quarta-feira, 14 de maio de 2008

Homem Trágico e Homem Utópico

«O carácter estranho desta natureza (social) relativamente à primeira (natural), a apreensão moderna sentimental da natureza, não são mais do que a projecção da experiência que ensina ao homem que o mundo ambiente que ele mesmo criou não é para ele um lar, mas uma prisão». (G. Lukács)
«Mundo contingente e indivíduo problemático são realidades que se condicionam uma à outra». (G. Lukács)
Esta é uma longa meditação livre e incompleta em torno da antropologia de Georg Lukács (1885-1971): a experiência trágica é a essência última e genuína do humano e somente nela pode o homem conseguir auto-possuir-se como totalidade não extensiva mas intensiva, não empírica mas simbólica, não material mas formal. No seu período inicial de produção filosófica, antes da adesão ao marxismo, Lukács via a arte como refúgio do "homem problemático", cuja missão era construir o seu próprio cosmos, retirando-se do mundo ao redor para formar uma comunidade sem janelas para o exterior, onde o homem estaria instalado na totalidade intensiva, isto é, em si mesmo como obra. Era no utópico que ele descobria a essência do humano.
A hipótese que orienta a meditação em curso é esta: O Homem metabolicamente reduzido, portanto o homem consumidor de hoje, é um ser que não tem experiência de si mesmo, dos outros e do mundo. E, como ser carente de mundo mas devorador de mundo, é um ser anestesiado e fragmentado. Esta é a presente condição do homem na sociedade de consumidores. O animal metabolicamente reduzido deixou de ser homem problemático, aquele que, reconhecendo a inadequação empírica entre a alma e as formas, procura instalar-se na totalidade intensiva. Noções tais como "mundo fechado" ou "mundo aberto" são absolutamente estranhas ao homem metabolicamente reduzido: ele deixou de ser sensível à fractura, portanto à tragédia essencial humana, a qual exige um sentido forte de individualidade. O homem anestesiado é ser-anti-mundo e anti-humano: mero "tubo digestivo".
Em 1911, Georg Lukács escreveu um «romance», Acerca da Pobreza de Espírito, onde narra, em forma de diálogo, o seu próprio suicídio. A personagem principal do diálogo, o próprio Lukács, vê o suicídio como a única possibilidade de adequação com o tipo de vida que transcende toda a forma, ao passo que o autor Lukács descobre na possibilidade de dar forma à sua vivência, na criação da obra, a razão para não se suicidar. A personagem diz que o suicídio é uma categoria da vida e o autor argumenta que já está morto há muito tempo, dado ter suicidado o "homem velho" para que nascesse o "homem novo": o "homem criador" da obra através da qual se manifesta o espírito. Ora, este "suicídio espiritual", aliás muito próximo do suicídio empírico, permite ao homem transcender a casta comum e a casta ética e enquadrar-se na casta estético-religiosa ou metafísica, cujo fruto é a obra. Para o "homem problemático", a arte é a antecipação utópica da conciliação da forma e da vida.
Lukács via em Dostoiévski o maior artista do alargamento da alma até à amplitude cósmica. Neste alargamento que resulta do rompimento da dualidade eu/mundo funda-se uma ordem profunda, em cuja essência não há nada de casual. Segundo o jovem Lukács, todo o homem é necessário para a realização de todos os outros homens: uma conexão global e planetária. O que importa na relação entre os homens não é o mero estar-com-os-outros, mas ser-com-os-outros. É este ser-em-relação (uso os termos de Lukács) que possibilita a manifestação da essência intemporal da alma como conexão ou união supratemporal de duas almas.
Ora, para que o homem consiga situar-se ao nível da realidade alma, é necessário desprender-se de todas as ligações sociais, de todos os laços que o ligam à sua situação social, sejam eles a classe ou a origem. Só assim poderão aparecer e surgir as novas relações que unem as almas umas às outras. Só assim poderá o homem conseguir desprender-se daquilo que não é essencial (o supérfluo) e ganhar ou conquistar a sua verdadeira "pátria".
Dostoiévski já tinha reclamado esta "revolução interior" (revolucionismo interior) como a única maneira de o homem se salvar, enquanto humano, num mundo em que parece ser impossível levar a cabo a revolução das estruturas sociais. Isto é anticapitalismo romântico, logo utopismo salvífico, que pode e deve ser relido e recuperado para iluminar o nosso interior e, quem sabe?, mudar o mundo ameaçado. Para conseguirmos travar o consumo devorador, levado em conta nos cálculos económicos desde que Thorstein Veblen descobriu o consumo conspícuo, é necessário recriar o homem e incutir-lhe a noção de desprendimento, aliás da autoria de Mestre Eckhart e da sua "pobreza": delimitar os territórios do "nosso possível" é operar uma revolução interior, aquilo a que chamarei a Grande Conversão, a qual prepara para a Grande Recusa. Discriminar entre o essencial e o não-essencial é recusar o supérfluo na nossa vida, é recusar tratar a natureza como instrumento e fonte de matérias-primas, é ensinar a vê-la como "pátria", numa atitude de rejeição do consumismo. Como descobriu Veblen, as pessoas acima da linha da mera subsistência não aproveitam o excesso que a sociedade lhes dá para expandirem as suas próprias vidas e viverem com mais sabedoria, mais inteligência e mais compreensão; pelo contrário, em vez de cultivarem a sua mente, procuram impressionar as outras pessoas pelo facto de serem possuidoras desse excesso. Dedicam todo o tempo da sua vida metabolicamente reduzida a inflar e a inflacionar o próprio self no consumo conspícuo.
O nosso fio condutor nesta meditação livre sem fim à vista reside na tentativa de recuperar o pensamento originário de Lukács e mostrar que o homem anestesiado se converteu em gado que convida ao abate, tal como sucede com o gado doméstico. O Homem anestesiado deixou de ser homem: ele é o AntiHumano, para usar este termo de Sartre. Ou melhor: nós problemáticos que pertencemos à casta estético-religiosa ou metafísica temos como missão recriar o homem como obra. A nossa tarefa é criar o Homem Novo, matando o homem anestesiado.
O Homem Trágico de Lukács constitui uma revolta romântica contra o capitalismo levada a cabo a partir de uma "ética de esquerda" e a sua realização começa com o suicídio espiritual. Se não operarmos esse suicídio espiritual, não nos libertaremos da fragmentação e da alienação da nossa vida diária. Convido-vos a praticarmos em conjunto e em conexão o nosso suicídio espiritual: a Grande Conversão ao homem liberto da pobreza de espírito, capaz de converter o memento mori goetheano em memento vivere. Nesse momento, o homem torna-se Homem utópico.
(Entretanto, recomendo a leitura deste post maravilhoso do Fernando Dias sobre o pensamento planetário.)
J Francisco Saraiva de Sousa

30 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bom Dia Amigos

Este será o tema que pretendo desenvolver. O Homem Trágico de Lukács constitui uma revolta romântica contra o capitalismo e a sua realização começa com o suicídio espiritual. Se não operarmos esse suicídio espiritual, não nos libertamos da fragmentação da nossa vida diária. Convido-vos a praticarmos suicídio espiritual: a grande conversão ao homem liberto da pobreza de espírito. BYE

F. Dias disse...

Bom dia Francisco,

Não entrando por agora em comentários específicos sobre o assunto teórico, gostaria de deixar aqui mais alguma informação para conhecimento dos ciberamigos acerca do que se passa com o F.Dias, visto ter verificado com surpresa que as suas intermitentes ausências no ciberespaço já não são indiferentes a esta pequena comunidade virtual.

Tal facto muito o sensibilizou e vai certamente levar a algumas reflexões mais profundas. Para que não permaneçam mistérios, ele deve-vos algumas justificações.

Como esta virtualidade real só tem mostrado a linguagem e não a realidade total do F.Dias, penso que ainda não sabem que ele sofre de uma doença neuromuscular progressiva que o persegue há quase trinta anos e que o condicionou a uma cadeira de rodas há dez. Como também atinge os membros superiores, e é imparável e progressiva, as forças físicas e anímicas vão diminuindo a pouco e pouco.

A juntar a isto, recentemente, apareceu ao pai um cancro do pulmão (tem sorte de ainda ter um pai com 84 anos e uma mãe com 80), ao qual tem dedicado o seu tempo não só nas lides de ordem médica (palpites e contactos com colega pneumologista que lhe está a orientar a quimioterapia e radioterapia), mas também de ordem afectiva. Este acontecimento para além de desviar tempo, veio agravar a capacidade psicofísica para trabalhar no computador, ainda sentado na cadeira de rodas junto a um desktop no escritório junto aos livros arrumados em estantes até à altura de metro e meio.

Apesar de já não exercer actividade clínica profissional há oito anos, partilha dois círculos físicos (não ciber) de comunicação sensorial irreflexiva com amigos tradicionais. Um é de médicos e outro é uma miscelânea com filósofos, ainda todos no activo, que o vão buscar para tertúlias, ora almoçaradas, ora jantaradas, onde impera o discurso oral de um mundo privado de emoções numa espécie de liturgia pública. Como a maior parte já ronda os 60, e como quase todos são ciberalérgicos, eles não conhecem esta ciberactividade porque nem sequer lhes é falada. Conclusão, até esta malta o tem desencaminhado para longe desta comunidade virtual em rede. É comunicação sensorial performativa, é comunidade de leitores de filosofia, é comunidade de leitores de literatura, é o trabalho no Hospital e no Centro de Saúde que vai cada vez pior, tu é que estás bem, quem me dera estar reformado, etcetera e coisa e tal…

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bom dia Fernando Dias

Todos temos as nossas prisões, mas a sua é talvez mais terrível. Mas, como aconselhava Ernst Bloch, precisamos crêr na utopia, no sonho acordado, e não desistir. É o que faço quando medito sobre o suicídio e a morte. Com Lukács, pretendo converter o suicídio empírico em suicídio espiritual. Afinal, o que nos move nesta vida é o pensamento: o sonho é criar uma comunidade virtual que crie uma nova obra, o nosso legado para o futuro.

Abraço

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Gostei do termo "ciberalérgicos". Esses deixam escapar o espírito dos novos tempos... e o cibermundo. Qualquer ser humano é hoje um ser-no-cibermundo. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Detecta-se facilmente nos escritos iniciais de Lukács os temas explorados por Heidegger. Por isso, penso que Lukács, bem como Bloch, foi um dos maiores filósofos do século XX: a grande matriz do pensamento contemporâneo. Heidegger não foi um homem justo e transparente: omitia os nomes e as obras que lia.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Que caminhos tem ao seu dispôr o homem utópico para fazer frente a este mundo estranho? Muitos: existência marginal, o carisma com rompimento do consenso estabelecido, a transformação, a sabotagem, o alheamento, a manipulação, o embuste, o êxtase: o acto de sair da caverna e contemplar a noite, um acto solitário que possibilita escapar à paralisia metafísica predominante. A liberdade em acção...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A questão do Manuel será esta: E o que é feito da totalidade extensiva? Ui, mas tento seguir outra via e é preciso ter paciência: só posso conhecer o resultado caminhando esse caminho. Bloch continua a ser uma conexão: nada fica perdido daquilo já conquistado.

A Papillon adormeceu...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Contudo, a conquista da totalidade intensiva vai ao encontro daquilo que o Manuel tratou no seu post e que eu tematizei recorrendo ao génio maligno que elimina da face da Terra os "fabricadores do mundo", os que definem o mundo. Porque a criatura metabolicamente reduzida é aproblemática: falta-lhe intensidade e extensão.

Aveugle.Papillon disse...

Acordei, Francisco, e assolou-se em mim uma devoção francisquina!

Um poema ao Francisco - um ser bifásico,
por Aveugle.Papillon

O Francisco é:
Um strudel de maçã reineta
Um quadrado de Viena*
Uma valsa adormecida

Mas também é:
Um barco rabelo ao luar
Um porto vintage de 82
Uma ribeira colorida

*para os mais distraídos - alusão paródica ao famoso "Círculo de Viena".

Aveugle.Papillon disse...

Sim, Francisco, o maior filósofo do século XX, a par de Wittegenstein, era, afinal, um desonesto intelectual, um bandido!

Aveugle.Papillon disse...

*Wittgenstein

F. Dias disse...

Certo,
Nada fica perdido… e o caminho faz-se caminhando. A intensão (com s) é o contraponto da consciência em relação à extensão física

E o belo poema de Papillon mais a sua referência a Wittgenstein só nos pode fazer despertar devoção papillina.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, o século XX teve boa colheita de filósofos.
Vejamos o que nos reserva este século sob o signo da penúria mental e cognitiva.

Estou feliz: a maioria relativa do Parlamento é portidta: 70 em 230, e hoje jestejam na Assembleia da república o Tri-Dragão, com a presença de Pinto da Costa e membros da Sad portista.
A Unicer fez acordo com o FCPorto e vai ter publicidade de bancada, além de dar nome ao velho estádio que está a ser reconstruído para a escola de formação. Pires de Lima abraçou o Pinto da Costa e disse que o Porto era a melhor empresa portuguesa dos últimos 30 anos.

Perdi a tusa para o novo post: estou em crise, balanceio entre a vida e a morte, entre o sonho e a realidade reduzida, enfim... qualquer coisa do género. Porém, a antropologia do jovem Lukács captou a nossa missão: recriar o homem como obra. Só o homem novo pode mudar o mundo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

A intensão com "s" pode ser relida face à "Teoria do Romance" e "A Alma e Formas" de Lukács: um projecto de pesquisa este de trazer para o continente as filosofias anglosaxónicas e dar-lhes a vida da tradição, da grande tradição.
Tive acesso às obras completas de Lukács através de uma professora da família de Sá Carneiro, mas já morreu e eu não tenho todas as obras à mão: apenas algumas, dado estarem esgotadas.

Aveugle.Papillon disse...

Então?
Não me diga que foi o meu poema que lhe fez perder "a tusa"!
Criatividade arruaceira, a minha!


F. Dias,

"Papillina" n me soa muito bem, preferia "Papiloska". ;)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O seu poema é bonito, mas precisava de reler novamente e não seguir somente a memória e os sublinhados. A obra dele é extensa... e tem muitas autocríticas a la Lukács, o autocrítico por natureza.
Papiloska? Muito russo! :)

F. Dias disse...

‘Papiloska’ de facto soa muito melhor querida Papiloska.
A utopia espontânea dos ciberamigos faz com que eles se unam ‘on-line’ em torno de ‘algo’ partilhado. É uma nova sociabilidade com a construção de novas identidades. O contexto próprio de desenvolvimento destas novas identidades podem eventualmente conduzir à mortalidade dos primitivos ‘eus’, mas nada fica perdido. São precisamente estas ideias que estão implícitas no meu último artigo e penso que no de ‘suicídio espiritual’ deste artigo de Francisco.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

É isso mesmo: "A intensão (com s) é o contraponto da consciência em relação à extensão física".

Lukács no seu período inicial via a arte como refúgio do homem problemático, cuja missão era construir o seu próprio cosmos, retirando-se do mundo ao redor para formar uma comunidade sem janelas para o exterior, onde o homem estaria instalado na totalidade intensiva, isto é, em si mesmo como obra. Há aqui um certo idealismo, mas era no utópico que ele descobria a essência do humano.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A consciência colectiva, a grande conexão, e o pensamento planetário: o tema do seu post. :)

F. Dias disse...

A experiência está a dizer-me que esta nova forma de consciência não prejudica a ‘vida real’ nem, ao contrário de alguns pessimistas, é mais propícia a desumanizar as relações sociais mais do que no contexto tradicional. Isto não significa que para certas pessoas com traços psicológicos predisponentes possa favorecer a solidão, sentimentos de alienação ou estados depressivos. As ‘comunidades virtuais’ não têm que ser opostas às ‘comunidades físicas’. São novas e diferentes formas de comunidade. Estas consciências ao interagir sem constrangimentos produzem a semente de um pensamento planetário.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Certo, as consciências cibernáuticas "ao interagir sem constrangimentos produzem a semente de um pensamento planetário." O self on-line é mais liberto e tende a ser ele mesmo, precisamente porque se sente mais protegido (o anonimato da tecnologia) e menos constrangido por factores externos: revela-se mais e tende a quebrar o anonimato. Fica mais rico em ternos de identidade. Claro, desde que seja saudável...
As pessoas queixam-se das novas tecnologias, mas sempre se queixaram noutros tempos...
Já fiz o link para o seu post, para que seja lido pelos que frequentam este blogue.

F. Dias disse...

Já que Papillon havia falado em Wittgenstein e eu havia puxado a conversa para ‘intensão’ aproveito para esclarecer melhor o conceito, porque alguns leitores podem não estar alertados para isso.

Inten(s)ionalidade não deve ser confundida com a inten(c)ionalidade que já vinha de Brentano (aplicação da consciência acerca de um objecto). Inten(s)ionalidade é um outro termo filosófico da lógica, que se refere aos conteúdos proposicionais do pensamento humano. As palavras ou símbolos de uma linguagem podem ser divididas em palavras lógicas ou funções e os termos em predicados. Todos os termos ou predicados que têm um sentido são a extensão, e a coisa ou conjunto de coisas a que se refere constitui a intensão – o modo particular como essa coisa ou conjunto de coisas é identificada ou determinada. A inten(s)ão é o significado da extensão. Os termos ‘água’ e ‘H2O’ são extensões para designar a mesma coisa (intensão). Portanto, uma vez que água é H2O, qualquer coisa que se diga e que seja verdadeira acerca de (água) usando o termo ‘água’ será igualmente verdadeira ussando o termo ‘H2O’.

Portanto ‘intensão’ no sentido filosófico não tem a ver com o significado vulgar: aumento de tensão, intensidade, veemência, força; nem tem a ver com ‘intenção’ (não no sentido fenomenológico) que significa: vontade, propósito, desejo.

Manuel Rocha disse...

Literalmente entre demãos, tempo para dizer Bom Dia e deixar um comentário.
A citação inicial de Lukács conduziu-me direitinho para a relação conflitual que existe entre o que é do interesse da sociedade como um todo e o que é do interesse do individuo, e daí a indecisão entre entender o ambiente como “lar” ou “prisão”.

O penúltimo post do Fernando Dias abordava muito bem essa questão da terceira entidade ( nem sociedade, nem individuo ) que, parecendo ter vontade própria, nos deixa a todos os que fomos formatados para controlar, permanentemente à beira de um ataque de nervos. O nosso desespero é também essa dificuldade de delimitar o território do nosso possível. Os territórios de expectativas demasiado vastos, acabam por se transformar noutro tipo de prisão.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Obrigado pelo esclarecimento.

Estava a reler alguns textos de Lukács sobre Dostoiévski que ele considerava o maior artista do alargamento da alma até à amplitude cósmica. Neste alargamento que resulta do rompimento da dualidade eu/mundo funda-se uma ordem profunda, em cuja essência não há nada de casual. Segundo o jovem Lukács, todo o homem é necessário para a realização de todos os outros homens: uma conexão global e planetária. O que importa na relação entre os homens não é o mero estar-com-os-outros, mas ser-com-os-outros. É este ser-em-relação (uso os termos de Lukács) que possibilita a manifestação da essência intemporal da alma como conexão ou união supratemporal de duas almas.
Ora, para se conseguir situar-se ao nível da realidade alma, é necessário desprender-se de todas as ligações sociais, de todos os laços que ligam o homem à sua situação social, sejam eles a classe ou a origem. Só assim poderão aparecer e surgir as novas relações que unem as almas umas às outras. Só assim pode o homem conseguir desprender-se daquilo que não é essencial (o supérfluo) e ganhar ou conquistar a sua verdadeira "pátria".
Dostoiévski já tinha reclamado esta "revolução interior" (revolucionismo interior) como a única maneira de o homem se salvar, enquanto humano, num mundo em que parece ser impossível levar a cabo a revolução das estruturas sociais. Isto é anticapitalismo romântico, logo utopismo salvífico. Mas pode ser relido e recuperado para iluminar o nosso interior e, quem sabe?, mudar o mundo. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

Para conseguirmos travar o consumo devorador, até presente nos cálculos económicos, é necessário recriar o homem e incutir-lhe a noção de desprendimento, aliás da autoria de Mestre Eckhart e da sua "pobreza": delimitar os territórios do "nosso possível" é operar uma revolução interior, aquilo a que chamei a Grande Conversão a qual prepara para a Grande Recusa. Discriminar entre o essencial e o não-essencial é recusar o supérfluo na nossa vida, é recusar tratar a natureza como instrumento, é ensinar a vê-la como pátria. A comunidade de cybereus é uma conexão patriótica! :)

Manuel Rocha disse...

Escreveu bem !

Agradam-me as vossa derivas ecológicas!!!

:)))))))

F. Dias disse...

Estou em sintonia com o que diz Francisco

Como o universo é um só, a nossa consciência é parte intrínseca dele. Assim, a realidade última do universo não pode ser constituída por nenhuma substância fundamental, permanente e eterna. O homem moderno tecnológico ao explorar a Terra sem querer prestar contas fragmentou o mundo, isto é, desintegrou-se da unidade cósmica. Isto pode traduzir-se nas supostas tragédias e catástrofes ecológicas, que é afinal o preço que se tem de pagar por causa da tecnologia. Nada é grátis.

Se o paradigma de visão do mundo da interdependência e da coexistência trará alguma diferença à inexorabilidade do cosmos, é coisa que não posso garantir, mas vale a pena tentar. O paradigma da interdependência não é niilista, mas concebe que nada existe por si próprio de uma forma autónoma. Os padrões que vemos na natureza estão intimamente ligados aos nossos modelos mentais. E estes modelos mentais não podem fugir a conceitos interpretativos e a valores. Consequentemente os resultados obtidos com as aplicações teconológicas estão condicionados pela estrutura mental. Por isso, um paradigma de valores nunca é axiologicamente vazio nem neutro.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias e Manuel

Temos todos os instrumentos conceptuais disponíveis para desenvolver esse novo paradigma, uma grande filosofia: o pior é que, como dizo André, precisamos viver a vidinha quotidiana para sobreviver.
Precisávamos de um centro de pesquisa e de subsídios para trabalhar exclusivamente nesse projecto. Ora, estamos em Portugal e sabem o que isso significa... :(

André LF disse...

Olá, amigos!
Francisco, excelente a escolha do tema para este post. Não tenho tempo de ler o seu texto agora, porque istou indo ao pneumologista. Finalmente consegui agendar uma consulta.

Fernando Dias, seja bem-vindo!

Abraço a todos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Vamos ver se esse pneumologista acerta com o seu problema respiratório. Era bom que o superasse rapidamente, de preferência de uma vez por todas. Hoje estou utópico... :)