terça-feira, 15 de abril de 2008

Prós e Contras: Português Escrito: A uniformidade é possível?

«A palavra falada é um fenómeno natural; a palavra escrita é um fenómeno cultural. O homem natural pode viver perfeitamente sem ler nem escrever. Não o pode o homem a que chamamos civilizado: por isso, como disse, a palavra escrita é um fenómeno cultural, não da natureza mas da civilização, da qual a cultura é a essência e o esteio. (...) A linguagem escrita é (ou deve ser) o mais cosmopolita possível. Philosophia deve escrever-se com 2 vezes PH porque tal é a norma da maioria das nações da Europa, cuja ortografia assenta sobre bases clássicas ou pseudo-clássicas. (...) A cultura é um fenómeno pelo qual estamos ligados ao passado pela inteligência; é, em outras palavras, a tradição intelectual. (...) A ortografia etimológica é a expressão gráfica da continuidade da nossa civilização e da nossa cultura com a civilização e a cultura dos gregos e dos romanos, em que aqueles tiveram origem e têm vida». (Fernando Pessoa)
«De resto, a língua não é só visão do mundo, porque tem de ser proporcionada ao universo, devendo todo o seu poder ser captado por ela, mas também porque é só esta transformação que ela opera sobre os objectos, que permite ao espírito aceder à intuição dessa ligação, que é inseparável do conceito de mundo. (...) É mediante o mesmo acto, pelo qual o homem tece a linguagem a partir de si mesmo, que ele se mistura na sua trama, e cada língua traça, em torno da nação à qual pertence, um círculo de que não se pode sair, senão na medida em que se passe, ao mesmo tempo, para o círculo de uma outra língua». (W. von Humboldt)
«A linguagem fala. A sua fala chama a diferença, a di-ferença que des-apropria mundo e coisa para a simplicidade da sua intimidade. A linguagem fala. O homem fala à medida que corresponde à linguagem. Corresponder é escutar. Ele escuta à medida que pertence ao chamamento da quietude. (...) Em jogo está aprender a morar na fala da linguagem». (Martin Heidegger)
O programa "Prós e Contras" (14 de Abril de 2008) foi dedicado ao chamado "acordo ortográfico". No palco, a favor, tivemos Carlos Reis e Lídia Jorge, e, contra, Vasco Graça Moura e Maria Alzira Seixo, enquanto na plateia estavam quase todos a favor deste acordo ortográfico, com excepção de um linguista e de um tradutor.
O subtítulo do programa "Português Escrito: A uniformidade é possível?" tem um cheirinho kantiano (como é possível a uniformidade do português escrito?) e, se não fosse já tarde, retomaria-o para desconstruir a maior parte da argumentação a favor do acordo ortográfico, porque essa é efectivamente a posição filosófica e política correcta. Contudo, não podemos desprezar o facto da maioria dos utentes da língua portuguesa não ser portuguesa, mas brasileira e africana. A língua portuguesa tornou-se universal, foi submetida a influências culturais e étnicas "estranhas" à sua matriz europeia e ocidental e pretende posicionar-se politica e economicamente no mundo global. Esta pretensão política da língua portuguesa é legítima e a comunidade de países de língua portuguesa deve dialogar produtivamente no sentido de atingir esse objectivo. Mas este objectivo, confundido facilmente com uma política da língua, não exige necessariamente uma uniformização da ortografia, embora também não a exclua desde que realizada noutros moldes.
Em face desta pretensão de poder da língua portuguesa, ambas as posições em debate estiveram aquém de si mesmas e encalharam no «colonialismo»: o de Carlos Reis foi antipaticamente a submissão de Portugal e da sua Cultura Ocidental aos interesses políticos, económicos e culturais do Brasil, e o de Vasco Graça Moura foi absolutamente hilariante, na medida em que reacendia o clima da guerra colonial e o surgimento de ditaduras nas ex-colónias portuguesas, de resto repudiado pelos próprios africanos presentes. Neste clima de guerra colonial, esgrimiram-se a seguir argumentos apresentados como fundamentados na linguística, como se se tratasse de uma "ciência exacta" ou como se uma tal expressão merecesse qualquer tipo de crédito científico.
Ora, este debate esqueceu um facto básico: A língua não pertence aos linguistas, mas a todos os seus utentes, e, se se pretende elaborar uma política da língua, esta deve fundar-se numa filosofia da civilização ocidental, porque a política é o braço prático da filosofia e não das ciências. Esta ausência de competência filosófica ou racional torna os portugueses ou os seus representantes políticos submissos e subservientes em relação às pressões bizarras das ex-colónias africanas. Com excepção de Maria Alzira Seixo, ninguém parece ter levado em conta o facto da língua portuguesa ser nativa e originariamente europeia e herdeira da matriz ocidental seminal: as línguas clássicas (latim e grego). Os filólogos clássicos sabem bem que o grego evoluiu e que a descoberta do alfabeto e da escrita possibilitou a nascimento da Filosofia, do pensamento racional, em conexão com a cidade e a democracia, portanto, uma longa história de "descoberta do espírito" (Bruno Snell). Mais nenhuma outra cultura conseguiu alcançar essa flor da complexidade cognitiva. Por isso, a universalização das línguas europeias, com a sua gramática muito peculiar, entre culturas arcaicas pode indicar regressão linguística e cognitiva. Os parasitas tendem a produzir efeitos letais no organismo que parasitam. Quando esse organismo é uma língua desprotegida como o português, esta corre o sério risco de perder a sua identidade. Em vez de evoluir, regride, tornando-se incapaz de organizar uma concepção do mundo, aquela que sedimentou ao longo da sua história heróica. Neste sentido, a nossa identidade cultural e civilizacional está em risco, agravado pela crise da educação em Portugal e pelo facto de não termos uma política da língua.
Dado não negarem a língua portuguesa e a sua herança civilizacional, os brasileiros, especialmente as convidadas, deviam meditar melhor nos riscos inerentes à sua grafia e à sua sintaxe. Com efeito, existem traduções de obras filosóficas no Brasil absolutamente ilegíveis: elas descaracterizam a filosofia. Enquanto não tivermos amadurecido o que desejamos verdadeiramente do futuro, em diálogo sério e racional com todos os utentes não-europeus da língua portuguesa, a política da língua mais racional é deixá-la entregue à sua diversidade intrínseca de expressões, de modo a não lhe negar o futuro, enclausurando-a num mundo que não é geneticamente o seu mundo. Sem retomar a formulação kantiana da questão levantada por Fátima Campos que recordou um belo texto de Vitorino Magalhães Godinho, acabei por lhe dar uma resposta: os acordos empíricos estão aí prontos a ser assinados ou rectificados, mas isso não significa que sejam legítimos. Resta-nos resistir às imposições irracionais do poder e recuperar a nossa herança cultural incorporada na nossa língua, a expressão das nossas identidades e memórias pessoais e colectivas, num movimento de olhar para trás, portanto, para a Grécia, da qual Roma manteve o seu pensamento. Como Sophia de Mello Breyner Andresen, podemos escrever "dança" com "s", ou "cisne" com "y", lembrando a sua/nossa origem grega que nos doou a subjectividade e a individualidade. (Vejam o post da Denise.)
J Francisco Saraiva de Sousa

40 comentários:

Denise disse...

Bom dia, J Francisco.
Parabéns pela qualidade do texto e pela rapidez com que foi escrito. Compreendo os seus argumentos e concordo com a generalidade deles, sobretudo no que diz respeito à relação intrínseca entre língua - pensamento - filosofia - política. Permita-me, contudo, salvaguardar os seguintes aspectos:
1. «A língua não pertence aos linguistas, mas a todos os seus utentes». Com certeza. Mas os linguistas terão uma palavra de peso a dizer sobre o assunto, porque cabe a eles o estudo sistematizado da língua, com o crédito centífico que eu acredito merecerem. A partir das constatações linguístico-científicas poder-se-á, aí sim,passr para um plano mais elevado que será o do pensamento filosófico sobre a questão;
2. Não me parece que a diversidade linguística se torne limitada ou fique enclausurada devido a uma uniformização ortográfica que me parece acompanhar a evolução da oralidade.
3. O exemplo do «cysne» que apresenta não se deve à Sophia mas sim à Fiama Hassa Pais Brandão. Esse argumento da Alzira Seixo pareceu-me um tanto ou quanto falacioso.

Não interprete estas minhas palavras como defensoras da política da uniformização tal como tem vindo a ser apresentada. Nada disso. Apenas palavras de quem está ainda a pensar sobre o assunto e não tem uma opinião verdadeiramente formada.

Um abraço

Manuel Rocha disse...

Bom Dia !

Concordo com esta sua leitura da questão. Por sinal não faço ideia de como são estas coisas geridas entre o inglés do UK e o da América do Norte. Nem em relação ao Francês...

Um destes dias,com vagar, logo me conta porque é que nega estatuto filosófico ao pensamento Oriental...:)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

Em relação ao inglês, nunca houve qualquer acordo entre o Reino Unido e os USA, porque tiveram sempre uma política da língua.

Denise

Não estou seguro da necessidade desta reforma da grafia portuguesa. Além disso a reforma/acordo de 1911 também teve os seus inconvenientes: o ph, por exemplo. Eu penso que a política da língua deve aproximar-se da língua do poder: o inglês. Sou a favor do W, Y e K. Não desprezo o contributo dos linguistas! Os brasileiros devem ser acordados: eles correm o risco de perder a capacidade do pensamento e da expressão da subjectividade. Isso é evidente na filosofia que produzem. Portugal desprezou sempre a língua: está a colher esse desprezo.

F. Dias disse...

Também me parece que seria melhor ‘deixar a língua entregue à sua diversidade intrínseca de expressões, de modo a não lhe negar o futuro’. A mudança legislativa da ortografia é algo estranho à própria língua imposto para satisfazer outros interesses (políticos, económicos ?). A matriz da língua é incontornável, as variantes da língua portuguesa são incontornáveis, e não fará sentido qualquer atitude de arrogância da superioridade de uma variante em relação às outras.

Aveugle.Papillon disse...

Bom dia F.,

A minha pátria é a língua portuguesa. Frase do heterónimo Bernardo Soares, de resto muito recorrente nestas semanas, e que espelha o meu dilema sobre este assunto.
Como amante da minha língua materna e incessante aprendiz da mesma, não posso concordar com o acordo, dadas as aberrações que o mesmo contempla, nomeadamente, a supressão das consoantes mudas, que, como se deveria saber, não estão lá para enfeitar. Ouvi alguns argumentos, (segui um pouco do programa), que justificavam o acordo pela "simplicidade" pela proximidade com a "oralidade"... e ia-me dando um chilique! Porque em vez de se proteger a coisa mais interessante desta merda de país, que é a sua língua, cede-se ao que é mais fácil - mais fácil para os cidadãos futuros, aprendizes do português - como se fosse a solução para uma expansão que deve ser consistente e levada a sério.

Por outro lado, a língua portuguesa não é nossa. E, sendo assim, a nossa pátria é vasta e complexa. O Brasil não é só o país com maior número de falantes da língua portuguesa, é uma potência cultural que Portugal nem daqui a mil anos conseguirá imitar. A "matriz ocidental" é vital, mas ela não definha ou se eleva por (in)correcções ortográficas. O português ante ou pós acordo não é uma língua potencialmente filosófica, por assim dizer. Eu estudei latim e grego antigo e as línguas derivadas (as q eu estudei - francês, italiano e português) são inferências simplificadas e cruzadas com dialectos locais e, mais tarde, com dialectos importados do Novo Mundo. Por isso, a "simplificação" não pode ser entendida como um mal. E, daí, acabo sem ser capaz de me posicionar.
Apenas digo que "enconstar-me ao Brasil", como alguém disse, não me soa assim tão mal.

Mas faço um apelo ao André do Brasil! Diga-nos o que acha sobre esta matéria! Elucide-nos!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon e Fernando Dias

É evidente que os brasileiros dominam (demograficamente) a língua portuguesa e não gostam que os estrangeiros a apresentem como "brasileiro", porque é Português! E têm uma cultura rica!
Mas, quando leio um texto brasileiro, coloco mentalmente aquilo que não está presente para o compreender. Se o faço é porque ainda conheço a língua e o seu potencial. Que farão os utentes futuros da "nova língua"? Não devemos eliminar da língua aqueles traços que fazem dela uma grandiosa concepção do mundo. O grego mostra isso...
Acredito no potencial filosófico da língua portuguesa! Não sou contra os "empréstimos" ou o uso de expressões inglesas. Aliás, mesmo aqui na linguagem dos computadores, muitos termos ingleses têm uma tradução fácil para o português. Sou a favor do ingresso das consoantes: w, k e Y. O que noto é que em Portugal não se domina o português!
Que sentido faz defender o acordo quando muitos cursos são dados actualmente em inglês? Estranha política da língua! O assunto é complicado, como viu bem o F. Dias.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Meus amigos

Estive a falar com três estudantes universitários brasileiros e houve entendimento linguístico pleno entre nós. A língua falada no Brasil varia muito em função das regiões e da classe social: uma evidência!
Economicamente, o tradutor disse que vai beneficiar as editoras brasileiras que dominarão facilmente os mercados africanos e depois o nosso, onde o livro é muito caro. Ao nível da tradução do português do Brasil para o português europeu, é o desemprego. Bill Gates deixa de pedir traduções para o português europeu!

Aveugle.Papillon disse...

O inglês tb n é língua filosófica.

N acho q o português tenha potencial filosófico e esse é o pressuposto errado pelo qual parte. Quer o 5ª império da Metafísica? Sonhe!

Qualquer português se entende com brasileiros sejam eles, estudantes universitários ou pedreiros.

É natural que tenha aversão às traduções brasileiras, porque elas são mal feitas, e não porque são em português, variante brasileiro.

A sintaxe é diferente porque eles falam de maneira diferente, mas isso n vai ser mudado com o acordo.

O único em que estou totalmente de acordo, e que lhe disse por e-mail, é que n há uso correcto da língua portuguesa, por isso, mais ou menos acordo n fará diferença ao analfabetismo corrente.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ai Papillon

Acha que sonho com o 5º Império da Metafísica? Logo eu que sou tão estrangeirado! Herdeiro do pensamento alemão!

Sim, mas os livros serão publicados por editoras brasileiras: é uma questão de tempo! Hormônios em vez de hormonas, etc... Inestético! (Não está no acordo mas vem por acréscimo. Aliás, tem vindo, porque de facto o Brasil traduz boas obras.)

Acrescentei umas frases de Fernando Pessoa recolhidas d' A Língua Portuguesa. A mais célebre já tinha sido citada pela Papillon.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A Papillon é um "must" da Blogosfera! Obrigado pela 4488 lição! :))))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

É precisamos da elucidação do André! Mas ultimamente não o tenho "visto" por aqui.
Eu admiro a cultura brasileira, bem como alguma literatura moçambicana, angolana e timorense... Vejo nessa diversidade uma fonte de riqueza. Apenas não concordo com abolição das consoantes mudas e as regras facultativas: acto não é ato; facto não é fato; objecto não soa bem objeto... intersecção... sem "c", como diferenciá-la? O contexto, diz C. Reis! A frequência destes termos é elevada e transportam muita filosofia!

André LF disse...

Estou aqui, Francisco!Sou um interlocutor silencioso, porém muito atento às suas criações. Muito bom o seu texto! Fiquei intrigado com a sua confissão " quando leio um texto brasileiro, coloco mentalmente aquilo que não está presente para o compreender". Gostaria de saber quais as principais diferenças que vc nota entre o português de Portugal e o escrito/falado no Brasil.
Percebo no Brasil, sobretudo na minha cidade (São Paulo), um desprezo pela norma culta e uma falta de rigor na busca das expressões mais adequadas àquilo que se quer enunciar. Atualmente há várias mazelas que acometem o nosso idioma, como por exemplo o gerundismo ("Eu vou estar fazendo", " O Senhor vai estar comprando"), herança da comunicação "fastfood" estadunidense.
A linguagem Messengeriana também está arruinando o aprendizado de Português nas escolas. Conheço professores que vivem se queixando das constantes abreviações e siglas usadas na comunicação on-line, presentes nas redações dos alunos.
Sou um apaixonado pela língua portuguesa. Não gosto de generalizações, mas ouso dizer que nós, brasileiros, abusamos da liberdade que a língua portuguesa possibilita. Acho que nos faltam a coerência, a precisão e o respeito à norma culta, tão caros aos escritores portugueses.
Obs: Toda vez que vou comentar algum texto nesta página, me pergunto: Será que conseguirei ser claro? Será que a linguagem que utilizo (ou melhor, a linguagem que ME fala) será considerada excêntrica? Para quem estava silencioso, até que estou muito loquaz! :)

André LF disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André LF disse...

Francisco, vc está certo ao afirmar que a língua falada no Brasil varia muito em razão das regiões e classes sociais. O Rio de Janeiro, por exemplo, conservou parte da entonação portuguesa. A diversidade linguística é tão grande, que, em determinadas regiões do Brasil, tenho a impressão de que as pessoas estão conversando em Aramaico.
De fato (facto), termos como hormônios são inestéticos. Eu gostaria que aqui se escrevesse acto, objecto, facto, em vez de ato, objeto, fato.
Papillon, por que vc acha que a língua portuguesa não possui potencial filosófico? Não estamos tão longe dos gregos e dos romanos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Em relação a si e (devo confessar) em relação aos brasileiros que conheço aqui (e no Porto, são muitos) e daí que participam em luso-congressos, não detecto diferenças: lexicais mas isso é óptimo. Também devo confessar que não compreendo certos portugueses: açorianos "muito açorianos", por exemplo, não capto nada, como se fossem de outro planeta.
De facto, coloca uma questão pertinente: uma coisa que não gosto nas traduções brasileiras de certos clássicos é o uso de um vocabulário próprio de certas zonas ou grupos do Rio ou de outra zona deslocado em relação ao texto, como se este fosse muito contemporâneo. Percebo a intenção mas não aprecio esse modo de cativar a atenção do público. A estrutura das frases também me incomoda.
Mas eu sou um consumidor de livros brasileiros. Aliás, a tradução do texto de Heidegger citado neste post é brasileira e acho-a bastante boa! A Papillon tem razão neste aspecto: há tradutores e tradutores.
Concordo consigo: a língua portuguesa é muito rica e tem potencial para a filosofia e para tudo.

André LF disse...

Francisco, no momento estou lendo o livro "João Guimarães Rosa- Correspondência com seu tradutor alemão Curt-Meyer-Clason". Guimarães Rosa é um escritor que trouxe uma versatilidade muito grande à língua portuguesa. Mesmo para os brasileiros, é difícil entrar no universo do Grande Sertão: Veredas, principal obra de Rosa. Voltando ao livro. Fiquei encantado com o belíssimo trabalho de Curt Meyer-Clason. Ele soube verter, de forma magistral, para o idioma alemão a poesia e a densidade existencial presentes no livro de Rosa. Tudo isto para lhe dizer que acredito no ofício do tradutor que, ao contrário do adágio italiano, nem sempre é um traidor. Ah, sou contra a unificação do nosso idioma. Aprecio as diferenças quanto à comunicação oral e escrita. Gosto muito de ler autores portugueses. Sinto que saio do rico, porém restrito mundo da língua portuguesa, em sua variante brasileira.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Preciso ler Guimarães Rosa, porque conheço pouco dele.
Esta noite foi mais um jogo de futebol e o meu Porto está na final da Taça de Portugal. Vamos ver se vencemos também esta taça, já que vencemos a Liga e estamos na Liga Milionária, a dos Campeões.
Ando a ler Vinicius de Moraes. E estudo um estudo sobre o Coió: um dicionário obsceno brasileiro. Fiz uma análise estatística dos campos lexicais.

André LF disse...

Francisco, estou torcendo pelo Porto!
Nunca ouvi falar deste Coió. Vc pretende publicar as suas análises estatísticas sobre os campos lexicais? Tenho aqui um Dicionário Brasileiro dos Insultos, organizado por Altair J. Aranha. Nosso país não é sério! É o paraíso dos fanfarrões. Gosto muito dos seus posts sobre poesia, e seria muito interessante se vc escrevesse sobre Vinícius.

Aveugle.Papillon disse...

Bom dia!

Parabéns pelo seu Porto! Li hoje que a Carolina refugiou-se no Alentejo para se dedicar à escrita do seu segundo livro sobre as obscuridades portistas... a saga promete continuar!

André,

Dizer que o português n tem potencial filosófico, não se pode cingir apenas à língua natural com as suas características gramaticais, sintáticas e morfológicas, ou seja, o seu corpo (Derrida), mas tb à sua alma, ou seja, o que foi constituíndo a sua identidade.
Ora, pelo lado material, por assim dizer, tem origem no grego e no latim, mas sintaticamente simplificou-se muito, a par dos seus congéneres latinos, o que o limita bastante na arte de criação de significados e metáforas, que é um dos ofícios necessários do filósofo. Isto confirma-se exemplarmente nas traduções entre obras alemãs e latinas. Como o alemão tem casos, tal como tinham o latim e o grego antigo (o grego moderno ficou só com o nominativo e genitivo) os tradutores latinos vêem-se com muitos obstáculos, de tal maneira difíceis de superar, que as discussões sobre a justeza das traduções é sempre tão efusiva como as discussões sobre o próprio texto em si!
Em relação à "alma"... sempre entendi a Filosofia Portuguesa como uma mera recepção às grandes obras e filósofos que circulavam no centro da Europa, ou, por outro lado, uma evocação mística, a qual entendo como um modo menor de fazer Filosofia. Por isso, concluo que pouco corpo e fraco espírito não determinam grande Filosofia...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bom Dia Papillon

Obrigado. Quanto a essa mulher, acho ridículo a atenção que lhe dão os meios de comunicação social. Quem está a escrever o "novo" livro? Um benfiquista corrupto? Estou cansado dessa conspiração contra o FCPorto! Cheira mal e percebe-se o que está por detrás: um glorioso sem mérito e com uma história ligada ao fascismo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

É muito difícil escrever sobre um poeta ou meditar com a sua poesia. Talvez possa isolar um ou outro poema e pensá-lo independentemente da obra poética. Logo que tenha tempo, vou ver se posso fazer post sobre Vinicius. Acho graça à presença ubíqua da figura da mulher na poesia de Vinicius. Funciona como um atiçador para mim, embora ainda não tenha elementos biográficos. Certa vez interpretei a poesia travadoresca portuguesa e galega e o resultado deixou o prof irritado: ele ele via pureza eu via sexo estranho. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André e Papillon

À ubiquidade da figura da mulher na poesia de Vinicius, estes seus versos são "desconcertantes":

«(...)
Que eu não posso mais, ai!
Que esta mulherme devora!
Que eu quero fugir, quero a minha mãezinha, quero o colo de Nossa Senhora».

Desconcertante, porque a figura da mulher é ambígua e, numa das vertentes dessa ambiguidade, "oculata-se/revela-se" a figura do homem, talvez de um homem em particular. O homem poeta? Mas este anseia pelas estrelas brancas e estas são a morte. Sobre a morte diz Vinicius:

«Ela que é na vida
A grande esperada!»

Versos que nos reconduzem à poesia de Florbela Espanca. Uma afinidade estrutural "luso-portuguesa"! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

O que estudei foi o Dicionário Moderno que surgiu em 1903 como um dos volumes da Biblioteca de O Coió, um jornalinho que começou a ser publicado a partir de 1 de Abril de 1901. O autor Bock é o pseudónimo de José Ângelo Vieira de Brito, cujo nome literário era J. Brito. Tenho os estudos de Dino Preti. Sim, já fiz a análise estatística dos campos lexicais do Dicionário Moderno e confrontei os resultados com um Dicionário do Calão recente em português (Portugal. Curiosamente não verifiquei grandes diferenças, como se o imaginário erótico heterossexual masculino não tivesse sofrido grandes modificações. Depois confrontei esses resultados com dois Dicionários eróticos gay: algumas afinidades...

Aveugle.Papillon disse...

Francisco,

Gosto muito de Vinicius, comecei por ouvi-lo musicado através de Jobim, de Baden Powell, etc., dos grandes compositores que trabalharam com ele!
Ele é um exemplo de um poeta que amava as mulheres (como falávamos ontem!), mas n acho esse exemplo "desconcertante". Essa ambivalência entre puta e virgem existe sempre na mulher idealizada. Ou seja, entre a "mulher insaciável" de que ele fala e a sua mãe e/ou Nossa Senhora. Mas são duas faces da mesma figura, senão leia este poema que idealiza a mulher - "a mulher que passa" - a mulher inalcançável, que apenas se deixa sonhar, que é "tão pura como devassa"... ah e atente à musicalidade das palavras - genial!


A MULHER QUE PASSA

Meus Deus, eu quero a mulher que passa

Seu dorso frio é um campo de lírios

Tem sete cores nos seus cabelos

Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas

Que me sacias e suplicias

Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia

Teus sofrimentos, melancolia.

Teus pêlos leves são relva boa

Fresca e macia.

Teus belos braços são cisnes mansos

Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas

Que vens e passas, que me sacias

Dentro das noites, dentro dos dias!

Por que me faltas, se te procuro?

Por que me odeias quanto te juro

Que te perdia se me encontravas

E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?

Por que não enches a minha vida?

Por que não voltas, mulher querida

Sempre perdida, nunca encontrada?

Por que não voltas à minha vida

Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Eu quero-a agora, sem mais demora

A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica

Que é tanto pura como devassa

Que bóia leve como a cortiça

E tem raízes como a fumaça.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

A mulher QUE PASSA... Sim, concordo e foi isso que disse: duplicidade..., porque noutros poemas captamos o outro lado, embora este seja amor ou desejo de passagem: duplicidade, ambiguidade, neste contexto desconcertante no sentido etimológico...

Aveugle.Papillon disse...

Eu não entendo porque interpreta como "amor de passagem"... eu acho o contrário, uma projecção ideal, daí que "bóie como a cortiça" e tenha "raízes como a fumaça"... Ela esfuma-se quando ele a tenta agarrar, mas não significa que seja uma mulher de passagem, ou seja, que se consuma no tempo, como, por exemplo, «a garota de Ipanema», que também "passava" todos os dias, mas ela existia (aliás tornou-se uma modelo famosa, por causa da canção).

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Também é uma via legítima de leitura. Eu procurava uma outra via, a da vida-devir rumo à morte, de modo a incluir o "filho" (outra figura de Vinicius), as brancas estrelas, a própria duplicidade feminina, enfim a morte, a esperada.

Aveugle.Papillon disse...

Ok. A mulher que passa, é a mulher que acontece, como uma aparição. Dessa forma, pode ser vista tb como um destino, como a desejada - a morte.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Exacto Papillon

Pelo menos, tentaria seguir essa linha ou fio condutor se fosse pensar a poesia de Vinicius, como desejava o André.

Aveugle.Papillon disse...

Não sei se a poesia de Vinicius se encaminha nesse sentido, n conheço o suficiente.
Noto muito o amor e as mulheres, o prazer, o olhar infantil de explorador, e tb alguma melancolia e saudade. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

É apenas uma chave de leitura experimental.

André LF disse...

Francisco, vc observou bem. Há uma estreita relação entre Vinicius e Florbela Espanca. Estava agora a procurar um livro de poemas do Vinicius, mas não o estou achando:(
Há nesta edição um poema muito bonito sobre a relação do homem (leia-se Vinicius) com a mulher amada. Como não sou bom memorizador de versos, prefiro encontrar o poema para registrá-lo.

André LF disse...

Não sei se vcs tiveram a oportunidade de assistir ao filme "Vinícius", um tributo ao poeta dionisíaco. Trata-se de um documentário muito valioso àquele que pretende compreender o universo poético de Vinícius.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Referi essa ligação Vinicius Florbela Espanca.

Papillon

Parabéns pelo seu Sporting. 18 de Maio estamos em campos opostos!

André LF disse...

Sim, Francisco eu quis dizer que vc referiu bem a relação Vinícius/Florbela. Esqueci da vírgula :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Estes dias ando com a cabeça no futebol. Por isso, não estranhe estar meio distraído. A Papillon parece seguir outra leitura. Era só um palpite.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Georg Trakl e Paul Celan são fascinantes: a poética do último é excelente. O poema como diálogo lança uma ponte para Florbela e talvez para Vinicius. Guerra Junqueiro também tem um texto muito interessante sobre esse diálogo universal. É necessário projectar a língua portuguesa e resgatar a filosofia no seu elemento ou domínio.
Abraço (Aqui já é madrugada.)

André LF disse...

Francisco, às vezes me esqueço das diferenças de fuso horário, :). Aqui são 20:50h.
Recentemente li alguns poemas de Paul Celan. Era uma edição bilíngüe. Apesar de não ser especialista no idioma alemão, pude perceber falhas graves de tradução. Entretanto, a poética de Celan me marcou. Senti em seus versos um vigor originário da linguagem, muito raro em outros poetas. Sou grande admirador de Rilke e Hölderlin.
Apesar de não ser religioso, aprecio os tratados e sermões de Meister Eckhart.
Abraço!
Sucesso para o Porto!

André LF disse...

Francisco, há uma boa edição dos poemas de Trakl em português?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Existem 3 traduções de Trakl: "Poemas" de Paulo Quintela (Oiro do Dia), "Outono Transfigurado" de João Barrento (ASsírio & Alvim) e "A Alma e o Caos" (Antologia, Relógio d'Água).
Do Paul Celan temos "Arte Poética", "Sete Rosas Mais Tarde" e outra da Cotovia. As últimas são bilingues. De Hölderlin temos também tradução de Paulo Quintela. De Rilke também. Deste último tb tenho uma tradução do Brasil dos sonetos mas prefiro a de cá.