terça-feira, 27 de maio de 2008

Prós e Contras: Crise Económica: Como vamos resistir?

Hoje "Prós e Contras" (26 de Maio de 2008) foi novamente dedicado à crise ou às crises económica(s) do capitalismo. A questão fundamental colocada pela Fátima Campos foi a que deu título ao programa: Como vamos resistir? O que esteve em debate foi precisamente a capacidade de resposta da economia portuguesa à crise internacional. Ora, o governo já respondeu com "seis medidas emblemáticas". Teodora Cardoso e Basílio Horta acreditam que essas medidas são suficientes para fazer frente aos constrangimentos da economia global. Mas Medina Carreira, António Nogueira Leite e Sérgio Ribeiro mostraram-se menos convencidos e com razões de peso.
Medina Carreira fez uma análise séria da economia portuguesa e apresentou-a em dois gráficos: o primeiro gráfico de linhas mostrava que a situação económica portuguesa acompanhava ao longo do tempo a situação económica da Europa, embora num perspectiva negativa, e no segundo gráfico as barras foram demolidoras para o discurso da mentira política e jornalística: ao longo das últimas décadas (70 até hoje) a economia portuguesa está a ficar cada vez mais frágil. A partir destes gráficos, Medina Carreira exigiu, numa polémica dura com Basílio Horta, uma "política da verdade", em vez da "política da conversa" dos governos nacionais ou mesmo da União Europeia: os portugueses estão cansados de ser massacrados em nome de "promessas" ou de objectivos que nunca se concretizam. Estamos mais pobres e mais miseráveis em todos os sentidos do termo, incluindo o sentido educacional, judicial e ambiental: esta é a verdade e deve ser a partir de um discurso verdadeiro que as políticas de futuro devem ser discutidas.
Medina Carreira chegou mesmo a referir a capacidade anestésica das políticas da conversa: os portugueses são efectivamente anestesiados desde o 25 de Abril de 1974. Este discurso mentiroso tem sido protagonizado pelo economicismo predominante que apresenta tudo como uma "fatalidade" que os governos fingem controlar quando é a União Europeia, mais precisamente o Banco Europeu, que controla tudo em função de políticas monetaristas irracionais. Sérgio Ribeiro que levou consigo um volume das Obras Escolhidas de Marx e Engels, cuja tradução devia ser urgentemente revista por peritos, lembrou que, nas Faculdades de Economia, já não se estuda Marx ou mesmo a economia política clássica: o economicismo protagonizado pelos economistas do capitalismo constitui efectivamente o maior inimigo da sociedade. António Nogueira Leite, seguidor da economia neoclássica, reconheceu que era necessário ensinar "teorias alternativas", de modo a ocupar o vazio de pensamento criativo produzido pela apologética vulgar e unidimensional do capitalismo autodestrutivo.
Quem já me conhece sabe bem que estou do lado de Medina Carreira e de António Nogueira Leite: Portugal perdeu quase todo o seu tecido industrial desde que aderiu à UE e depende dos "serviços" (70%), que, em termos de exportações, contam pouco, apesar de Basílio Horta ter integrado as novas empresas tecnológicas nesse sector. Com o tecido industrial destruído e depauperado, com a deslocação constante das empresas e dos capitais, com as pescas subaproveitadas e com a agricultura miserável que se pratica, Portugal vive da especulação financeira dos Bancos (o crédito e a especulação financeira) e da ajuda da União Europeia, sem pensar garantir o futuro. As reformas da administração pública, da educação e da justiça, aquelas que competem aos governos, são insuficientes e, por vezes, erram o alvo. O economicismo dominante usa sempre a mesma varinha revestida de estatísticas falseadas: assaltar o bolso dos portugueses e tentar atrair capitais estrangeiros, alegando que os trabalhadores portugueses, além de serem mão-de-obra "qualificada" barata, não fazem greves. Isto foi dito textualmente por Basílio Horta e Teodora Cardoso avançou com outras ideias terríveis para fazer dinheiro, uma das quais mexia com a saúde dos portugueses. A iniquidade moral e social das desigualdades sociais de que falou Medina Carreira continua instalada e o pensamento económico do capitalismo não pretende fazer nada para lhe pôr termo, até porque a medida avançada por Medina Carreira de fazer os ricos pagarem mais foi ineficaz, como "demonstrou" o caso francês referido prontamente por Teodora Cardoso: os ricos não querem pagar mais e, se forem forçados, deslocam os seus capitais para o estrangeiro. Teodora Cardoso, supostamente uma economista "socialista", afirmou que o capitalismo vive em crises permanentes e é o único sistema capaz de as superar, mesmo que demore algum tempo, enfim o tempo de praticamente toda a História de Portugal, sobretudo a das últimas três décadas, aquelas que mais desgastaram os portugueses devido à expectativa democrática traída.
O mais escandaloso nesta conversa económica entre economistas foi o facto de quase ninguém ter levado em conta a saúde do ambiente e a necessidade de alterar o estilo de vida dos portugueses. A excepção foram novamente Medina Carreira e Nogueira Leite que acentuaram a degradação do ensino e da educação, a miséria da "justiça" nacional, a política inactiva contra a corrupção, a ausência de uma política de dignificação do trabalho e do trabalhador, a destruição corrupta da cultura do mérito, ou a necessidade de reduzir o consumo de combustíveis.
Apreciei especialmente a crítica da educação em Portugal: As Escolas Superiores de Educação destruíram o ensino. Os investimentos avultados realizados no sistema de ensino não produziram resultados positivos: "professores ignorantes" e "alunos desmotivados" são a face visível da situação da degradação da educação nacional. Todos sabemos que, nesta situação e com estes professores e alunos, Portugal não vai ser capaz de qualificar os portugueses. A regressão mental e cognitiva tomou conta do país, a começar pelos políticos, magistrados, economistas, engenheiros e jornalistas. Mais uma vez coube a Medina Carreira, com a preciosa ajuda de Nogueira Leite, denunciar a estupidez do jornalismo nacional e a bárbarie cultural. Sérgio Ribeiro traiu Marx quando fez a defesa dos professores e dos alunos.
Apenas desejo ver o governo do Partido Socialista fazer um outro esforço para além do que tem feito a favor de Portugal: tomar consciência de que os portugueses estão exaustos e completamente perdidos e endividados, para manter um estilo de vida consumista que não nos leva a parte alguma. Precisamos de um projecto de futuro e tomar medidas realistas para garantir o futuro de um Portugal sem angústia e mais esclarecido. Se o sistema pseudodemocrático português bloqueou a possibilidade de produção de alternativas, devido às políticas corruptas que recrutam os funcionários não em função do mérito mas da cunha, então o governo que diz apostar nas qualificações e na educação deve dirigir a sua atenção para todo o sistema de ensino, a começar pelo primeiro ciclo e a terminar no ensino universitário: os seus professores são tendencialmente incompetentes e apostar neles é adiar eternamente o futuro de Portugal. Caso contrário, não iremos conseguir resistir e continuaremos a ser um país miserável com vergonha da sua pobreza.
Recomendo vivamente a leitura destes dois posts: um do Fernando Dias e o outro do Manuel Rocha. Clique e leia.
J Francisco Saraiva de Sousa

22 comentários:

Manuel Rocha disse...

Só o tema do debate é todo um programa conceptual. Resistir quer dizer defender o que se julga defensável. Ora a partir daqui não se vai além das criticas costumeiras às politicas dos vários subsistemas e à detecção de eventuais bloqueios conjunturais ou de estrutura. Mas em relação a estes, os diagnósticos são sempre feitos por comparação com o paradigma “média europeia”que nunca é questionado, pelo contrário.
Ora desde logo as comparações estatísticas entre países e os chamados indicadores de desenvolvimento, são de um simplismo confrangedor. Se Portugal se localizasse no Vale do Rur de certeza que andaríamos a falar da educação como factor limitante ? Alguém fala do nível de educação ou das assimetrias de rendimento no Dubai ou do Katar como obstáculo à respectiva prosperidade ?
Pois !
Tendemos por sistema a esquecer que do ponto de vista de recursos físicos, vistos na perspectiva das sociedades industriais, Portugal é um país pobre. Ignora-se ainda que durante o último século não “sofreu” o fenómeno de redução da pressão da população sobre os recursos que atingiu quase toda a Europa com duas GG e não só. Apesar disso temos cinco milhões de automóveis em circulação e um parque habitacional que deve estar prestes a ultrapassar a relação de 1/1 com a população residente. Dito de outro modo, queremos fazer figura de ricos sem ter com quê. E ao mínimo abanão, claro que este prédio de fracas fundações ameaça logo ruína. Vivemos vários pontos acima da riqueza que somos capazes de gerar. E se retirarmos o turismo da equação, não lhes digo nem lhes conto…
Enfim, o que me conta é o habitual discurso da treta. Nada de novo. Só me espanta que ninguém tenha falado da energia nuclear como a salvação dos nossos males…de certeza que não se falou disso ???

Manuel Rocha disse...

http://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2008/05/um-debate-oportuno.html

Deixo link para uma iniciativa que talvez lhe interesse, até para depois nos contar como foi...:)

F. Dias disse...

O Francisco tem carradas de razão e o Manuel é muito certeiro.

Os políticos não se têm preocupado em criar estruturas eficazes tendo em vista a protecção do ambiente, os direitos humanos, a instrução pública… O que se vê é defenderem um paradigma que tende a favorecer os países mais ricos e as empresas multinacionais mais mega.

E isto é tanto mais chocante quando existe uma organização mundial que é a do Comércio, que se sobrepõe às outras organizações. Não é por acaso que é a única a que os EU se sujeitam. Isto leva a um desiquilíbrio entre o lucro das megaempresas e o bem-estar público. A OMC não se preocupa com a protecção ambiental nem com a segurança alimentar. Portanto o que os Governos deviam fazer era reforçar o poder das organizações que protegem o ambiente e cuidam da segurança alimentar, da fome no mundo e da instrução dos povos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel e Fernando Dias

Nogueira Leite falou das centrais nucleares e da necessidade de termos esse debate.
Penso que Medina estava mais disposto e discutir os automóveis, com medidas tais como não permitir a circulação de automóvel com menos três pessoas ou dia sim dia não, etc. Mostrou abertura para discutir a redução da nossa dependência dos combustíveis.
E o retrato ue fez da educação e da justiça foi realista. A Teodora concordou que os investimentos na educação não produziram nada de positivo: formação precipitada de professores incompetentes. Mas Basílio Horta fez a defesa do status quo com discurso optimista. Ninguém disse que o governo não está a fazer bom trabalho, mas apenas que era necessário ser mais realista e verdadeiro em relação à nossa situação...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Deixei este comentário no post do Fernando Dias, ao qual reconduzo neste post, em articulação com o meu post sobre a "tecnologia e o eclipse do pensamento" e o "paradoxo tecnológico" do Manuel Rocha:

"Gostei particularmente deste seu post, porque vai ao encontro daquilo a que chamei a revolução da organização social da ciência que introduziu na pesquisa os métodos de contabilidade das empresas capitalistas. A mentalidade económica dominante invadiu assim a ciência e as suas organizações, incluíndo as universidades. Está tudo contaminado pelo espírito do pior capitalismo: o financeiro-especulativo. E a Filosofia que devia zelar pelo pensamento independente acaba por se render, produzindo textos complicados mas destituídos de relevância (um termo contabilístico): as filosofias pós-modernas destruiram o self, fragmentaram-no. Ora, ele já está sujeito a essa dispersão comandada pelo sistema económico que tudo coloniza. A missão da filosofia não é "constatar factos"; é proteger aquilo que é ameaçado e fortalecer os homens, de modo a levá-los a lutar por um mundo melhor, com menos alienações, adições e violências. O nosso inmigo é o economicismo fatalista, aliás denunciado por Marx.
O reducionismo teve e tem sucesso e nisso se reduz a sua vitória. Popper disse-o... Eu não combato o reducionismo que possibilita aperfeiçoamentos técnicos: esse é um dos modos de ser no mundo, a técnica. Contudo, o reducionismo vale o que vale: deve ser confrontado com os seus limites e a sua incapacidade de lidar com fenómenos complexos e um desses fenómenos, além da consciência de que tem tratado, é a tradição, a formação cultural. Mas quem impõe esse estilo de pensar é a economia capitalista global e a sua ideologia economicista: aqui está o perigo. O capitalismo é um sistema autodestrutivo e, se não fossem as manipulações e os jogos de poder, já estávamos todos liquidados pela gula irracional e antinatural de uma tal lógica de lucro.
As estratégias de pesquisa científica devem cooperar e dialogar. Neste mundo ameaçado, a ciência e a tecnologia ocidentais prostituem-se e servem qualquer senhor, incluindo os terroristas: apenas a Filosofia é rejeitada pelos inimigos. Porquê? Porque é a nossa matriz cultural e civilizacional: o nosso orgulho!"

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

Li o ladrão de bicicletas, mas eu vejo nas ciências sociais a maior ameaça do Ocidente: as ciências sociais estão a contribuir para a destruição da cultura superior. Relativizam e matam tudo o que é distinto: uniformizam e não são ciências mas, como dizia Althusser, meras técnicas de adaptação colocadas ao serviço do poder instituído. Tanto faz ser de esquerda ou de direita: a mesma merda atravessa-as! Puro prolongamento da burocracia. Continuamos a ler e a aprender com Platão mas o que aprendemos com os sociólogos autonomizados? Nada, conversa da treta.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

A arrogância da ciência canónica de que trata no seu post está bem patente neste livro:

John Brockman, A Terceira Cultura, temas e Debates.

O texto de Marvin Minsky, cujos livros deviam ser traduzidos para português, constitui um exemplo dessa arrogância. Com a sua teoria da mente social, pretende anular a cultura humanista. Que pretensão ridícula! Se a conhecesse, teria concluído que a sua teoria não traz nada de novo, apenas destitui o homem perante a mente computacional! Aliás, essa arrogância é exibida cá em Portugal por alguns mentores do Plano Tecnológico.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Já agora lanço mais outro galho para a fogueira da discussão, já que a Papillon está "zangada":

"Face a esta sociedade repleta de animais metabolicamente reduzidos, todos os grandes princípios filosóficos ou estéticos ou educacionais ou políticos, perderam "validade". Isto é que é o horror do pensamento: estar irremediavelmente perdido para esta "humanidade". Perigo total!

Por isso, a estética não pode ter efeitos: o homem anestesiado não sente a dor ou o prazer. Aliás, estas categorias estão perdidas. Eis o horror da estética!"

Isto vem a propósito da anestesia dada aos portugueses diariamente através dos mass media medíocres. Confirma o que Medina disse sobre o jornalista da "Lusa" (?).

Manuel Rocha disse...

Francisco,

O link era mais para depois nos contar o que tem o Freire a dizer como novidade, porque tem feito alguns ensaios de ruptura...;)

O problema do jornalismo é o mesmo do ensino. São "profissionais" fabricados à pressa e sem preparação para compreender os problemas sobre os quais escrevem, nem tempo para isso. E de manipulação da opinião, então...Ainda este fds o Expresso tarzia na última página uma noticia tendo por titulo" Governo veta Adriano Moreira". Vamos ler e percebe-se que de uma lista com cinco nomes propostos para escolher dois para integrar o conselho de curadores da AAAES, o ministro ...escolheu dois!

Fernando Dias,

Não o acompanho por inteiro na conclusão do seu comentário. As grandes burocracias não me convencem. Sou todo Schumaker: "small is beutifull" !
::)))
E ainda ninguém me conseguiu convencer que a sustentabilidade é possível com uma economia desligada da escla regional e dos factores de localização.

Manuel Rocha disse...

Ahahha!

Logo vi que alguém teria de ter falado da "solução nuclear" !!!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

Não faz parte da minha maneira de ser e estar na vida, mas alguns jornalistas da praça deviam ser nomeados e desmistificados em público.

Não estou a "localizar" a "cara" do Freire, mas, se for da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, é melhor não localizar, porque vejo nessa faculdade a vergonha da UP. :(

Manuel Rocha disse...

Não ! Este André Freire é do ISCTE.
Por vezes escreve no Público...

F. Dias disse...

Manuel Rocha,

Os adeptos da casa pequena não querem dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa.
Temos pois que conservar o dia bom em uma memória cosmopolita e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.

Isto é um híbrido Fernando Dias / Fernando Pessoa / Bernardo Soares
D’ O Livro do Desassossego

F. Dias disse...

Esquecera um reparo do vosso gesto que me aconselham atitude prudencial em relação a ambições impossíveis realizadas sem rumo. Reflexões firmes e contínuas que, se fossem, teriam sido. E neste devaneio sem grandeza nem calma, neste atardar sem esperança nem fim, gasto meus passos com palavras altas, ditas baixo, que soam múltiplas no claustro do meu simples isolamento.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Marvin Minsky, o célebre matemático e cientista de computadores, escreve:

«... uma ideia muito simples: a de que a nossa mente possui colecções de diferentes métodos de actuar».

Com esta ideia simples, Minsky pretende demolir a ideia comum de que «no interior de cada um espreita outra pessoa, a que chamamos o nosso "eu" e que se encarrega do nosso pensamento, dos nossos sentimentos, das nossas decisões e dos nossos planos, e mais tarde aprova ou lamenta». Aquilo a que Daniel Dennett chamou Teatro Cartesiano: «a fantasia universal de que no interior mais profundo da mente existe um lugar central especial onde todos os acontecimentos mentais finalmente se reúnem para serem vividos».

Uma descrição tópica (espacial) da mente cartesiana! Que deixa no ar a questão: uma "fantasia" de quem? Minsky interroga-se: Porque é esta ideia da mente cartesiana tão popular? E responde: «porque não explica nada». Pelo menos ficamos a saber que Minsky é como os seus rôbos com olhos e mãos, um perfeito zombie! Porque é um ser destituído daquilo que nomeia maquinalmente "eu interior imaginário" que nem sequer pode ser convocado para assumir responsabilidades. O sistema computacional apenas funciona. Vemos o que está por detrás deste "pensamento maquinal": uma economia racional que deseja moldar os humanos à sua "imagem". Nada melhor para o conseguir do que "roubar-lhes a mente autónoma", aquela que decide e assume responsabilidade pelos seus actos. Se não houvesse outra função para além desta referida, ela é suficiente para conservar a "mitologia do eu interior", isto é, para rejeitar a verdadeira mitologia da mente social computacional, mero agregado articulado de programas informáticos.

Se Minsky lesse este comentário, ripostava, talvez ofendido! Mas ele é um mero rôbo e os rôbos ainda não foram programados para simular comportamentos ou estados mentais de ofensa!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Convoque "ruah" (a força divina que o habita) e vai ver que começa a ficar cada vez mais fortalecido. Acredito que vai descobrir ou redescobrir a sua/Dele força interior...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

... que nunca o abandonou, repare...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Afinal, Fernando Dias,

somos seres-(dependentes)-do-ópio. Deus pode ser mais um ópio mental, cujos receptores moleculares cerebrais desconhecemos, mas o Seu ópio conforta, consola e fortalece a nossa alma mais interior, aquela que deseja secretamente livrar-se do corpo e permanecer viva. E eis o milagre: o corpo também pode fortalecer. Não recuse o ópio divino. Se o homem o inventou, alguma razão teve e tem para o fazer: Deus dá ânimo e, como disse Horkheimer, retira aos carrascos e aos corruptos a última palavra. Esta é a justiça plena.

F. Dias disse...

Para um fenomenólogo, Deus não é figura determinante a não ser para um certo tipo de religião monoteísta. Admito poder ser religioso, é essa potencialidade que pode estar dentro de mim. Mas ser religioso é assumir uma determinada atitude face ao Sagrado, o invísível, o sentido último. Antes de Deus existe o Sagrado ou o Mistério, que é ao mesmo tempo absolutamente transcendente e radicalmente imanente. Vou em demanda do Sagrado.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Bem sei que H. Husserl não encontrou Deus com o seu procedimento de redução fenomenológica transcendental, mas na Crise vai ao encontro do Mundo da Vida, abrindo a egologia transcendental das Meditações à existência. E aqui tivémos Heidegger com o Ser humano lançado desde sempre no mundo, a situação de Sartre, enfim o corpo de Merleau-Ponty e o mundo quotidiano de Schutz.
Porém, Descartes com a sua redução psicológica (a dúvida) descobriu um ser superior ao homem: aquele que nomeamos Deus ou, se quiser, o Sagrado.
Para o encontrar, não precisa ausentar-se. :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Amigos

Vi um documentário sobre os nossos judeus de Hamburg e de Amsterdão e isso reconduziu-me a um post anterior onde acusava a inveja portuguesa pela expulsão dos judeus de Portugal e pela nossa periferia espiritual (não apenas geográfica) na Europa.
Gostava de postar sobre os nossos judeus, alguns dos quais regressaram a Portugal quando Hitler os perseguiu, enquanto outros foram para Israel onde ajudaram a construir este país, assumindo altos cargos, ou para outros países: familías inteiras morreram nos famosos campos de extermínio nazi.
Precisamos dos nossos judeus para combater a regressão mental e cognitiva nacional.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Vou referir alguns grandes nomes de judeus portugueses que começaram a dar forma a filosofia "portuguesa":

Isaac Abravanel, pai de Leão Hebreo.

Leão Hebreo. Obra: "Dialoghi d'Amore". Considero-o português.

Oróbio de Castro.

Abrahão Ferreira. Obras: "Porta del Cielo" (1655) e "Epitome y Compendio dela Logica...". Associa cabalística, platonismo e aristotelismo.

Samuel da Silva. Obra: "Tratado da Immortalidade da Anima" (1623)

Uriel da Costa. Obra: "Exame de Tradicoens Farisaicas conferidas com a lei escrita contra a immortalidade da alma". Seguindo o averroísmo latino, nega a imortalidade da alma. A obra de Samuel da Silva critica esta posição.

João Serram. Obra: "Mosaica Filosofica" (1602).

E o nosso Espinosa. Os outros referidos anteriormente foram Renascentistas e muito platonizantes (século XVII).

Recorro à obra do alemão Lothar Thomas (1944), Contribuição para a História da Filosofia Portuguesa, a única que merece confiança. As outras são nacional-reduzidas.A História da Filosofia em Portugal de Lopes Praça fornece bibliografia, mas omitiu estes pensadores portugueses. Também se podem consultar as obras de Pinharanda Gomes e de Barbosa Machado. quanto aos judeus em Portugal é melhor seguir autores estrangeiros, tais como José mador de los Rios, Meyer Kayserling e ndré Chouraqui. Ou Mendes dos Remédios e João de Barros. Covém lembrar que o Padre antónio Vieira teve contactos com os nossos judeus no exílio (Holanda).

Infelizmente, ainda não temos bons estudos sobre estes pensadores originais portugueses judeus. O que existe está adulterado pelo sentimento de inveja nacional.

Estes pensadores originais portugueses expulsos de Portugal viram a filosofia em conexão com a medicina, um aspecto muito curioso da nossa filosofia.