domingo, 27 de abril de 2008

25 de Abril e Discurso Presidencial

A promessa política do 25 de Abril de 1974 foi, durante estes últimos 34 anos, traída pelo sistema de corrupção inscrito nas esferas nacionais do poder pelos partidos políticos e pelas novas classes dirigentes que usaram a luta política pela conquista do poder político, não para contribuir para a mudança social qualitativa mas para ascenderem socialmente e beneficiarem pecuniariamente com essa ascensão social. A chamada "revolução dos cravos" conheceu o seu período conturbado durante o qual o PCP procurou convertê-la numa revolução "socialista", com o objectivo de implantar uma "democracia popular". Contudo, após as primeiras eleições democráticas, o PS liderado por Mário Soares venceu e, com a ajuda de alguns militares, acabou por ditar o rumo dos acontecimentos, com a implantação da democracia pluralista.
Da ditadura à democracia os portugueses deixaram de ser "pobres (sentido lato) não-livres" e passaram a ser "pobres livres". Isto significa que a "pobreza" manteve-se constante aquando da passagem da ditadura para a democracia: a mais-valia da liberdade só poderia converter-se, nestas circunstâncias de pobreza constante, em mera ilusão. A democracia portuguesa é oligárquica e cleptocrática, portanto, uma falsa democracia. Daqui decorre necessariamente que o 25 de Abril não foi genuinamente uma revolução social, porque não ocorreu nenhuma mudança de modos de produção, mas um mero golpe de Estado, sem derramamento de sangue, do qual resultou no final de um período conturbado a implantação da democracia pluralista.
Após 34 anos de duração dessa democracia, a sociedade portuguesa ainda não alcançou um princípio básico: a igualdade de oportunidades, devido à voracidade das suas pseudo-elites que se comportam como "elites hereditárias" que controlam, de geração em geração, todos os recursos nacionais, ludibriando a maioria dos portugueses. A traição dessa promessa do 25 de Abril deve ser imputada a todos os dirigentes e partidos políticos, mais a uns do que a outros: as mudanças que operaram não foram suficientes para colocar Portugal entre os países mais desenvolvidos. Daí que muitos portugueses, quando escutavam o anúncio televisivo das comemorações do 25 de Abril, dissessem: "Maldito dia!" Esta reacção reflecte a desconfiança dos cidadãos em relação à política e aos políticos, diante dos quais se sentem desprotegidos e abandonados. Os discursos políticos proferidos não captam a realidade da vida diária dos portugueses: os políticos tratam dos seus interesses particulares e ignoram o interesse nacional.
Nestas últimas comemorações, o Presidente da República, Cavaco Silva, proferiu um discurso na Assembleia da República: Com base num estudo realizado pela Universidade Católica (era preciso o estudo?), o Presidente mostrou estar deveras preocupado com o afastamento ou alheamento dos jovens da política. (E será só da política?) As três questões colocadas (Quem foi o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril?, Quantos países compõem a União Europeia? e O PS detém actualmente uma maioria parlamentar?) não foram respondidas correctamente pelos jovens entre os 15 e os 17 anos de idade, o que indica que eles se alhearam da política, desconhecendo o real significado do 25 de Abril.
Ora, após a visibilidade da crise do sistema judicial, da crise da educação, da crise triste do PSD ou da mediatização dos casos graves de corrupção política, não era necessário um estudo para saber que os jovens são profundamente ignorantes e irresponsáveis. Porquê? A crise da escola, a crise da educação, a vida facilitada, as novas tecnologias da comunicação, o papel nefasto dos mass media ou mesmo a comida disponível, portanto, tudo aquilo que fizeram os governos depois do 25 de Abril reflecte-se nessa busca activa pela ignorância e pela vida fácil que dispensa o pensamento. Os próprios deputados e lideres políticos, incluindo os dirigentes partidários, são a face ou imagem visível dessa ausência de pensamento e de conhecimento.
Sem esforço e sem um sistema de punição/recompensa não há conhecimento! Basta ir a um grande centro comercial e observar atentamente os comportamentos e o aspecto dos chamados humanos portugueses: a regressão mental, cognitiva e corporal está presente no aspecto e no comportamento. Uma "queixa" frequente dos portugueses é de que não têm memória: são, pois, seres sem memória, e, até ao nível das operações motoras, revelam deficiências. Porquê? Porque o sistema educativo foi destruído pelas políticas da educação.
Ora, o mais preocupante é que ninguém capta esta regressão mental e cognitiva: Portugal é um imenso hospital de seres mentalmente deficitários. Este é o maior efeito da sociedade de consumo: não tanto pobreza e miséria materiais, mas sobretudo pobreza e miséria de espírito. O futuro de Portugal está assim irremediavelmente adiado e talvez perdido: as gerações mais novas são tanto ou mesmo mais "ignorantes" que as gerações anteriores. Não admira que os portugueses sejam escravizados em Espanha ou na Holanda: o português é mentalmente medroso e submisso. Aqueles que denunciam esta terrível realidade esquecem que foram eles os seus principais criadores e, por isso, se pretendem acabar com a mentira política e as falsas promessas eleitorais, deviam assumir as suas próprias responsabilidades pela situação indigente em que vivemos.
J Francisco Saraiva de Sousa

13 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bom Dia Papillon

Sim, o Deleuze está em português em dois volumes.
Passei para aqui porque a outra caixa de texto está muito longa.
Os morcegos são bonitinhos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ontem fiquei sufocado com tantos livros. Os tugas andam a publicar muito mas sem qualidade. Não percebo como as editoras funcionam, porque muitos deles não são vendáveis.
Muitas traduções de autores franceses e eles também não merecem ser publicados. Aquilo que é mesmo bom não é traduzido. Suspeito que deve ser a política de subsídio que mantem este sistema editorial.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O nosso país anda louco: os televisíveis estão mesmo maluquinhos. Uma vergonha nacional! Daí o nosso atraso... Muito triste estas cenas do PSD, o responsável pela nossa vergonha.

Aveugle.Papillon disse...

Não, os morcegos são nojentinhos e voam de uma maneira estranha.

Ok, como o Mil Planaltos é grande, há edições que o repartem. Mas já confirmei q é a obra integral. :)
Amanhã vou eu à Fnac!

Mesmo assim, têm havido boas traduções de clássicos nestes últimos anos. E a mais recente do Musil por João Barrento. Mas sim, falta muita coisa! Eu peço que me tragam livros de Itália - lá as traduções são boas e os livros baratos, há muitos pólos de investigação nas Universidades por toda a Itália. Mas até aqui ao lado os nossos irmãos espanhóis tb têm boas traduções. Mas eu n gosto muito de castelhano, apesar de se ler bem.
As traduções em Portugal são mal pagas (para além dos tradutores consagrados), pagas ao metro, e muitas das vezes a partir de outras traduções. Por isso, prefiro só comprar mesmo o que é bem feito. Não gosto de esbanjar dinheiro em vão.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, concordo: não vale a pena gastar dinheiro com livros que nunca deviam ter visto a luz do dia. O mundo está em transformação constante e muito rápida e certos autores discutem o "sexo dos anjos", absolutamente alienados do mundo. Retomemos a nossa boa tradição: estar atento à realidade e às suas possibilidades, boas ou más! :)

Aveugle.Papillon disse...

Essa ideia tb se "vende" nas Universidades, essencialmente nas das "ciências humanas" - como se os problemas de hoje fossem os mesmos de sempre. Não sei se eles pensam mesmo isso, ou se simplesmente se alheiam da actualidade e do futuro. Apoiando-nos na tradição, deveriam ser responsabilizados por essa demissão.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A Internet pode romper esse "silêncio universitário": o das universidades estabelecidas com os seus docentes metabolicamente reduzidos, conformados e maus! Abaixo este sistema corrupto universitário que em oito séculos de história não garante a continuidade da pesquisa.

Helena Antunes disse...

Boa reflexão, Francisco! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem-vinda Helena! Espero que esteja tudo bem consigo! Abraço

BEJA TRINDADE disse...

Depois deste comentário, tenha a concluir que o amigo Francisco, aponta os efeitos, mas, não aponta as causas, nem dá soluções, ou seja, utiliza os mesmos métodos dos políticos do poder.

Afinal porque será que chegamos a este estado?

Por acaso não tem estado no poder os políticos que o povo mais tem votado PS/PSD/CDS? Então esses que tratem da "coisa", até cairem de podres.

Não será esta a vossa democracia?

Então porquê tanto rancor ao 25 de Abril, em democracia o povo tem o que quere. O POVO É QUEM MAIS ORDENA!!!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Beja Trindade

Então, se o povo é quem mais ordena, tem a democracia que ordena nas eleições! Povo feliz, tem o que quer!?

BEJA TRINDADE disse...

Cavaco Silva deu voltas e mais voltas para encontrar um tema para o discurso, como não teve mais nada, veio com o discurso estafado, como que descobriu a pólvora, afinal o que ele veio dizer todos nós sabemos do afastamento dos jovens da política, o que ele não disse foi as causas de isso acontecer, como ele próprio quando foi 1º ministro, nada fez para inverter a situação, agora como Presidente da República, faz discursos com lágrimas de crocodilo e tudo ficará como dantes.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Se fosse só o afastamento da política, nada mau: é o afastamento do conhecimento, da vida e do mundo.
Sim, tem razão: eles são culpados, até porque tb não são muito cultos!