quarta-feira, 9 de abril de 2008

Tradição e Mass Media: Tradição Destruída?

«São o constante revolucionar da produção, a ininterrupta perturbação de todas as relações sociais, a interminável incerteza e agitação, que distinguem a época burguesa de todas as épocas anteriores. Todas as relações fixas, imobilizadas, com o seu cortejo de ideias e opiniões veneráveis, são varridas; todas as novas relações, recém-formadas, se tornam obsoletas antes de chegarem a consolidar-se. Tudo o que é sólido se dissolve no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente forçados a enfrentar com sentidos mais despertos as verdadeiras condições da sua vida e as suas relações com os outros homens» (Karl Marx/F. Engels): Eis aqui enunciado o princípio de uma nova teoria marxista da modernidade, já vislumbrada por Marshall Berman.
A teoria da modernização proposta pela teoria social clássica deve ser revista à luz de quatro objecções fundamentais:

1ª. Com o desenvolvimento das sociedades modernas, ocorreu efectivamente um declínio gradual da fundamentação tradicional da acção e do papel da autoridade tradicional. De facto, como demonstraram Marx e Weber, os aspectos normativo e legitimador da autoridade tradicional entraram em declínio acelerado nas sociedades modernas, embora na nossa era da globalização hajam sinais da sua «recuperação» por parte de movimentos conservadores.

2ª. Porém, noutros aspectos, a tradição conserva a sua importância no mundo moderno, quer como meio de dar sentido ao mundo e à vida (aspecto hermenêutico), quer como meio de criar um sentido de pertença (aspecto identificador), sem o qual a vida perde o encanto.

3ª. Apesar de manter a sua importância, a tradição transformou-se: a transmissão do material simbólico tornou-se cada vez mais separada da interacção social quotidiana partilhada em ambientes comuns. Isto significa que, como diz Thompson, as tradições não desapareceram, como teimam em afirmar os teóricos da modernidade ou da pós-modernidade, mas perderam a sua fundação nos locais partilhados da vida quotidiana. É esta mediatização da tradição que permitiu a Liliane Lurçat falar das "crianças TV".

4ª. O desenraizamento das tradições dos locais partilhados da vida quotidiana não significa que as tradições flutuem livremente; pelo contrário, as tradições só poderão sobreviver se e somente se forem continuamente reincorporadas em novos contextos e refundadas em novos tipos de unidades territoriais. Os mass media de segunda geração (Mark Poster) constituem esses novos territórios, onde as tradições podem voltar a reflorescer.
A teoria clássica da modernização implica não só o declínio da tradição, mas também o desaparecimento da sociedade tradicional. Ora, a relação entre tradição e modernidade é muito mais complexa e paradoxal, porque o declínio evidente da autoridade tradicional e dos fundamentos tradicionais da acção social não significa necessariamente a morte da tradição, sobretudo depois de 11 de Setembro. Pelo contrário, aponta para novos sinais de mudança na sua natureza e no seu papel que se tornam cada vez mais evidentes à medida que os indivíduos começam a confiar mais nas tradições mediadas e separadas dos contextos sociais partilhados, para dar sentido ao mundo e criar sentido de pertença. Para exemplificar esta complexidade, podemos referir duas obras: "O Fim de uma Tradição: Cultura e Desenvolvimento no Município de Cunha" de Robert W. Shirley e "The Passing of Traditional Society" de Daniel Lerner. Ambas assentam numa pesquisa de terreno e tratam do processo de modernização no Médio Oriente/Líbano (Lerner) e no Município de Cunha/Brasil (Shirley).
A teoria de Lerner é particularmente emblemática, porque retoma a oposição clássica entre sociedades tradicionais e sociedades modernas, encarando a transição das primeiras para as segundas em função da teoria da modernização exposta brilhantemente em termos económicos por Maurice Dobb na sua «evolução do capitalismo» ou mesmo por Raymond Aron nas suas lições sobre a «sociedade industrial». Segundo Lerner, as características mais relevantes das sociedades tradicionais são as seguintes: 1) As sociedades tradicionais fragmentam-se em comunidades isoladas umas das outras, nas quais as relações de parentesco desempenham um papel fundamental, de resto reconhecido por Engels. 2) Nestas sociedades, os horizontes das pessoas são limitados pelo contexto geográfico: as interacções sociais reduzem-se ao conhecimento recíproco e personalizado. 3) A vida quotidiana é rotinizada segundo padrões tradicionais que raramente são justificados ou problematizados pelas pessoas, dada a ausência de conhecimento de outros estilos de vida alternativos que se desenrolam em locais distantes. 4) Dado as pessoas que nasceram nessas comunidades terem uma vida que se desenrola em conformidade com rotinas não-questionadas, a sua auto-expressão é relativamente exígua e o seu self tende a ser limitado: o self enraíza-se no familiar e na rotina e a sua trajectória de vida é organizada à custa de uma auto-reflexão mais alargada, aberta e abrangente.
Nas sociedades modernas, o indivíduo é dotado de um elevado grau de flexibilidade e de mobilidade física e mental (Simmel), portanto, completamente estranho ao mundo fechado (A. Koyré) do "self tradicionalista" ou do indivíduo traditivo-dirigido (David Riesman). Esta abertura do self foi facilitada não só pelo crescimento das viagens, do turismo e dos deslocamentos, mas sobretudo pela difusão de "experiências mediadas": a comunicação de massas funciona assim como «um multiplicador da mobilidade» (Lerner) física e/ou virtual. Este confronto com novos estilos de vida alternativos torna a vida quotidiana das pessoas menos rígida e, ao mesmo tempo, mais insegura (Giddens, Winnicott), na medida em que se começa a imaginar o que pode vir a acontecer no futuro, em vez de pressupor que será igual ao passado, como sucedia nas sociedades tradicionais avessas ao relógio (Carlo Cipolla, L. Mumford, G. J. Whittrow). Retomando um conceito fenomenológico (Scheler), Lerner usa o termo "empatia" para descrever a capacidade de um indivíduo para se colocar no lugar ou no papel do outro (G. Mead), capacidade esta dependente da exposição aos mass media. Ora, esta capacidade possibilita aos indivíduos distanciar-se imaginariamente das circunstâncias imediatas e interessar-se por temas e assuntos que não afectam directamente a sua vida diária.
O aperfeiçoamento da empatia torna o self mais expansivo, aberto e ansioso. Em vez de se localizar num ponto fixo de uma suposta ordem imutável das coisas, o self percebe a sua própria vida como um ponto que se move ao longo de uma trajectória de coisas imaginadas. Com efeito, imaginar um mundo para além das imediações locais significa alargar os horizontes de mundo e da vida, mas também significa imaginar um mundo de riscos (Ulrich Beck) e de novas oportunidades, muitas das quais perdidas (Heidegger), no qual pode ou não nascer uma nova vida através de uma contínua assimilação de experiências verdadeiras e vicárias.
Apesar de reconhecer o impacto dos mass media na estruturação das sociedades modernas, Lerner tende a encarar a passagem das sociedades tradicionais para as sociedades modernas como um processo de racionalização crescente que elimina gradualmente a necessidade de formular um conjunto de conceitos, crenças e valores, capaz de doar sentido ao mundo e ao lugar que cada um de nós ocupa no mundo. Como escreveu Max Weber, aliás na peugada de Nietzsche e de Tolstoi: Para o indivíduo moderno, «a morte constitui um acontecimento que não tem sentido. (Ora, dado a morte já não ter sentido, a vida) também perdeu o sentido». Esquecido o sentido, o que resta ao homem senão a errância na qual mergulha a loucura? Neste mundo inóspito, a vida tem deixado de ser predominantemente peregrinação e, no que se refere às identidades, o peregrino tem cedido o seu lugar predominante às figuras do deambulador, do vagabundo, do turista e do jogador (Z. Bauman). (CONTINUA)
J Francisco Saraiva de Sousa

4 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O próximo post desta série tem com título: "Tradição e Mass Media: Tradição Deslocada", e o último será "Tradição e Mass Media: Conflitos Interculturais".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Obrigado Papillon: O "inóspito" já foi corrigido. É sempre bom ter um anjo da guarda virtual!

F. Dias disse...

Que sentido?

Estamos numa globalização de produção de bens privados mas precisamos de uma globalização de bens públicos. A primeira está agarrada a valores individuais e a segunda a valores sociais, de comunidade. Temos estado a assistir à decomposição do social. A direcção dos mercados que tem escapado a qualquer regulação social culminou na obsessão identitária dos comunitarismos.

É num universo individualista que muitos procuram encontrar um sentido. É uma procura de si pela eliminação das influências exercidas sobre o self pelo mundo exterior, que o aliena. Estamos naturalmente no caos, mas inevitável, se quisermos libertar-nos dos movimentos religiosos, políticos e sociais que eliminaram o self e reduziram ao silêncio as liberdades pessoais.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Esse é um dos dilemas com que nos confrontamos neste mundo cada vez mais globalizado e entregue aos caprichos individualistas e comunitaristas. Ignacio Ramonet trata desse caos de que fala. Eu procuro o outro lado da moeda: uma fuga desse caos. O problema reside na autoridade, neste caso da tradição. Vou aflorar esse aspecto no próximo post, mas não tenho solução...