quinta-feira, 26 de junho de 2008

Arquitectura Dinâmica



O primeiro edifício giratório que roda e gera electricidade vai ser construído no Dubai. O conceito de edifício giratório não é completamente inédito, porquanto uma tecnologia giratória similar já foi aplicada na construção de edifícios existentes, um dos quais na cidade de Curitiba, capital do Estado do Paraná, no sul do Brasil, onde foi inaugurado em 2004 um edifício de apartamentos que giram tanto para esquerda como para a direita e cuja movimentação pode ser activada por comando de voz. Contudo, após 30 anos de trabalho, o arquitecto italiano David Fisher apresentou recentemente em Nova Iorque o projecto dos primeiros edifícios giratórios, um no Dubai, outro em Moscovo e um terceiro em New York.

A Rotating Tower Technology Company, liderada pelo grupo Dynamic Architecture, revelou elementos do projecto de design, bem como a planta do edifício giratório do Dubai: 80 andares e 420 metros de altura. A área média de cada apartamento é aproximadamente de 120 metros quadrados e as vilas, com 1.200 metros quadrados, contam com um espaço adicional para o estacionamento de um automóvel. Cada andar da torre giratória roda de maneira independente, possibilitando o surgimento de um edifício que pode mudar de forma constantemente.

Este novo princípio de "mudança da forma arquitectónica" está na base da arquitectura dinâmica, a qual possibilita uma nova fenomenologia do espaço. Se, como diz André Breton, uma obra de arte só pode ser válida quanto passam através dela "tremores provenientes do futuro", então devemos pensar na utopia arquitectónica subjacente à noção de "casa dinâmica". Com efeito, a passagem da casa concentrada para a casa expansiva implica uma nova intimidade do mundo, a qual tem sido a da posse (capitalista) do mundo. A visão do mundo é amplificada por esta nova tecnologia giratória: o habitante de um apartamento giratório pode amplificar a sua visão do mundo, mas, se o seu "ver" continuar a significar "ter", a imensidão (Bachelard) que o habita na solidão será mero movimento de um ser imóvel que, em vez de sonhar um mundo imenso, se deixa hipnotizar pela ilusão da posse e da apropriação capitalista do mundo. Neste último caso, o edifício giratório limita-se a amplificar a "captura do infinito" (Benevolo), sem ter consciência de que não dominamos verdadeiramente a natureza.

O edifício do Dubai será ecológico e independente em termos energéticos e conseguirá auto-abastecer-se através de turbinas eólicas ajustadas entre os andares. A sua construção será feita a partir de peças pré-fabricadas. Este novo método de trabalho, bem como a redução do número de trabalhadores no local de construção destas torres ou arranha-céus, permitirá uma economia calculada em cerca de 20 por cento, isto é, uma redução significativa dos custos da obra. Segundo Fisher, «cada andar do edifício pode ser construído em apenas sete dias».

O edifício combina movimento, energia verde e novos métodos de trabalho de construção. Isto significa que a sua construção poderá contribuir para a mudança conceptual e paradigmática na arquitectura, abrindo as portas à nova era da arquitectura dinâmica. Dado encerrar no seu bojo uma nova utopia arquitectónica (Ernst Bloch), é preciso que os poderes locais da cidade do Porto sigam o exemplo de outras cidades modernas e estejam muito atentos ao Edifício Giratório. Não podemos perder a marcha rumo ao futuro: precisamos construir no Porto um edifício giratório. Não tenham medo das alturas: tal como as catedrais góticas, os arranha-céus elevam-se ao céu para "sondar Deus". O grande Emerson escreveu: "A nossa civilização e essas (novas) ideias estão a reduzir a Terra a um cérebro. Vede como, pelo telégrafo e pelo vapor, a Terra está antropoficada". Ora, no nosso tempo, com o advento das telecomunicações e da rede, a Terra está cada vez mais antropoficada, e não precisamos ver nisso um "mal terrível". (A imagem de cima é a do Hotel Sheraton da cidade do Porto. E o vídeo foi emprestado daqui.)

J Francisco Saraiva de Sousa

8 comentários:

Aveugle.Papillon disse...

Aaaahh! Afinal sabe publicar vídeos! Boa!

Continua é com este tema enfadonho. :p

Mas eu vou ali mergulhar e já volto. ;)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estou a testar. Amanhã revejo o texto adaptado. :)

Manuel Rocha disse...

"O edifício do Dubai é ecológico e independente em termos energéticos e consegue auto-abastecer-se através de turbinas eólicas..."

Adorava ver esta afirmação demonstrada...:))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

O edifício vai ser construído e as turbinas eólicas vão abastecê-lo. É evidente que o edifício é um luxo com 80 andares, mas o conceito de casa dinâmica é interessante. Se obedecer ao comando da voz, o seu ocupante pode girar em função da luz solar ou de outra preferência: a paisagem vista de dentro muda ou pode mudar.

Manuel Rocha disse...

Nada contra o conceito ou as possibilidades do edificio, meu caro. O que não vale a pena são as etiquetas ecológica e energéticamente independente. A primeira porque vai contra um principio básico da arquitectura que se reivindica ecológica, que é a construção com materiais locais. A segunda porque se há coisa que um edificio de andares não dispensa é de um fluxo continuo e em potência de energia, coisa que a eólica não consegue assegurar. Um edificio desses é sempre um "monstro" energético, mas está na moda o "greenwashing", so....;)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Acrescentei algumas novas considerações ao post. Há quem diga que a movimentação vai produzir vómitos nos seus habitantes. O que me interessa é apenas o conceito de mudança de forma arquitectónica: uma nova noção estética e a experiência a ela associada. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Nós que lutamos pela justiça plena devemos estar atentos à "imaginação incendiária" do Benfica, como disse Pinto da Costa, para a qual o PG da república ainda não nomeou nenhum procurador adjunto.

Hoje a TV passou o discurso de Pinto da Costa que chamou a atenção para a notícia encoberta pelos mass media.

O FCPorto é heptacampeão (7) em hóquei em patins e venceu novamente o vulgar Benfica.

"Um autocarro de adeptos do FC Porto foi incendiado nas imediações do Estádio da Luz. O acto de vandalismo não provocou feridos, mas o veículo acabou por ser completamente consumido pelas chamas. O incidente aconteceu pouco depois do início da partida de hóquei em patins entre o Benfica e o FC Porto.

"O autocarro foi consumido em pouco mais de 20 minutos. Num dia de jogo decisivo para os azuis e brancos que, pela sétima vez consecutiva, levaram o título para casa.

"Com medo das guerras entre claques e de sofrer represálias, várias testemunhas no local não quiseram dar a cara. Mas a TVI sabe que indicaram à PSP ter visto 3 indivíduos junto da viatura pouco tempo antes do início do incêndio." (Notícia da TVI)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A LUZ da cidade do Porto é verdadeiramente um fenómeno de beleza radiosa pura... Nunca vi luz tão intensa com a que incide na arquitectura monumental do Porto. :)