quinta-feira, 19 de junho de 2008

Tönnies: Comunidade e Sociedade

Tönnies encarou todo o desenvolvimento histórico desde a Idade Média como «a libertação gradual do racionalismo e o seu crescente predomínio como processo inerentemente necessário do espírito humano como vontade».
Ferdinand Tönnies (1855-1936) é conhecido pela sua obra Gemeinschaft und Gesellschaft, publicada em 1887, cujas ideias podem ser resumidas facilmente, apesar da obra ser teoricamente complicada devido à sua ligação a Hegel e a Schopenhauer.
Segundo Tönnies, todas as relações sociais são criações da vontade humana. Existem dois tipos de vontade: a vontade essencial que é a tendência básica, instintiva, espontânea, irreflectida, orgânica, que impulsiona a actividade humana a partir detrás, e a vontade arbitrária que é a forma de volição deliberada, reflexiva e finalista, capaz de determinar a actividade humana em relação ao futuro. A vontade essencial domina a vida dos camponeses, dos artesãos, das pessoas comuns, enquanto a vontade arbitrária caracteriza as actividades dos homens de negócio, dos cientistas, das pessoas investidas de autoridade e dos indivíduos das classes superiores. As mulheres e os jovens tendem a exercitar a vontade essencial; os homens e, curiosamente, as pessoas mais velhas, a vontade arbitrária.
Estes dois tipos de vontade explicam a existência de dois tipos fundamentais de grupos sociais ou de "sociedades". Um grupo pode existir e manter-se porque a simpatia entre os seus indivíduos os leva a sentir que essa relação é um "bem em si mesma", ou pode nascer como instrumento para conseguir alcançar um "fim determinado". Ao primeiro tipo de grupo, expressão da vontade essencial, Tönnies chama comunidade (Gemeinschaft), e ao grupo que deriva da vontade arbitrária, sociedade (Gesellschaft). A comunidade é uma forma social caracterizada por relações pessoais, intenso espírito emocional, e constituída pela cooperação, pelos costumes e pela religião. Esta organização social é encontrada na família, na aldeia e em pequenas comunidades urbanas. A sociedade é uma organização de grande escala, como a cidade, o Estado ou a nação, que se funda nas relações impessoais, nos interesses particulares, no direito e na opinião pública. Tönnies estudou a família, a vizinhança e o grupo de amigos como exemplos de estruturas comunitárias, e a cidade e o Estado como exemplos de estruturas societais.
Esta distinção não é apenas uma tipologia «estática» dos agrupamentos humanos, mas também possibilita explicar a passagem das "sociedades tradicionais" para as "sociedades modernas", portanto, as fases genéticas do desenvolvimento histórico visto como processo de racionalização crescente: a modernização. A sociedade surge, mediante a especialização das pessoas e dos serviços, da estrutura da comunidade, em especial quando as mercadorias e os serviços se vendem e se compram num mercado livre. A comunidade e a sociedade são produtos de dois tipos diferentes de vontade social. As vontades humanas podem estabelecer entre si "múltiplas relações" e podem dirigir-se ou para a conservação da ordem social ou para a sua destruição. As relações de "afirmação recíproca" que interessam à sociologia variam de intensidade. Um "estado social" existe quando duas pessoas desejam estabelecer determinada relação, que geralmente é reconhecida pelas demais pessoas. O "círculo" surge quando um estado social prevalece entre mais de duas pessoas, mas, a partir do momento em que os indivíduos acreditam que constituem uma comunidade organizada em função de características naturais ou psíquicas, aparece o "colectivo". Finalmente, quando surge uma "organização" formal que atribui funções específicas a determinados indivíduos, o corpo social converte-se numa "corporação". Todas estas formações sociais podem fundar-se ou na vontade essencial ou na vontade arbitrária.
Tönnies apresentou também uma classificação original das normas sociais que está intimamente relacionada com a distinção fundamental entre comunidade e sociedade. O direito consiste no conjunto das normas sociais que, de acordo com o seu sentido, podem ser aplicadas pelos tribunais. As regras morais são aquelas normas que, de acordo com o seu sentido, são aplicadas por um "juiz ideal", seja ele pessoal, divino ou abstracto. A concórdia consiste em regras que se baseiam em relações derivadas da comunidade e que são consideradas naturais e necessárias. Os costumes são regras que têm as suas raízes nas práticas tradicionais, enquanto as convenções se baseiam em "acordos" expressos ou tácitos que, por sua vez, se fundam sobre metas comuns para cuja consecução as regras ou perceptos são vistas como meios adequados. O direito e a convenção são característicos das associações societais, as regras morais e a concórdia, das comunidades, e os costumes parecem implicar os dois tipos sociais básicos.
Tönnies é geralmente conhecido pelo seu esquema de sucessão de dois tipos de sociedade, a comunidade cuja organização se baseia em qualidades comuns tais como o parentesco, o território, a língua e a religião, e a sociedade que organiza as pessoas em função de critérios formalizados por contratos e por constituições. Contudo, é esquecido que estes dois tipos de organização social são vistos como produtos de dois tipos de vontade social e encarados sob a visão do processo de modernização como racionalização, a qual não pode ser reduzida a uma teoria da retrogressão, mesmo que Tönnies sob influência do nacional-socialismo de Hitler tenha manifestado uma preferência pela comunidade. (Goggly iniciou um novo conto: "O Assalto".)
J Francisco Saraiva de Sousa

12 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Este post constitui o cumprimento da entrega da "encomenda" feita pelo Manuel Rocha.

Manuel Rocha disse...

Você é impagável ! Ainda assim fico a dever-lhe uma jantarada.

:))

Obrigado.

Um abraço !

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A Alemanha já marcou um bolo contra Portugal. Claro, Scolari não vê que Nuno Gomes não vale nada! Tinha outras opções no banco... :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Alemanha marca o seu segundo golo, com racionalidade, cinismo, concentração, força, inteligência, e Portugal fica e está perdido na emoção e no jogo extrafutebol.

André LF disse...

Francisco, a seleção portuguesa sofre do mesmo mal que a brasileira: excesso de emoção, ansiedade e falta de objetivo.
Ontem estive a ver o jogo entre Brasil e Argentina. Nunca vi uma seleção brasileira tão ruim quanto esta. Os jogadores são muito burros e descontrolados. Falta-lhes uma boa dose de calculismo, cinismo e inteligência. Mas devo admitir que a seleção portuguesa é muito superior à brasileira.
Os jogadores holandeses e alemães,apesar de não se notabilizarem pela habilidade, são muito eficientes e inteligentes. Estou torcendo pela magistral Holanda.

André LF disse...

A arbitragem está muito ruim. O último gol (ou golo, como vocês dizem) foi ilegal. Ballack, de forma malandra, empurrou o jogador português...

Aveugle.Papillon disse...

Ya André, os alemães são muito mauzinhos... Graaaaaurrr! :)))

Eu agora fico a torcer pela Itália!
Ou pela Turquia?
Allez allez France! Ups! Où est-tu Zizuuuuuuuuuuu?

Ainda bem que se acabou esta palhaçada infernal! Back to reality!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Scolari é um treinador muito casmurro. Os alemães fizeram jogo psicológico bem feito e Scolari devia ter deixado o guarda-redes Ricardo de fora e nunca punha Nuno Gomes. Os jornalistas portugueses são muito burros e maldosos e os primeiros a arruinar a selecção: falam muito e assumem antes do tempo o "favoretismo" que foi fatal.

Que vença a Holanda! Viva a Holanda ou mesmo a Alemanha. Sim, viva a inteligência e o cinismo. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ouvi os comentários dos jornalistas desportivos, mas, com excepção de dois ou três, não são capazes de apreender a verdadeira razão do fracasso nacional: fazem parte do próprio problema e não são a solução para o mesmo.

Portugal está corrompido e falta-lhe inteligência e racionalidade: os políticos fogem para o estrangeiro para tratar da sua vidinha e todos fazem o mesmo. Aliás, as figuras públicas estão esgotadas e incapazes de pensar o futuro: fazem parte do problema.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estive a reler Leibniz, dado ter acordado muito cedinho, e fui confrontado com anotações minhas: a hormonia pré-estabelecida de Leibniz é muito interessante. A partir de determinado momento, muito ligado ao desenvolvimento do capitalismo, a filosofia começou a ser metabolicamente reduzida.

Podemos queimar a maior parte do pensamento contemporâneo sem grande prejuízo. Como diz Leibniz 3/4 do homem são empíricos: age como qualquer animal sem Espírito. O homem metabolicamente reduzido é mais de 3/4 empírico: é absolutamente empírico, logo de espírito reduzido; sem memória, sem imaginação, sem razão e sem espírito.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A alma racional exprime o Universo e Deus, diz Leibniz. A sua física não é mecanicista: não nega as causas finais. É animista: tudo está cheio de vida. É inatista...

Animadversão: aalma do homem precisa de se aplicar e exercitar em si mesma para descobrir as marcas de Deus. Precisa de desdobrar as suas pregas ou dobras: fazer uma sociedade com Deus.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O homem metabolicamente reduzido é um ser-exterior dotado de espírito retraído: a sua alma está mais aberta ao exterior do que ao seu interior. Está morta, isto é, entorpecida, como diz Leibniz: sono sem sonhos. Não pensa, não reflecte, não medita: o corpo é movido unicamente pelas causas eficientes; exterior sem interior.