domingo, 2 de março de 2008

Homossexualidades Masculinas

Portugal é, pelo menos aparentemente, um país homofóbico. Inúmeros casos poderiam ser referidos para exemplificar esta luso-homofobia, a começar pela referência à obra de Egas Moniz ou pelo relato de casos de alunos gay passivos serem abusados sexualmente pelos colegas nas escolas com a «cumplicidade» dos professores(as) que os rotulam de «paneleiros», mas, apesar disso, a homossexualidade está muito bem representada nas mais diversas profissões, até mesmo ao nível das elites nacionais (políticas, económicas, empresariais, jurídicas, militares, policiais, culturais e educacionais).
Este dado pode parecer paradoxal, porque não se coaduna com alguns padrões: 1) o elevado número de homens casados heterossexualmente, os chamados bissexuais, que não abdicam de ter regularmente aventuras homossexuais; 2) o abuso de poder e o assédio sexual que dele resulta, visando forçar os homens homossexuais a fazerem sexo para garantir o seu posto de trabalho ou obter determinadas classificações; 3) o elevado número de homens homofóbicos que maltratam os homossexuais, devido ao facto da sua presença acordar a sua atracção erótica por indivíduos do mesmo sexo; e 4) a facilidade com que qualquer homem heterossexual português tem relações homossexuais. Para todos os efeitos, sabemos actualmente que muitos indivíduos homofóbicos são efectivamente homossexuais e, em Portugal, podemos vê-los em acção em determinados lugares públicos.
Este post pretende esclarecer cientificamente o fenómeno das homossexualidades masculinas, retomando alguns dados da nossa pesquisa, sem expor exaustivamente a nossa hipótese de trabalho e a tipologia das homossexualidades em que assenta, e contribuir para a desmisficação da hipocrisia nacional. Neste clima geral de corrupção, a homossexualidade não está a salvo! (Muitos dados foram omitidos.)
A sexualidade implica, por definição, dois sexos: o sexo macho e o sexo fêmea. Este é um constrangimento genético que não pode ser transcendido. Até mesmo os imaginários sexuais mais radicais não conseguem libertar-se desta diferença sexual. Quer se queira quer não, o macho é sempre o ser dotado de órgão de penetração e a fêmea, o ser receptivo. Apesar da homossexualidade ser uma manifestação sexual natural, ela move-se no âmbito deste constrangimento genético. Os homossexuais são homens funcionais, anatómica e fisiologicamente, e não mulheres, e as lésbicas são mulheres funcionais, anatómica e fisiologicamente, e não homens. Esta é a sua identidade sexual, com a qual a sua identidade de género deveria estar em conformidade, o que nem sempre acontece devido às pressões sociais e, consequentemente, à «ausência de padrões positivos homossexuais institucionalizados», susceptíveis de facilitar um desenvolvimento normal e sem problemas. Ao negar a homossexualidade, a sociedade heterosexista dominante condenou os homossexuais a interiorizarem os modelos atribuídos ao sexo feminino, deformando a sua expressão e condenando-os ao isolamento.
Numa sociedade homofóbica, ninguém escolhe de livre e espontânea vontade ser homossexual. O facto de se ser homossexual numa tal sociedade revela, só por si, que a homossexualidade ou mesmo a heterossexualidade não são uma questão de escolha ou de aprendizagem. Ninguém escolhe a sua orientação sexual e a prova disso reside, desde logo, na existência de indicadores relativos à infância que, num período situado entre dois picos da testosterona (Ward, 1992; Ward & Weisz, 1980), durante o qual o programa sexual parece estar silencioso, permitem diagnosticar a orientação sexual quando adultos. O substracto biológico da homossexualidade parece ser inquestionável e é provável que resida na diferenciação sexual do terceiro núcleo intersticial do hipotálamo anterior e/ou áreas adjacentes (LeVay, 1991).
INFÂNCIA. Embora nem todos os indivíduos se tornem conscientes da sua orientação sexual até à puberdade, ou até mais tarde, existem traços infantis que são, em certa medida, indicadores da sua orientação sexual quando adultos. De um modo geral, podemos afirmar que as crianças que se tornam mais tarde heterossexuais tendem a viver infâncias sexualmente típicas, enquanto as crianças que se tornam mais tarde homens homossexuais ou mulheres lésbicas tendem a viver infâncias sexualmente atípicas (Grellert, Newcomb & Bentler, 1982; Whitam, 1997). Assim, os rapazes que são efeminados, não gostam de jogos rudes ou desportos de equipa, preferem ler, etc., e têm uma maior probabilidade de virem a ser homossexuais do que os outros rapazes. Os rapazes que exibem fortes características sexualmente atípicas, como preferir a companhia de meninas, brincar com bonecas em vez de camiões e gostar de vestir roupas de menina ou de mulher, têm uma maior probabilidade de virem a ser homossexuais.
Este facto é sabido não só através das recordações dos homens homossexuais ou mesmo das pessoas próximas acerca da sua infância, mas através de estudos prospectivos. Assim, R. Green (1985, 1987) estudou rapazes marcadamente efeminados enquanto crianças e depois seguiu-os até à idade adulta: a grande maioria destes rapazes acabou por se tornar homossexual ou bissexual. Aparentemente, nalgumas crianças é possível identificar traços sexualmente atípicos durante o primeiro ou o segundo ano de vida. Contudo, convém não generalizar este indicador a todos os homossexuais, pelo simples facto de nem todos recordarem ter tido infâncias sexualmente atípicas. O mais certo é que os homossexuais efeminados tenham tido infâncias mais sexualmente atípicas do que os homossexuais masculinizados.
Este facto coaduna-se com a preferência pela penetração anal manifestada desde cedo pelos homossexuais efeminados. Weinrich et al. (1993) mostraram que os homens homossexuais que, quando adultos, têm uma forte preferência pela penetração anal receptiva são os mesmos que possuem memórias mais vivas de infâncias sexualmente atípicas. Este dado sugere que estes homens formam um subgrupo distinto para quem o papel erótico preferido é, de certo modo, uma continuação de uma forma de auto-expressão sexualmente atípica que os acompanhou durante toda a sua vida.
Assim, os homens que não têm uma preferência forte pelo sexo anal receptivo têm, por sua vez, histórias de infância bastante mais convencionais. Com efeito, existe provavelmente uma sobreposição substancial nas características das infâncias destes homens homossexuais com as dos homens heterossexuais, alguns dos quais apresentam traços marcadamente efeminados, tanto em crianças como em adultos (Tripp, 1978). No entanto, a maioria dos homens homossexuais, qualquer que seja a sua forma preferida de expressão sexual, recordam alguns sentimentos ou comportamentos infantis sexualmente atípicos.
Sentir-se sexualmente excitado pela visão de outros, por jogos sexuais e por experiências sexuais reais com outras crianças ou com adultos, são comportamentos ou sentimentos sexuais explícitos, que podem ocorrer durante a infância. As pessoas parecem variar muito no grau em que vivenciaram tais sentimentos ou comportamentos antes da puberdade ou, pelo menos, em quão bem se recordam deles mais tarde. Contudo, é notável o elevado grau em que essa «sexualidade infantil», quando ocorre, se assemelha à sexualidade da pessoa quando adulta. Os homens e as mulheres heterossexuais tendem a recordar sentimentos sexuais infantis dirigidos ao sexo oposto; homens e mulheres homossexuais tendem a recordar sentimentos sexuais infantis dirigidos a pessoas do mesmo sexo. Até mesmo os detalhes da «sexualidade infantil» parecem ser frequentemente prognósticos em relação ao carácter da sexualidade adulta.
Whitam (1986) descreveu um par de gémeos monozigóticos do sexo masculino, ambos homossexuais, ambos bastante efeminados e ambos muito atraídos por homens muito masculinos — do tipo «camionista». Aos 7 anos, estes gémeos inventaram um jogo ao qual chamaram «A Caça ao Coelho». Iam brincar, completamente nus, perto do depósito de lixo da localidade e, quando chegavam os camiões do lixo, eles atraíam os condutores a persegui-los pelos bosques. Alguns dos camionistas fizeram-no e, tendo alcançado uma ou ambas as crianças, traziam-nas de volta para as cabinas dos camiões e acariciavam-nas — o que constituia o objectivo do jogo. Esta história ilustra quão sexualmente activas algumas crianças são, e como a sua sexualidade pode assemelhar-se à mesma quando adultos. A maior parte dos homossexuais recordam algum desses jogos sexuais que viveram na segunda infância, mas nem sempre envolveram indivíduos do mesmo sexo.
Além disso, os homossexuais de ambos os sexos recordam quase sempre um caso de molestamento infantil e, muitos dos sujeitos observados, relataram histórias de «abuso sexual». Contudo, as experiências sexuais infantis dos homens homossexuais e bissexuais podem ter tido efeitos positivos (Stanley, Bartholomew & Oram, 2004).
Embora haja excepções à regra, os indivíduos que adoptam o travestismo ou mesmo o transsexualismo são geralmente homossexuais masculinos hiperefeminados (agitados). Quanto maior for o grau de efeminamento do homossexual masculino, maior será a sua tendência para se identificar, objectiva e subjectivamente, com os membros do sexo oposto.
Temos assim um perfil dos homossexuais hiperefeminados e efeminados: recordam-se de ter tido uma infância sexualmente atípica, durante a qual sentiram fortes e explícitos sentimentos sexuais em relação a amigos do mesmo sexo, com os quais frequentemente simularam jogos sexuais e tiveram experiências sexuais, nas quais desempenharam o papel de receptores anais. Além disso, preferiram sempre a companhia não de rapazes da sua idade, mas de raparigas, com as quais brincaram jogos femininos. Entre os outros significativos (Mead, 1972), existem sempre rapazes mais velhos que aproveitam a chamada «inocência» dos mais novos para testar as suas capacidades sexuais, algumas das quais podem ocorrer em grupos mistos.
VIDA ADULTA. Ora, estes padrões infantis perseguem a maior parte dos homossexuais efeminados na vida adulta: amizades preferencialmente femininas, preferência pela penetração anal, comportamentos, posturas e atitudes claramente femininos, preferência por parceiros mais velhos e de aspecto masculino, opção por actividades profissionais predominantemente femininas e tarefas caseiras, tendência a formarem ou a sonharem com relações estáveis, decalcadas do modelo heterossexual, muitas das quais à custa de muita violência doméstica e a propensão a comportamentos melancólicos são traços que definem o perfil dos homossexuais efeminados em adultos.
O desenvolvimento das homossexualidades hiperefeminadas e efeminadas é, portanto, muito precoce e pouco ambíguo: estes homossexuais dizem ter sentido desde muito cedo que se sentiam sexualmente atraídos por indivíduos do mesmo sexo. Este sentimento da orientação sexual não é tão claro noutros tipos de homossexualidade. Alguns homossexuais masculinizados dizem que, apesar de terem tido sentimentos sexuais explícitos e experiências sexuais ou namoros com raparigas durante a infância, só tiveram consciência plena da sua homossexualidade mais tarde, já durante a adolescência, quando observaram os pénis de outros homens, num filme pornográfico, num urinol ou noutra circunstância do género. A sua auto-revelação decorre da observação do pénis de outros homens e da necessidade de lhe tocar e acariciar.
Neste sentido, cabe dizer que a experiência de auto-revelação e o período em que ocorre variam muito entre os homossexuais e sofre necessariamente constrangimentos de ordem externa. Com excepção dos homossexuais hiperefeminados que tiveram infâncias sexualmente atípicas, os outros homossexuais ou tiveram infâncias sexualmente típicas ou uma mistura típico-atípica.
1. ASPECTO E PADRÃO GERAL DE COMPORTAMENTO. Conforme sabem os próprios homossexuais, os efeminados exibem um maior número de «bichices», isto é, movimentos e maneirismos afectados, do que os chamados «discretos» e o seu aspecto corporal é claramente mais feminino.
Esta feminilidade dos homossexuais efeminados constitui efectivamente um problema nas atracções inter-homossexuais: os indivíduos cujo aspecto físico e comportamental seja demasiado feminino estão condenados a permanecer sem parceiro. Os homossexuais com «aspecto masculino» ou hipermasculino não apreciam os mais efeminados, mesmo que reconheçam nalguns casos a sua «beleza». Esta desvalorização da atipicidade sexual mostra que, contrariamente à sexualidade feminina, a homossexualidade masculina é muito pouco maleável (Baumeister, 2000; Diamond, 2000) e, em aspectos básicos, não varia muito em relação aos padrões masculinos, tais como estabelecidos pela psicologia evolutiva (Buss & Schmitt, 1993). De facto, é muito difícil lidar e comunicar com os homossexuais hiperfemininos, porquanto todos os seus interesses e tópicos de conversa são completamente femininos. Em conversas com homens heterossexuais, os efeminados descuidam-se e dizem «vós homens», «os homens» ou «nós e os homens», como se não fossem homens mas «mulheres».
Contudo, o grau de efeminamento tende a diminuir à medida que se passa do maricas para o agitado, do agitado para o enfastiado e do enfastiado para o agrupado. Esta transição de um subtipo para outro é normalmente acompanhada por maior sucesso sexual e romântico e por uma relação mais saudável com o papel sexual tipicamente masculino. Além disso, é acompanhada por um maior controlo exercido pelo indivíduo sobre a sua expressão sexual e este auto-controle é particularmente evidente nas homossexualidades masculinizadas. Para evitar o insucesso romântico, alguns homossexuais efeminados praticam musculação, sem desenvolver a massa muscular, mas nem sempre conseguem convencer os homossexuais activos a manter relações estáveis com eles, mesmo depois de os terem apresentado aos pais.
Além disso, um homem homossexual tende a fazer mais «bichices» quando interage com outros homossexuais do que quando interage com os heterossexuais. As bichices nem sempre significam efeminamento comportamental; são antes uma linguagem tipicamente gay de reconhecimento, relaxamento, brincadeira, provocação e sedução.
2. PREFERÊNCIAS SEXUAIS. Bailey et al. (1997) analisaram anúncios íntimos e descobriram que, no que se refere aos papéis sexuais, os homens homossexuais procuram parceiros cujo papel sexual preferido seja complementar com o seu próprio papel: os activos procuram passivos, os passivos procuram activos e os versáteis procuram geralmente activos. Os próprios homossexuais classificam-se basicamente em função do papel sexual preferido: activo, versátil e passivo. Esta classificação é tão importante que pensamos que está na base das outras preferências sexuais. Com efeito, nas suas interacções quotidianas, os homossexuais classificam-se uns aos outros como masculinos ou femininos, com base nos padrões de fala e maneirismos, sem conhecer nenhum dos outros interesses. Eles vêem estes traços como efeitos de outros traços que valorizam (masculinidade) ou desvalorizam (feminilidade): o «aspecto masculino» leva-os a supor que estão diante de um indivíduo sexualmente activo, o que nem sempre corresponde à realidade.
Em termos gerais, os homossexuais efeminados preferem parceiros mais velhos (idade), mais altos (altura), mais pesados (peso), mais desenvolvidos muscularmente (configuração física) e mais dominantes sexualmente do que eles. Estes dados apoiam a hipótese de que a diferenciação do cérebro destes homossexuais se realizou no sentido feminizado e desmasculinizado, porquanto estas preferências são similares às exibidas pelas mulheres heterossexuais (Muscarella et al., 2004).
Os homossexuais masculinizados preferem parceiros ligeiramente mais novos, mais baixos, menos pesados, menos desenvolvidos muscularmente e menos dominantes sexualmente do que eles. Estes dados apoiam a hipótese de que a diferenciação do seu cérebro se realizou num sentido masculinizado e desfeminizado, porquanto estas preferências são semelhantes às dos homens heterossexuais (Muscarella et al., 2004). Estes dados, além de confirmarem a diferenciação intra-homossexual, devem ser vistos em termos mais «ideais» («fantasy partner» ou parceiro idealizado) do que reais, porque os homossexuais mostram, em certos lugares públicos, ser pouco discriminativos na selecção do parceiro sexual, orientando o seu comportamento apenas em função de «quem faz o quê a quem». Estes dados foram monitorizados e reconfirmados pela pesquisa interactiva realizada entre 2000 e 2006.
Ora, os estudos das diferenças sexuais nem sempre fornecem dados congruentes com os nossos, devido ao facto de agruparem os homossexuais sem levar em conta as diferenças que os possam distinguir internamente. Os estudos de Freund et al. (1973), Bailey et al. (1994) e Jankowiak et al. (1992) mostraram que a preferência pela idade (age preference) dos homens homossexuais é similar à dos homens heterossexuais. Silverthorne & Quinsey (2000) descobriram que os homens heterossexuais e homossexuais preferem parceiros sexuais mais novos do que as mulheres heterossexuais e homossexuais e que a preferência pela idade não variava com a idade do participante. Os homens e as mulheres de diversas culturas concordam nos seus juízos sobre a atractividade física das mulheres e dos homens, respectivamente, independentemente da cultura ou da exposição aos produtos dos media ocidentais (Cunningham et al., 1995, Bernstein, Lin & McCellan, 1982). Assim, os homens heterossexuais consideram, independentemente da sua idade ou cultura, que as mulheres com idades compreendidas entre os 15-25 anos são fisicamente mais atractivas (Korthase & Trenholme, 1982, Bradshaw et al., 1994). As mulheres heterossexuais percebem, independentemente da sua idade ou cultura, os homens com idades entre os 30-45 anos como sendo fisicamente mais atractivos, embora os seus juízos sejam mais variáveis do que os dos homens (Alley, 1993). Estes estudos interculturais mostram que os homens heterossexuais preferem parceiros sexuais mais novos do que as mulheres heterossexuais.
Kenrick et al. (1995) estudaram 783 anúncios íntimos com o objectivo de comparar as preferências de idade expressas pelos homossexuais e heterossexuais de ambos os sexos. Os resultados mostram que as mulheres heterossexuais de todas as idades tendem a preferir homens da sua própria idade ou alguns anos mais velhos. As preferências dos homens heterossexuais mudam com a idade do participante. Os homens novos revelam um interesse por mulheres novas e mais velhas, mas os homens mais velhos expressam progressivamente elevado interesse por mulheres mais novas do que eles. As preferências dos homens homossexuais são similares às dos homens heterossexuais e as lésbicas exibem um padrão intermédio entre o das mulheres heterossexuais e dos homens heterossexuais. Estes resultados sugerem que a escolha homossexual não é simplesmente o reverso do padrão dos homens heterossexuais. Analisando anúncios íntimos, Witter et al. (2005) descobriram que os homens heterossexuais oferecem e procuram sinceridade numa relação e preferem uma parceira atractiva. Em contraste, os homens homossexuais incluem frequentemente mais referências sexuais em relação a eles próprios nos seus anúncios.
Contudo, há um factor que deve ser levado em conta: a idade do indivíduo. Muscarella (2002) verificou que os sujeitos relataram que, quando eram adolescentes, sentiam um forte interesse erótico por homens mais velhos (mais de 7 anos) e com uma sexualidade mais masculina do que a sua. Os parceiros idealizados também deviam exibir características morfologicamente mais masculinas, tais como peso, desenvolvimento muscular, pêlo corporal, cabelo facial (barba) e altura. Com efeito, Rind (2001) mostrou que os machos adolescentes que tiveram sexo com machos adultos eram fortemente atraídos por machos mais velhos e procuraram tirar vantagens desses convites sexuais. Estes resultados sugerem que a atracção por homens adultos pode constituir um elemento comum na experiência sexual dos homossexuais adolescentes.
A própria classificação da sua sexualidade como sendo mais masculina na vida adulta do que na adolescência confirma a hipótese de Feierman (1990) de que há um aumento da masculinização entre a adolescência e a vida adulta, podendo resultar em padrões de comportamento sexual masculino mais estereotipados. Os parceiros ideais dos indivíduos adultos eram avaliados em função de maior peso e desenvolvimento muscular do que durante a adolescência. Isto sugere que, uma vez que os próprios participantes se tornaram morfologicamente mais masculinos com a idade, os parceiros idealizados também acompanharam esta masculinização, tornando-se mais masculinos do que eles. Este fenómeno é consistente com a teoria de Feierman (1999) de que, nos homens homossexuais, o cérebro é feminizado na adolescência e na vida adulta, no que se refere ao aspecto masculino dos parceiros. Com efeito, um factor que parece ser comum a todos os homossexuais, independentemente da preferência pelo papel sexual, é a preferência por parceiros com «aspecto masculino», «discretos» ou «não-efeminados» (Bailey et al., 1997).
Daqui resulta que os homossexuais demasiado efeminados são marginalizados na comunidade gay, pelo menos sexual e romanticamente. Esta exclusão pode ter sérias implicações para a sua saúde mental. De facto, dado serem negligenciados, os homossexuais efeminados, em particular os maricas e agitados, tendem a ser menos bem sucedidos romanticamente e, consequentemente, mais infelizes, em média, do que os outros homossexuais. Existe claramente uma associação negativa entre atipicidade sexual e atractividade sexual. Os homossexuais sexualmente muito atípicos, além dos maneirismos e dos padrões de fala femininos, são sexualmente passivos e, apesar de muitos homossexuais procurarem parceiros passivos, a maior parte deles não aprecia o «aspecto efeminado». «Efeminados abstenham-se» é uma expressão frequentemente utilizada nos anúncios íntimos portugueses. Embora desejem ter relações estáveis, os homossexuais demasiado efeminados têm dificuldade em descobrir a «alma gémea» e, quando a encontram, a relação é rompida pelo companheiro que alega não se sentir satisfeito por causa da postura demasiado «mulherenga» do parceiro passivo no decurso da actividade sexual e na vida conjugal. Além disso, o «aspecto masculino» associa-se também à «discrição». «Procuro homem discreto. Dou e exijo sigilo absoluto» são outras ideias frequentemente referidas nos anúncios íntimos, cujo objectivo é afastar os efeminados («No femmes»).
Mas há um outro atributo do parceiro sexual, idealizado ou real, que é muitíssimo valorizado pelos homens gay: as dimensões do pénis. Os homossexuais masculinos preferem claramente parceiros sexuais «bem dotados», isto é, dotados de pénis de grandes dimensões. Witter et al. (2005) e Bailey et al. (1997) já tinham constatado que os homens gay fornecem mais «referências sexuais» nos anúncios íntimos do que os homens heterossexuais, mas deixaram escapar o facto de que as dimensões do pénis estão colocadas entre essas referências. A referência das dimensões do pénis é dada geralmente por homossexuais efectivamente «bem dotados» e preferencialmente activos, porque, no imaginário gay, ser dotado de um pénis de grandes dimensões, especificadas quantitativa e/ou qualitativamente, ou mesmo na realidade como sucede em determinados oásis eróticos gay, constitui só por si um traço eroticamente atractivo, que garante à partida sucesso sexual. Se o tamanho do pénis depende da testosterona, como especulam Bogaert & Hershberger (1999) e Williams et al. (2000), então é provável que este traço físico (grandes dimensões penianas) e comportamental (exibições fálicas) possa vir a ser usado, em futuras pesquisas, como marcador de exposição pré-natal a níveis elevados de testosterona. Apesar das dimensões penianas variarem em função das etnias, com os chineses a mostrarem dimensões significativamente menores que os caucasianos e indianos (Cheng & Chanoine, 2001), os homens homossexuais têm pénis de maiores dimensões que os homens heterossexuais e bissexuais, um traço hipermasculino indicador de níveis elevados de testosterona pré-natal.
3. AFILIAÇÕES. Não só na infância mas também na vida adulta, os homens homossexuais efeminados procuram e preferem mais a companhia das mulheres ou das lésbicas do que os homossexuais masculinizados. Martin, Fabes & Wyman (1999) mostraram que as crianças de 4 a 8 anos de idade preferem pares do mesmo sexo e esta preferência aumenta com a idade.
A evitação da presença feminina genuína, heterossexual ou lésbica, é tão acentuada nos homossexuais masculinizados que se torna particularmente evidente na rejeição dos travestis e transexuais, a «caricatura grosseira do sexo oposto» (Pasterski et al., 2005; Berenbaum & Hines, 1992; DiPietro, 1981; Eaton & Enns, 1986; Hines & Kaufman, 1994; Maccoby & Jacklin, 1974; Ruble & Martin, 1998). A presença feminina tende a minar e a destruir a sociabilidade intra-masculina, além de dificultar a conquista sexual.
Os homossexuais encobertos, embora possam ser casados e ter filhos, revelam dificuldades subtis nas suas interacções sociais com os homens heterossexuais, além de negligenciarem as mulheres. Este aspecto deve merecer mais estudo no futuro: a vida dupla tem custos elevados que devem ser investigados. As relações com os familiares tendem a assentar numa terrível mentira: a pseudo-heterossexualidade não identificada como tal.
4. OCUPAÇÕES PROFISSIONAIS. Os homossexuais efeminados tendem a ter profissões mais sexualmente atípicas do que os homossexuais masculinizados e esta diferença intra-homossexual coaduna-se com os resultados dos estudos de Bailey & Oberschneider (1997) e de Lippa (2002). Quanto mais efeminado for o homossexual, maior é a probabilidade de exibir padrões atípicos de interesses, hobbies e preferências ocupacionais, tais como domesticidade, interesse pela moda, interesse pela culinária, interesse pelas artes, interesse por flores e plantas e interesses ocupacionais sexualmente atípicos. No seu estudo de uma vila piscatória brasileira, Cardoso (2005) descobriu que a categoria que denominou «paneleiros», «who have sex only with men, and invariably so in a bottom position», exibia preferências sexualmente atípicas, no que respeita às actividades lúdicas infantis e às preferências desportivas, quando comparada com outras duas categorias: «paneleiro lovers», «who have sex with women and with paneleiros, but invariably in a top position», e «persistent heterosexuals», «who have sex only with women».
Lippa (2002) descobriu fortes ligações entre a orientação sexual e os comportamentos sexuais típicos, em particular as preferências ocupacionais, tanto nos homens como nas mulheres. Com efeito, as preferências ocupacionais que distinguem os homens das mulheres também tendem a distinguir os homens gay dos homens heterossexuais e as lésbicas das mulheres heterossexuais. Contudo, os nossos dados revelam que também existem variações entre os homossexuais, com os homossexuais masculinizados a exibir preferências ocupacionais mais típicas que os homossexuais efeminados. Estas associações fortes desmentem as teorias psicossociais, sendo portanto mais congruentes com as teorias biológicas.
5. ASSUNÇÃO DA ORIENTAÇÃO HOMOSSEXUAL. As teorias do desenvolvimento vêem o processo de coming out como sendo formado por diversos estágios, que terminam com a construção da identidade gay, mas esse processo nunca pode ser levado a bom porto numa sociedade homofóbica.
Infâncias sexualmente atípicas indiciam homossexualidade na vida adulta e muitos desses homossexuais manifestam preferência pelo papel sexual de receptor oral e anal. Os traços sexuais atípicos destas crianças não passam despercebidos e as pessoas que as rodeiam, em particular os pais e amigos, tendem a rotulá-las de «mariquinhas», na melhor das hipóteses. Não admira que socializadas nesse meio homofóbico venham mais tarde a assumir naturalmente a sua orientação homossexual e a interiorizar o estereótipo social do «maricas». Mesmo que não o assumam verbalmente, os homossexuais efeminados nada fazem para encobrir a sua orientação homossexual e elaboram uma identidade gay congruente com a sua homomasculinidade.
Os homossexuais masculinizados tendem a encobrir a sua verdadeira condição homossexual, mesmo perante si mesmos e perante os seus parceiros sexuais, porquanto muitos deles classificam-se como bissexuais num momento desse processo. No entanto, quando assumem a sua homossexualidade, elaboram uma identidade gay mais congruente com os padrões heterossexuais. Mas, de modo geral, a maior parte dos homossexuais portugueses, por razões familiares, sociais e profissionais, tende a não publicitar a sua orientação homossexual, somente conhecida num círculo restrito de pessoas, com exclusão dos outros homossexuais (Elizur & Mintzer, 2001; Barber, 2000). Adams, Wright & Lohr (1996) descobriram que somente os homens homofóbicos revelam um aumento na erecção do pénis quando submetidos a estímulos homossexuais masculinos.
6. ALTERNAÇÃO SEXUAL. Dos homossexuais hiperefeminados aos hipermasculinizados, passando pelos emergentes, verifica-se um acréscimo acentuado de traços tipicamente masculinos e hipermasculinos, acompanhado pelo incremento do papel sexual tipicamente masculino. Este incremento parece estar fortemente associado à formação de uma identidade de género adequada e, neste aspecto, a homosocialização tem exercido efeitos positivos, induzindo os homens homossexuais a assumir orgulhosamente não somente a sua real orientação sexual, mas sobretudo o seu género. O convívio intra-masculino é fundamental no reforço da identidade de género de um homem, seja ele heterossexual ou homossexual. Quando falta este suporte intra-masculino, a masculinidade torna-se frágil. Além disso, com o avançar da idade todos os homossexuais tornam-se mais masculinos no comportamento.
A alternação sexual que os homossexuais identificam com a «versatilidade», compreendida como capacidade de alternar as preferências sexuais, em particular os papéis sexuais preferidos, é um critério fundamental para avaliar a mobilidade dos indivíduos de um subtipo para outro. Os extremos da tipologia das homossexualidades masculinas são muito pouco maleáveis no que se refere à mudança do papel sexual preferido. No entanto, um homossexual hipermasculino ou simplesmente masculinizado desempenha mais facilmente o papel sexual atípico do que um homossexual hiperefeminado desempenha o papel sexual tipicamente masculino. Com efeito, quase todos os homossexuais masculinos já foram penetrados analmente pelos seus parceiros e aqueles que dizem não ter feito essa experiência mostram interesse em vir a sofrê-la. Este fenómeno sugere que o factor comum a todos os homossexuais masculinos pode ser o «desejo secreto de ser penetrado por outro homem», que, no caso de cérebros feminizados e desmasculinizados, se converte numa preferência rígida pelo papel sexual atípico e, no caso de cérebros masculinizados e desfeminizados, se converte numa preferência pelo papel sexual tipicamente masculino. O cérebro gay é feminizado no que se refere à atracção sexual, uma vez que todos os homossexuais preferem parceiros com «aspecto masculino» e reagem sexual e genitalmente a estímulos sexuais masculinos.
7. PROMISCUIDADE SEXUAL. Quanto à variação de parceiros sexuais, verifica-se que todos os tipos de homens homossexuais exibem frequentemente comportamentos sexualmente promíscuos. Esta observação está em conformidade com estudos já realizados (Kinsey et al., 1970; Bailey et al., 1997; Bailey et al., 1994; Lauman et al., 1994). Bailey et al. (1994) mostraram que os homens homossexuais relataram mais «casual sex» do que os homens heterossexuais (padrão hipermasculino) e que estes, por sua vez, relataram mais sexo casual do que as mulheres heterossexuais. Estes resultados indicam que os padrões de corte dos homens homossexuais são mais similares aos dos homens heterossexuais do que ao das mulheres heterossexuais. De facto, no que diz respeito à prática de sexo anónimo com múltiplos parceiros consecutivos ou mesmo em simultâneo, geralmente sem protecção, os homossexuais exibem um grau de promiscuidade sexual que raramente é observado nos homens heterossexuais, a não ser naqueles que frequentam prostitutas. No entanto, os homossexuais masculinizados tendem a ser mais hiperactivos e sexualmente promíscuos do que alguns homossexuais efeminados.
Estas diferenças podem ser explicadas por factores biológicos, mas a homofobia é um factor que fomenta a clandestinidade, a vida dupla e as ligações a curto prazo, não favorecendo positivamente a formação de uniões estáveis.
8. TENDÊNCIAS PARAFÍLICAS E OUTRAS ASSOCIAÇÕES. Os comportamentos parafílicos exibidos pelos homossexuais masculinizados são similares aos dos homens heterossexuais e, portanto, são sexualmente típicos, podendo mesmo revelar padrões hipermasculinos, como sucede nas exibições fálicas ou nas práticas de «rimming», «dildo», «cockbinding», «watersports», «enema», «fistfucking», «scatologia» e «catheter» (Alison et al., 2001). Voyeurismo, exibicionismo (Fedora, Reddon & Yeudall, 1986) e sadismo sexual são as práticas mais associadas aos homossexuais masculinizados, ao passo que o masoquismo e o travestismo estão mais associados aos homossexuais efeminados, que também aqui exibem padrões sexualmente atípicos, sendo alvo de administração de dor, humilhação psicológica e restrição física (Ernulf & Innala, 2001).
Este último estudo revelou que, na prática da dominação e submissão sexual, a preferência pelo papel dominante-iniciador era expressa em 71% das mensagens por homens heterossexuais, 11% das mensagens por mulheres heterossexuais e 12% das mensagens por homens homossexuais, ao passo que a preferência pelo papel submisso-receptivo era expressa em 29% das mensagens dos homens heterossexuais, 89% das mensagens das mulheres heterossexuais e 88% das mensagens dos homens homossexuais. Em 33% das mensagens, os sujeitos declararam que a «sexual bondage» ocorre simultaneamente com o sadomasoquismo ou era percebida como parte dele. Ocorrem regularmente em Portugal sessões de sadomasoquismo: umas mistas, envolvendo os dois sexos e as diversas orientações sexuais, outras mais dirigidas a homens exclusivamente homossexuais e bissexuais, e, nas últimas, os papéis desempenhados estão em conformidade com o que seria de esperar.
No verão de 2006, no decurso da pesquisa interactiva, criámos um "nickname", cujo perfil era sadomasoquista, que frequentava regularmente o Terravista, com o objectivo de recrutar participantes para sessões sadomasoquistas. Os resultados confirmam os dados obtidos em 2000 e já constatados no decorrer da pesquisa de campo: as sessões envolvem homens heterossexuais, bissexuais e homossexuais, activos e passivos. Muitos participantes ou candidatos a participantes, em conversas online, ligavam a webcam, em casa ou no trabalho, e exibiam o seu "material" e aquilo de que eram capazes de fazer, tal era o seu interesse em participar nessas sessões. O nosso perfil sádico, em conjugação de esforços com outro nickname feminino, era de tal modo controlador e sedutor que fazia com que certos homens se masturbassem ou se exibissem em situações de risco, tais como a mulher no quarto ou os colegas de trabalho nas proximidades. A cultura sadomasoquista em Portugal é mista, provavelmente devido à dificuldade de descobrir parceiros congruentes.
Este estudo foi realizado para testar a teoria neuro-hormonal da orientação sexual, a qual defende que as hormonas pré-natais e, provavelmente, algumas hormonas pós-natais, afectam as estruturas do cérebro que contribuem para o desenvolvimento da orientação sexual (Ellis & Ames, 1987; Pillard & Weinrich, 1987). Usando este modelo, Feierman (1999) procurou relacionar respostas psicossexuais específicas com padrões particulares da diferenciação sexual do cérebro. Centrando-se apenas nos traços dos parceiros preferidos pelos homens homossexuais, defende que um cérebro masculinizado dirige a atenção para alvos que são mais novos do que o sujeito e que um cérebro desmasculinizado dirige a atenção para alvos mais velhos do que o sujeito. Um cérebro feminizado dirige a atenção para alvos que são mais masculinos que o sujeito, enquanto um cérebro desfeminizado dirige a atenção para alvos mais femininos que o sujeito. Feierman (1999) considera que os cérebros dos homens heterossexuais são masculinizados e desfeminizados, dirigindo a atracção para alvos que são mais novos e mais femininos que eles. Os cérebros dos homens homossexuais são masculinizados e feminizados, dirigindo a atracção para alvos que são mais novos e mais masculinos.
Este conceito de homossexualidade foi desmentido por diversos estudos já referidos e os nossos dados revelam que os homens homossexuais variam entre si em diversos traços, exibindo padrões ora masculinos, ora femininos. Somente na atracção sexual os homens homossexuais têm um cérebro feminizado.
Os nossos dados são congruentes com a hipótese neuro-hormonal diferencial da orientação sexual. No entanto, mostram claramente que as diferenças sexuais estão presentes na população homossexual, porquanto os homossexuais variam entre si em traços críticos, com os homossexuais efeminados a exibir um maior número de traços sexuais atípicos e os homossexuais masculinizados a exibir traços sexuais típicos e, nalguns aspectos, hipermasculinos. Os cérebros homossexuais exibem padrões de diferenciação sexual diferentes e talvez distintos, não podendo ser reduzidos a um «cérebro feminino». O único traço comum a todos eles reside no facto de sentirem maior atracção sexual por parceiros com «aspecto masculino» e de reagirem com elevada excitação genital a estímulos sexuais masculinos (Chivers, Rieger, Latty & Bailey, 2004; Lippa, 2006; Rieger, Chivers & Bailey, 2005).
De facto, os homens homossexuais destacam a atractividade física e sexual na escolha de parceiro (Gonzales & Meyers, 1993; Siever, 1994; Sergios & Cody, 1985-86). Mealey (1992) sugeriu que preferem parceiros com «aspecto masculino», como se verifica pela análise dos anúncios íntimos (Bailey et al., 1997) e sobretudo nas interacções que estabelecem diariamente uns com os outros.
A estrutura neural responsável pela atracção sexual nos homens homossexuais é feminizada e desmasculinizada. Se os grupos heterossexuais fossem diferenciados, é provável que algumas diferenças intra-homossexuais verificadas nos homens homossexuais estivessem também presentes entre os heterossexuais, o que poderia restringir o âmbito da pesquisa neuroendocrinológica e genética da orientação sexual. Mas, independentemente dos resultados dessa pesquisa futura, resulta destas observações o facto de ser necessário falar de masculinidades no plural (Schauer, 2004; Beynon, 2002; Connell, 1995, 2000; Whitehead, 2002), em vez de masculinidade no singular e no sentido heterosexista. Este facto parece ser independente da identidade de género, porquanto, como demonstraram Swaab & Hofman (1995), o tamanho do núcleo do leito da estria terminal é similar entre os homens heterossexuais e homossexuais, tendo nos transexuais um tamanho ligeiramente menor ao das mulheres heterossexuais.
A existência de diversos tipos de homossexuais masculinos e femininos, entre os quais se evidenciam claras diferenças sexuais e padrões distintos de comportamento, sugere que a via da orientação sexual está submetida a regulação multi-génica, como seria de esperar de um traço comportamental complexo. Esta ideia coaduna-se com os resultados de Mustanski et al. (2005) e Bocklandt et al. (2006). Dado que os homens transexuais são geralmente provenientes dos grupos dos homossexuais hiperefeminados, em especial dos agitados, podemos supor que genes do cromossoma X tenham uma grande influência sobre o desenvolvimento da orientação sexual deste grupo de homossexuais. Com efeito, estes transexuais exibem um aumento da ratio maternal tio/sobrinho similar à de alguns homens homossexuais (Green & Keverne, 2000; Turner, 1995). (Como qualquer post aqui publicado, este post não pode ser reproduzido sem autorização do autor que detem todos os direitos. Faz parte de uma pesquisa já publicada.)
J Francisco Saraiva de Sousa

9 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Devia ter rederido outro facto importante: os homens homossexuais efeminados são mais propensos ao suicídio do que os homens homossexuais masculinizados. Mas as estatísticas nacionais omitem sistematicamente a orientação sexual, donde resulta visões deformadas da realidade. Mas este é o país que temos: em Portugal é quase tudo uma mentira!

Aveugle.Papillon disse...

Se, pelo menos, o que é descrito nos tópicos "Infância" e "Assunção da orientação" fosse de conhecimento comum! Talvez incindindo na formação esclarecida destes fenómenos aos educadores, pais e cidadãos em geral, possamos contribuir para indivíduos menos sofredores e, também, mais saudáveis, pois a falsa moral instalada impele-os a comportamentos de risco, como falávamos da outra vez.

Obrigada, Francisco, pelo bem que faz. Quem dera que estes seus textos ecoassem a mil vozes!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Obrigado Papillon.
Esforço-me por ajudar a iluminar o mundo.
Estava a rever uns diários de campo e a ver se posso facultar fragmentos de depoimentos. Mas dá bastante trabalho! Nas escolas (algumas, n sei) alguns desses meninos são maltratados, mas surpreendentemente não se queixam, talvez porque não possam contar com o apoio de alguns professores.

Aveugle.Papillon disse...

Só mais uma coisa: acho que somos um país de homofóbicos, como diz, e isso advém do medo, do tal medo que n(os) toma. Os preconceitos são sempre escudos; mas sob eles um odor pútrido...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Concordo e acrescento "de hipócritas" tb. Mas não sei se conseguimos mudar de rumo...

Aveugle.Papillon disse...

Faz-me tanta pena que isso aconteça, dá-me quase vontade de chorar quando penso nisso a sério. Tanta crueldade! Tanto ressentimento! Que país tão triste: orgulhosamente conservador e tradicionalista, mas afinal, de um sadismo atroz.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mais tarde essas crianças muito efeminadas têm tendência para se ligarem a "homens rudes" que os espancam e, por vezes, os exploram. Outros tornam-se travestis e, por vezes, transgender ou transexuais.
Não contam com o apoio dos pais, sobretudo do pai, porque são muito atípicas. Talvez a escola pudesse ajudá-las mas onde estão os professores? Não chore, Papillon. É a vida...

O rasto do Pirilampo disse...

Dada a extensão e a abrangência do seu post limitar-me-ei a comentar a tese de que a homosexualidade teria essencialmente uma origem biológica. Nesse sentido a sexualidade não seria uma escolha mas forçosamente uma contingência. Como classificaríamos então aquele jovem que aos 13 tinha um comportamento sexual exclusivamente homossexual e a partir da idade adulta se torna heteressexual exclusivo, ou aquela outra que inicia uma vivência homessexual aos 50 anos, depois de uma longa vida conjugal heterosexual, ou ainda a atracção que os travestis despertam em homens e mulheres, dada essa ambigua mistura de um orgão sexual masculino num corpo de mulher? Serão todos apenas homossexuais reprimidos em negação? Sendo a construção da sexualidade humana algo tão complexo dever-se-à, ainda que o entorno ambiental e a forma de iniciação sexual não logrem identificar claramente os factores que a influenciam, chegar-se necessariamente à conclusão que a resposta está na biologia? No século XIX a craniometria era um método cientificamente muito respeitado de avaliar a inteligência,e de catalogar assim as diferentes "raças"... O determinismo bilogico pode parecer um caminho agradavel que despolitiza a questão da sexualidade, ao fim ao cabo, "coitadinhos, nasceram assim", e talvez promova uma maior aceitação, mas a que preço?

Ângela R.

O rasto do Pirilampo disse...

Dada a extensão e a abrangência do seu post limitar-me-ei a comentar a tese de que a homosexualidade teria essencialmente uma origem biológica. Nesse sentido a sexualidade não seria uma escolha mas forçosamente uma contingência. Como classificaríamos então aquele jovem que aos 13 tinha um comportamento sexual exclusivamente homossexual e a partir da idade adulta se torna heteressexual exclusivo, ou aquela outra que inicia uma vivência homessexual aos 50 anos, depois de uma longa vida conjugal heterosexual, ou ainda a atracção que os travestis despertam em homens e mulheres, dada essa ambigua mistura de um orgão sexual masculino num corpo de mulher? Serão todos apenas homossexuais reprimidos em negação? Sendo a construção da sexualidade humana algo tão complexo dever-se-à, ainda que o entorno ambiental e a forma de iniciação sexual não logrem identificar claramente os factores que a influenciam, chegar-se necessariamente à conclusão que a resposta está na biologia? No século XIX a craniometria era um método cientificamente muito respeitado de avaliar a inteligência,e de catalogar assim as diferentes "raças"... O determinismo bilogico pode parecer um caminho agradavel que despolitiza a questão da sexualidade, ao fim ao cabo, "coitadinhos, nasceram assim", e talvez promova uma maior aceitação, mas a que preço?