo" da nossa amiga do Sul é manipulação do sagrado!

Fräulein Else disse...

Claro, estava a ser irónica. Nunca leu os contos, ou alguns deles, do Decameron de Bocaccio? Lembro-me de os descobrir no primeiro ano da faculdade e de devorá-los na biblioteca.

Pois, n faço ideia do que seja o espiritismo. Sou absolutamente ignorante na matéria.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, adoro Bocaccio que li antes mesmo da adolescência! Um grande livro que, segundo creio, foi editado recentemente em nova edição!

Estava a brincar com o espiritismo com roupagem científica, mas tb não estou a par: a nossa amiga ainda não editou a sua suma.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Um dia destes vou escrever sobre a essência da poesia, o poetar, em Guerra Junqueiro, porque também ele é um poeta do mundo indigente que canta o sagrado, orando e beijando. Muito profundo o nosso poeta do Norte e do Porto, onde a cultura portuguesa renasceu para infelicidade de Fernando Pessoa.

Fräulein Else disse...

Leu antes da adolescência? E percebeu? Ou tb foi precoce sexualmente?

Infeliz é o Francisco q n (re)conhece a grandeza de Pessoa. :P

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Referia-me à observação de Pessoa de que a "Renascença" cometeu o erro de nascer e estar sediada no Porto. Estava a ser irónico!

Já não me lembro, mas deve ter sido na idade normal... :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Else

Já que aprecia tanto a poesia de Fernando Pessoa, convido-a a fazer um post para publicar aqui. Assim sempre poderíamos falar mais do poeta que, desde criança, revelou uma enorme atracção para simular personagens e amigos. Ele atribui essa faculdade à sua "histeria", quase feminina, embora eu veja aí uma enorme solidão do homem que sonhou receber o Prémio Nobel da Literatura e que foi muito sarcástico em relação à sua primeira obra publicada "Mensagem". Mas sou receptivo a novas abordagens, embora a análise da sua poética enfrente igualmente a pluralidade das suas vozes. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Alarguei o último parágrafo, de modo a dar conta do momento presente da noite negra do mundo: a figura humana foi completamente despedida e, em seu lugar, emerge o monstro que "devora a terra", como diria Guerra Junueiro. :)

Fräulein Else disse...

O facto de ser apreciadora, n faz de mim especialista. Mas até posso aceitar o seu desafio, gosto de desafios.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Então, aguardo o seu texto! :)

Ando exausto e, quanto mais exausto, mais irriquieto e frenético. Não sei porquê!

Manuel Rocha disse...

Inspirador !

;)

Aquele abraço !

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Manuel

A propósito do aborrecimento que trata no seu post, na pesquisa de terreno que fiz, as pessoas que alinham em todos os esquemas revelam um grau de exigência, quando confrontadas com os outros, que é absolutamente doentio: exigem aquilo que não têm nem podem dar: uma mera conversa não aborrecida! Estão cansadas de si mesmas: este cansaço é o seu desespero, o seu tédio, o seu vazio... :)

André LF disse...

Else, discordo de vc! Prefiro os textos poéticos do Francisco aos científicos, embora estes também sejam primorosos :)

Fräulein Else disse...

André,

Não é por fazer desfeita. O Francisco quando escreve sobre poesia, ou segue uma herança hermenêutica que me é familiar, ou especula até ao dislate, como no último caso.
Qd escreve sobre ciência, sobretudo sexualidade, é uma óptima oportunidade q eu tenho de ler, e dialogar com o próprio autor, sobre um tema que me completamente alheio, mas que me apraz amiúde.
É isto. De resto, o Francisco sabe que eu o admiro e, por isso, o provoco. ;)

Cumprimentos a todos, estive a consumir no el corte inglés, estou estafada...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi amigos

A poesia a diversas vozes de Fernando Pessoa não foi escutada e muito menos meditada: a própria leitura do poeta foi escamoteada. Ele é um dramaturgo... Mas é difícil captar o seu fio condutor, porque como diz o próprio:

"Labirinto de ideias de que o dono é expulso
Porque perdido é o fio e foi esquecido o plano:
Quando medito nisto e em como estou aqui,
Vazio pensador destas ideias sábias,
Erguendo ao pensamento a minha mão que é coisa,
Fitando-a com meus olhos de pensar alheado,
A oração do espanto fita para lá
Da treva universal tão solitária e vasta".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Meditar o Caeiro, o Reis ou o Campos não é difícil, mas pensar o poeta dramático, a sua exaltação íntima e a despersonalização do dramaturgo é mais delicado, embora Pessoa considere estar aqui a chave que abre todas as fechaduras da sua expressão. Talvez tenha razão, mas a tarefa nunca foi levada a cabo: os portugueses não estão à altura dos heróis nacionais... Todos dizem gostar do poeta, mas ninguém o leu ou compreendeu... A velha história nacional: fingir cultura, simular cultura, exibir livros, mas cabeça vazia, oca e malvada. Em Portugal, todos são inimigos de todos: não podemos confiar no próximo, a sua presença é sempre uma ameaça...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A "Mensagem" de Fernando Pessoa nunca foi meditada: o seu dizer foi esquecido; as suas três partes e respectivas secções não foram ponderadas, e o "encoberto", o nosso segredo, nunca foi pensado. Basta ler o último poema, o "Nevoeiro", para termos uma ideia do que ainda não foi pensado. É certo que o próprio poeta nem sempre se compreendeu e o seu sebastianismo é síntoma disso: o encoberto é muito mais do que uma mera espera pelo Rei/Messias; é o velado...

Fräulein Else disse...

Sim, isso é o q Badiou diz do José Gil que n captou Pessoa.

Mas talvez o seu "brilhantismo" o capte... ;)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tento apreender o tal fio, mas ainda não o apreendi. O meu impulso é soltar o encoberto, o nevoeiro, mas quando Pessoa parodia o Fausto fico perplexo. Sim, o Gil quedou-se nas Odes, mas não conheço o Badiou.

Fräulein Else disse...

Ya, mas ele nas aulas falava mais do Livro do Desassossego.
Eu prefiro o mestre, Caeiro. E Álvaro de Campos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Gosto desse Livro...

No livro "O Encoberto", Sampaio Bruno apresenta uma antropologia filosófica do encoberto, mas a sua escrita arrepia-me: não gosto da escrita do homem. O grupo da filosofia portuguesa que me "assediou" em 3 ou 4 colóquios e que me convocou, aqui no Porto, para decifrar os paradoxos do Agostinho, é curioso e manhoso, mas, na altura, afastei enfaticamente essa possibilidade, porque não sou seduzido pelo sebastianismo de António Quadros. Para mim, o encoberto é algo mais misterioso... Penso que eles não dominam efectivamente a filosofia ou mesmo a cabala. No entanto, existem algumas coincidências deveras interessantes. Não estamos seguros de nada: eis a nossa condição efémera de mortais.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O meu último encontro/desencontro com a associação foi em Coimbra, onde apresentei o pensamento de Agostinho. Porém, o autocarro que nos levou até lá avariou na auto-estrada no regresso e eu aceitei a boleia de um político e cheguei a casa no seu BMW. A partir daí nunca mais os contactei, até porque nesse colóquio recusei ser iniciado... Évora confrontou-me mais tarde com outros, nomeadamente A. Quadros, mas retomei a minha leitura de G. Junqueiro que tinha iniciado no Instituto Piaget. É a vida um desencontro! :)

Fräulein Else disse...

Conheço muito pouco da Associação Agostinho da Silva. Sei-os muito místicos, o q n me interessa. Fernando Pessoa é, muitas vezes, lido nessa chave, o q acho de grande pobreza...

Fräulein Else disse...

Bem, mas nem percebi se é deles q está a falar... tb tanto faz... c'est la même chose.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, dos amigos de Agostinho que tb guardam Pessoa e Pascoaes. No entanto, A. Quadros diz coisas interessantes sobre a poesia de Pascoaes e critica A. Sérgio com certa pertinência. O racionalismo do último é muito obscuro e estúpido.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Pessoa faz, ele mesmo, essa leitura em três conjuntos de textos: Comentário maior às profecias do Bandarra, O sebastianismo e O Quinto Império. E, nestes textos, elabora a noção de que toda a poesia reflecte o que a alma não tem.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sempre que projectou Portugal, Pessoa diz barbaridades, tais como esta:

"Nada há a esperar, é certo, das classes dirigentes, porque não são dirigentes (Aplauso!); e ainda menos da proletariagem, porque ser inferior não é uma superioridade. Com razão lhes chamei eu, a estes, subgente, num artigo da antiga Àguia - da Àguia que voava. (Estupidez total!) Só a burguesia, que é a ausência de classe social, pode criar o futuro. (A burguesia do Porto?)".

Texto miserável! Subgente: eis uma categoria do poeta pouco digna de ser pensada! A Àguia voava: a Nova Renascença deixou de contar com Pessoa por estar sediada no Porto! E Portugal é reduzido a Lisboa: Portugal Futuro = Lisboa (futuro) = Atenas (passado). Pessoa escreve muitas barbaridades medíocres, infelizmente! :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E, depois de ter dito muita asneira, escreve coisas profundas como esta:

"A manhã de nevoeiro. Por manhã entende-se o princípio de qualquer coisa nova - época, fase, ou coisa semelhante. Por nevoeiro entende-se que o Desejado virá «encoberto»; que, chegando, ou chegado, se não perceberá que chegou".

Mas logo a seguir regressa ao disparate: eis o nosso poeta!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

No entanto, os poetas portugueses, desde Bandarra até Pessoa, passando por Vieira, cantaram a chegada do Desejado, na noite do mundo em declínio. O azul na Mensagem é o azul anímico, o ainda-não nascido, mas não é o Rei, é o Homem, como disse Sampaio Bruno, com razão. Só que esta leitura rompe com os disparates expressos pelos poetas; medita a poesia, fazendo o não-dito falar. Só vejo este caminho de recuperação da alma nacional e, de certo modo, ele começou aqui no Porto, sofrendo depois o ataque de A. Sérgio, o invejoso!

Fräulein Else disse...

Por acaso, acho isso o menos interessante de Pessoa. A relação entre filosofia e vida, expressa por Caeiro e Álvaro de Campos parece-me q merece maais e melhor reflexão.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E como articula essas duas figuras da máscara/Pessoa?

Eduardo Lourenço trata-a como "aventura sem nome próprio" e José Augusto Seabra fala do heterotexto pessoano e de poetodrama, mas, na minha perspectiva, não meditam profundamente a sua poesia. A máscara das máscaras, a heteronomia, não é bem o nobody de Joyce de "Ulisses"!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E a estética da força de Campos que "simula" romper com a estética da beleza de Aristóteles? Uma estética não-aristotélica! Os textos estão ligados às diversas vozes poéticas!

Fräulein Else disse...

Sim, a poesia modernista é anti-academismo, logo reacção à estética aristotélica.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Óscar Lopes diz que os seus escritos histórico-políticos constituem mais um fingimento que lhe permite criticar as filosofias positivistas. Aliás, os nossos literatos clássicos nunca foram completamente seduzidos por Pessoa. Basta ler Joel Serrão: "Fernando Pessoa, Cidadão do Imaginário".

No entanto, eu gosto da sua concepção de língua, que me leva aos mestres alemães, e do carácter linguístico das relações sociais, emboa Pessoa seja seduzido pelo hipermentalismo. Isto significa que podemos recuperar os seus escritos, livrando-os de tudo o que é excessivamente reaccionário em Pessoa: o seu ódio à República e ao socialismo, o seu desprezo pelo platonismo e pelo cristianismo.

Porém, Pessoa não é um poeta mundial, porque tomou partido por tudo o que era retrógado: isto é um facto! Além disso, como mostrou A. J. Saraiva, foi muito escolástico no debate de ideias estéticas e filosóficas, além de não ter sabido analisar a poesia dos outros. As mudanças do mundo passaram-lhe ao lado: sua falta endémica de coerência torna a sua obra global autocontraditória, repleta de contradições. Projectos, projectos e mais projectos inconclusos, como diz Serrão!

Fräulein Else disse...

E o "direito à contradição" postulado por Baudelaire.

Enfim, apelar ao argumento de autoridade para destituir Pessoa do seu interesse é claramente ir por um plano escorregadio, não saberá, pois, dos críticos literários de todo o mundo, os que elegem Pessoa como dos maiores.
É triste uma pessoa tão inteligente ser tão precipitada. Frua, pelo menos, se for capaz - "coma chocolates"!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A Else fecha os olhos aos escritos e vai na onda dita internacional, mas esta onda conhece os textos? Conhece o elogio a Salazar? Esses arrepios arrefecem todos aqueles que lutam pela justiça! Crítica da democracia! Isso é aceitável? Tratar os trabalhores como subgente? Isso é poético? As ideias interessantes que teve apagaram-se devido à sua incapacidade de ver o mundo em mudança e o sentido dessa mudança!

Se o produto final fosse mesmo bom, como sucedeu com Heidegger, teríamos de fechar ligeiramente os olhos e omitir o podre, mas Pessoa não nos legou um pensamento iluminado e iluminador! Melhor poesia encontramos em Teixeira de Pascoaes, cujas imagens visuais cintilam por todos os lados! Ele compreendeu melhor a alma nacional e são outros poetas nacionais que o dizem! Conheço um estudo internacional sobre poesia que só cita dois versinhos de Pessoa! E não estou a desvalorizar a sua poesia! Agora a sociologia que a suporta e alimenta é terrível: é um erro colossal!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Com Pessoa nunca encontraremos um futuro melhor, embora ele tenha ansiado por esse futuro, mas a imagem que deixa não é feliz e aberta! Os críticos mundiais valem o que valem neste tempo indigente, mas não devem ser assim tantos os que leram Pessoa. :(

Negação, sim, contradição no pensamento, não: o pensamento deve ser produtivo e desbravar caminho...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E não estou a negar-lhe valor, mas apenas a alertar para as dificuldades de levar a bom porto a meditação da sua poesia global, porque os seus escritos são flagelos ao pensamento sério. Só isso: todos temos direito a criticar o que está mal; seguir a onda pode ser suicídio! Mas aguardo o seu texto pessoano!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A poesia precisa ser "violada" à Heidegger para dar origem ao pensamento, mas violar Pessoa é ter consciência permanente de estar a violar: muito desgradável, porque essa tarefa se realiza suavemente, tranquilamente, sem traumas... É como ler os discursos de Heidegger enquanto reitor como se fosse um anjo, quando na verdade acreditou no nazismo! :(

augusto cardeal disse...

Apanhando aqui e ali alguns comentários:

[Else]
Fernando Pessoa é, muitas vezes, lido nessa chave, o q acho de grande pobreza...Podias explicar as reticências?

[Francisco]
Crítica da democracia! Isso é aceitável?Porque não?

...mas Pessoa não nos legou um pensamento iluminado e iluminador!Lux in tenebras lucet, diz o moto latino...
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Quanto à questão Porto/Lisboa, isso foi no século passado... les choses changent.Ou não viveremos nós no verdadeiro Portogral? :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Cardeal

Eu não ligo a esse conflito ou pseudo-conflito Porto/Lisboa. E não vejo na crítica da democracia uma heresia. Também critico a cleptocracia, a nossa democracia corrompida. Eu gosto da Mensagem; a Else não a aprecia tanto, se a entendi bem. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, e nesta revisitação de Heidegger estou a descobrir algumas das dificuldades da sua leitura, mas é complexo confrontá-lo no seu próprio terreno, pelo menos por enquanto... :)