quinta-feira, 27 de março de 2008

Política e Fisiologia Cartesiana

António Damásio (1994) escreveu uma obra com um título deslocado e incorrecto, "O Erro de Descartes: Emoção, Razão e Cérebro Humano", que dedica apenas 4 ou 5 páginas a Descartes, nas quais critica a noção de «mente descorporalizada» e defende, por oposição, a noção de «mente verdadeiramente incorporada» que requer «a adopção de uma perspectiva do organismo». Se Damásio pretendia demolir o programa de pesquisa fisiológica de Descartes e o seu impacto sobre a medicina contemporânea, então devemos concluir que essa tarefa não foi atingida, pela simples razão do pensamento de Descartes ser muito mais complexo do que pensava Damásio, que se limitou a parodiar algumas falsas verdades do senso comum filosófico, escamoteando as obras científicas de Descartes e subavaliando as suas obras filosóficas.
Conforme mostrou o excelente biofilósofo Woodger (1978), o senso comum científico tende a baralhar os conceitos de hipótese, teoria e facto, sem ter em conta que não há observação sem hipóteses ou teorias. Ora, a filosofia biológica interessa-se fundamentalmente por hipóteses e por teorias e, no caso de Descartes, é necessário avaliar honestamente a mudança de paradigmas que operou no campo das ciências biológicas e biomédicas, substituindo o paradigma aristotélico organicista, assente na biologia, por um paradigma mecanicista, baseado na física e na matemática, aspecto que não passou despercebido a Russell que viu no seu pensamento «a origem da filosofia moderna».
O estudo da biofilosofia de Descartes deve reavaliar o seu contributo para a organização do moderno pensamento biológico e mostrar que as descobertas feitas por outros biólogos só foram possíveis graças ao programa fisiológico elaborado por Descartes. O meu plano de trabalho é o seguinte:
1. Cogito ergo sum. Com o recurso às obras filosóficas de Descartes, em particular «O Discurso do Método» e as «Meditações», podemos encarar o «cogito ergo sum» como a descoberta filosófica mais importante de Descartes.
2. Res cogitans e res extensa. A actividade de pensar desempenha uma importância extraordinária no sistema teórico de Descartes: a distinção entre res cogitans e res extensa teve um impacto particularmente «avassalador» sobre a medicina, tal como vislumbrou o próprio Damásio.
3. Mente e cérebro. Descartes elaborou uma neurofisiologia com base na sua hipótese dualista interactiva, como mostrou John C. Eccles, aliás um seguidor moderno de Descartes.
4. Fisiologia cardiovascular. Com o recurso necessário às obras científicas de Descartes, tais como «As Paixões da Alma» e «L'Homme», é preciso levar em consideração que Descartes pretende descrever «o corpo humano como uma máquina similar a um relógio, um moinho de vento ou uma fonte», embora seja infinitamente mais complexo do que essas máquinas produzidas pelos homens, e avaliar a sua hipótese da circulação do sangue em relação com a de Harvey, de resto a correcta.
5. Fisiologia mioneural. Se Harvey deu à fisiologia uma teoria da circulação do sangue, Descartes dotou-a de uma fisiologia do movimento corporal e da sensação, na qual «os espíritos animais» desempenham um papel primordial na produção dos movimentos corporais executados pelos músculos. Descartes descreve o comportamento do corpo como o resultado de um mecanismo reflexo.
6. Determinantes da personalidade. A psicologia cartesiana funda-se na neurofisiologia e na fisiologia do comportamento, onde a glândula pineal desempenha um papel cardeal. De facto, a teoria cartesiana da acção voluntária depende da mobilidade desta glândula no interior das cavidades do cérebro.
7. A glândula pineal. Descartes analisou cuidadosamente como a glândula pineal executa todas as suas importantes funções, com especial referência à óptica fisiológica, e detalhou o mecanismo psicofísico, que parece ser pensado como uma versão da teoria do «duplo-aspecto» do mental e do físico. É necessário ter em conta as suas obras «Dióptrica» e «Princípios da Filosofia».
8. A base física da memória. Descartes alargou o âmbito da sua teoria e procurou demonstrar que o mecanismo proposto pode explicar igualmente a memória, elaborando uma teoria que parece notavelmente moderna.
9. As fontes da acção humana. Descartes assumiu claramente uma explicação mecânica do comportamento humano, na qual os «espíritos animais» e os «objectos externos» desempenham papéis fundamentais, descartando-se da concepção tripartida da alma proposta por Aristóteles. Sherrington reconheceu o contributo dado por Descartes ao estudo dos reflexos condicionados.
10. O programa fisiológico de Descartes e seu impacto sobre as ciências modernas. Torna-se, portanto, necessário avaliar todo o programa fisiológico de Descartes, por oposição ao de Aristóteles, e os seus efeitos posteriores sobre a pesquisa e a actividade biomédicas. «De la Formation du Foetus» é outra obra que deve ser analisada, onde Descartes, que nunca se preocupou muito com a nutrição, aliás matéria muito aristotélica, admite ter perdido a esperança de descobrir as causas da auto-formação dos animais, especificando mais a anatomia do que o desenvolvimento.
Diante deste projecto ambicioso que urge concluir, torna-se muito difícil afirmar que Descartes defendia uma noção de «mente descorporalizada», como supõe António Damásio, sobretudo se levarmos em conta a noção de filosofia como «luta de classes na teoria» (Althusser). Ora, esta noção marxista de filosofia permite clarificar uma abordagem política do problema corpo/alma, actualmente reformulado em termos neurocientíficos pela filosofia da mente. Na sua obra «The Promise of Politics», Hannah Arendt (2005) escreveu nesse sentido:
«Todas as nossas fórmulas presentes que dizem que só os que sabem obedecer têm as qualificações requeridas para comandar, ou que só os que sabem governar-se a si próprios, podem legitimamente governar os outros, têm a sua origem nesta relação entre a política e a filosofia. A metáfora platónica de um conflito entre o corpo e a alma, visando originalmente exprimir o conflito entre filosofia e política, teve um impacto tão formidável sobre a nossa religião e a nossa história espiritual que encobriu a sua base da ordem da experiência de onde emergiu, do mesmo modo que a divisão platónica do homem em dois encobriu a experiência original do pensamento como diálogo dos dois-num-só, que está na raiz de todas as divisões desse tipo. Isto não significa que o conflito entre a filosofia e a política poderia vir a ser suavemente dissolvido numa teoria sobre a relação entre o corpo e a alma, mas quer dizer que ninguém depois de Platão teve como ele consciência da origem política do conflito, ou ousou exprimi-lo em termos tão radicais».

Theodor W. Adorno afirmou ser necessário retomar a ideia da origem política do problema das relações entre a alma e o corpo, no âmbito da teoria crítica da sociedade. Esta ideia da origem política do actual problema mente/cérebro fornece evidência para a tese segundo a qual a neurofilosofia pode ser definida, em última instância, como luta política no campo das neurociências. «Em última instância» significa que a neurofilosofia é muitas outras coisas, mas provavelmente todas elas possam ser submetidas a uma leitura política. A nossa tradição, incompreendida por António Damásio, tem defendido o duplo primado da razão sobre a emoção e da alma sobre o corpo. Pretender inverter este duplo primado, além de violar a dignidade da nossa tradição, ameaça o futuro da Civilização Ocidental e o seu domínio.

Assim, no seio das neurociências, surgiu recentemente o modelo neuro-económico ou a teoria da mente, que oferecem uma outra perspectiva científica mais congruente com o primado político da racionalidade e da dignidade do espírito humano. Estes últimos modelos são justos e ajustam-se aos ensinamentos «tradicionais», podendo ser lidos em termos políticos, como a necessidade de pensar e, portanto, de criticar uma sociedade metabolicamente reduzida, portanto, centrada exclusivamente nos interesses e desejos do corpo, muitas vezes mutilado e usado como objecto de exposição pública, tatuado e perfurado, em detrimento das faculdades espirituais humanas. A filosofia de Marx é materialista, não porque conceba o primado da «matéria» sobre a «consciência», mas porque visa a própria superação do materialismo incorporado no e pelo sistema capitalista. (Este post retoma ideias já apresentadas noutros posts, Fisiologia Cartesiana, Política da Mente e do Cérebro e Damásio e Espinosa.)
J Francisco Saraiva de Sousa

60 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Lamentavelmente, fiquei muito prisioneiros dos posts referidos. Devia ter dito que, quando Damásio reintroduz o corpo na equação, nada mais faz que retomar a formulação clássica do problema alma/corpo, com um toque efeminado: o combate da dor em nome do prazer! As ideias que alinhavamos sobre a fisiologia cartesiana mostram a complexidade da noção de corpo em Descartes. O dualismo é fundamentalmente uma orientação política e, como tal, é compatível com a noção de mente encarnada: a morte é morte total. O primado dado a qualquer um dos termos é politicamente suspeito: o do corpo significa autodestruição, o da alma, miséria humana, e ambos os «monismos» são politicamente conservadores. A filosofia deve mediá-los em função da crítica da sociedade estabelecida.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O século XVII, o de Descartes, foi, em termos de idade, um século da maturidade: cultiva-se a "velhice", portanto, a razão e a mente esclarecida (a cortesia), e não a juventude, portanto, o corpo sem mente (má educação), como sucede no nosso tempo. Darei conta destes conceitos noutro post.

Aveugle.Papillon disse...

Sim, a Filosofia nasce e existe nesse acto de divisão. Qualquer tentativa de o dissolver, acabará por extinguir a Filosofia.
E torna-se tentador parodiar Descartes, passados séculos... a "glândula pineal" vista de fora é risível, parece uma solução forçada e simplista aos problemas que o dualismo traz! De facto, é difícil apartar emoções de razões, há mais indicadores que estas instâncias se cruzam e confundem, do que o contrário. Por outro lado, em limite, há casos que põem em causa esse trânsito, e talvez devam ser estes analisados e compreendidos, no âmbito da disciplina da filosofia da mente.

Aveugle.Papillon disse...

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1323878

Engravidou o primeiro transexual.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Isto em Portugal está cada vez mais merda! Um transexual grávido? Falta de rigor de terminologia! Por outro lado, são alguns professores a dizer que não há violência nas escolas! Deviam levar uma surra nas aulas. Afinal, não é violência! Cabeças de caca de porco a pensar e a distinguir entre perturbação de desenvolvimento (1), indisciplina (2) e violência (3). Miséria de professores!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O dito transexual é mulher que engravidou!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Quanto ao tema deste post, ainda não consegui apresentá-lo tal como o penso. Procuro caminhos de fuga...

Aveugle.Papillon disse...

Ele assume-se como homem. E para efeitos identitários é homem.
Mas sem dúvida que é mulher porque é muito esperta... :)))

Aveugle.Papillon disse...

Eu era indisciplinada e não-violenta. Mas assisti a alguns casos de violência no meu período escolar: por parte de alunos e por parte de professores.

Manuel Rocha disse...

Estava eu a deslizar suavemente por esta prosa rica e bem ligada, quando "encalho" num "risco para o Ocidente..."

Como depois de tresler não cheguei lá, agradeço um comentário esclarecedor...:)

Excelente este post...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estava a ver filmes de terror.

Manuel

A nossa civilização é uma criação do espírito e a sua continuidade depende desse cultivo criativo do espírito. Ora, actualmente as pessoas têm a mente cada vez mais fechada ao esclarecimento: vivem em função das necessidades corporais manipuladas pela sociedade de consumo. Se olharmos bem para dentro dos seus olhos, vemos claramente que estão "cegos": os seus olhos já não são janelas da alma.
Quando fui tomar café, estive a escutar conversas de café: os jovens estão agressivos e falavam do caso da professora agredida, tomando partido pela aluna. Até se entende, mas a linguagem e a gestualidade foram muito agressivas. A conversa é absolutamente irracional e não vejo como se pode dar continuidade a uma aventura cultural quando os seus supostos portadores não sabem onde estão, donde vêem e para onde deviam ir. Preferem a vida sem pensamento e alienada na «juventude».

Papillon

Sim, é como diz; no entanto, a televisão apresenta o caso de outro modo. E as pessoas pouco cultas aceitam a ideia de que um transexual pode engravidar. Mesmo fazendo sexo, elas não percebem do assunto. Algumas dizem que podem engravidar de vários homens ao mesmo tempo. A escola é uma merda!

Manuel Rocha disse...

Está então falando numa consequência ( eventual ) de uma deriva civilizacional guiada pela emoção e pelo corpo ?

Aveugle.Papillon disse...

Caríssimo,
n sei, porque só acedi à notícia no "Público on-line".

Continuo a achar que o F. é muito irascível relativamente à leviandadde da juventude... eu concordo com Montaigne: "a velhice faz mais rugas no espírito do que na face..."


Durma bem e com sonhos doces, sem terror... :)

Manuel Rocha disse...

A Papillon tem uma certa razão no que está a dizer...Inclusive apanha o Francisco em contradição, pois quando ele aponta baterias aos "grisalhos" ( supostamente mais maduros ) não lhes poupa a adjectivação de leviandade, certo ?
:))
Concedo que os anos possam "ajudar" a adquirir essa maturidade, mas não os considero condição necessária nem suficiente.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

Já estamos a viver essa deriva civilizacional. Basta ligar a SIC Notícias: a jornalista afirma que no ensino privado não há "violência". Terrível mentira! Há uma forma de violência terrível que é abafada!

Papillon

Ai, quando me usa esses termos, fico sem saber o que dizer: As crianças não têm espírito! Os jovens andam à procura dele! As rugas são trazidas pelo passar dos anos. Uma mente culta sabe fazer face às rugas! Não é defendendo a juventude que se protege a juventude. Descartes vestia-se como "velho". Pascal foi um jovem "velho". O objectivo deles era serem adultos. Os falsos jovens de hoje são eternos jovens, isto é, irresponsáveis e ignorantes! Se não tem rugas, terá mais tarde. Deixe o tempo devir inocentemente...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Os "grisalhos" são os que nos governaram ao longo destes anos e que não nos libertaram o futuro.
Contradição? Não! Não nascemos com o espírito iluminado! Se não for cultivada, abandona-nos à animalidade. Quanto os "velhos" grisalhos, eles não cultivaram o espírito: são o retrato vivo do futuro dos jovens. Velhos sem espírito! O ciclo fechou-se e está viciado...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Hegel escreveu as grandes obras já bastante velho para a época! Que grandes obras! Dele herdei a dialéctica: faço a mediação entre jovens e "maduros", como os gregos. Cultura jovem e masculina, mas orientada pela sabedoria de Sócrates (mais velho que o seu jovem admirador)!

Aveugle.Papillon disse...

Desculpe mas n entende a profundidade da frase e daquilo que lhe venho sempre a dizer: eu n tenho medo das rugas, nem Montaigne teria, aliás, a filosofia é preparação para a morte, mas o facto de se ser velho, por si só, não nos dá valia nenhuma de juízo! Concordo que me diga que um jovem indigno será quase certamente um velho indigno, mas fazer o culto à velhice para mim é um pouco ridículo e estúpido (com todo o respeito!) e era isso que Montaigne dizia sempre...

Não se esqueça que esta sua crítica aos jovens é recorrente em TODAS as gerações, desde que a humanidade existe como é: "os jovens isto... os jovens aquilo... blá blá blá..." não tem noção em como isto n passa de uma lenga-lenga invevitável da meia-idade???

Que Deus me carregue de rugas, mas que me salve do amargo de espírito!!!!

Aveugle.Papillon disse...

Hegel foi um exemplo! Quer contra-exemplos? Leibniz!

Aveugle.Papillon disse...

Vc é boooooooooring. Sabe que mais?

Vou ouvir Schubert e ler Rimbaud, dois GRANDES artistas que criaram as suas obras-primas antes dos 25.

Bye

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Leibniz? O seu século valorizava a maturidade!
Eu fiz o "culto da velhice"?
Não relativize, Papillon! As conjunturas são diferentes. Estamos a lidar com outras ameaças!
Além disso, o conceito de juventude está muito corrompido, tornando-se sinónimo de irresponsabilidade! E veja o assunto independentemente da sua ou da nossa circunstância pessoal! Parece que reage a partir de um preconceito e sei que não é isso que pensa.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

(Eu não quero as rugas, mas quando vierem que venham.)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

25 anos!!!! Ainda eram bebés? Ou jovens! A Papillon é chata em português!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Como "Virgem", a Papillon pecou! (risossssssssssssssssss)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Para felicidade de uns e tristeza de outros, penso a possibilidade de fazer uma CYBERGREVE com duração indeterminada! Vou dormir sobre o assunto! Bye Papillllloni

André LF disse...

Francisco, li a reportagem a que vc se referiu e também fiquei espantado com a falta de rigor de terminologia! Transexual grávido é de doer!

Aveugle.Papillon disse...

Disse Leibniz porque ele começou a publicar filosofia desde muito novo.

Eu n boicotei ou violei o que disse, apenas me opus, e penso que expliquei porquê.

Se faz greve, está no seu direito. Mesmo que de uma birra se tratasse, tb estaria.
Mas a "virgem" Papillon vai ter saudades.

Bye

Manuel Rocha disse...

Bah !!!

Já li "ameaças" dessas noutras alturas, mas sem consequências...:))

Além disso não se parte ( não se devia ) para a greve sem esgotar o processo negocial...ora conte lá das suas reinvidicações sff...:))

Manuel Rocha disse...

Francisco e Papillon...

Se precisarem de um mediador para algum processo negocial pendente, disponham...:)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel: Ando cansado e já não sei se vale a pena lutar por um mundo diferente. Parece que neste Portugal nada vai mudar e isto porque as pessoas não querem mudar.
Já agora outro factor, talvez um dos fundamentais, que degradou ainda mais a nossa vida são os mass media tradicionais (TV, jornais e rádio): o reino da falta de bom senso e da ignorância activa.

Papillon: Desejo a crítica e sou crítico, mas a Papillon atirou-me com ideias que não eram minhas. Para mim, não se trata de defender a juventude, a maia-idade ou a velhice. Defendo a autonomia! Estou farto do discurso ideológico das ciências sociais: reduzem o ser humano a um agente sem responsabilidades e compromissos. Por isso, defendo a Filosofia como a única matriz teórica capaz de iluminar a realidade. (Aliás, logo no início a Papillon acusou-me de ser contra os grisalhos, dizendo que gostava dos velhinhos.) O ciclo infernal está fechado: todos são responsáveis em função do lugar que ocupam na sociedade.

André: A comunicação social é simplesmente um "espanto". Os seus profissionais tendem a ser muito idiotas, até porque o seu recrutamento aqui em Portugal foi e é viciado. Aliás, Portugal é um país viciado!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Já tenho editado posts escritos quando era ainda muito adolescente! 17 e 18 anos! Ou melhor: um "adulto" jovem! Quase tudo o que é filosófico deriva dessas idades "precoces", porque, como sabe, não tenho "emprego filosófico"; apenas compromisso e paixão filosóficas. É verdade: quase todos os mestres eram jovens, mas com uma diferença: adultos. Enfrentavam a vida mais cedo, sozinhos e sem desculpas. Agora o sistema económico adia a nossa vida e, quando temos alguma oportunidade, já somos relativamente "velhos".

Aveugle.Papillon disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aveugle.Papillon disse...

Eu também n digo que ser jovem de idade corresponda a algum estágio de verdade. Os jovens precisam de ser conduzidos, como na Grécia Antiga, e no auge da modernidade que aponta. Já não há mestres que se responsabilizem por tal condução, como podem haver jovens autónomos?
O único vislumbre de luz que posso ver será sempre na juventude. Porque os vícios ganham raízes fundas com a idade. Cada pessoa, neste caso, cada jovem, vê e sente o mundo pela primeira vez, por isso, instala-se uma abertura, uma fuga a partir da sua visão.

É claro que pode ser fraqueza da minha idade acreditar nesta possibilidade. Mas como aprendiz de amante da sabedoria que sou, movimento-me sempre no (des)equilíbrio.

Manuel Rocha disse...

Já lhe dei uma optima sugestão: mande a televisão às urtigas e faça greve aos jornais. Eu faço isso e não me dou mal.

Criar uma agenda própria fora do mimetismo dos media, como você tem feito, é um exercicio de liberdade.

Portanto, deixe de se fazer de "peixe morto" e trate de nadar contra a corrente...:))

Ou não sabe nadar ?!...:))

Aveugle.Papillon disse...

todos são responsáveis em função do lugar que ocupam na sociedade

Precisamente. É isso mesmo. Cada criança, jovem, adulto, velho, tem a sua dose de liberdade e responsabilidade, e todos devemos tomar conta uns dos outros. É a universalização e altruísmo que nos possibilita a dignidade humana. Assim se funda a nossa civilização greco-cristã.

Eu sempre me aproximei de pessoas mais velhas e continuo, porque me apercebi desde muito cedo, que me dariam mais instrumentos de sabedoria. Acho que é normal de seres naturalmente curiosos. Repare que esta ruptura entre jovens e velhos é muito terrível para a nossa sociedade: os velhos maldizem os jovens, os jovens desprezam os mais velhos. Assim, não há passagem de conhecimento, quebra-se o ciclo da sabedoria.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fraulein Papillon

Afinal, estamos de acordo no fundamental!

Manuel

Nadar contra a corrente é (in)felizmento) o meu destino!

Manuel Rocha disse...

Francisco,

Deixe-se de lamúrias que desse modo se mantem em forma e poupa no ginásio...:))

Papillon,

O problema que bem refere tem a ver, quanto a mim, com a velocidade inusitada em que se vive nesta nossa era....:(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fraulein Papillon escreveu e bem:

"Já não há mestres que se responsabilizem por tal condução, como podem haver jovens autónomos?"

Aquando de um congresso aqui no Porto, um responsável intelectual francês dizia que em França não há ninguém capaz de substituir os filósofos e intelectuais mortos ou em vias de morrer. Crise da inteligência!
Mas eu tenho dito isso várias vezes, sobretudo quando falo dos "grisalhos" pseudo-intelectuais: professores, universitários, artistas ou políticos deveras medíocres que destruiram o nosso sistema de ensino, porque se apoderaram corruptamente das universidades, para garantir a sua sobrevivência, à custa da qualidade.
Quando eles (dirigentes) falam da competitividade, estão a mentir com todos os dentes que têm na boca. Porque eles não foram, não são nem serão competitivos! Foi os sistema de favores que os colocou onde estão: não a sua competência! :(

F. Dias disse...

Acabo de regressar das profundezas dos infernos, e ex o que se me depara...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bom Dia Fernando Dias

Eu, o Manuel e a Papillon já tinhamos estranhado a sua ausência!
No Inferno estamos todos...

Manuel Rocha disse...

Ora aqui está um regresso que merece ser saudado !

Bom Dia, Fernando Dias !!

Está a ver, Francisco. como os dias também trazem boas noticias?

:))

Aveugle.Papillon disse...

Ai, Francisco...

Ontem à noite li uma entrevista de Foucault "Le philosophe masqué" (1980), que traduz o meu ponto de vista:

(jornalista) - Mas não acredita que a nossa época é realmente sem espíritos à altura dos seus problemas e sem grandes escritores?

(Foucault) - Não, não acredito no refrão da decadência, da ausência de escritores, da esterilidade do pensamento, do horizonte negro e tétrico.

Creio, pelo contrário, que há uma abundância excessiva. E que não sofremos por causa do vazio, mas porque os meios para pensar em tudo o que acontece sejam demasiado poucos. Há muitíssimas coisas a conhecer: fundamentais, terríveis, maravilhosas ou estranhas, ao mesmo tempo minúsculas e capitais. Além disso, há uma curiosidade imensa, uma necessidade, um desejo de conhecer. Lamentamos sempre que os media embotem a cabeça das pessoas. Nesta ideia há alguma misantropia. Acredito, pelo contrário, que as pessoas reagem: quanto mais se procura convencê-las, mais se interrogam. O espírito não é uma cera mole. É uma substância reactiva. E o desejo de saber mais, melhor e diversamente, cresce à medida que se procura encher as cabeças.
[...]

Ou seja, professo mais uma vez, em uníssono com Foucault, a minha fé no ser mais maravilhoso que existe, o ser humano.

Bem-vindo, F. Dias! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Li Foucault quando era puto e, quando entrei na universidade, "corrigia" o professor sempre que falava da "Arqueologia do saber" ou de "As Palavras e as Coisas". Foucault contribuiu muito para o mal que procuro exorcizar. Sofria de depressão, tentou suicidar-se, frequentava saunas, tinha amantes vedetas e morreu com Sida! Fraco optimismo!
Concordo com ele nalgumas coisas mas não o acompanho na orientação teórica. (Estou a ser franco, Papillon).

Um bom regresso o do Fernando Dias! :))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O Homem, essa "paixão inútil" (Sartre). (In)felizmente, os meus olhos também estão mais apaixonados pelo ser humano!

F. Dias disse...

É indizível a afectuosidade do vosso acolhimento, Francisco, Manuel e Papillon.
E que boas palavras de Papillon acerca da sua fé no ser mais maravilhoso

Aveugle.Papillon disse...

Suportarmos o nosso ponto de vista num autor, n quer dizer que o sigamos em toda a sua extensão de pensamento.
N fiz apologia a Foucault, servi-me das suas palavras; foi um pensador de relevo, por isso, o uso da sua autoridade é legítima.
Foucault foi filho do seu tempo e sofreu da sua "actualidade". Grandes artistas morreram de SIDA, e então? Acusá-lo de promiscuidade não lhe retira, nem acrescenta validade e verdade ao seu pensamento. É perigoso, até, viajar pela biografia dos autores, por isso, por vezes, prefiro nem me aventurar.

È tudo. Estou ranhosa, vou tomar um aerius.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, Papillon

Althusser, um dos meus mestres, "matou" a mulher e Foucault visitava-o frequentemente na Clínica! Também não ligo às biografias: valem o que valem!

Já li o seu poema, Fernando Dias. è mesmo bem-vindo! Faz parte integrante dos nossos cyberlaços!

Agora vou ler o post do Manuel.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Como não consegui atingir o objectivo almejado, como já reconheci, agora que pensei mais um pouco, vejo que estou nas imediações de Platão! Esta ideia "casa" com a crítica que faço dos actuais lideres ocidentais que, até comparados com Estaline, são "medíocres". Estaline pensava sobre filosofia, ciências, artes e legou-nos um pequeno tratado de linguística já escrito na sua fase "louca".
Os nossos lideres não sabem pensar para além de repetir umas estatísticas malvadamente manipuladas! Aqui entra Platão: Que miséria de políticos são estes que temos! É preciso reintroduzir o pensamento na política e dizer Não aos debates parlamentares indisciplinados. Afinal, os deputados oferecem um fraco retrato nacional e mau exemplo para os jovens que os escutam. Aprendem: Vale tudo! O governo do corpo contra o governo do espírito!
Dizer que o homem é um ser reactivo é uma evidência! Papillon, Falta saber se reage como o rato na caixa de Skinner ou como um ser livre e responsável! :)

F. Dias disse...

A identidade pessoal e o livre arbítrio é o refúgio dos teólogos para justificarem a escrita de deus?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Questão complexa essa que coloca! as noções de individualidade, de liberdade e de historicidade trazem a sua forte marca hebraico-cristã. Historicamente, isso é evidente, o que parece legitimar a ideia de que a filosofia da história secularizou a mensagem cristã. No entanto, o cristianismo que conhecemos sempre esteve helenizado.
Sim, de certo modo, a antropologia não pode abdicar de Deus! E muito menos ser tentada a colocar o homem no lugar de Deus. (Ideia inerente ao cristianismo!)
A noção de objectividade também é um substituto da ideia de revelação. Esta está presente na filosofia e na ciência. Devemos fazer uma nova leitura da nossa herança cultural, sem medos e preconceitos.
Liberdade e identidade são conceitos fortemente políticos, sobretudo quando vistos à luz da ideia de Indivíduo Autónomo. (Evitei mencionar o individualismo!) Não vejo a necessidade de mudar de objectivos. Precisamos é conhecer bem o que está mal e o que os distorceu... Mais outra heresia: No nosso íntimo Deus garante e conforta a nossa "individualidade irredutível".

Aveugle.Papillon disse...

Na própria transcrição, encontra a sua resposta: Acredito, pelo contrário, que as pessoas reagem: quanto mais se procura convencê-las, mais se interrogam
Logo, não está a falar da reactividade mecânica de um rato, mas da reactividade imaginativa e reflexiva que o ser humano tem, como é o caso da problematização, da interrogação, que constitui a liberdade de pensamento.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, Papillon: essa é a nossa luta milenar, mas estamos a ser confrontados com novos desafios. A nossa democracia é uma "democracia de massas" que "opera" num sistema capitalista que vê tudo em função do lucro. Estamos provavelmente mais longe do "pensamento"... Por isso, a hora pertence à Filosofia! Não às ciências sociais!
A propósito de ratos, algumas experiências recentes revelam a sua "inteligência": o experimentador também é observado pelos "seus" ratos! :)

Aveugle.Papillon disse...

Quand je me joue à ma chatte, qui sait si elle passe son temps de moi, plus que je ne fais d'elle!

As perguntas de ontem são as de hoje... :)))

F. Dias disse...

A mente tem um estatuto pessoal, fenomenológico, holista e não referencial. Daí não fazer sentido procurar estabelecer uma identidade entre os fenómenos mentais e os processos físicos no cérebro.

Portanto, não faz sentido perguntar:
“o que é que há no cérebro que é igual a esta dor que eu tenho?” ou
“a que é que corresponde no cérebro este pensamento?”

Há uma distinção entre o nível fenomenológico ou pessoal e o nível corporal (físico).
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Relação Eu-Tu (Martin Buber)
Em-Si e Para-Si-do-Outro (Sartre)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A nossa condição mortal a isso "obriga"! Aceitemos a nossa mortalidade! :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas há um aspecto positivo no meio de tudo isto: as pessoas começam a mostrar sinais de insatisfação com o sistema estabelecido! Cabe à Filosofia orientá-las... nessa luta contra a escravidão do consumo vadio.

André LF disse...

Francisco, espero que vc já tenha desistido de fazer uma Cybergreve! Nestes tempos de paralização do pensamento e da criatividade, é um grave crime nos privar dos seus posts. Os seus textos sempre me inspiram!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Afinal, não consigo desistir! Nasci assim desassossegado, irrequieto e hiperactivo!

Fernando Dias

O programa das neurociências está a precisar de ser esclarecido! Não há tecnologia que o salve nos moldes em que decorre!

António Chaves Ferrão disse...

Caro J Francisco Saraiva de Sousa
Li com imenso prazer a sua abordagem sobre a controvérsia entre Damásio e Descartes. Não estou minimamente familiarizado com os aspectos médicos do pensamento de Descartes, mas não tenho dúvida em situá-lo entre os pensadores mais rigorosos e marcantes de todos os tempos. Fiquei com a curiosidade aguçada sobre aspectos ainda na forja em futuras abordagens.
Abraço

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

António C. Ferrão

Descartes foi um dos génios do século de ouro. Infelizmente a obra científica dele é muito desconhecida. Outro aspecto brilhante da sua mente são os escritos musicais: uma "estética" desconhecida.