domingo, 23 de março de 2008

Primavera da Alma

Estamos na Primavera e, para festejar a sua chegada recente, deixo aqui mais dois poemas de Georg Trakl: Frühling Der Seele e Im Frühling, ambos traduzidos por Paulo Quintela.
Primavera da Alma
«Grito no sono; por vielas negras despenha-se o vento,
O azul primaveril acena através de ramos que quebram,
Purpúreo orvalho da noite e apagam-se em volta as estrelas.
Esverdeado o rio alvorece, prateadas as velhas aldeias
E as torres da cidade. Ó suave ebriedade
No barco que desliza e os escuros gritos do melro
Em jardins infantis. Já se abre o véu róseo.
«Solenes sussurram as águas. Oh as húmidas sombras da várzea,
O bicho a andar; verdura, ramagem florida
Toca a fronte cristalina; reluzente barco balouçante.
Baixinho ressoa o Sol nas nuvens rosadas no outeiro.
Grande é o silêncio do pinhal, as graves sombras junto ao rio.
«Pureza! Pureza! Onde estão as veredas terríveis da morte,
Do pardo mutismo de pedra, os penedos da noite
E as sombras sem paz? Refulgente abismo do Sol.
«Irmã, quando eu te encontrei em clareira solitária
Do bosque e era meio-dia e grande o silêncio dos bichos;
branca sob o carvalho bravo, e de prata floria o espinheiro
Poderoso morrer e a chama cantante no coração.
«Mais 'scuras cercam as águas os belos jogos dos peixes.
Hora do luto, contemplar silente do Sol;
A alma é um estranho na terra. Espiritual alvorece
O azul sobre o bosque abatido e ouve-se o dobre
Longo de escuro sino na aldeia; acompanhamento pacífico.
Calma floresce a murta sobre as pálpebras brancas do morto.
«Baixinho soam as águas na tarde cadente
E verdeja mais 'scuro o mato da margem, alegria no vento rosado;
O canto suave do irmão no outeiro vesperal».
Na Primavera
«Baixo cede a neve a escuros passos,
Na sombra da árvore
Erguem pálpebras róseas os amantes.
«Sempre segue aos brados 'scuros dos barqueiros
Astro e noite;
E os remos batem baixo compassados.
«Breve florescem junto à parede em ruínas
as violetas,
Tão calma verdeja a fronte ao solitário.»
J Francisco Saraiva de Sousa

10 comentários:

Aveugle.Papillon disse...

Boa Páscoa! Aleluia!
Hoje estou com a alma cheia de Primavera, pois apanhei flores com uma linda menina!

Amanhã comento o texto abaixo...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
André LF disse...

Francisco, este belo poema me deixou nostálgico, com saudades de lugares que ainda não conheci!
Que cena bucólica, Papillon!

Aveugle.Papillon disse...

Sim, André! :)

O F. apagou o seus votos de boa Páscoa à Papillon. :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Aí perto, na Argentina, há um filósofo chamado Hugo Mujica que escreveu uma bela obra "La Palabra Inicial: La mitologia del poeta en la obra de Heidegger", muito na peugada de Heidegger: uma excelente obra de leitura criativa da grande poesia. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Já tinha feito esses votos muito antes, diversas vezes, e ontem já era tarde: a Páscoa já tinha sido e por isso achei o comentário redundante.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Uma bela peça de teatro sobre esta temática é "O Despertar da Primavera" de Wedekind.
Via-a aqui no Porto no Teatro Nacional Carlos Alberto, duas vezes ou três. Contudo, numa sessão inaugural, num debate com o seu responsável, provoquei uma discussão sobre a adolescência! A leitura feita sobre a peça pelo próprio encenador era muito "comunista": só "imperialismo", como se a adolescência fosse uma "invenção burguesa". :(

André LF disse...

Francisco, vou procurar a obra de Hugo Mujica que vc mencionou. Estou lendo os Caminhos da Floresta (Holzwege), uma coletânea de textos de Heidegger lançada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Aliás, esta tradução portuguesa é infinitamente melhor do que aquelas realizadas aqui, "em brasileiro", como bem disse a Papillon certa vez. :)
Boa Páscoa, Papillon!

Aveugle.Papillon disse...

Obrigada André e igualmente :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

E mesmo assim ainda há um ou outro lapso de tradução. Aí no Brasil saitam duas traduções interessantes, as de "A caminho da linguagem" e "Ensaios e Conferências" de Heidegger. Se houvesse mais colaboração entre portugueses e brasileiros, as obras poderiam ser vertidas para língua portuguesa em excelente "estado".
Por exemplo, as obras de Walter Benjamin estão a ser bem traduzidas para português por João Barrento, que criticou severamente as traduções brasileiras existentes.
Oi Papillon: já não estou triste!