sexta-feira, 14 de março de 2008

Travestis, Transgéneros e Transexuais

Este post visa sensibilizar os educadores para uma realidade sistematicamente omitida e maltratada, devido aos preconceitos vigentes no sistema escolar nacional. Na sua função de promoção da cidadania, a escola devia contribuir para a eliminação desses preconceitos. Nestas pequenas coisas podemos avaliar a qualidade da educação nacional, sem grandes burocracias.
O travestismo designa mais do que o gosto pelo vestuário do sexo oposto. É fundamentalmente uma forma de prostituição masculina, que, dada a natureza intrínseca do travesti, para ser mais rentável, conduz ao transexualismo: o desejo irreprimível de pertencer ao sexo oposto e, consequentemente, à mudança de sexo. As relações entre homens homossexuais e travestis, transgéneros ou transexuais, são extremamente ambíguas e complexas. Do ponto de vista homossexual predominante, estes três grupos sócio-sexuais não são incluídos na homossexualidade e o seu estilo de vida é associado à prostituição.
No léxico erótico gay português, o campo lexical do travestismo e da transexualidade integra 41 lexemas e representa 6,15% do total da dimensão cognitiva. Os machos homossexuais definem duas categorias de indivíduos: os homossexuais «abonecados», os hiperefeminados, e os «hermafroditas», como sendo constituídas por indivíduos com forte propensão para a «mudança de sexo». Eles começam por ser travestis, vestindo-se e comportando-se como «mulheres», e, posteriormente, alguns deles, quando têm oportunidade e meios financeiros, resolvem «mudar de sexo», os chamados «transexuais». Um número significativo destes indivíduos faz regularmente sessões de «transformismo» em determinados bares-discotecas e dedicam-se, pelo menos alguns, à prostituição. Para os machos homossexuais, o travestismo e o transexualismo estão intimamente ligados à prostituição como estilo de vida. O seu comportamento durante a actividade sexual é enfaticamente descrito sob a rubrica «prazeres teatrais» e «histeria».
O Dicionário gay on-line distingue três categorias sóciosexuais, ou os 3 T’s, nas quais o género e a sexualidade são cartografadas e realizadas de diversas maneiras: o travesti, homem gay que se veste e maquilha ocasionalmente para parecer uma mulher, o transexual, pessoa que quer mudar ou já mudou de sexo, e transgénero, pessoa que não se enquadra nas categorias travesti e transexual. O termo travesti, em inglês transvestites, é usado para designar o «homem que se veste e maquilha ocasionalmente de forma a parecer uma mulher». Ao contrário dos transexuais, os travestis, também conhecidos por Crossdresser e Drag-Queens, «não se consideram mulheres nem pretendem sê-lo».
Neste aspecto, os travestis portugueses são similares aos brasileiros (Inciardi et al, 1999) e italianos (Gattari et al., 1992). O termo transformista é usado para designar um indivíduo que «apenas se veste com roupas do género oposto para espectáculos». O termo transexual é usado para designar «uma pessoa que pensa e se comporta no seu dia a dia na sociedade de acordo com o género oposto ao seu sexo biológico», ou simplesmente «uma pessoa em que o género e o sexo não são coincidentes». Sofrem, portanto, de «disforia de género» (Michel, Mormont & Legros, 2001) e, por isso, «muitas vezes (mas nem sempre) sujeitam-se a uma operação de mudança de sexo». O Dicionário online especifica que «os termos pré-operatório e pós-operatório distinguem os transexuais que fizeram a cirurgia de mudança de sexo dos que ainda não a realizaram». Assim, «um transexual não-operatório é uma pessoa que, por qualquer razão, não pode ou escolheu não ser operada». Obviamente, «os transexuais preferem ser identificados pelos pronomes do género que eles gostariam de ser». Este verbete esclarece a noção de género, mostrando que a cada sexo corresponde um género apropriado e que os transexuais são «pessoas» insatisfeitas com o seu sexo biológico. O termo transgénero é «normalmente utilizado para abarcar todas as formas de pensamento e de comportamento que cruzam as separações entre os géneros e/ou os sexos», sendo também usado para «englobar as pessoas que não se enquadram nos termos travesti ou transexual».
Tal como sucede no Carnaval brasileiro (Bloom, 1997; Linger, 1992; Scheper-Hughes, 1992), muitos homens heterossexuais e homossexuais portugueses participam nos desfiles carnavalescos vestidos como mulheres, não apenas para venerar ou mesmo humilhar as mulheres, mas também e sobretudo como uma projecção das suas fantasias sexuais. Mas, em contraste com o Carnaval cross-dressing, os travestis portugueses encaram o travestismo como uma identidade e uma designação que invade muitos aspectos das suas vidas. Para muitos deles, o travestismo não é apenas ocasional ou fetichista, mas algo que permanece consistente ao longo das suas vidas. Estes travestis são marcados por uma "feminilidade caricatural" e exagerada, quer na roupa, quer na maquilhagem. Geralmente, concentram-se nos grandes centros urbanos, tais como Lisboa, Porto ou mesmo Leiria, em lugares onde uma mistura de actividades socialmente marginais e frequentemente ilegais cria uma "região moral", no sentido da Escola de Chicago, e um "anonimato moral", onde os valores tradicionais não funcionam.
Neste mundo onde a prostituição feminina, o tráfego de drogas, a homossexualidade e a prostituição masculina juvenil, se cruzam e coexistem, a maioria dos travestis, para fazer face à vida, envolve-se rapidamente na "prostituição de rua" como actividade primária e acaba por usar drogas e fazer sexo desprotegido (Inciardi et al., 1999). Outros travestis que o Dicionário online apelida de «ocasionais» têm profissões diurnas vulgares e à noite, em determinados dias da semana, fazem espectáculos de transformismo em bares e discotecas gay, e alguns prostituem-se a seguir. Muitos começaram mais recentemente a frequentar determinados chats para oferecer os seus serviços sexuais, especializando-se na prostituição electrónica.
Os travestis portugueses, entre os quais muitos provenientes do Brasil e de certos países europeus, nunca afirmam ser heterossexuais, como sucede noutras amostras estrangeiras (Docter & Fleming, 2001), e, embora se sintam sexualmente atraídos por homens, não se identificam como mulheres ou homens homossexuais, porquanto tendem a encarar-se como tendo uma identidade de género separada e distinta que designam como travesti ou, mais recentemente, transgénero. Ao contrário dos homens homossexuais, os travestis, sejam transformistas e/ou prostitutos, ocasionais ou permanentes, não revelam um forte interesse por homens gay, porquanto não os consideram como verdadeiramente «homens viris», mas por homens que são normalmente atraídos por mulheres, isto é, por heterossexuais típicos.
Em termos de parceiro ideal, os homens travestis desejam que os seus potenciais parceiros sexuais tenham «aspecto masculino» e características tipicamente masculinas, sejam «bem dotados», desempenhem o papel activo no coito anal, antecedido de abundante prática de sexo oral no parceiro, e ignorem a sua genitália masculina durante o sexo. Geralmente, os travestis, e isto é particularmente visível nos transformistas, procuram esconder ou ocultar o «seu» pénis dos parceiros activos durante o sexo, através de roupas e posturas especiais. Contudo, este acto de esconder o pénis, além de ser um sinal de desvalorização da sua própria masculinidade, é melhor sucedido quando se envolvem em actividades sexuais com os clientes, até porque a actividade sexual mais frequente é o sexo oral, do que com os seus «companheiros permanentes», que frequentemente funcionam como «chulos». Os travestis consideram que desempenhar o papel activo num encontro sexual constitui uma violação da sua «sexualidade ideal», mas, apesar disso, muitos desempenham esse papel para satisfazer os seus clientes supostamente heterossexuais.
Embora se vistam e se comportem como mulheres, os travestis não procuram ser vistos, pelo menos no plano cognitivo, ou passar como se fossem mulheres, mas usam abundantemente os pronomes e nomes femininos, o que os distingue dos transexuais operatórios. O ideal expresso pelos travestis é realizar os papéis tradicionais de género das mulheres: ser uma "boa esposa", uma "dona-de-casa", lavar roupa e cozinhar para o companheiro, sem fisicamente se converterem, pelo menos durante um longo período de tempo e em muitos casos durante toda a vida, em «mulheres», mediante o recurso à cirurgia de mudança de sexo.
Muitos exprimem uma repugnância especial pela vagina e consideram que a cirurgia de mudança de sexo é absurda. Esta vaginofobia é sinal de atracção sexual por homens heterossexuais e rivalidade com as mulheres heterossexuais. Estas atitudes reflectem duas crenças fortemente implantadas neste grupo de travestis: eles tendem a desvalorizar as mulheres como grupo e a vagina é vista como um símbolo da condição biológica de ser mulher (1). Embora os travestis digam ter preferido na infância amigas em vez de amigos de brincadeira, falta saber se não foram rejeitados de algum modo por elas: as mulheres heterossexuais adultas não mostram muita simpatia pelos travestis ou transexuais. Os travestis consideram-se como possuindo uma identidade sexual especial (Broad, 2002; Ringo & Ringo, 2002) e como fazendo parte de um grupo particular, distinto do grupo homossexual (2). Neste grupo, o ideal do papel feminino é cumprido sem exigir a anatomia feminina completa. Estes homens tiveram invariavelmente comportamentos infantis de não-conformidade de género (Lippa, 2001; Green, 1998), sendo, por isso, rejeitados e maltratados pelos pais e pares, e foram geralmente objecto de diversos tipos de abuso (verbal, físico e sexual).
As nossas observações de campo apontam para a seguinte trajectória de vida: um homossexual agitado começa desde a infância a vestir-se como menina, mais tarde na vida adulta faz espectáculos de transformismo e prostitui-se regular ou ocasionalmente. Alguns ficam por aqui, na fase do «pré-operatório», como diz o Dicionário online, mas outros vão mais longe e querem mudar a sua anatomia e fisiologia. São os transexuais macho-para-fêmea que têm como actividade principal a prostituição (Wolfradt & Neumann, 2001). Aliás, muitos alegam que se prostituem para juntar dinheiro para os tratamentos hormonais e a cirurgia de mudança de sexo. Embora a maior parte dos transexuais observados fossem pré-operatórios, os poucos transexuais pós-operatórios observados passaram inexoravelmente pela fase travestis e transformista e começaram muito cedo a prostituir-se. Geralmente, acabam por se viciar em drogas, sendo abandonados pelos "amigas" ou chulos e muito maltratados nas ruas, e alguns tornam-se finalmente sem-abrigo.
Considerações Finais. Este post baseia-se basicamente na maneira como os homens homossexuais vêem os travestis, transgéneros e transexuais, fundamentando essa perspectiva emic com alguns dados da observação sistemática de comportamentos in situ. Isto significa que adiámos a abordagem biológica destas expressões sexuais. Diremos que o cérebro dos transexuais é dotado de um núcleo sexualmente dimórfico, supostamente responsável pela identidade de género, o núcleo do leito da estria terminal (Zhou et al., 1995), cujo tamanho nos transexuais é ligeiramente inferior ao das mulheres heterossexuais, o que pode explicar a disforia de género, isto é, o facto dos transexuais acreditarem que pertencem ao sexo oposto daquele que é indicado pelos seus órgãos genitais. Dado já conhecermos alguns genes associados ao transexualismo (Henningsson et al., 2005), o estudo destes indivíduos pode vir a facilitar a nossa compreensão da orientação sexual, especialmente da homossexualidade, recorrendo igualmente a outros modelos animais, nomeadamente o do carneiro (Roselli et al., 2002).
O facto dos próprios homossexuais masculinos os verem como fazendo parte de outro grupo ou categoria sexual está em conformidade com estes resultados científicos. A atipicidade sexual dos transexuais repele e repugna os homens gay que, tal como os homens heterossexuais, possuem uma forte identidade de género masculina, da qual se orgulham. Mas dedicaremos outro post sobre estes assuntos.
J Francisco Saraiva de Sousa

54 comentários:

Aveugle.Papillon disse...

Bom dia!

Nunca percebi bem a diferença entre transexual e transgénero. Mas uma vez vi um pequeno filme com o que eles chamavam de "Shemale", isto é, metade mulher e metade homem (mamas de silicone, cara e cabelo efeminados e pila), tipo figura mitológica ou anfíbia (depende do ponto de vista), a *oder um homem (coito anal). Ela/ele é transgénero?

Quanto ao transexualismo, o desconforto com o sexo biológico e a odisseia do reencontro com o sexo "cerebral", do hipotálamo, foi algo que sempre admirei! De uma coragem e sacrifício assombrosos! Lamento como a sociedade não acolhe sem preconceitos os que visivelmente sofrem, como ensinou Cristo. :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Os transgender é, de certo modo, uma invenção cultural: um misto de traços femininos e masculinos. Pode ser visto como uma tentativa de escapar ao heterosexismo e suas identidades sexuais rígidas (em vez de ser homo ou hetero, é transgénero, além do estigma) ou, como sucede no meio luso, como outra designação para travesti.
Cientificamente, muitos estudos foram colhidos por estas categorias sociais, donde resultou uma confusão conceptual grave. Mas os 3 grupos estão ligados. E os transexuais operados foram travestis. "Mente feminina prisioneira em corpo masculino": com mamas de silicone e tratamento hormonal e mudança de voz, já são transexuais.
Sim, nas escolas acontecem cenas muito bárbaras que os educadores encobrem negativamente. Sem este respeito pela diferença, a educação não é libertadora!

Aveugle.Papillon disse...

Segundo a definição que deu, ser transgénero parece mais uma escolha, uma provocação ou um manifesto, do que uma determinação, como o transexual.
Diz que os 3 grupos estão ligados. Mas o fenómeno do travestismo penso que não exista de mulher para homem. Mas há mulheres transexuais e transgenders.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tentei recolher dados emic para uma classificação dessas expressões sexuais, mas os tugas são muito ignorantes. Verdadeiramente, não sabem o que dizem. Geralmente, são homossexuais do tipo "agitado" ou hiperefeminado que fazem shows de transformismo.
Curiosamente, existem aqueles que usam roupa masculina: um travestismo interessante. Homens travestidos de homens ou "desejo de mutilação" travestido de homem?!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A equipa holandesa descobriu o que é fundamental: o padrão do núcleo do leito da stria terminalis (porção central) é masculinos nos homens homo e hetero e feminino nos transexuais macho-para-fêmea! Isto significa identidade de género incongruente com o sexo biológico. Depois veio a pesquisa genética confirmar a existência de 3 polimorfismos associados ao transexualismo: o gene receptor dos androgénios, o gene da aromatase e sobretudo o ERbeta (receptor dos estrogénios). Daqui resulta que esta categoria sexual não pode ser integrada no âmbito da homossexualidade masculina.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E mulheres travestis, porque muito antes dos tratamentos vestem roupas masculinos e urinam nos WC masculinos (cabines, evidentemente, porque ainda têm vagina). Algumas enganam: são "rapazes".

Aveugle.Papillon disse...

Dessa forma um transexual pode ser homossexual ou heterossexual, não é? Eu poderia querer ser homem e desejar homens, não? Ou um homem querer ser mulher e desejar mulheres?


Então o travestismo pode ser considerado como uma fase anterior à transexualidade, mas também independente, porque muitos não passam para a fase seguinte.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Partilho a sua segunda frase: empiricamente foi o que observei.

A segunda partilho parcialmente, porque, não dei essa informação, um homem normal gay ou hetero pode até aos 40 ou 45 anos (não tenho os estudos à mão) querer mudar de sexo, mesmo os casados, com filhos e sem episódios homo.

O fetichismo travesti é exclusivamente heterossexual: excitação sexual. Os transexuais não procuram excitação sexual quando usam roupa feminina, nomeadamente interior.

Mas os holandeses e outros falam de transexuais homo, hetro e bi. Um pouco confuso!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas é verdade: há um caso célebre de uma transexual macho-para-fêmea que gosta de mulheres! Como a classifica, Papillon?

Aveugle.Papillon disse...

Sim, eu tenho um caso desses aqui no meu bairro: era casado e com filhos, e um dia surgiu como Salomé! :)

A sexualidade é mesmo muito complexa, e esta necessidade masculina (como diria Deleuze) de classificar, pode ser (e é) limitadora, mas também só desta maneira o homem prossegue no conhecimento e cuidado de si. :)

Ela é natural de Lesbos! :) No fundo é uma mulher que gosta de mulheres, mas nasceu no corpo errado.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Se acrescentar que ELA gosta de outras mulheres transexuais, como ela, concluimos que sente atracção sexual por mutilados! O caso muda de figura: há esta atracção por membros mutilados. :))

Aveugle.Papillon disse...

Ai! Mais um dado para confundir!
Não, supunha uma transexual que se atraía por mulheres que nasceram mulheres.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O núcleo do leito da stria terminalis pregou-lhe uma partida: era transexual! Pobre Salomé! Ninguém está livre disso, pelo menos até aos 40 anos! :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Também existem esses!
Também fico masculinamente confuso, porque sinto que a minha capacidade de análise fica perplexa! Por isso, eles constituem um bom modelo para o estudo biológico da orientação sexual! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Que nome! Salomé! De facto, eles(AS) gostam de certas figuras femininas!

Aveugle.Papillon disse...

A sério? Pode despontar espontaneamente a necessidade de mudar? Mas que interessante! A vida é um mistério! Como dizia o sábio Heraclito: "a natureza gosta de se esconder!"

Se eu me tornar homem chamar-me-ei: Fausto! :)))

Agora, vou almoçar.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bom almoço. É o núcleo a reclamar! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

A coisa é assim:

1. Androfilia: os homens gay são andrófilos.

2. Ginefilia: os homens hetero são ginéfilos.

Auto-Ginefilia: propensão de um homem ficar sexualmente excitado com o pensamento ou a imagem de si mesmo como fêmea (transexualismo).

3. Acrotomofilia: o alvo erótico preferido é amputado.

Apotemnofilia: desejo de se amputar, de modo a assemelhar-se ao alvo erótico preferido.

4. Pedofilia: as crianças como alvo erótico. Autopedofilia.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Este modelo é interessante, mas a minha tipologia entra com outros critérios, o que torna o modelo mais sofisticado.
Pelo léxico erótico hetero, os homens hetero têm inclinação para a auto-androfilia: "fixação no seu próprio pénis" que leva alguns a recorrer à cirurgia para aumentar o seu tamanho.
Além disso, possibilita entrar como a

Zoofilia: animal como alvo erótico. Zoovestismo: assemelhar-se com o alvo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Outra provocação:

Pedovestismo: vestir-se como criança. Pode significar que o alvo erótico são as crianças (pedofilia).

Travestismo: desejo de se assemelhar ao alvo erótico: mulheres (ginefilia). E assim ... por diante.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Vestir-se à homem (alvo erótico: androfilia) é homeovestismo.

Aveugle.Papillon disse...

Olá!

Almocei ovas e lembrei-me da nossa conversa. :)

Obrigada por ter disposto as várias "-filias". Não conhecia a número 3.

E "zoovetismo" - devir-animal, como o objecto do desejo? Ui.

E auto-pedofilia - o pedófilo pode infantilizar-se? Tinha ideia que o pedófilo camuflava-se como indivíduo maduro; apesar da sua sexualidade não ser madura.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O devir animal do Deleuze é nesse sentido? Hummm... interessante.
Estava a tentar elaborar novo modelo dos erros de localização do alvo erótico. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Alguns fetiches podem ser explicados usando este modelo mais económico. As peles..., couro, tatuagens exageradas...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Com um pouco de imaginação encontramos novas explicações para o lobisomem e outras figuras do imaginário.

Aveugle.Papillon disse...

A pedofilia revolta-me imenso porque talvez seja dos crimes mais horrendos: trair a confiança e roubar a inocência a uma criança... Os pedófilos são extremamente manipuladores, e geralmente são os que estão mais próximos da criança, os educadores, familiares ou professores.
Quando a criança sente que algo parece estranho, já foi abocanhada pelo lobo, já caiu no buraco sem fundo, onde a dor é a única sensação... :(((

Penso que a zoofilia tem alguma coisa a ver com a pedofilia, no sentido em que o sujeito de prazer procura satisfazer-se num objecto (ser vivo) que não terá prazer (mesmo que eles possam pensar que sim); é uma relação assimétrica.

O devir-animal tem a ver com um desejo pela matilha. Deleuze opõe família/filiação a grupo/contágio. Devir-animal significa desde sempre lidar com uma população, um bando, uma multiplicidade. (sociedades de caça, de guerra, sociedades secretas - isto é devir-animal). Devir-animal n é imitar um animal, é extrair a sua força, como faz um actor ou uma criança. N é mimese.

Aveugle.Papillon disse...

Metamorfose de Kafka, ou as obras de Paula de Rêgo, vê-se esse devir-animal.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tomei conhecimento de um caso de zoofilia em que um jovem levava uma cadela vadia para um sítio e penetrava-a. Os seminaristas que sabiam a cena, quando viam a cadela, chamavam-lhe "p...ta". as cadelas deixam-se penetrar facilmente, pelos vistos, e não evitam esse contacto. Contudo, outros casos envolvem mulheres que utilizam as línguas dos animais, gatos mas sobretudo cães grandes, e pertencem a classes abastadas.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Os gay e lésbicas são muito abusados sexualmente nesse período, mas a maior parte vê nisso uma relação gratificante. Alguém os aceita como são!

Aveugle.Papillon disse...

Quanto aos exemplos de zoofilia:

Se calhar bastava chamar-lhe "cadela".
Por acaso, ontem (http://www.spiegel.de/international/zeitgeist/0,1518,541437,00.html) a Holanda decretou a proibição de sexo com animais. Sendo que por lá havia/há casas onde se vendiam/vendem sexo com animais. Eu n acho muito normal que um homem tenha prazer em penetrar a vagina ou o ânus de uma ovelha ou de uma cadela; se elas têm prazer não sei.

Quanto ao último comentário, n sei a que idades se está a referir. Mas se são "abusados", como se pode tornar "gratificante"? Isso já é o ponto de vista do perversor, que se transfere para o da criança, que começa a pensar que a culpa é da própria, por ser bonita/sedutora.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, também é verdade. Mas existem estudos americanos que mostram que os rapazes gay não vêem esse "abuso" como Abuso, mas como uma oportunidade de terem a sua primeira experiência gay sem temer represálias. Portanto, a relação é consentida e pode ser psicologicamente gratificante em termos de desenvolvimento de identidade. Isto desde que não haja uso da força ou de outro meio coercitivo. Deu origem a uma polémica científica. Na minha amostra, muitos relataram sem trauma essa experiência precose com parceiros muito mais velhos.

Aveugle.Papillon disse...

Pois, mas há abusos aos 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10 anos... que deixam traumas. A realidade da pedofilia, infelizmente, n é só de meninos pré-adolescentes gays que se iniciam na sexualidade.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Claro...

Aveugle.Papillon disse...

É "claro", mas com o seu exemplo relativizou o problema. Algumas gotas de sensilidade, seria um excelente receita para o omnisciente F...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O assunto é mais complexo e não gosto de assumir o papel de "carrasco": muitas "crianças" não encaram esse "sexo" como abuso, porque o consentiram. Não estamos a tratar da pedofilia organizada e criminosa!

Aveugle.Papillon disse...

Excuse me?!?

O F. definiu pedofilia como "as crianças como alvo erótico."
Eu não distingui, nem o F, pedofilia "criminosa", da "consentida"; porque NITIDAMENTE, (uma vez que estamos no plano das "obviedades"), a pedofilia "consentida" n é tão problemática ou consequente.

E, sim, o assunto é muito mais complexo, por isso, "caso encerrado".

Sandra M. Lopes disse...

Desculpem deixar-vos um comentário quase depois de um ano, mas não pude resistir a corrigir uma falha fundamental de raciocínio, que curiosamente depois nos comentários até é levantada sem deixar a conclusão...

"O travestismo designa mais do que o gosto pelo vestuário do sexo oposto". Logo essa primeira frase, e as suas consequências, são um conjunto de falácias que infelizmente continuam a ser propagadas como se fossem verdade, conduzindo não só à discriminação como principalmente à desinformação...

Mas vamos por partes. A primeira, não referida no artigo, é a distinção entre sexo (atributo físico) e género (atributo comportamental). Na maior parte dos indivíduos, ambos coincidem: um rapaz do sexo masculino é educado para ter um comportamento do género masculino (e, de forma semelhante, o mesmo se passa no caso feminino). Exceptuando em muitos poucos casos, o sexo é efectivamente determinado geneticamente (há excepções, mas são uma raridade — há muito poucos verdadeiros hermafroditas, por exemplo). O género é normalmente assumido pelo indivíduo como melhor representando o comportamento socialmente adequado ao seu sexo. Este comportamento é essencialmente aprendido mediante a acção educativa dos pais, dos professores, e dos restantes indivíduos na sociedade que disciplinam o género dos indivíduos de acordo com o seu sexo.

Este comportamento não é de todo uniforme em todas as sociedades ou épocas, como é evidente. Não se limita sequer ao vestuário. Assim, a noção de que os homens vestem roupas sóbrias, de cores monótonas, em estilos de linhas direitas, é uma noção essencialmente victoriana e remonta ao início do século XIX. No século XVIII, pelo menos nas classes médias-altas, a complexidade e colorido das cores das indumentárias masculinas apresentava uma variedade e complexidade rivalizando as indumentárias femininas; recuando ainda mais no tempo, vemos que a noção de cor e complexidade de vestuário é mais associada ao homem do que à mulher.

Mas adiante. Transsexual é o indivíduo que assume a noção de ter nascido com o sexo (físico) errado e que deseja, eventualmente, a correcção física necessária para a mudança do mesmo. Transgénero é um indivíduo que assume o comportamento (género) do sexo oposto. Ou seja, embora muitos indivíduos transgénero muitas vezes sejam igualmente transsexuais, o contrário não é — de todo — verdade.

Mais ainda, sexo físico e comportamento não determinam sequer o comportamento sexual!... Assim sendo, a preferência por um parceiro pode ser do mesmo sexo (homossexual), do sexo oposto (heterossexual), de ambos os sexos (bissexual), ou mesmo de nenhum (assexual). A atracção física que leva à escolha do parceiro não depende, pois, do comportamento (género), embora existam, evidentemente, todas as combinações possíveis.

Não há obviamente uma forma de classificação "precisa" (tal como um indivíduo nunca é "branco" ou "preto" mas sempre uma gradação entre ambos os extremos). No entanto, é lícito afirmar que a maioria das sociedades tende a fomentar as relações em que os indivíduos são de sexos opostos, de géneros opostos, e procuram companheiros de sexo oposto (nem que seja porque, historicamente, são estas as combinações que perpetuam a espécie e, como tal, por questões tradicionais, são os casos "esperados" ou mesmo "desejados" e certamente os casos "encorajados").

Há logo aí no artigo uma enorme confusão da origem das categorias de certos machos homossexuais, como na frase em que descreve "começam por ser travestis e [...] resolvem mudar de sexo", acrescentando-se que este processo normalmente passa por uma fase de prostituição: "Para os machos homossexuais, o travestismo e o transexualismo estão intimamente ligados à prostituição como estilo de vida."

Lamento que a sua discriminação pejorativa nasça de uma série de lugares-comuns e clichés completamente errados, mas é assim que, infelizmente, é passada e transmitida a mensagem.

Em primeiro lugar, é importante referir que o indivíduo de sexo masculino que se considere homossexual tem normalmente uma preferência por parceiros, também eles de sexo masculino, mas quase exclusivamente com comportamento (género) masculino. Para estes indvíduos, tanto o sexo como o género feminino não apresenta qualquer interesse ou estímulo sexual. Logo, não existe de forma alguma uma noção de que "um homem gay gosta de se vestir de mulher" (com a intenção, presumível, de atrair outros parceiros do mesmo sexo). Pelo contrário: um "homem gay" (assumindo-se um indivíduo de sexo masculino com preferência de parceiros homossexuais, ou seja, do mesmo sexo masculino) tem uma forte tendência para exibir um comportamento do género masculino (com que se identifica) e desejar essencialmente parceiros com o mesmo comportamento. Na maioria das relações homossexuais, portanto, sexo e género coincidem, e é esse o estímulo que leva ambos a juntarem-se numa preferência de escolha de parceiro.

Mas vamos ver os casos que tentou abordar de forma infelizmente errada. "Travesti" é uma designação politicamente incorrecta que deriva de espectáculos populares nos anos 20 e 30 onde actores e cantores de sexo masculino se apresentavam no palco com um comportamento e vestuário de género feminino, geralmente com o propósito de entreter (ou chocar...) a audiência. O indivíduo em questão podia, no entanto, seguir todo o espectro possível de comportamentos, desejos, e escolha de parceiros. Na maior parte das vezes eram heterossexuais (ou seja, escolhiam parceiros do sexo feminino) e assumiam o género masculino em todas as situações fora do palco. Alguns, certamente, seriam homossexuais. Alguns, muito provavelmente, gostariam de ser transsexuais para identificarem o seu próprio sexo com o comportamento (género) que assumiam. E alguns ainda poderiam, mesmo após uma operação de mudança de sexo, sentir atracção física por qualquer um dos sexos. É igualmente verdade que muitos estavam associados à prostituição, mas não se pode julgar colectivamente a classe dos travestis a partir apenas de alguns casos — há, sem sombra de dúvida, uma muito maior predominância de prostituição heterossexual e de indivíduos cujo comportamento é determinado pelo seu sexo físico, do que fora dele. Pura e simplesmente pela razão de que a esmagadora maioria (90%) dos indivíduos se comportam de acordo com o seu sexo físico e sentem atracção física pelo sexo oposto. Logo, há muito mais prostituição (pelo menos dez vezes mais...) fora do mundo do travestismo do que dentro dele.

O termo travesti, no entanto, ficou demasiado associado a um certo tipo de espectáculo. Mesmo quase 80 anos depois (três gerações!) da altura em que o travestismo era uma forma corrente de entreternimento, o termo perdurou, e continua bem presente, como se pode ver no parágrafo "Um número significativo destes indivíduos faz regularmente sessões de «transformismo» em determinados bares-discotecas".

Obviamente que a realidade nada tem a ver com isto.

O termo transformista que usou mais à frente é um pouco mais preciso e ligeiramente menos pejorativo, embora continue normalmente associado à noção de espectáculo. No entanto, todos esses termos — travesti, transformista, drag queen, etc. — estão geralmente associados ao mundo do especáculo e nada têm a ver com o fenómeno propriamente dito, ou seja, a exibição de traços do género oposto ao do sexo físico com que se nasceu. Seria igualmente pejorativo dizer que todas as mulheres (indivíduos de sexo e género femininos) são strippers ou dançarinas eróticas. A esmagadora maioria não o são, evidentemente, e são mesmo muito poucas que sequer têm essa fantasia ou fetiche, mesmo na intimidade.

O mesmo se passa com indivíduos de género oposto ao sexo físico, e evidentemente que foi preciso introduzir uma designação mais "neutra" que não estivesse associada meramente ao espectáculo.

Optou-se, desde o final dos anos 1970, pela designação crossdresser para designar um indivíduo de qualquer sexo que opta por vestuário do género oposto. Desde essa altura, o termo normalmente designa um indivíduo de sexo masculino que usa roupas do género feminino, dado que desde os anos 1970 é popular a utilização de roupas do género masculino por indivíduos do sexo feminino, pelo que já não é legítima a expressão de crossdresser feminino nos dias de hoje (o termo, no entanto, ainda existe, dado que pelo menos até ao período da 2ª guerra mundial, existiam efectivamente crossdressers femininos).

O termo designa ainda normalmente um fetiche, e como foi referido num comentário, é uma manifestação física da autoginofilia. Mais uma vez: um indíviduo de sexo masculino pode imaginar-se como sendo do género feminino para se auto-estimular sexualmente e tirar prazer dessa fantasia; só se torna crossdresser quando (ocasionalmente) veste roupas do género feminino; mas em nada isto determina o seu comportamento ou preferência sexual. Na sua esmagadora maioria, com muito poucas excepções, os crossdressers masculinos são todos heterossexuais (desejam apenas ter parceiros do sexo feminino).

Um pequeno grupo de crossdressers, no entanto, pode ser transgénero: sem desejar a mudança física dos seus genitais, adopta, no entanto, durante a sua vida o comportamento do sexo oposto, assumindo portanto o género oposto ao com que fisicamente nasceu, no seu dia-a-dia. Estes são os indivíduos transgénero. A sua preferência sexual pode, no entanto, ser homossexual (o comportamento do género feminino condicona, nesse indivíduo, a atracção por parceiros do sexo masculino) ou continuar a ser heterossexual.

O seu texto dá um excesso de predominância a este caso sem o referir explicitamente: ou seja, traduz a noção de que todos os travestis, pelo facto de assumirem, nem que ocasionalmente, um papel normalmente associado ao género feminino, adoptam um comportamento homossexual. Na realidade, este caso é relativamente pouco frequente: conforme explicado anteriormente, um homossexual masculino raramente sente atracção por um parceiro que se assuma do género feminino, mas quase sempre por um parceiro que apresente o mesmo género que o sexo masculino.

Há, obviamente, excepções. Tal como o acto de crossdressing pode ser visto com uma forma de fetichismo (auto-erotismo através de uma fantasia sexual), há, de facto, indivíduos que, sem serem autoginéfilos, são no entanto atraídos por indivíduos que apresentam um género feminino, embora se assumam quase sempre como heterossexuais. Este caso não é frequente, mas é na realidade bastante fácil de explicar. Como disse, a noção de género é realmente condicionada pela educação, pelo ambiente, pelas regras de comportamento social. Logo, um indivíduo do sexo masculino é ensinado a comportar-se de acordo com o género masculino, e a apreciar (de início visualmente) indivíduos do género feminino como potenciais parceiros sexuais.

De notar que esta aprendizagem condiciona, de facto, a "apreciação do género" e não necessariamente a "apreciação do sexo". Porquê? Porque os contactos entre indivíduos numa sociedade moderna precedem a actividade sexual, e, logo, a escolha de parceiro requer normalmente um contacto. Dado que na maioria dos indivíduos o género e o sexo coincidem, esta abordagem é obviamente eficaz em mais de 90% dos casos: basta apreciarmos o género que, em 90% dos casos, estamos a apreciar o sexo também.

Para alguns indivíduos, no entanto, a apreciação do género é mais importante do que o sexo desse indivíduo. Assim, um indivíduo pode auto-classificar-se como sendo do sexo e género masculinos, e heterossexual quanto às suas preferências de parceiro, mas no entanto sentir-se essencialmente atraído por indivíduos do género feminino, 90% dos quais serão efectivamente também do sexo feminino, embora alguns não o sejam. Curiosamente este é, de facto, o comportamento esperado, visto que as sociedades modernas contemporâneas advogam o uso de comportamento para invocar o sexo, e a educação vai no sentido de identificar comportamentos de um determinado género. O sexo, esse, é só visível durante o acto sexual propriamente dito. Contraste-se com a vivência em sociedades histórica ou fisicamente remotas, onde a ausência quase completa de vestuário proporciona um tipo diferente de educação: o sexo encontra-se sempre visível, pelo que os comportamentos associados ao género são menos importantes nessas sociedades.

É nestas subtilezas que infelizmente se vêm as falhas do seu artigo, que até refere uma série de estudos interessantes e alguns termos técnicos correctos. Fala-se de disforia do género quando um indivíduo se identifica com um género oposto ao do seu sexo. Esta disforia não pode ser "curada" via psicoterapia, mas o indivíduo pode de facto aliviar a tensão e depressão associada à disforia de duas formas: pode mudar o seu comportamento de acordo com o género com que se identifica (transgénero; no qual se engloba, por exemplo, a actividade de vestir roupas do género oposto, ou seja, crossdressing) ou fisicamente mudar o sexo para o mesmo do género com que se identifica (transsexual; ou seja, a substituição dos genitais e órgãos sexuais secundários para os normalmente exibidos pelos indivíduos do género com que se identifica). Normalmente, claro, a alteração física do sexo tende a implicar a mudança de comportamento (género) associada ao novo sexo. O contrário, no entanto, não é necessário. E finalmente, a adopção de um novo sexo (ou apenas de um novo género, sem alteração de sexo) não tem nada a ver com o novo comportamento sexual assumido daí em diante. Tecnicamente, um indivíduo transsexual passa a ser designado por homossexual se continuar a sentir-se atraído por indivíduos do sexo que agora tem e escolhê-los como parceiros (por outras palavras, um indivíduo do sexo masculino que se sente atraído por indivíduos do sexo feminino — comportamento heterossexual — mas que muda o seu sexo, mantendo a preferência sexual, deixa de ser heterossexual para ser homossexual). Estes são casos pouco frequentes, mas não são, de todo, inexistentes. A frase coloquial "sou uma lésbica em corpo de homem" tem como origem este tipo de indivíduos, que efectivamente ambiciona ter um comportamento homossexual com parceiras do sexo feminino, mudando assim o seu próprio sexo a fim de poder ter este tipo de relação. Os casos são mais frequentes do que se possa julgar.

A existência de machos homossexuais "abonecados" e "hermafroditas" é sem dúvidas uma invenção colorida (passe a expressão...) mas claramente muito pouco correcta. A maioria dos machos homossexuais não tem intenção alguma de mudar de género, nem que superficialmente ("abonecar-se"); o comportamento "abonecado" ou "hiperefeminado" é apenas mais um fetiche que existe, de facto, em alguns indivíduos com desejos homossexuais, mas não é de todo uma "condição" nem sequer é tão "frequente" como os media tendem a fazer-nos crer. Trata-se efectivamente muito mais de "modas" do que propriamente de preferências sexuais. Por contraste, a criação da designação "metrossexual" para os machos heterossexuais que gostam de se "abonecar" (no sentido em que sentem especial prazer por artigos de vestuário de luxo e um cuidado extremo com o seu corpo físico, comportamentos esses associados tradicionalmente ao género feminino) é apenas uma designação de "moda". No século XVIII, por exemplo, a esmagadora maioria dos machos heterossexuais seria efectivamente designada por metrossexual, por esse ser o comportamento esperado do género masculino (era o comportamento predominante). Nos séculos XIX e XX, esse tipo de preocupações estéticas por parte dos indivíduos de sexo e género masculinos passou a ser suprimida. Actualmente está de novo a ganhar "moda" e pode, de facto, passar a ser um comportamento dominante: mesmo em países conservadores como Portugal, os indivíduos de sexo e género masculinos já frequentam habitualmente manicures, pedicures, centros de estética para tratamento de pele, ou efectuam a depilação integral, e sempre exercitaram o seu corpo de forma a exibir um físico saudável. A noção de que um indivíduo do género masculino deva ter preocupações estéticas no seu dia-a-dia é actualmente de novo "moda" (tal como o foi em muitos períodos no passado) e é um comportamento socialmente aceitável pelos indivíduos de género feminino; não indica, pois, qualquer "efeminização" mas apenas uma moda, em que o realçar do físico masculino começa a ser socialmente mais aceitável. No entanto, esse comportamento — o de realçamento dos atributos do físico masculino — começou por ser mais praticado por indivíduos homossexuais do sexo masculino (pois, como disse, a maior parte dos indivíduos homossexuais de sexo masculino sentem especial prazer por um corpo masculino que esteja bem cuidado), pelo que ganhou um certo estatuto de "tabu" nas últimas décadas. Tabu esse que tem-se vindo a perder.

"Hermafrodita" também me parece ser desenquadrado do contexto. Tecnicamente, um indivíduo hermafrodita é aquele que apresenta órgãos sexuais intactos de ambos os sexos. Na prática, estes casos são incrivelmente raros, e mesmo os casos em que um dos tipos de órgãos sexuais está atrofiado, são excepções raríssimas. Penso que se está a referir aos vulgarmente conhecidos she-males, que designam pejorativamente indivíduos que apresentam órgãos sexuais secundários femininos (através de cirurgia plástica), mas genitais masculinos. É efectivamente um tipo extremo de fetichismo sexual e (infelizmente) realmente muito associado à prostituição.

É por isso que, com algum espanto (e repugnância!) vejo essas citações todas fora de contexto onde é associado ao "travesti" (uma palavra que originalmente designou uma profissão ma área do espectáculo de palco) tantas e tão estranhas caracterizações — a associação à prostituição sendo talvez a mais repugnante — quando a realidade é que se está, efectivamente, a projectar uma série de preconceitos associados a uma pequena parte da população transgénero (alguns travestis, efectivamente, recorrem à prostituição; da mesma forma como algumas dançarinas eróticas também o fazem; são realmente profissões "borderline") para a totalidade dessa população. Há também referências a explicações pseudo-científicas que procuram explicar as causas do comportamento transgénero em crises psicológicas passadas na juventude, ou inadequação de formas de educação erradas, ou aquisição de comportamentos inadequados por falta de orientação ou baixa auto-estima. Se fosse assim, a psicoterapia moderna poderia efectivamente reverter esse tipo de comportamentos — a disforia de género poderia ser, efectivamente, "curada" como qualquer outra doença do foro psiquiátrico.

A realidade, no entanto, não é essa; e tal como a preferência de parceiro sexual não é uma disforia passível de ser tratada psiquiatricamente, a identificação de género também não é. O trabalho dos psicoterapeutas nesta área deve ser, e efectivamente até o é frequentemente, meramente a diminuição da angústia e depressão causada por uma condição (não tratável) socialmente não aceitável mas com a qual os indivíduos transgénero podem efectivamente aprender a lidar melhor sem conduzi-los ao desespero. Um bom psicoterapeuta clínico saberá aliviar estes indivíduos do seu desespero e ensiná-los-á a aceitarem-se enquanto elementos desenquadrados de uma sociedade que não os aceita.

Talvez só assim consiga explicar que a sua conclusão, efectivamente, é a correcta: há uma rejeição, tanto pelas comunidades heterossexuais, como pelas homossexuais, dos comportamentos transgénero e transsexual, desde as suas formas mais simples (autoginefilia, crossdressing) à mudança física dos órgãos genitais. O caso português é particularmente triste, pelo facto das organizações LGBT tenderem a esquecer-se que o elemento "T" também está na sigla; ironicamente, os movimentos LGBT tendem a conseguir uma série de direitos e liberdades (especialmente quanto à sua não-discriminação) para os elementos L, G e B, mas delegam os casos "T" para o foro psiquiátrico para que sejam "tratados", aprendendo a suprimir os seus desejos e vontades. Não há um movimento transgénero em Portugal — quanto muito, se há "movimento", é para empurrar transsexuais para dentro de poços e apedrejá-los até à morte. É certo que não tenho sequer a pretensão de algum dia vir a ver nas cidades portuguesas os indivíduos transgénero a serem contratados por bancos conservadores, tal como se vê em cidades como S. Francisco, mas pelo menos que se reconheça a necessidade destes indivíduos a existirem na sociedade e a terem o direito a um devido aconselhamento sem preconceitos que conduza a uma maior aceitação da sua própria condição, em vez de os relegar para o campo da discriminação e da "cura psiquiátrica".

Concordo, pois, com a sua conclusão: a pequena população transgénero em Portugal (a autoginefilia, a forma mais "fraca", não deverá ultrapassar 5% dos indíviduos de sexo masculino; poucos de entre estes passarão sequer à fase seguinte, o crossdressing) é efectivamente marginalizada pelos grupos L, G, e B, assim como pelo mainstream heterossexual, mas especialmente por uma razão: a divisão entre sexo físico, comportamento de género, e preferência de parceiro sexual não está clara (nem esclarecida), e faz ainda muita confusão a muita gente... mesmo entre a comunidade LGB (onde apenas a preferência sexual é determinante).

Ironicamente há uma classe de transsexuais que não é de todo discriminada... os que consigam obter uma operação executada na perfeição, como a Filipa Gonçalves, um dos (vários) casos em que tanto o sexo final, o género, e a preferência sexual estão perfeitamente integrados de forma que a esmagadora maioria dos portugueses nem sequer se apercebe de que a pessoa em questão passou por uma fase transsexual. Infelizmente isto não se passa com a esmagadora maioria das pessoas.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sandra Lopes

Obrigado pelo seu comentário. Ainda não o li inteiramente, mas devo dizer que o análise que faço deriva de um estudo estatístico do vocabulário erótico gay. A minha perspectiva foi apresentada noutros posts. Contudo, a distinção que faz entre sexo e género é muito rigída, até porque parece ser uma distinção entre biologia e comportamento como se fossem duas províncias diferentes. Por isso, pode adornar livremente o género, embora este seja determinado biologicamente. Um aspecto fundamental é não ficar preso na terminologia dos próprios indivíduos que exibem esses comportamentos: o politicamento correcto não significa cientificamente verdadeiro.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, quanto aos homens homossexuais apresentei uma tipologia: o elemento efeminado ou abonecado prevalece e a sua identidade de género é desconfortável, condenando-os ao ostracismo por parte dos homossexuais mais masculinos. E repare que os efeminados preferem o papel receptivo, um traço sexualmente atípico: admiram a masculinidade nos outros mas não em si próprios.

Sim, os transexuais precisam de tratamento, incluindo tratamento psicológico. Afirmar isto não significa nenhum preconceito negativo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, os "travestis" (em sentido genérico) portugueses e brasileitos prostituem-se frequentemente: é uma matéria factual. E mesmo os que fazem espectáculos também se prostituem e andam ligados a determinados tipos de figuras masculinas pouco credíveis, sendo frequentemente espancados por tais figuras. Eles preferem idealmente "homens (supostamente) heterossexuais". A figura feminina que encarnam é geralmente a da prostituta mais vulgar. É assim a realidade sem véus ideológicos!

Sandra M. Lopes disse...

Caro J Francisco,

Não se trata da "minha" distinção entre sexo e género (não pretendo tal arrogância!...) mas a definição oficial: sexo é o aspecto biológico, género é o comportamental/social.

Há felizmente imensa literatura sobre o assunto e recomendo o curto workshop online da Monash University, incluído no curriculum da licenciatura em medicina.

Explica muito bem, de forma simples e acessível, a diferença entre os dois conceitos. E não é de longe a única referência, poderá encontrar imensa literatura sobre o assunto online, sempre de autores ligados à investigação científica nas áreas da medicina, psicologia, e sociologia.

Saliento a importância de eliminar a confusão referida no seu comentário: "[...] até porque parece ser uma distinção entre biologia e comportamento como se fossem duas províncias diferentes. Por isso, pode adornar livremente o género, embora este seja determinado biologicamente."

É precisamente este ponto que convêm não confundir. O que é determinado biologicamente é efectivamente o sexo, não o género. A distinção das duas palavras existe justamente para diferenciar o que é determinado biologicamente (mais uma vez: o sexo) daquilo que não é (o género), embora evidentemente que o género é influenciado biologicamente (ou seja, a esmagadora maioria dos indivíduos do sexo masculino apresentam comportamentos do género masculino também).

Pode evidentemente discordar desta classificação, mas não está a discordar de mim, ou do que considera politicamente correcto, mas sim de definições científicas. E como tudo na ciência, nada está "escrito na pedra", mas terá de demonstrar cientificamente que toda a literatura produzida pela investigação científica sobre o assunto até hoje está, efectivamente, errada. Como diz o velho ditado, "afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias".

Na ausência dessas provas, no entanto, eu pelo menos assumo que a ciência está correcta ao afirmar que os aspectos biológicos determinam o sexo, e que o género é uma aquisição comportamental e social. No entanto, esta afirmação deve ser entendida que o género pode ser (e normalmente é) influenciado pelo sexo do indivíduo; o que não é é determinado por este. Há um oceano de diferença!...

Não posso evidentemente comentar sobre a questão do ostracismo enfrentado pelos homossexuais "efeminados" ou "abonecados" pois não tenho dados sobre o assunto; no entanto, a sua afirmação de que "os transsexuais precisam de tratamento, incluindo tratamento psicológico" não é, como afirma, isenta de preconceito negativo. Mas não irei insistir no assunto, pois trata-se de uma afirmação suficientemente neutra para me satisfazer. Afirmar que os transsexuais são doentes mentais que têm de ser curados para abandonarem da sua disforia através de terapia que conduza a uma re-identificação do seu género com o sexo biológico é uma coisa; afirmar que devem ser encorajados a procurarem a terapia como uma forma de lidarem com a ansiedade, angústia, depressão e stress enquanto não conseguem orientar fisicamente o seu sexo de forma a se identificar com o género que pretendem é uma coisa completamente diferente. A primeira afirmação é, obviamente, preconceito negativo; a segunda é apenas uma expressão do procedimento adequado para lidar com estes casos. O J Francisco não usou nenhuma destas expressões, pelo que posso ficar tranquila :)

Quanto ao seu último comentário, trata-se efectivamente de uma questão quantitativa: "Sim, os "travestis" (em sentido genérico) portugueses e brasileitos prostituem-se frequentemente: é uma matéria factual." Sem dúvidas. A questão social é saber quantos é que efectivamente o fazem, e porquê. O comentário é semelhante a dizer que "a maioria das mulheres nas cidades tailandesas prostitui-se", o que é um pequeno exagero, mas não deixa de ser matéria factual. Porquê? Não por uma obcessão qualquer não explicada, mas pura e simplesmente de não existir realmente uma alternativa de emprego legítima. Este é pelo menos o caso da prostituição tailandesa.

E no caso dos transsexuais e travestis que enveredam pela prostituição? Não tenho dados que me permitam afirmar que para estes raramente existe uma alternativa para a sobrevivência. Nem todos os transsexuais têm a sorte de serem filhas do Nené e conseguirem emprego como actrizes e modelos. Assim, se me apresentar uma estatística mostrando que a esmagadora maioria dos indivíduos transsexuais não têm outro remédio senão prostituir-se porque não existem outras oportunidades de emprego para eles, não ficaria muito surpreendida. Aliás, acredito mesmo que o baixo número de casos de transsexuais que recorrem à operação de reassignamento de sexo em Portugal deve-se principalmente ao facto da maior parte dos indivíduos transsexuais não quererem ter uma vida condenada à prostituição. Em alguns casos, obviamente, é o "mal menor" — mais vale isso a sofrer angústia e depressão. E uma limitadíssima fatia fá-lo de certeza pelas razões que descreve: um desejo de se prostituir (há sempre alguns casos desses, independentemente do sexo ou género ou preferência sexual).

A propósito, está a ser desenvolvido um estudo pelo ISCTE neste sentido.

Reparei a sua preocupação em tentar evitar a discussão "ideológica". Pois a verdade é que essa é a questão fulcral, como impedir que uma sociedade relegue estes indivíduos para a prostituição como única (?) forma de sobrevivência financeira? Mas como não tratou deste assunto no seu artigo, não sou eu que o vou levantar...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Sandra Lopes

A diferença entre o tamanho do núcleo do leito da estria terminal dos transexuais e o do homens hetero e homossexuais é uma diferença biológica: o padrão transexual é atípico e ligeiramente menor do que nas mulheres heterossexuais. Ora, este núcleo pode ser responsável pela identidade de género, a qual pode ser moldada pela cultura. Os homens hetero e homo têm núcleos com tamanho típico: eles não se sentem desconfortáveis com a sua identidade, enquanto os transexuais sim... Este é um dado científico, entre tantos outros, que desmente a sua teoria do cabide! O género não é só uma questão social! :)

Pangéia disse...

Bom dia, mancebo (ao menos aqui no Brasil ainda é o período matutino, faltam algumas horas para entrarmos no vespertino).

Andei lendo por algum tempo sua postagem e alguns comentários antes de decidir-me a também comentar; no entanto confesso: não li todos os comentários - não sei dizer quantos pulei, sinto muito!
Para começo de conversa, não sei qual dicionário você costuma usar mas eu particularmente uso o Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, Dicionário da Língua Portuguesa - um dicionário muito popular aqui no Brasil - e, de acordo com o que já li no mesmo, travesti é apenas sinônimo de um indivíduo, independente do sexo, gênero ou comportamento sexual que assuma ter, fantasiado do que quer que seja! Isso me levou a concluir que até mesmo aquele garotinho de três anos que vai com os pais a uma matinê de carnaval fantasiado de algum de seus super-heróis favoritos (exemplo: Homem-Aranha, Tarzan, Jim das Selvas, ...) já está sendo um travesti, pois está fantasiado. Outra conclusão: um ator - que trabalha como ator, é héterossexual, casado e pai de família (é apenas uma suposição para exemplificar, ok?) - que vai representar um papel também de um homem héterossexual do sexo masculino, casado e pai de família, mas que tem um prenome diferente do seu, tal ator é também um travesti, pois encarna uma outra pessoa, ou seja, se fantasia dessa outra pessoa para representar. Tendo em vista tais conclusões a que cheguei, lhe pergunto de onde tirou que os travestis, independente se brasileiros ou portugueses, se prostituem. Acaso aí em Portugal não há atores a atrizes que no Teatro, no Cinema e na Televisão vivem outra identidade de sexo e sexualidade idênticas à sua? Oras, tais atores, por estarem fantasiados, também são travestis, mancebo. Eu mesmo sou um travesti, embora não use roupas femininas, não adote adereço feminino algum atualmente, mas sou músico e adotei um nome artístico diferente de meu nome de registro civil e batismo apenas para diferenciar o artista do ser humano, ou seja, minha personalidade também veste uma fantasia - embora pertencente ao sexo masculino, o mesmo que o meu sexo real - e, no entanto, sou casado e jamais me prostituí! Creio que você deveria se informar melhor sobre as várias definições e conotações que o vocábulo travesti tem antes de fazer tal afirmação - desculpe a ofensa, apenas quero ser franco em minha opinião - mui tola, infantil e barata que em nada condiz com a realidade, apenas generaliza, como se só existisse um único aspecto do travestismo; a linha que o define porém é muito tênue.
Em contrapartida, afirmo que, apesar de casado, sou um indivíduo que já se assume - e faz tempo - publicamente com andrógino, pansexual e pangênero - e nem mesmo isso me faz buscar a prostituição, jamais precisei dela!
Então gostaria de lhe aconselhar a estudar, pesquisar mais sobre as fronteiras existentes entre sexo, sexualidade, gênero e travestismo. É como redigi: a linha delimitória é muito tênue, não totalmente clara portanto!
Eu sou o músico Hamelin (nome civil: Jonathan Malavolta), flautista, regente, e também trabalho com outras formas de manifestação artística, como a literatura, por exemplo!

Amplexos sinfônicos!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Caro Hamelin

Obrigado pelo seu comentário. Usei o termo travesti para designar os indivíduos homossexuais que se vestem de mulheres. A perspectiva que apresento é a perspectiva dos próprios homens gay: a associação com a prostituição é factual. Em Portugal, os travestis prostituem-se, isto é, fazem sexo a troco de dinheiro. Indivíduos homo vestem-se de mulher e, à noite, em determinados locais, prostituem-se, juntamente com indivíduos transexuais. Desenvolvi estes conceitos noutros posts, onde uso o travestismo em sentido clínico, porque neste post apreendo este fenómeno a partir do léxico erótico gay português. Os resultados são similares aos de estudos brasileiros e italianos, mas divergem de estudos holandeses.

A extensão que faz do travestismo é interessante, mas coloca outros problemas - apenas insinuados neste post. Há indivíduos heterossexuais que se excitam usando roupa feminina, mas isso é fetichismo travestido. :)

Sandra M. Lopes disse...

Ui, nunca mais tinha voltado a este blogue, e vejo que continuam a aparecer algumas pequenas incorrecções, o que é pena, porque o resto do artigo, e o seu tema, são interessantes e merecem ser lidos e relidos!

Continuo a ver a insistência em não diferenciar entre sexo (biologicamente determinado) e género (socialmente determinado). Continua-se a misturar (deliberadamente?) travestismo e transsexualidade, e a afirmar que travestis/transsexuais são (sempre) homossexuais.

Seria bom explicar correctamente esta diferenciação. Relembro que o propósito do artigo é muito louvável: pretende fazer uma sensibilização para uma realidade onde, de entre a comunidade LGBT em Portugal, o "T" da sigla é sempre esquecido. Hoje em dia, até já temos casamento entre pessoas do mesmo sexo (e provavelmente a adopção de crianças por casais do mesmo sexo virá em breve), mas, no entanto, travestis e transsexuais continuam a ser espancados até à morte e os autores destes crimes hediondos recebem sentenças muito ligeiras — já nem falando, claro, na total impossibilidade de uma crossdresser obter, em Portugal, um emprego em que se possa vestir como quer, por exemplo num escritório ou mesmo a servir à mesa... em Portugal, crossdressers ou se tornam artistas de espectáculos de travestis, ou simplesmente recorrem à prostituição.

Logo, mais uma vez, e como já disse ano passado, regozijo-me com a motivação por trás deste artigo, que me parece muito positiva. Lamento apenas as incorrecções técnicas, muitas delas, infelizmente, motivadas pelo que me parece mais ser um preconceito do que ignorância.

Vamos voltar aos pontos mais graves. Uma coisa é a recusa em distinguir entre sexo e género. Não encontrei o artigo de Zhou (1995), mas encontrei outro, também de Zhou e da sua equipa, de 2000 (http://jcem.endojournals.org/cgi/content/full/85/5/2034). Explica, de forma notável, de como transsexuais têm efectivamente uma predisposição genética para se identificarem com o sexo oposto. É reconfortante saber isto — a psiquiatria já há algumas décadas que sabe que a transsexualidade não é "curável", mas é bom saber que existe uma base neurológica. O estudo que cito até indica que mesmo tratamentos hormonais não têm efeitos sobre essa predisposição. Assim, como o estudo diz, uma mulher em menopausa, mesmo sem estar sujeita às doses hormonais durante o período fértil, não perde o número de neurónios identificados no núcleo do leito da estria terminal dentro dos limites médios para um indivíduo do sexo feminino; similarlmente, um indivíduo geneticamente do sexo masculino, que tenha uma predisposição para se identificar com o sexo oposto, quer assuma o género feminino publicamente ou em privado, quer se sujeite a tratamentos hormonais, quer efectue uma operação, quer não faça nada disso... terá igualmente um número de neorónios no dito núcleo do leito da estria terminal que é muito mais próximo da média dos indivíduos do sexo feminino que do masculino.

Importante é de referir que os indivíduos homossexuais, seja de que sexo forem, têm este número de neurónios dentro da média para o seu sexo biológico. Este resultado é fundamental, e se leu bem o artigo e o compreendeu, é um forte indicativo de que é cientificamente incorrecto afirmar que a homossexualidade (uma preferência sexual) tem alguma relação biológica com a transsexualidade (aparentemente uma condição neurológica estabelecida durante o desenvolvimento do feto). Se continuar a insistir nisto, agradeço que leia o estudo que citou com bastante mais atenção. O estudo prova precisamente o contrário!

Sandra M. Lopes disse...

É importante, pois, e lamento insistir nisto — mas é o ponto fundamental — não misturar as questões de sexo biológico (fisicamente estabelecido através da genitália), identificação de género (aparentemente ligado a uma condição neurológica, segundo o estudo que citou, e independente da genitália), e preferência sexual (independente tanto da genitália como da estrutura do cérebro). São coisas distintas. É certo que estão relacionadas: a esmagadora maioria dos indivíduos (mas é importante referir que não são todos!) tem as três facetas relacionadas entre si: o seu sexo biológico está alinhado com o seu comportamento de género e tem uma preferência sexual por indivíduos do sexo biológico oposto. Mas esta é apenas uma das múltiplas permutações possíveis (que classificamos como heterossexual...) e nem sequer entra em linha de conta com fetichismo ou estilo de vida...

Assim deixo algumas dicas onde se podem encontrar online taxonomias e classificações, que dependem muito da abordagem e metodologia usada pelos investigadores. Mais uma vez, "não sou eu que digo". O facto de estar na posição privilegiada de fazer parte do grupo em questão não me dá qualquer autoridade para "dar opiniões". No entanto, não me custa absolutamente nada ler estudos científicos validados e usá-los como referência, em vez de inventar classificações de acordo com as minhas percepções ou preconceitos. Basta para isso ir a http://scholar.google.com/ e pesquisar por "crossdressing taxonomy" (ou algo do género) e ler os artigos mais recentes, especialmente os escritos já neste século XXI.

Um artigo ligeiro e pouco técnico, a título de exemplo, é: http://balkwell.myweb.uga.edu/kimberj.html

Mas sugiro também os relatórios da Associação Americana de Psicologia em http://www.apa.org/topics/sexuality/transgender.aspx que explicam muito bem, sem preconceitos, estas diferenças de taxonomia e classificação.

Posso depois não "gostar" do resto das suas misturadas de vocabulário, mas isso confesso que é já uma questão de gosto, seja seu, seja das fontes que cita. Em países onde o crossdressing é socialmente aceitável, é possível usar os termos "travesti" (originalmente surgido para designar artistas de uma forma de espectáculo) para designar "crossdresser", e depois, se se quiser, subdividir em transformismo, drag queen, etc. Aqui o problema está na identificação do tipo de taxonomia apropriada, que varia consoante o que está a ser estudado: a fisiologia, a psicologia, o desejo sexual, a auto-identificação, o comportamento e preferências sexuais, o estilo de vida, até mesmo o tipo de roupas que usa (e o que pretende afirmar com esse estilo!) e assim por diante — cada abordagem terá uma taxonomia diferente. Por exemplo, uma crossdresser que opte por um estilo de vida no palco enquanto artista transformista, cuja imagem seja indistinguível de uma mulher no palco, e que depois volte a casa para fazer amor com a mulher, provavelmente não se importará com a designação travesti mas ficará ofendida com drag queen (que normalmente aparentam um aspecto deliberadamente exagerado com o objectivo de chocar a audiência), e certamente que não será homossexual. Uma crossdresser que, por sua vez, enverede pela prostituição e que sinta desejo e atracção física por indivíduos do sexo masculino, será homossexual.

Sandra M. Lopes disse...

Uma crossdresser ocasional que, enquanto travestida, tenha desejos de estar com um homem (ou que tenha mesmo um amante do sexo masculino), mas que passe a maior parte da vida casada com uma mulher (possivelmente com filhos) e no papel principal do género masculino, provavelmene será uma crossdresser bi-sexual. Um indivíduo do sexo masculino que se submeta à cirurgia vulgarmente conhecida de mudança de sexo para obter órgãos sexuais secundários femininos (não é ainda possível obter um transplante de ovário...), mas que depois tenha uma vida sexual apenas com mulheres, é uma transsexual homossexual. No meio destas classificações todas existem toda a espécie de possibilidades e combinações possíveis...

No entanto, é importante compreender duas coisas. Uma delas é a distribuição estatística pelas classificações: há casos bem mais raros que outros, por várias ordens de grandeza. E depois existe a exposição dos media: certos subgrupos são muito mais falados e apontados pelos media pelo que tende a ser sobrevalorizada a sua importância. Penso que é neste erro que o amigo J Francisco está a incorrer: baseado numa análise do léxico português, obtida possivelmente a partir de estudo de informação propagada pelos media, tirou as suas conclusões relativamente à frequência dos termos utilizados.

Nos estudos relativos à frequência das populações dos diversos grupos o maior problema é obter uma amostra credível. Por exemplo, antes de 1974, seria impossível obter uma estatística realista de quantos indivíduos se auto-classificavam de homossexuais, dado que teriam medo de serem perseguidos pelo regime. Hoje em dia, com a possibilidade de casamento de indivíduos do mesmo sexo biológico, a população homossexual parece ter aumentado. Mas essa é uma realidade distorcida: o número de indivíduos é bem provavelmente o mesmo (em termos de percentagem), a única diferença é que têm muito menos "medo" de se revelarem publicamente — e de responder a inquéritos.

Sandra M. Lopes disse...

No entanto, pelo menos em Portugal, o crossdressing (já não falando na transsexualidade!) é activamente condenado. São muito raros os casos de crossdressers que se revelam publicamente — o crossdressing é essencialmente uma actividade reprimida e escondida, realizada em casa ou entre grupos muito restritos de amigos. Não há sequer locais públicos explicitamente para crossdressers em Portugal, embora existam alguns ambientes LGBT onde crossdressers sejam tolerados. Para crossdressers que tenham uma preferência sexual homossexual ou (mais frequentemente) bi-sexual, esta é uma alternativa viável — mas estes casos não são estudados estatisticamente. Os poucos que o são geralmente incidem nos grupos que recorrem ao espectáculo transformista (travestis, drag queens) que é tolerado em Portugal, e à prostituição, que, mesmo que não abertamente tolerada, é ao menos estudada. O resto dos crossdressers mantém-se longe das estatísticas e dos media.

Podemos assim apenas especular àcerca dos números reais em Portugal, assumindo que sejam, no fundo, semelhantes ao de sociedades mais tolerantes:

- A esmagadora maioria da população (±80%) terá alinhamento pleno entre sexo, género, e preferência sexual ("heterossexuais")
- ±10% terá alinhamento entre sexo e género, mas preferência sexual por parceiros do mesmo sexo ("homossexuais"). Entre estes, a maioria não reflectirá o seu comportamento e vestuário em público de acordo com a preferência sexual. Uma percentagem relativamente reduzida adoptará um vestuário e comportamento consoante o que é "comum" neste grupo (influenciado essencialmente pelos media) — roupas garridas nos homossexuais masculinos, o estilo "butch" nas homossexuais femininas. No entanto, os media tendem a exagerar a percentagem destes casos.
- ±10% terá uma diferença de alinhamento entre sexo e género ("transgénero"). Aqui as coisas começam a complicar-se, pois a preferência sexual divide-se. O maior grupo de entre estes são crossdressers masculinos, que vestem roupa feminina enquanto fetiche ou enquanto identificação de género (neste caso, autoginecofilia), e terão um comportamento fundamentalmente heterossexual (apenas desejam ter sexo com parceiros do sexo masculino). Este grupo é aquele que é mais "escondido" (60-80% das crossdressers encontram-se neste grupo) pois não têm qualquer intenção de se assumirem publicamente ou de avançarem para uma "transição". O segundo maior grupo (10-40% do total, e que. aparentemente, em Portugal é maior do que acontece noutros países, mas não existem estudos a comprová-lo) apresenta tendências bi-sexuais ou mesmo homossexuais, usando o "pretexto" da utilização de roupas femininas para obterem um parceiro (normalmente temporário e fora da relação habitual) do sexo masculino. Por vezes só são aceites parceiros do sexo masculino que sejam eles próprios crossdressers do mesmo grupo.

Sandra M. Lopes disse...

- Uma percentagem muito pequena (talvez menos de 1%) de indivíduos que rejeitam o seu sexo biológico ("transsexuais"). A esmagadora maioria destes casos adopta o mais cedo que pode um comportamento transgénero (e daí ser muito frequente, do ponto de vista externo, serem referidos também como crossdressers). A esmagadora maioria (de novo, 80%) sentirá forte atracção pelo sexo biológico com que nasceu, mas com o qual não se identifica. Isto significa que transsexualidade representa mais um processo do que uma classificação: um indivíduo, após completar a cirurgia de alteração de sexo biológico, passa a ser física e legalmente reconhecido como passando a pertencer ao novo sexo, e a sua atracção por elementos do sexo oposto ao que adquiriu durante a cirurgia. Mas existe obviamente uma percentagem não-negligível de indivíduos que rejeitam o seu sexo biológico, mas que têm preferências sexuais com parceiros do sexo biológico oposto ao com que nasceram (ou que são bi-sexuais)
- Verdadeiros hermafroditas são estisticamente mesmo muito, muito raros. Não são "indivíduos com forte propensão para a mudança de sexo". A maior parte dos casos apresenta órgãos sexuais de ambos os sexos, mas geralmente em circunstâncias vestigiais, rudimentares, ou não funcionais. Nos países ocidentais mais desenvolvidos, a partir de 1960 (e pelo menos até 1980), era frequente estes indivíduos, à nascença, terem os órgãos femininos removidos cirurgicamente e mantidos (e corrigidos, se for o caso) os masculinos; mais tarde, o indivíduo acaba por questionar a escolha feita pelos médicos e reverter a cirurgia. Estes casos não devem, de todo, ser confundidos com os transsexuais que não apresentam fisicamente qualquer sinal externo do sexo com que se identificam (embora o estudo de Zhou, pelo menos o de 2000 que encontrei, tenda a confirmar a propensão neurológica), e que, de longe, são mais frequentes. A totalidade de indivíduos transsexuais e hermafroditas não representa mais de 1% da população, estimando-se que apenas 1 a 3 entre 100.000 sejam realmente hermafroditas.

Notei também que o final do seu artigo está em muito maior conformidade com a literatura que cita (ao contrário do início!) e parece-me essencialmente correcto. Ressalvo apenas que o travestismo/crossdressing não é meramente uma fase pela qual todos os transsexuais passam (alguns dos quais nunca chegam a saír dela). Mais uma vez volto à questão de saber distinguir a disforia sexual da de género. Um indivíduo transgénero não tem interesse em mudar o seu sexo biológico, e não há nenhuma "fase" após o crossdressing. Um indivíduo transsexual, pelo contrário, almeja mudar fisicamente o seu sexo biológico, identifica-se com o género correspondente ao sexo biológico oposto ao com que nasceu, e normalmente tem também preferências sexuais de acordo com o sexo oposto. No entanto, tal como referiu no seu artigo, estes indivíduos, no seu progresso ao longo desta vida, podem nunca ter oportunidade — leia-se: dinheiro... — para obterem a tão desejada operação cirúrgica, que na realidade não é apenas uma, mas uma série delas, começando por terapia hormonal, remoção do pelo e implantes de cabelo, feminização do rosto e redução da traqueia, implantes mamários, alargamento das ancas, e, finalmente, alteração dos órgãos genitais masculinos e remodelação dos mesmos numa neovagina (não se pratica castração! Apenas os testículos são removidos). À excepção do último caso, e de alguns efeitos permanentes da terapia hormonal, a maioria das restantes intervenções pode ser revertida, daí ser frequente muitos transsexuais nunca darem o último passo. Uma variante nem sequer deseja essa última operação (conhecidas popularmente por she-males) por questões associadas a um comportamento sexual fetichista.

Sandra M. Lopes disse...

A sua interpretação de que esta transição passa invariavelmente pelos espectáculos de travestis e/ou prostituição é uma lamentável consequência da discriminação neste país, mas não é, de todo, uma razão fundamental. Embora acredite (mesmo que não conheça nenhum caso) que existam indivíduos que realmente querem seguir uma vida de espectáculo e/ou prostituição, a maioria não a quer — não tem é infelizmente outra hipótese.

Devo ainda notar que, também infelizmente, a carreira profissional de um transsexual depende imenso do resultado das cirurgias. Em muitos casos, certos indivíduos têm "sorte" por, do ponto de vista genético, começarem à partida com uma figura já andrógina, podendo assim transitar com facilidade para o sexo desejado. Quando um transsexual completa a última etapa da sua longa lista de intervenções cirúrgicas, o Estado português permite-lhe a mudança dos seus documentos de identificação para o seu novo sexo. Se fisicamente não for possível identificar neste indivíduo qualquer característica, mesmo que ligeira, do sexo com que nasceu fisicamente, existe a abertura para seguir qualquer carreira profissional. Ora infelizmente esta situação é muito rara (ou muito cara!), sendo talvez o caso mais conhecido em Portugal o da Filipa Gonçalves, filha do antigo jogador de futebol Nené. Mas claro está que a esmagadora maioria dos transsexuais (nacionais ou estrangeiros!) não têm nem o físico, nem a capacidade financeira, para poderem obter um resultado final semelhante.

O caso das crossdressers, dado ser apenas ligado ao vestuário e não a alterações físicas do corpo, é ainda mais difícil: em Portugal (e na maioria dos países), estes indivíduos não podem mudar a sua documentação para o género com que se identificam, pois a identificação é baseada no sexo e não no género. Mais uma vez, embora existam indivíduos andróginos que, com roupa adequada, possam passar "despercebidos" no local de trabalho, seja com que sexo se apresentem, a esmagadora maioria está muito, muito longe disso. Significa isto que existe efectivamente uma discriminação de género. Em Portugal levou-se muito tempo para chegar a um ponto em que, por exemplo, homens homossexuais pudessem ter um emprego e adoptarem um vestuário com que se identifiquem: desde professores universitários a cabeleireiros, todos os tipos de profissões são, actualmente, possíveis, embora alguns sejam mais frequentes que outros. No entanto, como foi dito, o vestuário com que alguns homens homossexuais se identificam não é verdadeiramente feminino — é apenas não-masculino, o que é bem diferente. É outro tipo de vestuário. As crossd ressers, pelo contrário (e exceptuando as drag queens) usam vestuário marcadamente feminino, independentemente da sua orientação sexual, e isso, na nossa sociedade, não estamos preparados para aceitar...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Sandra Lopes

Já escrevi outros posts sobre estes assuntos.

O que não compreendo é a razão de ser da sua negação da androfilia dos transexuais macho-para-femêa portugueses. As amostras holandesas e outras revelam essas variações de orientação sexual nesse grupo, mas nos países latinos não temos essa diversidade.

Eu não identifico sexo e género, embora os transexuais exibam esse desconforto com a sua identidade corporal, assumindo os papéis do género oposto. Um homem que deseja ser mulher comporta-se como mulher muito antes de se submeter à cirurgia.

Julgo ter sido mal compreendido, mas veja post sobre transexualidade e amputação.

Sandra M. Lopes disse...

Seria então interessante compreender o porquê dessa diferença entre latinos e não-latinos, pois concordo consigo, pelo menos o caso português é atípico.

Uma hipótese que foi formulada por uma conhecida minha, há uma década atrás, tinha a ver com o facto da homossexualidade, em Portugal, ter sido fortemente reprimida. Muitas das crossdressers portuguesas que conheço não se assumem de todo como homossexuais; e, inversamente, muitos homens (sem qualquer interesse em se transvestirem), sentem-se no entanto atraídos por crossdressers, sem, no entanto, se auto-classificarem como homossexuais ou sequer bi-sexuais...

Seria um estudo interessante!

日月神教-向左使 disse...

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banda-anjosdecristo disse...

Olá, preciso urgente ajuda para poder assumir minha identitade crossdresser, sou casado mas adoro me vestir de mulher. Já tive algumas vezes a oprtunidade de sair as ruas travestido, e em algumas delas chamei tanto a atenção que terminei por aceitar fazer programa remunerado cheguei a ganhar 300,00 em uma noite e gostei muito, preciso encontar parceira que tenha esse mesmo tesão preciso também de alguém que possa doar uma peruca preta de cabelos longos, pode ser sintética aceito propostas de homens que queiram curtir uma gostosa relação, sou completamente submissa, adoro lavar roupas, cuidar de casa, ser tratada como uma verdadeira putinha escrava, ser humilhada etc...

contato através do e-mail: brunhinhacrossdresser@yahoo.com.br

sou de joão pessoa-pb
não sei a quem pertence o e-mail através do qual deixo minha mensagem, estava aberto na lan house.