sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Manuela Ferreira Leite, Salazar e Política da Verdade

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Os sectores mais liberais do PSD estão deveras assustados com a semelhança entre as políticas da verdade da sua actual líder - Manuela Ferreira Leite - e do defunto Oliveira Salazar. O texto de José Pedro Gomes capta muito bem essa terrível semelhança tão do agrado de alguns fascistas portugueses, nomeadamente do autor homófobo deste blogue das trevas: «Reduzir a luta política a um combate entre a "verdade" de que se tem o monopólio e a "mentira" que se procura incrustar na identidade dos adversários, como raiz de todas as suas posições, é o caldo ideológico que se encontra na atmosfera malsã que rodeia a pulsão autoritária que dá energia a todos os ditadores».

O salazarismo ainda não foi seriamente estudado: as chamadas elites intelectuais portuguesas são estruturalmente avessas ao pensamento e ao trabalho intelectual. Em 1963, Ernst Nolte publicou o seu livro sobre o fascismo - Der Faschismus in seiner Epoche, onde apresentou as grandes linhas da sua interpretação histórico-filosófica do século XX. O sistema liberal é visto como a matriz das duas grandes ideologias do século XX: o comunismo e o fascismo. O comunismo levou ao extremo a transcendência da sociedade moderna - a abstracção do universalismo democrático que resgata o pensamento e a acção dos homens aos limites da natureza e da tradição, enquanto o fascismo procurou inspiração em Nietzsche e na sua vontade de proteger a "vida" e a "cultura" contra a transcendência, de modo a tranquilizar os homens em relação à angústia de serem livres e sem determinações. A obra de Nolte deu origem a grandes controvérsias científicas e filosóficas na Alemanha e fora da Alemanha, mas passou despercebida em Portugal. No entanto, quando defendeu a revisão constitucional para ilegalizar o comunismo ou legalizar o fascismo, Alberto João Jardim - um dirigente destacado do PSD - retoma a clivagem entre comunismo e fascismo que interpreta como as duas faces de um mesmo fenómeno, o totalitarismo. Ora, se as duas ideologias reflectem o totalitarismo - o comunismo, o totalitarismo de esquerda, e o fascismo, o totalitarismo de direita, então não se justifica - na sua perspectiva - a discriminação que a constituição faz entre ambas: ou se legalizam as duas versões do totalitarismo ou se ilegalizam ambas.

Alberto João Jardim lançou um desafio pertinente que merecia ser debatido na esfera pública, mas os dirigentes políticos lisboetas, incluindo os do PCP, acompanharam os seus jornalistas - especialistas na criação de intrigas e de mentiras, acentuando a "boçalidade" do dirigente madeirense, em vez de analisar objectivamente a sua proposta. A recusa lisboeta de debater o tema do fascismo é sintomática: Lisboa protagoniza uma revolução conservadora e a psicologia das suas classes médias propicia e encoraja, em circunstâncias de centralização extrema, o crescimento do movimento fascista. Os lisboetas não querem discutir o fascismo, porque são efectivamente fascistas. O Risorgimento lisboeta iniciou-se com os governos de Cavaco Silva que pilharam o Norte para enriquecer o Sul e Manuela Ferreira Leite pretende retomar essa pilhagem asteca. O neoliberalismo é a forma mais recente assumida pelo fascismo na era da globalização, e, em Portugal, foi utilizado pelos governos do PSD para reforçar o poder central contra os poderes regionais, tomando a forma de uma conspiração do capital financeiro concentrado em Lisboa contra o tecido industrial do Norte e o tecido produtivo nacional. O cavaquismo é, na sua essência, um processo de acumulação do capital português. (:::)

O discurso de Salazar é o discurso de Manuela Ferreira Leite: ambos dizem representar uma política da verdade e da sinceridade. Como mostrou José Sócrates no debate com Manuela Ferreira Leite, o programa minimalista do PSD está repleto de apagões, isto é, de omissões, que só podem ser clarificadas recorrendo a propostas anteriores feitas pelos dirigentes do PSD. A Direita ultraconservadora está com medo de perder o controle sobre a política nacional e os centros de decisão nacional e, como não tem outro projecto político a não ser o da privatizações globais da Segurança Social, da Saúde e da Educação, precisa de recorrer a uma manobra de diversão perversa e maligna, retomando o velho discurso salazarento: Manuela Ferreira Leite é o zombie que dá rosto a esse discurso conspirado em quartos escuros, como diz o poeta que pensou a azulidade do azul anímico (Georg Trakl). A família cavaquista alargada liderada por Manuela Ferreira Leite optou por mover uma conspiração mediática negra contra José Sócrates. (Em construção.)

J Francisco Saraiva de Sousa

7 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O vídeo que apresento neste post é a reprodução de um vídeo que aparece na barra de vídeo dedicada a esta campanha eleitoral, onde pode ver outros vídeos interessantes. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A Direita reaccionária está mesmo desesperada. Com a ajuda do Público, do Belmiro e do PR, volta ao caso fantasioso dos serviços secretos estarem a vigiar o PR. Desespero e loucura - a direita tem medo de ser descoberta na sua actividade ilícita. :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Neste caso das "escutas", quem fica mal é o
Presidente da República: fica a imagem de estar a ser instrumentalizado pela sua casa civil ou por algum assessor menos independente.

O director do jornal Público não merece credibilidade: fala feito tonto.

Belmiro de Azevedo já tem idade para pensar antes de falar e dizer asneiras, mostrando ser um empresário independente e não estar ressentido com o facto de não ter adquirido a PT.

Enfim, algo de mau se passa neste país, mas o mal vem de longe... Só perdemos com estes casos mafiosos! :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Na SICNotícias,
Luís Delgado acusa com razão o Presidente da República e o "bando de crianças" que o rodeia.

Já é o segundo erro crasso do PR, depois do caso de Dias Loureiro. O que se passa em Belém? Muito preocupante, porque parece que o PR foi sequestrado pelos seus assessores! :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Na ausência de estudos credíveis sobre o fascismo português, é muito difícil alinhavar a hipótese que pretendo apresentar, até porque será necessário rever as teorias marxistas do fascismo e do imperialismo. Na era da globalização, o fascismo assume a forma do neoliberalismo protagonizado pelo capital financeiro sob controle de gestores corruptos. Penso que a hipótese que defendo para o caso português é, de certo modo, apoiada pelo último livro de Rui Moreira que vê no cavaquismo a atrofia do sector financeiro do Porto. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, respondendo aos amigos que dizem que Rui Moreira é de direita, devo dizer que há direita e direita. Uma coisa é certa: Rui Moreira não é fascista, porque fascistas são os benfiquistas! Ele é do FCPorto! Além disso, parece que não vai tomar posição nestas eleições, o que significa que não confia na Manuela FL, o clone de CS. :)

Rodrigo disse...

A missão do seu blog é sensacional e alinha-se totalmente com os objetivos do Cidade Democratica www.cidadedemocratica.org.br. Este portal brasileiro (não deve ser difícil disponibilizá-lo para Portugal, fomenta a participação cidadã e é suportado pelo Instituto Seva.