segunda-feira, 31 de março de 2008

Crise da Educação em Portugal

O programa "Prós e Contras" de hoje será dedicado novamente à educação. "Da palmatória ao empurrão" irá debruçar-se em torno das seguintes questões: "O que é a autoridade?, o que significa o respeito?, como se relacionam professores, alunos e pais?, dos tempos da palmatória às imagens do empurrão, quem manda hoje nas nossas escolas?, o que é ser professor e ser aluno?". Estas questões estão viciadas e, por isso, «o maior debate da televisão portuguesa» que vai reunir professores, alunos, pais, sociólogos e psicólogos, os coveiros activos da educação em Portugal, vai afogar-se em torno do lema peregrino e néscio «crescer e aprender em harmonia».
Como já dediquei muitos posts à situação da educação em Portugal, vou ser mais sintético nas teses que defendo, confrontando-as com as perspectivas filosóficas de Hannah Arendt e de Theodor W. Adorno. A tese fundamental limita-se a constatar que a educação em Portugal e no Ocidente está em crise profunda e essa crise começa gradualmente a instalar-se após o 25 de Abril de 1974, devido à implementação de políticas erradas da educação. O resultado é visível: a escolas portuguesas são cloacas comportamentais. Aquilo que a educação devia ter evitado instalou-se nas escolas: a barbárie.
Adorno definiu a barbárie como «algo muito simples»: apesar de viverem na civilização que atingiu «o mais elevado nível de desenvolvimento tecnológico, as pessoas encontram-se atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação à sua própria civilização, e não apenas por não terem na sua esmagadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes ao conceito de civilização, mas também por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, em terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda a civilização venha a explodir, aliás uma tendência imanente que a caracteriza». Diante desta catástrofe civilizacional iminente, a tarefa mais urgente da educação é «desbarbarizar» a escola e reorientar todos os outros objectivos educacionais em função desta tarefa. A filosofia da educação de Adorno gira, portanto, em torno da «educação após Auschwitz», visando um projecto educativo contra o regresso da barbárie. E eis que regressámos efectivamente à barbárie.
Hannah Arendt desenvolveu a noção de crise (periódica) da educação em função da experiência educativa americana, vendo nela um sinal da crise mais geral do desaparecimento do senso comum: o fracasso e a renúncia do juízo humano. Esta crise deve-se fundamentalmente ao impulso irracional «para igualar ou apagar tanto quanto possível as diferenças entre jovens e velhos, entre dotados e pouco dotados, entre crianças e adultos, e, particularmente, entre alunos e professores». Este nivelamento por baixo consumou-se «à custa da autoridade do mestre ou às expensas daquele que é mais dotado entre estudantes». As políticas e as reformas da educação facilitaram este colapso da educação. Hannah Arendt destaca «três pressupostos básicos»:
1. O Mundo Autónomo das Crianças. O primeiro pressuposto é «o de que existe um mundo autónomo da criança e uma sociedade autónoma formada entre crianças, e que se deve, na medida do possível, permitir que elas governem. Os adultos estão aí apenas para auxiliar esse governo».
Ora, este pressuposto emancipa a criança da autoridade dos adultos e, na escola, mina a autoridade dos professores, ao mesmo tempo que não a liberta da «tirania da maioria», a autoridade do grupo etário de que faz parte. Convém acrescentar que esta autonomia do mundo das crianças é fortemente reforçada e incentivada pelas modernas indústrias culturais juvenis que lucram com esta criação de um universo juvenil à custa da perda da autoridade dos adultos, sejam eles pais ou professores. A tirania do seu próprio grupo compar limita a capacidade de reacção das crianças, a qual «tende a ser ou o conformismo ou a delinquência juvenil, e frequentemente é uma mistura de ambos».
2. A Pedagogia e a Escola dos Professores. O segundo pressuposto básico está relacionado com o ensino: «Sob a influência da Psicologia moderna e dos princípios do Pragmatismo, a Pedagogia transformou-se numa ciência do ensino em geral a ponto de se emancipar inteiramente da matéria efectiva a ser ensinada». Segundo esta perspectiva, um professor é «um homem que pode simplesmente ensinar qualquer coisa; a sua formação é no ensino e não no domínio de qualquer assunto em particular».
Deste pressuposto resulta a grave negligência da «formação dos professores nas suas matérias». Como profissional do ensino, o professor já não precisa conhecer a sua matéria e, por isso, raramente encontra-se «um passo à frente da sua turma em matéria de conhecimento». Numa tal escola dos professores-funcionários do ensino, os estudantes são efectivamente abandonados aos seus próprios recursos, com a bênção das novas metodologias de ensino que dizem fomentar a investigação e o espírito crítico, e os próprios professores perdem a fonte mais legitima da autoridade do professor: «a pessoa que sabe mais e que pode fazer mais que (os alunos)». O pior é que a figura do «professor não-autoritário, que gostaria de se abster de todos os métodos de compulsão por ser capaz de confiar apenas na sua própria autoridade, não pode mais existir».
3. A Teoria Moderna da Aprendizagem. Este segundo pressuposto está intimamente ligado ao terceiro pressuposto básico sobre a aprendizagem. Este último pressuposto que encontrou expressão conceptual sistemática no Pragmatismo, é «o de que só é possível conhecer e compreender aquilo que nós próprios fizemos, e a sua aplicação à educação é tão primária quanto óbvia: consiste em substituir, na medida do possível, a aprendizagem pelo fazer. O motivo pelo qual não foi atribuída nenhuma importância ao domínio que tenha o professor da sua matéria foi o desejo de levá-lo ao exercício contínuo da actividade de aprendizagem, de tal modo que não transmitisse, como se dizia, "conhecimento petrificado", mas, ao invés disso, demonstrasse constantemente como o saber é produzido. A intenção consciente não era a de ensinar conhecimentos, mas sim inculcar uma habilidade, e o resultado foi uma espécie de transformação de instituições de ensino em instituições vocacionais que tiveram tanto êxito em ensinar a dirigir um automóvel ou a utilizar uma máquina de escrever (hoje o computador), ou, o que é mais importante para a "arte" de viver, como ter êxito com outras pessoas e ser popular, quanto foram incapazes de fazer com que a criança adquirisse os pré-requisitos normais de um currículo padrão».
O resultado é, como bem viu Hannah Arendt, a diluição da distinção entre brinquedo e trabalho, a favor do primeiro. Esta dupla-substituição da aprendizagem pelo fazer e do trabalho pelo brincar promove a infantilização: «Aquilo que, por excelência, deveria preparar a criança para o mundo dos adultos, o hábito gradualmente adquirido de trabalhar e de não brincar, é extinto em favor da autonomia do mundo da infância». Daqui resulta que, sob o pretexto de respeitar a independência da criança, esta é infantilizada até à vida adulta avançada e, portanto, «excluída do mundo dos adultos e mantida artificialmente no seu próprio mundo». A relação de ensino e de aprendizagem entre adultos e crianças é extinta, ao mesmo tempo que esta retenção da criança no seu próprio mundo oculta «o facto de que a criança é um ser humano em desenvolvimento, de que a infância é uma etapa temporária, uma preparação para a vida adulta».
Estes três pressupostos destruíram o sistema educativo, porque, «na medida em que procura estabelecer um mundo de crianças, (a educação moderna) destrói as condições necessárias ao desenvolvimento e crescimento vitais», adiando indefinidamente a sua entrada no mundo público dos adultos, sem que ninguém assuma a responsabilidade (colectiva) pelo mundo. Esta perda da autoridade foi iniciada na esfera política e, actualmente, invade a esfera escolar e a esfera privada do lar. Até mesmo os pais recusam-se a assumir a responsabilidade pelo mundo ao qual trouxeram as crianças e a escola deixou de ensinar às crianças como o mundo é. A barbárie instalou-se em todas as esferas da sociedade e, com a perda da autoridade e o não-respeito pela tradição, o poder corre o risco de ser vencido nas ruas pela violência. Desbarbarizar o Ocidente é actualmente a tarefa mais urgente que deve ser levada a cabo pelo poder político esclarecido pela Filosofia e não pela miséria dos modelos oriundos das ciências sociais, em particular da sociologia e da psicologia, os quais contribuíram para a destruição da educação para o conhecimento, a emancipação e a cidadania responsável, contra a barbárie.
Porém, o programa de Fátima Campos reúne os coveiros bárbaros da educação: professores, alunos, pais, sociólogos e psicólogos! Apesar de pretender contribuir para o esclarecimento das reformas e da sua necessidade, Fátima Campos arrisca-se a barbarizar ainda mais a situação. Mas aguardemos pelo programa e pelo comentário que faremos posteriormente ao mesmo. Entretanto, pode reler este post Violência Escolar e Barbárie.
J Francisco Saraiva de Sousa

23 comentários:

F. Dias disse...

Walter Benjamin, perseguido pela morte por recusa contra a barbárie, acabaria por vir a morrer em circunstâncias no mínimo muito enigmáticas...

F. Dias disse...

Concordo,
“a perda de autoridade foi iniciada na esfera política e, actualmente invade a esfera escolar e a esfera privada do lar.[…] A barbárie instalou-se e o poder corre o risco de ser vencido nas ruas pela violência…”
E aguardemos

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

... Pelo declínio desta maravilhosa aventura que foi o Ocidente! Mas não vou desistir de lutar pela sua continuidade vital... :(

Manuel Rocha disse...

Faltou talvez dizer que da escola se espera demais. Como a sociedade em geral se demitiu de educar, à escola não nos basta que prioritáriamente ensine. Pede-se-lhe ainda que seja desde os pais ausentes até ...

De resto é um pouco o que a sociedade em geral faz em relação ao poder instituido, que tem de se desmultiplicar na satisfação das exigências de uma cidadania demissionária, corrupta e de uma enorme desonestidade intelectual.

Não estou seguro se os problemas da escola de massas terão solução em contexto de massas. Duvido que tenham. E que naturalmente decorra o que acontece por essa Europa e nos EU, onde as escolas privadas foram a solução para as classes mais exigentes.

Bom post !

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

Concordo consigo: "Faltou talvez dizer que da escola se espera demais." Ivan Illich tratou esse aspecto na sua crítica das escolas: aqueles tipos de professores que eram substitutos dos pais mas sem ensinar...
A solução das escolas privadas é a mais fácil, mas também nessas escolas há «agressão» e corrupção activa, talvez mais dissimulada e «diplomática»...
O contexto de massas precisa ser mudado: a educação deverá transcendê-lo de algum modo. Caso contrário, as escolas públicas estão condenadas... e o ensino torna-se negócio.

Manuel Rocha disse...

Também não sou apologista dessas escolinhas que na prática acabam por ser a forma que os pais de mais posses encontram para se demitir das suas obrigações ( pagando ) sem grandes problemas de consciência.

Acho que andamos às voltas com problemas que nascem todos do facto de a célula social que era a familia se ter desmoronado e não termos ainda encontrado substituto adequado.

PS: ainda ando à digerir o seu penúltimo post....;)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Vou ver se escrevo daqui a uns dias um post sobre autoridade. No seio da teoria crítica, a autoridade goza de pouca simpatia. Vou tentar recuperar a autoridade numa perspectiva crítica, sem fazer muita violência hermenêutica aos mestres (Marcuse e Horkheimer) e levando em conta aquele desafio que me fez via e-mail. O Milgram!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Li qualquer coisa sobre a morte de Walter Benjamin: suicídio ou homicídio!? Mas não localizo mentalmente a fonte. Penso que Horkheimer tentou esclarecer esse acontecimento trágico, aliás ventilado na sua correspondência. Scholem também fala disso...

Aveugle.Papillon disse...

De novo a educação!

A parte introdutória é interessante, o diagnóstico de Adorno, sobretudo, a "agressividade e ódio primitivos", a vitória de Thanatos, (que no outro post penso que mencionou), e a pretensão de um projecto de educação que vede o derrame barbárico!

O corpo do texto entregue a Arendt, suscita-me dúvidas..., que por outras vezes tb me referi, especialmente porque n concordo com o princípio "...de que a criança é um ser humano em desenvolvimento, de que a infância é uma etapa temporária, uma preparação para a vida adulta". Pelo contrário, atribuo-lhes liberdade e responsabilidade próprias e, assim, possibilidade de plenitude: qualquer tempo de vida aparece no seu máximo. Isto não quer dizer que elas possam fazer aquilo que lhes apetece, mas negar o ponto de vista da criança é negar a nossa capacidade para o compreender! O que n é incompatível com uma educação para o futuro, como cidadão do mundo. As regras são estruturais, ou seja, possibilitam a liberdade e a autonomia, no sentido autêntico do termo.

Relativamente à "Pedagogia", ela chegou ao extremo absurdo que enunciou: «um professor é "um homem que pode simplesmente ensinar qualquer coisa[...]», o erradicar do senso comum, muito perigoso, de resto.

As teorias modernas de aprendizagem fazem sentido, porque o professor não voltará, nunca mais, a ser o tradicional trasmissor de conhecimentos. Essa figura está irremediavelmente perdida, e, como tal, esse é o futuro. Como sabe, o conhecimento está, neste momento, disponível como nunca esteve, logo esse tipo de figura torna-se caricata e dispensável - (daí o professor ser objecto de agressividade, de indignação por parte dos alunos e remeto à parte de cima!). Por exemplo, eu desde a primária que ia sistematicamente para a rua (já não sou do tempo das reguadas) e isto porque cheguei à escola e sabia muito mais do que deveria ou, seja, quiseram-me passar 2 ou 3 anos à frente, mas como o meu pai n deixou, fiquei lá a... brincar...:)

A figura do professor tem de ser um condutor, à maneira socrática, ou seja o academismo como o conhecemos tenderá a finar, pois é insustentável e dispensável. O que não significa que ela perca "autoridade", ou que não precise de ter conhecimentos: muito pelo contrário! Em nenhuma altura, ao contrário de que o F. vaticina, a procura e competição pelo saber foi mais proporcionada; o que tem de acontecer é um enraizar e racionalizar, o que consistirá, portanto, na filosofia como base para a educação.

Aveugle.Papillon disse...

Benjamin suicidou-se!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

O suicídio de Benjamin é pouco conhecido: a obra-prima dele perdeu-se e, pelas cartas, ele não mostra muito interesse em perder a vida, embora temesse por ela.

Não concebo essa autonomia do mundo infantil, porque as crianças estão longe de poder assumir responsabilidade! Somos seres prematuros e de desenvolvimento lento! Até as famílias começam a ser tiranizadas pela infância tirana: a violência filhos-pais!
A escola deve fazer a mediação/passagem do mundo privado do lar para o mundo público dos adultos.
Papillon, também fui aluno antecipado e à frente dos professores e isso não fez de mim um delinquente, mesmo quando era alvo de injustiça. Mas respeito a sua posição, embora lhe diga que este prolongar da infância pela vida adulta é frustrante e condicionado pela economia e pelo mercado de trabalho.

Aveugle.Papillon disse...

Obg por respeitar, só demonstra que foi bem educado. :)

O que me diz é contraditório, e é por isso que não concordo: se despreza as capacidades e a legitimidade do ponto de vista da criança, como a pode tornar autónoma? Os adultos devem proporcionar o caminho da verdade e da felicidade e não do utilitarismo e econimicismo (ao contrário do q diz)! A autoridade escondeu sempre bases precárias de conhecimento! Se admitirmos a inteligência e capacidades do jovem, é-nos exigido muito mais, pode crer! O pedantismo só esconde podridão de ser e conhecer! Humildade, curiosidade, admiração, são precisas! Os verdadeiros mestres são os gregos!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Também não concordo com a noção de que as crianças podem tomar conta da sua socialização e formação, abdicando dos pais e dos professores, porque não são como as aves precociais. Não nascemos com todo esse conhecimento inato.
Afinal, mesmo aquelas que estão mais adiantadas aprendem consultado os outros..., os livros, as fontes disponibilizadas pela Internet, etc. Há sempre uma figura "professoral" e tutelar, como Sócrates no seu tempo...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, mas fui educado pelos meus pais e sempre aprendi alguma coisa com alguns professores. Com os outros aprendi tudo aquilo que não queria ser! :)))

Aveugle.Papillon disse...

Ainda bem q n se tornou delinquente, mas talvez porque teve apoio da sua família e amigos, ou porque é da própria natureza amar a vida.
Posso-lhe dizer que se estou viva e se não me auto-destruí foi pelos pais que tive e alguns amigos tb. Por isso estou grata e é minha missão ajudar os que, como eu, se dispersam.

Oh Francisco, eu disse que acediam ao conhecimento inatamente? O conhecimento deve ser introduzido às crianças, claro que sim. Sem conhecimento, não há questões sobre o conhecimento. Aliás o que eu disse foi que até neste momento há mais vias de acesso ao conhecimento, como nunca houve, por isso leia-me com mais atenção.

Aveugle.Papillon disse...

E tb n disse q se deviam abdicar os pais, assim teria crias-selvagens!

Mas dos professores, pode crer que como as coisas estão, talvez os meus filhos ainda serão educados em casa, como os ciganos. :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Fala de uma "autoridade" autoritária que abusa do posto para tentar ser alguma coisa no mundo. Isso é mediocridade, na melhor das hipóteses. A autoridade está ligada à responsabilidade pelo mundo: aquilo que partilhamos com os outros e exige bom uso do juízo.
Mas, como tenho dito, o ciclo infernal está fechado: da escola primária até à universidade, passando pelo secundário. Este é outro problema: a credibilidade das licenciaturas e de outros graus académicos e a profissionalização do ensino, de resto aflorado no ponto dois.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Acordo total:

"Mas dos professores, pode crer que como as coisas estão, talvez os meus filhos ainda serão educados em casa, como os ciganos."

Estes professores já são fruto da crise. Com eles não há saída!

Então, o nossa divergência, se existe, diz respeito ao papel do professor: eu destaco a sua função de transmitir conteúdos de conhecimento e, deste modo, preparar o ingresso das crianças no mundo público, capazes de tomar decisões racionais e responder por elas. Sócrates é um exemplo dessa atitude! (Não o PM mas o filósofo.)

Aveugle.Papillon disse...

A autoridade no sentido de tradição. Ok, eu tb sou fiel à tradição e à autoridade, aliás, se quisermos defender a Filosofia, desvinculá-la da tradição é matá-la ou destituí-la de sentido.

Quanto à credibilidade das licenciaturas, elas até podem ser medíocres, mas cabe a nós, que saímos das universidades, não nos afundarmos nessa evidência e lançarmo-nos na procura de melhor. O mundo não é só a escola. E ainda bem - podemo-nos salvar!

Precisamente, F. (estamos a encontrar-nos), mas para isso tem de admitir a capacidade das crianças, a sua autonomia, tal como Sócrates fazia, apesar da sua ironia, ele não desconfiava à partida dos seus interlocutores, senão o diálogo era falso e estéril! Para elas serem adultos competentes, têm de ser crianças e jovens pensantes e nós temos de fazê-los pensar. Atentar à sua natureza e puxar por eles. O homem é feito para a progressão, para almejar a perfeição, e a partir da curiosidade natural e do esforço do pensamento, é possível chegar-se lá, a cada ritmo, a cada natureza. É claro que n é fácil. Mas o melhor da vida é difícil!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Aliás, o que é difícil é belo, apetecível e bom. :)

F. Dias disse...

Está interessante este vosso diálogo quase platónico.Mas Francisco: então e se dermos canas de pesca novas aos professores? para cruzar aqui uma metáfora chinesa?

Quanto ao Sócrates também consta que andava a meter na cabeça dos jovens ideias maléficas e por isso temos aqui outra morte misteriosa.Todos podem ter coisas boas e coisas más. Há quem diga que ele pertencia àquele grupo iniciático de Eleusis, escola de mistérios, etc. o Francisco ou a Papillon são capaz de saber mais coisas a respeito. Não querem dizer alguma coisa acerca do que representa um verdadeiro Mestre neste sentido? Ninguém aprende a tocar violino ou piano sem um bom mestre. Com as outras coisas que importam para a vida não será a mesma coisa?

Portanto, deitar fora estes professores e mandar vir outros não faz sentido...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

As questões que coloca são mais dirigidas à Papillon. Sócrates teve esse aspecto "fraco": demasiada Obediência Civil e, por isso, deitou fora a possibilidade de escapar à morte.
Penso que todos os filósofos gregos sofreram essas influências "religiosas" do seu tempo.
O despedimento dos professores já foi ventilada por um político como hipótese académica. Mas também não tinhamos professores para os substituir. Não segui essa medida, embora não seja contra o afastamento dos demasiado incompetentes.

Aveugle.Papillon disse...

Caro F. Dias

Os Mistérios de Elêusis - nome de uma cidade perto de Atenas -, eram ritos de iniciação muito conhecidos e importantes da religião Antiguidade Clássica. Mistérios designam, precisamente segredos, aos quais só alguns poderiam aceder, dada a sua capacidade intelectual e o seu grau de espiritualidade. Há vários Mistérios, estes em particular visam o mito de Deméter - deusa da Terra, da agricultura e da sua filha Perséfone - deusa do Hades, um proto-Inferno. Pode consultar este mito facilmente, até via wikipédia, mas simbolicamente ele pretende evocar o confronto com a morte - uma vida autêntica tem de ter este reconhecimento.
Ora, a Filosofia como diz Sócrates no Fédon é preparação para a morte e o filósofo é uma espécie de iniciado (Ménon). Ora, só sabemos da vida de Sócrates a partir de Platão e Xenofonte e estas fontes não nos garantem em absoluto que o maior sábio de todos os tempos se tenha iniciado ou não nos Mistérios de Elêusis, mas, especulemos com graaaaande probabilidade que sim. :)