domingo, 13 de abril de 2008

Amor Romântico e Amor Maternal

«Mesmo na perspectiva do prazer decorrente do uso recíproco das suas faculdades sexuais, o contrato do casamento não é um contrato arbitrário, mas um contrato tornado necessário pela lei da humanidade», a mesma que proíbe «o uso de uma pessoa do mesmo sexo». (Immanuel Kant)
Kant via o "casamento" ou, como preferimos dizer, a união heterossexual, a única considerada "natural", como um contrato "tornado necessário pela lei da humanidade". Esta concepção do casamento não tem nada de surpreendente, nem mesmo quando estigmatiza a união entre pessoas do mesmo sexo como "contra-natura", porque, como mostrou Althusser, a filosofia idealista do "sujeito" «reflecte» no seu seio a ideologia jurídica burguesa. Daí que não faça qualquer referência aos afectos: o vínculo entre homem e mulher é reduzido a uma «relação de propriedade», encarada unicamente na perspectiva da «coabitação sexual» e depois prolongada na relação de propriedade do pai sobre os filhos. Por isso, Lenine tinha razão quando lhes chamava, citando Dietzgen, os «lacaios diplomados» do Estado Burguês.
O casamento continua a ser juridicamente um contrato, embora agora se prefira usar os termos "negociação" ou "relação pura" para definir a relação entre duas pessoas do mesmo ou de sexo oposto, nos países que reconhecem de algum modo as uniões homossexuais. A nova terminologia é sintomática: o consumo e não já a produção constitui o modelo transposto para as supostas "relações amorosas e afectivas", dando um colorido ainda muito kantiano ao «uso recíproco das suas faculdades sexuais» ou às relações pais/filhos. A única diferença parece residir no facto dos novos ideólogos desconfiarem, em nome dos afectos efémeros, da duração de tais relações puras, aconselhando as pessoas a encararem as suas relações amorosas na perspectiva de uma monogamia seriada. Isto equivale a dizer que não se devem comprometer muito numa relação, mas estarem prontas a vir a ter várias relações consecutivas durante a sua trajectória de vida. Com esta campanha anti-uniões estáveis pretende-se isolar as pessoas e abandoná-las à sua responsabilidade de impotência social, como se a união estável fosse uma prisão herdada de tempos obscuros, portanto, uma mera construção social que castrava a liberdade dos sujeitos humanos, agora libertos para negociar os seus afectos e desejos.
De facto, a ideologia burguesa é toda ela contrária à natureza, externa ou interna. No começo da sociedade industrial, a natureza era vista como uma fonte inesgotável de matérias-primas; hoje em dia também é encarada como mais um bem de consumo, apesar das descobertas das ciências biológicas que revelam que a natureza começa a revoltar-se contra o seu uso meramente instrumental. A crise da natureza é, portanto, a crise da economia capitalista que o Estado tenta «controlar».
Contudo, os sistemas afectivos (Harlow, Bowlby) não são meras construções sociais ou legais. O amor romântico e o amor maternal são experiências extremamente gratificantes, que partilham um propósito evolucionário comum e crucial na conservação e na perpetuação das espécies, assegurando a formação de vínculos estáveis e firmes entre indivíduos, fazendo deste comportamento de formação de laços uma experiência recompensadora com efeitos benéficos sobre a saúde e o bem-estar pessoal e social.
Usando a técnica de ressonância magnética funcional, A. Bartels & S. Zeki (2004) mostraram que estes dois tipos de vinculação, além de partilharem uma origem evolucionária similar e de servirem uma função biológica similar, de resto bem confirmada pelos estudos etológicos e sociobiológicos, também partilham mecanismos neurais comuns que fazem parte do cérebro social. As conclusões mais importantes deste estudo foram as seguintes:
1) O amor romântico e o amor maternal envolvem um único conjunto sobreposto de áreas, bem como áreas específicas a cada um deles.
2) As regiões activadas pertencem ao sistema de recompensa, conhecido por conter uma elevada densidade de receptores de oxitocina e de vasopressina, o que sugere que o controle neuro-hormonal destas formas de vinculação observado nos animais também se aplica aos seres humanos;
3) Ambas as formas de vinculação suprimem a actividade das regiões associadas com emoções negativas e das regiões associadas com a "mentalização" (racionalização) e com os juízos sociais. Isto sugere que os laços emocionais criados com outra pessoa não somente inibem as emoções negativas, como também afectam a rede neural implicada na formação de juízos sociais sobre essa pessoa.
Bartels & Zeki (2004) consideraram que estes resultados permitem concluir que o processo de vinculação utiliza um "push-pull mechanism" que activa uma via específica do sistema de recompensa do cérebro, associado à dopamina, ao mesmo tempo que os circuitos responsáveis pela avaliação social crítica e pelas emoções negativas são desactivados. Outros estudos começaram a mostrar que o amor é, de certo modo, uma adição.
O cérebro dos primatas, sobretudo o do homem, beneficiou muito da própria estrutura social primata e dos seus traços específicos, e. por isso, o seu tamanho e a sua complexidade reflectem a complexidade dessa organização social. As neurociências já destacaram algumas estruturas neurais que desempenham um papel fundamental na orientação dos comportamentos sociais: a amígdala, o córtex frontal ventromedial e os córtices somatossensoriais. Muito sumariamente podemos dizer: a amígdala desempenha um papel fundamental nos julgamentos ou juízos sociais das faces, o córtex pré-frontal ventromedial desempenha o papel chave nos raciocínios ou juízos sociais e na tomada de decisões, levando em conta as experiências emocionais, como mostrou António Damásio, e os córtices somatossensoriais desempenham o seu papel na empatia.
Este conjunto de habilidades pode ser subsumido sob a designação de cognição social. De facto, a neurociência cognitiva estuda como as habilidades cognitivas sociais se desenvolvem ao longo da infância e quais os factores genéricos que as influenciam, ao mesmo tempo que possibilitam elucidar o modo como nós representamos as mentes dos outros (Theories of Mind).
(Este post já tinha sido publicado no meu blogue "NeuroFilosofia": Cérebro, Amor Romântico e Amor Maternal. A sua republicação aqui neste post justifica-se por razões essencialmente políticas implícitas no novo enquadramento dado ao texto.)
J Francisco Saraiva de Sousa

5 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Com este post, bem como com outros já editados, preparamos o terreno para novos posts centrados nestes assuntos.

F. Dias disse...

Parece bem verdade.
Os três sistemas são independentes mas correlacionados (vinculação, dedicação e sexo). A vinculação ajuda a quem depende, a dedicação cuida quem mais interessa, e o sexo dá início à tarefa.

Quando tudo corre bem, cumprem o desígnio da Natureza que é perpetuar a espécie. Claro que estes três tipos de afecto conectam as pessoas de maneira diferente.

Os três tipos diferentes de amor são, ao nível bioquímico, muito claros. Apropriadamente as hormonas do sexo (androgénios e estrogénios) alimentam sobretudo a lascívia. Por outro lado a atracção romântica parece ser mantida por um sistema de níveis elevados de dopamina e norepinefrina (prazer e relaxamento) e baixos níveis de serotonina (acrescenta um estado de espírito agradável).

A química que faz uma relação durar alimenta a generosidade e incita à prestação de cuidados, que aumentam ou diminuem ao ritmo da variação dos níveis de ocitocina e vasopressina.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bom Dia Fernando Dias

Estava a pensar como os ditos filósofos de hoje perdem tempo a discutir artefactos mentais, quando podiam estar a pensar todos estes conceitos em função da própria "história da filosofia".
Quando citei Kant acentuei apenas o contrato, porque é politicamente relevante, embora o conceito de casamento em Kant seja mais complexo levando em conta toda a sua obra. Por exemplo, a sua antropologia é desprezada! E é curiosa!
Já editei outros posts sobre esses sistemas, mas tenho mais resultados interessantes que irei partilhar. As nossas universidades converteram-se em centros opinativos: cada um dá a sua opinião, e quer ser respeitado por ela, como se opinião e pessoa fossem uma só coisa. Mas carecem de PENSAMENTO... e bloqueiam o pensamento e a investigação real e criativa.

António Chaves Ferrão disse...

Caro J. Francisco Saraiva de Sousa
Este seu artigo surpreendeu-me deveras, por constituir uma abordagem rara na blogosfera. A respeito de:
Isto sugere que os laços emocionais criados com outra pessoa não somente inibem as emoções negativas, como também afectam a rede neural implicada na formação de juízos sociais sobre essa pessoa.
É fácil observar o fenómeno da negação dos sinais perturbadores de uma relação por parte de quem se deixa cair num estado passional. Essa negação talvez tenha repercursões somáticas (ponto de Damásio), mas ocorre um momento no tempo em que a opção é feita voluntáriamente, isto é, uma das alternativas passa a ser rejeitada, inicialmente de forma pontual, depois sistematicamente. Nada disto creio ser novidade, nem no tempo de Damásio, nem no tempo de Descartes.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

António Chaves Ferrão

Sim, todos sabiamos isso: os filósofos clássicos, os psicólogoa, enfim os poetas. Não conheciamos os correlatos neurais nem a neuroquímica desses processos. Agora começamos a compreendê-los melhor e podemos avançar mais.