quarta-feira, 16 de abril de 2008

Genética da Homossexualidade Masculina

«O poema é solitário. É solitário e vai a caminho. (...) O poema torna-se (e em que condições!) o poema de um sujeito que insiste em ser um sujeito de percepção, atento a todos os fenómenos, e interrogando e apostrofando esses fenómenos: e torna-se diálogo, muitas vezes um diálogo desesperado.» (Paul Celan)
Hamer et al. (1993) defendem claramente a teoria, segundo a qual existem diferenças intrínsecas, geneticamente determinadas, nos receptores de hormonas do cérebro ou nos outros mecanismos moleculares que se situam entre as hormonas em circulação, e as suas acções sobre o desenvolvimento do cérebro. As vantagens desta hipótese genética são duas:
1º.) Esta hipótese fornece um mecanismo que inclui uma diferenciação cerebral induzida por hormonas, sem requerer a existência de diferenças no nível das próprias hormonas.
2º.) Dado haver vários receptores diferentes envolvidos neste processo, incluindo o receptor de androgénios, o receptor de estrogénios e, pelo menos, dois receptores de substâncias estrogénicas, é possível a criação de efeitos selectivos em sistemas cerebrais diferentes.
Neste âmbito de investigação genética molecular, Hamer et al. (1993) produziram provas genéticas da existência de um gene que influencia a orientação sexual nos homens. Aumentando os estudos de famílias, descobriram um aumento da incidência da homossexualidade entre parentes masculinos de homens homossexuais, não apenas entre irmãos, mas também entre tios e primos homens. Isto significa que só os parentes ligados por via feminina, isto é, os tios maternos e os filhos de tias maternas, apresentam uma probabilidade acrescida de se tornarem homossexuais.
Ora, este padrão de hereditariedade «sexualmente encadeado» sugeria a possibilidade de que um gene no cromossoma X pudesse influenciar a orientação sexual nos homens. Por isso, Hamer et al. (1993) examinaram o DNA dos cromossomas X de um vasto número de homens homossexuais, aproveitando a vantagem da existência de loci: localizações nos cromossomas onde se sabe que indivíduos diferentes terão diferentes sequências de DNA, que podem ser reconhecidas por procedimentos bioquímicos. Se dois homens sem qualquer parentesco forem seleccionados, qualquer loci provavelmente diferirá entre os dois. Se forem seleccionados dois irmãos, há 50% de probabilidade de qualquer um dos loci coincidirem, simplesmente porque cada irmão herda o locus aleatoriamente de um dos dois cromossomas X da mãe e, por isso, metade das vezes herdarão o mesmo cromossoma X. Se forem seleccionados dois irmãos homossexuais as probabilidades serão também de 50%, a menos que os loci estejam perto do local do gene que influencia a orientação sexual, situação em que as hipóteses de o locus ser o mesmo nos dois irmãos será ainda superior a 50%, porque é provável que ambos tenham herdado DNA nesta região do mesmo cromossoma maternal, ou seja, o cromossoma que transporta a versão do gene que predispõe para a homossexualidade.
Hamer et al. (1993) descobriram que um grupo de loci num dos extremos do cromossoma X, numa região denominada Xq28, é partilhada por irmãos homossexuais numa taxa superior a 50%. A análise estatística demonstrou que era extremamente improvável que esta observação tivesse sido causada pelo acaso. Assim, é provável que um gene algures na região Xq28 do cromossoma X predisponha os homens para serem homossexuais ou heterossexuais.
A hipótese do Xq28 conta com três estudos substanciais a seu favor (já são mais de 6 estudos): No primeiro estudo, Hamer et al. (1993) analisaram 40 pares de irmãos homossexuais e descobriram que partilhavam 82% dos seus alelos na região Xq28, resultado significativamente superior aos 50% de alelos que seria de esperar se não houvesse ligação com a orientação sexual. Num estudo posterior, Hu et al. (1995) analisaram 32 pares de irmãos homossexuais e descobriram 67% de alelos partilhados. Além disso, os irmãos heterossexuais dos pares de irmãos homossexuais concordantes no Xq28 tinham somente uma probabilidade de 22% de transportar os mesmos alelos Xq28. Este estudo independente de ligação era estatisticamente significativo. Outro grupo independente apresentou os resultados de uma análise de sequenciamento do cromossoma X de 54 pares de irmãos homossexuais. Sanders et al. (1998) descobriram 66% de alelos Xq28 partilhados. Estes resultados não são diferentes daqueles apresentados pelo estudo de Hu et al. (1995), quer em termos do número de alelos partilhados (66% versus 67%), quer na localização precisa da partilha máxima. Contudo, Rice et al. (1999) estudaram 52 pares de irmãos homossexuais e não descobriram evidência para a ligação ao Xq28. Relataram aproximadamente 46% de alelos partilhados, um resultado estatisticamente não significativo.
Em resposta a este último estudo, cuja controvérsia foi publicada na revista Science, Hamer (1999) submeteu os estudos anteriores a uma meta-análise. Dado os tamanhos das amostras serem modestos, Hamer (1999) considerou que a estimativa mais correcta da ligação Xq28 pode ser obtida pela combinação dos dados de cada um dos quatro estudos. Esta meta-análise fornece um nível de estimativa de partilha de alelos de 64%. Basicamente, os mesmos resultados são obtidos se eliminarmos os valores mais elevados e os valores mais baixos de partilha de alelos, usando apenas os dados de Hu et al. (1995) e de Sanders et al. (1998), os quais fornecem uma estimativa de 66%. Ora, um nível de partilha de alelos de 64% corresponde a um valor de 1,4, sendo este símbolo a ratio da orientação sexual nos irmãos de um dado sujeito homossexual, quando comparada com a frequência populacional que é atribuível a um gene nesta região. Conforme lembrou Hamer (1999), este nível modesto de influência é típico do efeito de um único locus sobre um traço comportamental complexo tal como a orientação sexual. Rice, Risch & Ebers (1999) contestaram esta hipótese, respondendo às críticas mais técnicas feitas por Hamer (1999) ao seu estudo anterior.
Contudo, o estudo de Turner (1995) parece confirmar a hipótese de que a homossexualidade é devida a um gene localizado na região Xq28, resultado este que está em conformidade com os obtidos posteriormente por Bailey et al. (1999). Além disso, Pattatucci & Hamer (1995) estudaram a familiaridade da orientação sexual das mulheres e descobriram que a agregação familiar da orientação não-heterossexual era significativa, embora os dados não permitissem distinguir entre as fontes genéticas e ambientais dessa agregação. A existência de diversos tipos de homossexuais masculinos e femininos, entre os quais se evidenciam claras diferenças sexuais e padrões distintos de comportamento, sugere que a via da orientação sexual está submetida a um mecanismo de regulação multi-génica, como seria de esperar de um traço comportamental complexo. Esta ideia coaduna-se com os resultados de Mustanski et al. (2005) e Bocklandt et al. (2006). Dado os homens transexuais serem geralmente provenientes dos grupos dos homossexuais hiperefeminados, em especial dos "agitados", podemos supor que genes do cromossoma X tenham uma grande influência sobre o desenvolvimento da orientação sexual deste grupo de homens homossexuais. Com efeito, estes transexuais exibem um aumento da ratio maternal tio/sobrinho similar à de alguns homens homossexuais (Green & Keverne, 2000; Turner, 1995).
Independentemente desta polémica científica, o significado desta descoberta para a nossa compreensão da orientação sexual é de enorme importância. Embora o gene ainda não tenha sido isolado e sequenciado, estes estudos abrem uma via de investigação mais dura que, se for bem sucedida, como cremos, permitirá saber como e quando esse gene actua. Neste momento, temos que nos satisfazer com algumas hipóteses sobre o modo como o gene da região Xq28 intervém na determinação da orientação sexual. LeVay & Hamer (1994) sugeriram algumas hipóteses:

1ª. A primeira hipótese supõe que o gene hipotético da homossexualidade age sobre a síntese de uma hormona ou sobre o seu metabolismo. Assim, o gene do cromossoma X poderia codificar os receptores dos androgénios, moléculas indispensáveis à masculinização do cérebro humano. Com a finalidade de testar esta hipótese, Macke et al. (1993) compararam a estrutura molecular do receptor dos androgénios em 197 homossexuais e 213 heterossexuais: as sequências dos genes codificadores destas proteínas eram quase idênticas. Deste modo, este estudo não revelou nenhuma ligação entre a homossexualidade e o locus do receptor dos androgénios, de resto situado na região Xq11, muitíssimo distante da região Xq28. Deste modo, a primeira hipótese é cabalmente refutada: o receptor dos androgénios não intervém na orientação sexual masculina.
2ª. A segunda hipótese supõe que o produto do gene Xq28 exerce uma influência directa sobre o desenvolvimento das regiões cerebrais que apresentam um dimorfismo sexual, tal como o núcleo INAH3. Assim, essa molécula agiria provavelmente in utero, favorecendo a sobrevivência de neurónios específicos nos embriões machos pré-heterossexuais, ou provocando a sua destruição nos embriões fêmeas ou nos embriões machos pré-homossexuais. Trata-se de uma boa via de investigação.
3ª. A terceira hipótese supõe um outro tipo de acção mais flexível: o produto do gene poderia aumentar a sensibilidade dos circuitos neuronais do hipotálamo às estimulações ambientais, provavelmente no decurso dos primeiros anos de vida. Neste caso, os genes, em vez de determinarem, predisporiam os indivíduos para uma orientação sexual particular.
4ª. Uma última hipótese seria supor que o gene agiria indirectamente, por intermédio da personalidade ou do temperamento, mais do que sobre a escolha directa do objecto sexual. Parece-nos que esta última hipótese está fora de questão.
Durante a nossa pesquisa de terreno, detectamos alguns casos que parecem confirmar a hipótese da existência de uma componente genética na homossexualidade. O caso mais notável é o de um par de gémeos verdadeiros masculinos que viveram e foram educados juntos na casa paterna: cada um deles desenvolveu a sua própria homossexualidade sem o conhecimento do outro e um deles acabou por se casar heterossexualmente. Daí que se auto-defina como «bissexual», mas, apesar disso, não consegue deixar de frequentar os «ambientes» gay, sempre que possa e, sobretudo, aos fins-de-semana, quando se desloca para Lisboa e, menos frequentemente, para o Porto, em busca de novos parceiros do mesmo sexo. Num desses fins-de-semana, cruzou-se com o seu irmão gémeo numa discoteca gay e foi, nesse momento, que descobriram que ambos eram homossexuais. De acordo com os resultados de Hamer et al. (1993), ambos partilham evidentemente o mesmo marcador Xq28, no qual se situa provavelmente o chamado «gene gay» responsável pela orientação homossexual e que se transmite pela mãe através do cromossoma X.
Um outro caso envolve falsos gémeos de sexo oposto. Ambos desenvolveram a sua homossexualidade de modo independente, embora partilhassem a casa paterna e, só quando tiveram de se deslocar para o Porto para prosseguir os seus estudos universitários, é que descobriram que ambos eram homossexuais. De facto, o homem homossexual ficou surpreendido quando soube que a sua irmã tinha uma «relação estável» com uma sua «velha amiga» lésbica. Em face disso, ele e a «namorada» da irmã passaram a tratar-se entre si como «cunhados».
Dois outros casos bem confirmados envolvem dois pais e os respectivos filhos, um dos quais tem dois irmãos do sexo masculino mais velhos. É evidente que, dada a menor idade dos filhos, qualquer um dos membros desses pares pais-filhos desconhecia, pelo menos aparentemente, a homossexualidade um do outro, sobretudo os filhos que nunca julgaram ser possível que os pais fossem homossexuais. Novamente, a frequência dos mesmos lugares de encontros homossexuais confrontou-os uns com os outros, despidos das suas máscaras de pseudo-heterossexuais. Tornaram-se cada vez mais íntimos e amigos e deslocam-se frequentemente juntos quando vão à conquista de novos parceiros sexuais. A partilha da mesma orientação sexual aliou-os de tal modo que nenhum deles denuncia o outro à mãe ou mulher, que aparentemente desconhece a natureza da relação que une pai e filho, excepto uma que, após diversos anos de «tormentos», veio a descobrir que o marido era homossexual e, por isso, estão actualmente divorciados: o filho mal atingiu a maioridade foi viver com o pai.
Outras situações observadas envolvem irmãos de ambos os sexos ou do mesmo sexo, bem como parentes próximos — tios e sobrinhos — ou distantes — primos —, e são frequentes e, no geral, parecem demonstrar não só que os irmãos de homossexuais são mais frequentemente homossexuais do que os outros homens, mas também que os sobrinhos maternos tendem a ser homossexuais. Além disso, existem alguns casos em que mãe e filha são ambas lésbicas, tendo a mãe, num dos casos, se divorciado do pai para ir viver com outra lésbica e o novo casal entrega-se aos cuidados maternais. Noutros casos, a filha não é homossexual, embora possa aceitar a nova união da mãe e viver com a nova família. Todas estas observações apontam para a existência de uma forte influência genética, tanto na orientação sexual dos homens, como também na orientação sexual das mulheres. (Aconselho a leitura deste post de Fernando Dias sobre Ecologia Profunda.)
J Francisco Saraiva de Sousa

9 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tive problemas na edição deste post, porque o Blogger não aceitou algumas fórmulas estatísticas. Reparei agora que ocorreu um corte de texto. Mais tarde irei corrigir essa falha.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A falha já foi corrigida e espero que não tenha escapado mais alguma falha. Existem mais estudos que apoiam esta hipótese genética.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fiz outro acrescento de modo a cobrir todos os estudos publicados. Devo dizer que a hipótese genética deve distinguir dois mecanismos na determinação da orientação sexual masculina ou mesmo feminina. Essa reformulação encontra-se na minha tese de doutoramento. Talvez mais, mais tarde resolva partilhá-la. Agora não me apetece!

F. Dias disse...

Francisco,

Acredito na forte influência genética e acredito que a via da orientação sexual esteja submetida a um mecaismo de regulação multigénica.

Mas para alimentarmos o exercício socrático, podíamos submeter estas teses ao confronto com teses complementares ou alternativas. Os genes podem estar lá, mas só actuarem em condições ambientais (epigenéticas), que se não existissem, os genes poderiam ficar lá muito quietinhos. Que estímulos externos? (um desenvolvimento da terceira hipótese, que dá abertura para isso).

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Geralmente, as hipóteses e os estudos procuram essa terceira variável. Não nego o papel dos factores ambientais, mas vejo-o mais em termos de facilitarem ou dificultarem o desenvolvimento dessa "identidade gay". De resto, o processo deve ser multigénico.
Reagir a estímulos eróticos do mesmo sexo é uma coisa; outra diferente é saber o que fazer com o parceiro do mesmo sexo. Além disso, temos a não-atracção por mulheres ou estímulos do sexo oposto. Daí a necessidade das tipologias: ajudam a "isolar" traços distintos que podem iluminar a pesquisa genética e neuro-hormonal.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

O seu Sporting acaba de sofrer um golo vermelho! :(

Manuel Rocha disse...

Francisco,

Previu bem!
Deliciei-me com o texto do Fernando Dias!

:))

Denise disse...

Francisco,
Estas descobertas de que fala são aceites pela comunidade científica? É que havendo a hipótese de uma explicação genética para a homossexualidade, abrir-se-ão portas para um ataque mais seguro das vozes homofóbicas, que consolidarão os seus argumentos com palavras como "doença", "desvio" ou "anormalidade"... Ou não?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Denise

Sim, estas e outras descobertas são incontornáveis! Aliás, alguns activistas gay americanos usavam camisas a dizer: "Obrigado Mamã!". Quanto ao transexualismo, já existem genes candidatos. Tratei isso noutro post.
Outros temem a manipulação genética! O preconceito sexual não faz sentido. Aliás, o homofóbicos são homossexuais dissimulados. Tratei disso no post sobre a bissexualidade desmentida.