quinta-feira, 22 de maio de 2008

Antropologia Vetero-Testamentária: o Ser do Homem

Primeira Parte
«Iahweh, Senhor nosso
quão poderoso é o teu nome
em toda a terra
«Ele divulga a tua majestade sobre o céu.
Pela boca das crianças e dos bebés
tu o firmaste, qual fortaleza,
contra os teus adversários,
para reprimir o inimigo e o vingador.
«Quando vejo o céu, obra dos teus dedos,
a lua e as estrelas que fixaste,
que é um mortal, para dele te lembrares,
e um filho de Adão, que venhas visitá-lo?
«E o fizeste pouco menos do que um deus,
coroando-o de glória e beleza.
Para que domine as obras de tuas mãos
sob os seus pés tudo colocaste:
«ovelhas e bois, todos eles,
e as feras do campo também;
a ave do céu e os peixes do oceano
que percorrem as sendas dos mares.
«Iahweh, Senhor nosso,
quão poderoso é o teu nome
em toda a terra!» (Salmo 8)
De todos os seres existentes que habitam a Terra o Homem é o único que faz perguntas e a pergunta que o atormenta mais é a questão do homem. O Antigo Testamento fornece uma resposta a esta questão do homem. O objectivo deste post é precisamente clarificar a imagem veterotestamentária do homem.
Israel tinha a convicção de que o homem ocupa um lugar especial no seio da natureza que o rodeia. A natureza está submetida a uma ordem e a leis próprias que o homem deve reconhecer e que não pode controlar de modo arbitrário. O homem situa-se face à natureza na sua condição de chamado/convocado por Deus. A posse da terra está condicionada pela fidelidade à Aliança. Isto significa que a relação pessoal do homem com a natureza foi incluída por Deus na esfera da conduta responsável do homem. Este deve estar consciente da sua especial posição dentro do mundo das criaturas e assumir a sua responsabilidade pessoal pela natureza. A sua fé centra-se num único Deus, que não é uma força da natureza, mas o Senhor Vivo que apenas se relaciona com o homem através da comunhão da palavra. Na palavra o homem autorevela-se como ser superior a todas as coisas e forças naturais, como totalmente outro, como um ser cuja essência e condição só encontram garantia em Deus (Walther Eichrodt, G. von Rad, Jürgen Moltmann, Ernst Bloch, Wolfhart Pannenberg, Ruiz de la Peña, E. Jüngel, H. de Lubac, K. Rahner, Bruno Forte, U. von Balthasar, J. I. González Faus, L. F. Ladaria, J. B. Metz, H. Thielicke).
As estruturas antropológicas do Antigo Testamento podem ser explicitadas em quatro traços essenciais estabelecidos através da terminologia (Hans Walter Wolff): o Homem necessitado ("napas"), o Homem efémero ("basar"), o Homem fortalecido ("ruah") e o Homem raciocinante ("leb" ou "lebad"). Seguimos a via da terminologia antropológica do Antigo Testamento, mas levando em conta que a diferenciação do aspecto espiritual ou interior e do aspecto corporal do ser humano, tal como aparece nos dois relatos da criação, é o elemento constitutivo de toda a visão veterotestamentária do homem. Este duplo aspecto do ser humano revela que o homem é feito de matéria terrestre, de pó e de cinza, ao mesmo tempo que é dotado de uma potencialidade espiritual que o converte num eu consciente. Porém, esta concepção veterotestamentária ignora totalmente o dualismo estrito. Carne e espírito, corpo e alma, não constituem opostos irreconciliáveis, mas aspectos que revelam a totalidade vital do homem, porque, neste pensamento sintético e esterométrico, o corpo vivo e as suas diferentes partes são considerados órgão e veículo da vida pessoal, de tal modo que em cada parte se expressa e se capta a totalidade da pessoa.
HOMEM NECESSITADO. O termo hebraico "napas" constitui o termo fundamental da antropologia do Antigo Testamento, sendo usada 755 vezes, por vezes para definir o próprio ser humano. Embora abusivamente traduzido por "alma", este termo é usado em diversos contextos, para referir "garganta", "pescoço", "ânsia", "alma", "vida" e "pessoa". A garganta é o órgão da alimentação e da respiração e, quando "o homem saciado" é contraposto à "garganta faminta", compreende-se que o homem é ser necessitado na sua totalidade, sendo a garganta o assento onde se localizam as necessidades elementares da vida. O "pescoço" ("sawwar") é o exterior da garganta e "napas" como pescoço do homem apresenta-o como um ser necessitado de ajuda, oprimido e ameaçado. Ora, o homem como ser necessitado e ameaçado, anseia com o seu "napas" pelos alimentos e pela conservação da vida. "Napas" é precisamente um desejar vital, um ansiar, ambicionar ou suspirar por, que normalmente arrasta o homem para a acção. Como órgão específico e como acto de desejar, "napas" significa a sede e o acto de outras impressões e situações anímicas, nomeadamente da compaixão com o necessitado, sobretudo enquanto alma sofredora e como espírito atribulado, como é o caso do sujeito concreto das lamentações do saltério. Mas, se designa o órgão de necessidades vitais que têm de ser satisfeitas para que o homem possa viver, "napas" significa a própria vida identificada com o "sangue" e, por isso, representa o contrário da morte. Porém, "napas" é o próprio homem, indicando neste caso não o que uma pessoa ou indivíduo ("hayyim") tem, mas "o" (pronome pessoal ou reflexivo em vez do nome) a quem pertence a vida.
No Antigo Testamento, o homem é pensado como indivíduo que, no seu desejo ou ânsia de vida, é absolutamente dependente, como o indicam a garganta enquanto órgão da alimentação e da respiração e o pescoço como a parte do corpo especialmente em perigo. "Napas" apresenta o homem na sua necessidade e ansiedade, incluindo a sua excitabilidade e vulnerabilidade emocional, representando-o como pessoa ou indivíduo isolado. "Napas" revela o aspecto necessitado, ansioso de vida e, portanto, vivo do homem, de resto semelhante ao animal. Perante Deus, inicia-se um diálogo do homem com o seu "napas", isto é, consigo mesmo. O homem reconhece-se perante Deus não só como "napas" na sua necessidade, mas também na condução do seu eu para a esperança e o louvor.
HOMEM EFÉMERO. O termo hebraico "basar" é usado 273 vezes, 104 das quais para referir os animais, mais precisamente a carne dos animais vivos. Dado nunca ser usado em relação a Deus, parece indicar algo que o homem partilha com os animais, captando os seres vivos no aspecto corporal. É usado para referir a "carne", o "corpo", o "parentesco" e a "debilidade". Em primeiro lugar, "basar" indica a carne de animais vivos, sobretudo quando se trata de animais sacrificados segundo prescrições rituais. Enquanto alimento refere-se tanto à carne animal como à carne humana. É usado para referir uma parte ou "pedaço" do corpo humano, geralmente em associação com outros elementos corporais, podendo ser usado eufemisticamente para referir o "membro viril", o pénis, não para indicar a capacidade de engendrar, mas para expressar a infidelidade e a impureza. Como este termo é utilizado para indicar a parte visível do corpo, pode designar nalguns casos todo o corpo humano, e, como carne, pode ser usado para referir aquilo que une os homens mutuamente e, no seu sentido jurídico, designa o parentesco ou os familiares ou "parentes carnais", podendo significar "toda a humanidade" ("Kol-basar"). Pode especificar o vivente como aquele ser "em que há alento" ou como "ser vivo", por oposição ao cadáver ("nebela") ou os restos mortais. A oposição entre o "coração de pedra" e o "coração de carne" mostra que este termo pode ser usado para destacar o tipo de parentesco de todos os seres vivos, valorizando a conduta humana.
No Antigo Testamento, "basar" caracteriza a vida humana em geral como débil e caduca em si mesma. O ser humano é descrito por contraposição a Deus como um ser sem força e caduco. Dado não ser usado em relação a Deus, "basar" capta algo especificamente humano e indica sempre o poder humano limitado e deficiente por oposição ao poder de Deus, o único em que se pode confiar, dado ser superior a todos os outros poderes. "Basar" é o homem caduco em si mesmo, exposto ao pecado, cuja "carne" depende do "sopro vital" de Deus e não resiste à voz do Deus vivo. Em suma, "basar" significa não somente a falta de força da criatura mortal, a sua debilidade e caducidade essenciais, mas também a sua debilidade na fidelidade e na obediência frente à vontade de Deus. (CONTINUA)
J Francisco Saraiva de Sousa

15 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Amigos Virtuais

Este post está a ser feito em ritmo lento: a noção de homem necessitado (Napas) está concluída. Seguem-se os outros três traços que exploram campos semânticos, sem detalhar os textos bíblicos. O procedimento é analítico, muito diferente do pensamento sintético hebraico. Talvez um dia resolva reunir reconstrutivamente os traços agora isolados, embora essa reunião sintética esteja subjacente ao texto.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Dadas as limitações do Blogger, os termos hebraicos ou aramaicos são escritos sem obedecer a regras linguísticas rigorosas.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Um ataque ao luso-espírito: a expulsão dos judeus de Portugal! Só um povo sem qualidades e profundamente invejoso como o português podia expulsar aqueles que traziam o pensamento para Portugal.

A periferia de Portugal na Europa não é somente geográfica; é essencialmente espiritual. Os portugueses são "nazis" e muito burrecos. Daí a expulsão do Espírito que germinou noutros países europeus. Portugal é inimigo visceral e genético do pensamento superior e da vida competitiva honesta. O cunhismo é a estratégia dos medíocres: aqueles que sabem valer ZERO.

André LF disse...

Olá, Francisco! Adorei o tema que você escolheu. Hoje tive um dia atribulado, e ainda estou com compromissos desagradáveis que impedem a minha leitura do seu texto.
O diálogo com vc e com os outros amigos virtuais (que, na verdade, são muito reais) é muito vital para mim.
Abraço!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Olá André

Também ainda não tive tempo de concluir: vou ver se concluo amanhã. Há tempo... e também estou cansado.
Abraço

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O Homem efémero já está concluído.

As outras secções passam para outro post, a partir do Homem fortalecido, para não prolongar mais este post.

Hoje a notícia do dia é que Lisboa, a prostituta, recebe 400 milhões de euros para requalificar a zona ribeirinha, e o Porto 1 milhão de euros, para a requalificação da Baixa. Uma cabala corrupta que mostra que a capital da merda é uma fossa...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O pensamento veterotestamentário, isto é, hebraico, não é dualista, mas realista: apresenta o corpo em inter-relação orgânica com a vida psíquica. Portanto, afirmação total da existência corporal do homem! O corpo é o veículo de uma vida pessoal e espiritual, devedora de uma vocação de Deus, que descobre a sua nobreza no facto de ser imagem de Deus. O pecado não é visto como "desejo de carne" e a redenção deve realizar-se num acontecimento corporal.
A dicotomia entre "nefes" (nappas) como alma e "basar" como carne é posterior e reflecte a imagem do homem da filosofia grega: o cristianismo deve ser visto como "judaísmo helenizado" que abandona "ruah".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ou seja, o hebreu não via a pessoa humana como "alma encarnada" mas como "corpo animado": um corpo cuja vida era o resultado do alento de Deus.

André LF disse...

Gostei muito do seu texto, Francisco! Qual foi a obra que você usou como referência para a redação deste post?

André LF disse...

De acordo com Marc-Alain Ouaknin, na língua hebraica existem duas maneiras de dizer "Eu": Anoki e Ani. Anoki é um Eu já realizado, inscrição definitiva em uma escritura. O Talmude afirma que Anoki é o anagrama da expressão aramaica: "Ana nafshi ketivat yahavit" ("Eu, minha alma, eu a dou na escritura"). Ani é o "Eu se fazendo", o "Eu em movimento".
Como diz Ouakin, O "EU-Ani" se distingue pela recusa de se atribuir uma essência, "de se aprisionar em qualquer fase definitiva, em qualquer distinção histórica ou natural. O Ani encerra intrinsecamente o áyin, o Eu carrega em si a potencialidade do nada, ele consiste na capacidade de evitar toda assignação de uma essência. Ele é fundamentalmente um "ma", um "quê?", que o subtrai ao risco da definição".
O "homem-quê" sempre corre o risco de se tornar um "eis o homem que sou", confundindo-se com determinações particulares. Ele se torna então um um "Eu"-Anoki, inscrito em uma representação imaginária de si. Ao aceitar esta imagem de si, ele deixa de ser nada (aberto ao devir) e se torna algo: Coisificado, reificado, ele perde a sua liberdade, que é constitutiva de seu "Eu"-Ani autêntico.
A língua hebraica possui conceitos muito complexos. Parece-me ser uma língua muito filosófica.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Recorri às obras de Eichrodt, von Rad e Wolff. A partir destas noções podemos compreender melhor "A Estrela da Redenção" de Franz Rosenzweig.
Sim, o hebraico é língua filosófica.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estou farto de tanta chuva! Chove, chove e chove copiosamente, só chove... E tudo fica húmido de tanto chover. Hoje nem sinal de sol: tudo chuvoso e chuvoso...

André

Esses termos referentes ao Eu (anoki e ani) não são destacados pelos especialistas do Antigo Testamento. O modo como foram definidos deixa transparecer a influência da nossa matriz grega de pensamento. Rosenzweig não suporta a nossa noção de "SI"...

Os pronomes eram usados nos textos e continuam a ser muito estudados. Aliás, já descobri alguns blogs que tratam desses termos.

André LF disse...

Francisco, aqui está muito calor. Seria melhor um pouco de chuva para refrescar os ânimos :)
Pode me dizer o nome de algum destes blogs que tratam desta questão?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A partir deste vai aos outros:
littlefoxling.blogspot.com/2006/12/anianoki.html

Iago Ventura disse...

J Francisco Saraiva de Sousa o sr. pode me dizer qual a versão da Biblia você usou para este Salmo que você colocou no Post ?