sexta-feira, 25 de abril de 2008

O Sistema Nervoso dos Insectos

Em vez de falar do 25 de Abril de 1974, essa promessa traída pela corrupção, prefiro escrever sobre a organização do sistema nervoso dos insectos. Afinal, alguns insectos sociais (Karl von Frisch, Edward O. Wilson, Wilhelm Goetsch) cooperam mais do que os dirigentes portugueses entregues aos seus negócios corruptos. Da ditadura à democracia os portugueses deixaram de ser "pobres" (sentido lato) não-livres e passaram a ser "pobres" livres. Isto significa que a "pobreza" manteve-se constante: a mais-valia da liberdade converteu-se, nestas circunstâncias de pobreza constante, em mera ilusão. A democracia portuguesa é oligárquica e cleptocrática, portanto, uma falsa democracia. Daqui decorre necessariamente que o 25 de Abril não foi genuinamente uma revolução social, porque não ocorreu nenhuma mudança de modo de produção, mas um mero golpe de Estado, sem derramamento de sangue, do qual resultou no final de um período conturbado a implantação da democracia pluralista. Após 34 anos de duração dessa democracia, a sociedade portuguesa ainda não alcançou um princípio básico: a igualdade de oportunidades, devido à voracidade das suas pseudo-elites que se comportam como elites hereditárias que controlam, de geração em geração, todos os recursos nacionais, ludibriando a maioria dos portugueses. Esta organização faz-nos lembrar algumas sociedades de insectos e é provável que o português seja um insecto-homem.
O plano corporal dos insectos é muito similar ao dos outros artrópodes, embora apresente algumas modificações, sobretudo ao nível do sistema nervoso, que se sobrepõem ao plano dos restantes artrópodes. Com efeito, no sistema nervoso dos insectos, os gânglios estão mais conectados e podem ser facilmente identificadas três regiões distintas:
1) um protocérebro, que recebe estímulos dos olhos;
2) um deuterocérebro, que recebe estímulos das antenas;
3) e um tritocérebro, que inerva o tubo digestivo anterior e a região cefálica.
Os olhos dos insectos e as suas vias neuronais associadas no lóbulo óptico estão muito desenvolvidos. Os seus membros estão especializados para realizar muitas funções distintas, tais como voar, caminhar, saltar, manipular ou mesmo para produzir sons. Os gânglios nervosos do tórax fixam as asas e as extremidades, sendo consequentemente grandes e importantes centros de integração sensorial e de controle motor.
Além dos centros nervosos e das conexões de fibras, o cérebro dos insectos utiliza órgãos neuro-endócrinos para controlar determinados processos corporais. Desses órgãos o principal é o corpo cardíaco, situado posteriormente ao cérebro. Os gânglios emparelhados localizam-se próximo da aorta e estão conectados ao cérebro mediante um tronco nervoso. As células nervosas do cérebro sintetizam hormonas, que passam às terminações nervosas do gânglio através dos axónios do tronco nervoso. As neuro-hormonas são segregadas a partir das terminações nervosas, enquanto as outras hormonas são segregadas a partir das células que se localizam dentro do próprio gânglio. As neuro-hormonas e as hormonas são depois libertadas na corrente sanguínea. Isto mostra que o corpo cardíaco é um órgão neuro-hemal.
Ligado ao corpo cardíaco está o corpo alado, que é um órgão constituído por uma parte neuro-endócrina e outra endócrina intimamente interconectadas. Ambos são corpos ou órgãos directores para o controle neuro-endócrino e endócrino nos artrópodes, de resto análogo à hipófise dos vertebrados. Durante o seu desenvolvimento, a maioria dos insectos passa por fases larvares, as quais requerem uma remodelação do corpo, incluindo o sistema nervoso, para alcançarem a forma adulta. Esta metamorfose está sob controle destes órgãos neuro-hemais.
Os insectos sociais, nomeadamente as formigas, as abelhas e as vespas, alcançaram o cume da evolução dos invertebrados através da formação de colónias ou de sociedades, nas quais há divisão do trabalho entre os diversos tipos de indivíduos especializados, em particular a rainha, as operárias e os guerreiros. Algumas adaptações e os mecanismos nervosos associados estão relacionados com estas novas funções sociais dos insectos. (Leia o resto aqui.)
J Francisco Saraiva de Sousa

10 comentários:

Aveugle.Papillon disse...

Bom feriado Francisco!

Surpreendente ter-se lembrado de descrever o sistema nervoso dos insectos! Sendo eu um insecto-mulher, é-me muito aprazível!
Não sou "insecto português", porque a minha região natural é Madagáscar - veja-me fotografada por Brian Fisher, ainda na minha terra
http://i170.photobucket.com/albums/u275/aveuglepapillon/Comet_moth_000.jpg
Porém, numa noite em que me chateara com o meu companheiro, e os meus três cérebros entrando em erupção, emigrei para Moçambique - Oh Zeus! Desgraça a minha!
No dia seguinte, já descontraída pela liberdade de solteira que sentia, sugando cítricas frésias, um homem de raça negra apanhou-me, tornando-me sua cativa! Era um homem pobre (sentido estrito) que me disse que precisava de uma passagem para Portugal (foi a primeira vez que ouvi a palavra "Portugal" e pareceu-me algo como "terra de todas as oportunidades") e que, por isso, dada a minha raridade, (da minha espécie já só existe a minha família em Madagáscar), me iria vender, a quem mais dinheiro por mim desse. Eu que já estava nervosa, com as asas a vibrar de ansiedade, ainda mais fiquei, pois tinha sido atirada à contigência da natureza do coleccionador! Seria um biólogo (e levava-me de volta à minha terra)? Um esteta (e queimava-me em formol para de mim fazer um quadro)? Um mercenário (e mergulhava-me na vertigem do mercado negro)? Um menino mimado de alguma família rica (e torturava-me com a sua tosca curiosidade)? E esta borboleta já afundada em remorsos por ter abandonado o seu mais-que-tudo, também seu irmão, dado que, como lhe disse, da minha espécie existem poucos exemplares e praticamos incesto por convenção.
Ora, na noite seguinte, o homem levou-me a um grande mercado. Era um mercado clandestino: havia a ala dos vendedores de pedras preciosas, depois dos narcóticos e finalmente dos animais selvagens, onde vi algumas borboletas de Madagáscar, mas nenhuma como eu. E pensei logo que seria fácil vender-me..., mas as horas foram passando e eu ali permanecia a assistir ao desfile de interessados: - Muito caro! Dou-te metade do preço e é se queres! E o meu carrasco, que nem negociar sabia, dizia - Não! Nem pensar! Nada feito. E assim foi, até raiar o Sol, quando, muito furioso, pegou na gaiola que me aprisionava e foi em direcção ao porto, onde o navio para Lisboa partia daí a duas horas. Em desespero, ofereceu-me ao revisor em troca de uma passagem no porão para a terra prometida. O revisor olhou para mim, sorriu com um ar enigmático, e anuiu ao meu carrasco que muito feliz ficou e me entregou de imediato. E como a história já vai longa, abrevio o seguinte: o revisor carregou-me cativa até Lisboa e, depois, chegada aqui, libertou-me, dizendo que as borboletas só são realmente belas, se forem livres. E assim foi, Portugal, terra da liberdade para o preto-vertigo e para a borboleta-rara.

25 de Abril é dançar, pela primeira vez na minha vida, Sérgio Godinho numa discoteca, porque é "noite de liberdade".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bom feriado Papillon!

Uma história bonita a que conta! Mas o feriado deixa-me com náusea e dores de cabeça. Queria fazer um post sobre filosofia da natureza e confronto-me com muitos textos belos mas perdidoa na narração... E fiquei mal disposto e fui comprar novamente o Aristóteles...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Só os melros me fascinam: já me fitam do jardim à espera que os alimente com coisas apetitosas. Depois chegam os pardais, as rolas, algumas pombas e as gaivotas quando o mar está revoltado. O olhar do melro é muito juvenil: fita-me e acompanha os meus movimentos, dou-lhe de comer, parte e regressa novamente... As aves são inteligentes e gostam de vida fácil!

Aveugle.Papillon disse...

No jardim ao pé de minha casa tenho cisnes! Esses sim são assombrosos de belos! - diz Leda, sempre apaixonada.

Aproveite o Sol estival! :)

Aveugle.Papillon disse...

errata: onde se lê "vertigo", deve ler-se "verdugo"! Dislexia a minha, peço desculpa. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tinha deduzido! :)

Aveugle.Papillon disse...

Sim, a minha "errata" não significa que ignoro o seu fabuloso poder dedutivo, foi uma rectificação formal.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Hoje estou mais conceptualmente agressivo: estava a ver um debate entre parlamentares e fico chocado com tantas anseiras deputadas! Depois falam do alheamento político! De facto, Portugal está mergulhado na estupidez! :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Perderam a vergonha! Comportamentos estranhos difundidos pelos mass media! Não sei como os interpretar a não ser recorrendo a alguma neuropatologia! Muita burrice concentrada! Muito estranho! Demasiado evidente!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Deixo aqui um comentário sobre o discurso do Presidente Cavaco Silva na Assembleia da República: Com base num estudo da Universidade Católica (era preciso o estudo?), o Presidente está preocupado com o afastamento dos jovens da política. As três questões colocadas ficaram sem respostas.
Ora, não era necessário um estudo para saber que os jovens são profundamente ignorantes e irresponsáveis. Porquê? A crise da escola, a crise da educação, a vida facilitada, as novas tecnologias da comunicação, a comida disponível: tudo aquilo que fizeram os governos depois do 25 de Abril reflecte-se nessa busca activa pela ignorância. Os próprios deputados e lideres políticos são a imagem visível dessa ausência de conhecimento. Sem esforço e um sistema de punição/recompensa não há conhecimento!
Basta ir a um grande centro comercial e observar atentamente os comportamentos e o aspecto dos chamados humanos portugueses: a imbecilidade está presente no aspecto e no comportamento. Uma "queixa" frequente dos portugueses é de que não têm memória: seres sem memória. Até ao nível das operações motoras revelam deficiências. E ninguém capta esta regressão mental e cognitiva: Portugal é um imenso hospital de seres mentalmente deficitários. Aqui está um efeito da sociedade de consumo: pobreza e miséria de espírito. O futuro está irremediavelmente adiado e talvez perdido: as gerações mais novas são mais burras que as gerações anteriores. Não admira que os portugueses sejam escravizados em Espanha ou na Holanda: o português é mentalmente medroso e submisso.
Seguindo este caminho vou tentar responder ao desafio colocado pelo Manuel: analisar "a relação entre desintegração cultural e miséria humana". Outro título seria "Política sem Humanidade".