domingo, 28 de outubro de 2007

Fernando Pessoa: O Poeta das Trevas

Sempre alimentei o projecto de fazer uma leitura filosófica da poesia nacional e descobrir nela as ideias-força que estrangulam Portugal. Mas ler os poetas portugueses não é tarefa fácil e agradável: a poesia portuguesa é pouco dada ao pensamento e, quando explicita um pensamento, ficamos completamente «espantados» com a sua pobreza. É este o caso de Fernando Pessoa, um poeta que tem sido venerado como se fosse extraordinário, quando na verdade é inconsequente, medíocre e obscurantista.
Joel Serrão foi um dos poucos intelectuais portugueses que demonstrou a mediocridade do homem e do poeta chamado Fernando Pessoa:
«Na obra de Pessoa tudo se interliga, mesmo que o resultado final seja, acaso, uma dada sorte de capelas imperfeitas, irremediavelmente imperfeitas --- e sobretudo sem a abóbada que nelas se teima em considerar implícita. Ou, talvez, melhor: capelas susceptíveis de abóbadas várias, mas da exclusiva responsabilidade de quem se atreva, agora, a lançá-las... Quanto a Pessoa, ele jamais a construiu, não porque o não quisesse ou o não tivesse tentado ou não tivesse sabido a falta que fazia, mas, simplesmente, porque não pode».
Em suma: Fernando Pessoa é um projecto fracassado: sonhou muito mas sem ser capaz de realizar os projectos sonhados. E o seu pensamento político é profundamente reaccionário. Pessoa diz/escreve constantemente barbaridades em nome da «defesa da ditadura militar».
Contra o comunismo, Pessoa escreve: «Se dermos mais um passo neste jogo de acções e reacções, estaremos no comunismo e em comer raízes --- aliás o término natural desse sistema humanitário». Os russos são retratados com estas palavras: «o gado russo, aqueles animais a que se chama o povo russo... Há alguém que, a sério, julgue que a Revolução Russa transformou alguma coisa de fundamental?» Lenine e Trotsky são «figuras desmanchadas e reles», «infelizes que, em uma época científica, governam à romântica». A estupidez de Pessoa é descomunal: a sua «figura desmanchada» e dispersa, dependente da droga, mais animalesca do que humanizada, verbaliza sem conhecimento de causa. A sua concepção da língua é que é romântica e, na conexão total do seu pensamento político antirevolucionário e antidemocrático, revela o seu obscurantismo numa época da ciência e da técnica. Tal como Leonardo Coimbra, Pessoa fala da revolução e da «questão bolchevique» sem ter conhecimentos filosóficos substanciais. Aliás, a chamada «filosofia portuguesa» é um grito nacionalista: «somos filósofos originais, afirmam os luso-filósofos, porque não precisamos dos estrangeiros e da sua tradição. A nossa língua é filosofia». Da merda, acrescentemos rapidamente... (Não é o anticomunismo de Pessoa que está em causa, mas o seu espírito antidemocrático.)
Contra o proletariado e os trabalhadores, Pessoa escreve estas palavras cruéis: «O que é certo é que entre um operário e um macaco há menos diferença que entre um operário e um homem realmente culto». O poeta sem abóbada e sem orientação teórica inclui-se nas «classes cultas» e, como «homem realmente culto» (sic), aconselha as «classes a-políticas» (os ricos): «Reduzir o proletariado tanto quanto possível à situação de escravos. Fazer isto de modo disfarçado, careto, íntimo. A plebe deve ser o instrumento dos imperialistas, casta dominadora, mas escrava deles, ligada a eles por uma comunidade de misticismo nacional, de modo que voluntariamente seja escrava, desde nascença esteja involuntariamente conforme com a condição que se lhe impõe».
De modo inteligente, Joel Serrão mostra que este desprezo pelo trabalhador e pela justiça social está de acordo com o poema XXXII de «O Guardador de Rebanho» (1911-1912), de Alberto Caeiro:
«Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça.
E dos operários que sofrem.
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
«(Mas eu mal o estava ouvindo.
Que me importam a mim os homens
E os que sofrem ou supõem que sofram? etc.)»
Apesar de ter muitas caras, Pessoa tem sempre uma só cara, no tocante à «justiça» e à «luta para haver justiça». Este facto mostra que a sua poesia não pode ser lida fora desta conexão política: Pessoa foi o poeta do regime salazarista (Pensemos nos poemas sobre Salazar!), sonhado como prelúdio da sua bobagem política, o «Quinto Império». E, mesmo quando pensa a língua como pátria, fá-lo para isolar Portugal do mundo: o seu nacionalismo é verdadeiramente castrador e o seu sebastianismo mais não é do que justificação ideológica de um sistema que procura fazer dos trabalhadores escravos voluntários das castas dominantes. Mas, afinal, Fernando Pessoa foi e é lisboeta...
J Francisco Saraiva de Sousa

12 comentários:

Helena Antunes disse...

Para mim Fernando Pessoa foi um génio!
Sou uma grande admiradora da sua obra poética.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Depende da concepção de génio: tem uma obra poética interessante, mas sem apontar para um futuro aberto e livre da miséria.

zmig disse...

Primeiro, queira desculpar-me por este comentário ser tão extemporãneo, mas, de facto, julgo que há temas e realidades que não obedecem a uma linearidade cronológica. Pois bem...

Afinal parece que ninguém se livra de esperar um "D. Sebastião", o senhor procura alguém que lhe aponte um futuro. Certo, é muito humano da sua parte e não desgosto totalmente.

"Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se." Ricardo Reis

No entanto, me parece também, que tem uma certa preferência por quem, de uma forma ou de outra, tenta esquadrinhar o mundo, se necessário à martelada, para poder encaixá-lo, muito recto e direitinho, acomodado à forma rectangular de suas obras e do seu pensamento. O que isso terá de "aberto" e "liberto de miséria", sinceramente não compreendo, mas que fazer?

" Há pessoas a quem o arranhar das paredes impressiona
E outras que se não impressionam
Mas o arranhar das paredes é sempre igual
E a diferença vem das pessoas. Mas se há diferença entre este sentir
Haverá diferença pessoal no sentir das outras coisas
E quando todos, pensem igual duma coisa é porque ela é diferente para cada um" F. Pessoa, (sem vestígio de macacada, e com bastante pensamento, como me parece que você gosta, para poder compilar numa qualquer obtusa obra fenomenológica)

Agora uma coisa me indignou; que arraste a complexa diversidade do pensamento-sentimento de um poeta para o esquema maniqueísta e redutor do seu gelo laminar. A ausência, bastante evidente, de sensibilidade poética da sua parte, deixam-me bastante apreensivo, por isso lhe imploro: Por favor, não alimente o seu "projecto de fazer uma leitura filosófica da poesia nacional", até porque, como confessou, isso não lhe será nada "agradável", não vejo razão para se contrariar, porque, na verdade, não vai descobrir o que quer que seja que não esteja já na sua cabeça, e isso a mim nada me espanta, mas, sinceramente, aflige-me um pouco.

Outra coisa, que em nada me espanta, é que traga consigo um capanga, armado com sua verborreia, para esta surra desleal, ainda por cima para acrescentar observações tão levianas quanto ingénuas, que chegam, enfim, a roçar a comicidade ( "Fernando Pessoa é um projecto fracassado:" etc.. gostaria então,( ai como gostaria! ) que me pudesse apresentar um poeta, menos medíocre portanto, que tenha conseguido construir a "capela" perfeita, e consubstanciado a magnífica proeza de elevar a sua vida real aos píncaros dos sonhos da sua aspiração.

Mas, de facto, num aspecto tenho que concordar inteiramente consigo: "A estupidez de Pessoa é descomunal" e por isso mesmo é que não tem igual, e não interprete aqui qualquer forma de culto endeusado, pois não o estou a querer colocar em nenhum altar ou patamar superior ao de qualquer outro poeta, ao contrário do que algumas pessoas fazem com certos livros de receitas, nem o próprio Fernando Pessoa gostaria disso com certeza, pois procurou manter uma digna humildade intelectual ao longo da sua simples vida ( nem sempre o conseguiu é certo, mas desta matéria somos feitos, e imperfeitos... ), dentro da qual, e ao contrário da dita, a sua complexa obra foi plasticamente construída, aí tendo sido a "sua figura desmanchada e dispersa" o principal vínculo do seu caleidoscópico estilo, estar a exigir o contrário seria como julgar Picasso por não ter sido realista.

Quanto ao uso de álcool, medicamentos e outros encantamentos... ora, estar a avaliar um qualquer artista, um qualquer filósofo ou um qualquer escriturário a partir dessa perspectiva moralizante e mesquinha, seria convidar ao olvido as inúmeras manifestações excepcionais da História humana, sem as quais seríamos relativa e absolutamente ( não, não é um lapso, é um paradoxo) mais animais.

E, por fim, se então lhe causa alguma confusão que alguém "verbalize sem conhecimento de facto", apenas lhe posso deixar uma questão: porquê a filosofia, não lhe bastaria talvez a dactilografia? "Da merda, acrescentemos rapidamente..."

E o resto deixo para mais tarde...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

zmig

Se acha que Fernando Pessoa é um grande poeta/pensador, o problema é seu. De resto, este post vinha a propósito de Joel Serrão e do debate sobre a chamada "filosofia portuguesa". Nesse aspecto, Pessoa representa o que há de mais malvado no pensamento português. Sim, é muito medíocre: uma visão da história alucinada e reaccionária. De facto, dactilografia da merda!!!!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Quanto ao seu comentário "porquê a filosofia, não lhe bastaria talvez a dactilografia?", nem sequer vou comentar...

zmig disse...

Também concordo totalmente, não vale a pena comentar..
Para mim, Fernando Pessoa foi um poeta. Pensador, claro, como qualquer pessoa teve as suas ideias, e também, porque não, ideias de outros. Não vejo aí qualquer problema, nem meu, nem seu, nem de ninguém. Sua vasta obra aos poucos vem sendo revelada, sendo mais conhecida, estudada e divulgada actualmente do que durante o Estado Novo. Por isso mesmo, é, para mim, difícil entende-lo como "o poeta do regime salazarista".
Não precisa acusá-lo de medíocre e reaccionário basta pedir ao próprio sua opinião:

" Sou vil, sou reles, como toda a gente
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.

É com a imaginação que eu amo o bem."

Como vê, foi o próprio, que assim se definiu.. o malvado! Há sempre alguém que julga ter a fórmula para extirpar o mal do mundo, e assim a História se vai alimentando de alucinações.

ps: a filosofia portuguesa nunca existiu, não existe e nunca existirá, não adianta procurá-la, o que vai acontecer é você encontrar pessoas que amam pluralmente o saber, movidos por uma universal compreensão criativa e imbuídos de mediterrânica inteligência afectiva, a quem você vai chamar nomes feios; e o resto são ventos do nordeste, que por vezes sabem bem, nas orelhas, quando está muito calor.

Não precisa de comentar, foi um prazer.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

zmig

Afinal, parece que não aprecia muito Pessoa e com razão: o pensamento de Pessoa dispersa-se como o vento e refugia-se em ambiguidades. Ideias soltas em luta permanente umas com as outras e, quando parecem dizer alguma coisa, dizem o Quinto Império: uma alucinação meta-histórica. Prefiro Guerra Junqueiro: tenta pensar fora dessa "ideia nacional". Isto não significa que não goste de ler a poesia de Pessoa...
Será sempre bem-vindo!
Cumprimentos

zmig disse...

Afinal, parece que subverteu as minhas palavras, também gosto disso. Considero Pessoa um poeta; não é qualquer versejador que incluo nesta categoria. Aprecio, por isso, a sua poesia, com emoção e consciência. Os pensamentos de Pessoa velejam com o vento e enfrentam as ambiguidades; soltam as ideias, para que lutem alucinadas no que parecem, e digam, umas com as outras, alguma coisa da sua impermanência. Dizem: Sempre. Tentam o Quinto Império, fora duma ideia histórica, de preferência meta-nacional.
Você e Guerra Junqueiro serão bem-vindos,
Cumpriremos?
Isto não significa que eu não goste de ler a poesia de Basho Matsuo, Friedrich Holderlin, William Blake, Vinicius de Moraes ou Herberto Helder...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Gosto dos 4 últimos, especialmente do primeiro, bem como de Georg Trakl e Florbela Espanca e Celan e tantos outros.
Também gosto das poesias de Pessoa, mas no seu conjunto não vejo o seu "lugar": o ponto a partir do qual posso meditar. Com os poetas que refere isso é fácil.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Pensando bem, o Quinto Império pode ser repensado, embora a tarefa possa ser difícil. Contudo, o pensamento tem os seus segredos e não há nada que lhe possa escapar... :)

Pedro disse...

Fernando Pessoa... concordo e também o acuso de reaccionário, disse muitas das maiores imbecilidades que já vi em literatura, mas também vi precisamente o contrário na sua obra heterónima. Ele escreveu um dia no seu auto-retrato caracterizando-se anti-socialista e anti-comunista, mas também escreveu o facto de ser anti-fascista. Ele não era nada, agora é um grande poeta para os portuguesas segundo aprendemos na escola. No estrngeiro ainda há dificuldade em ser aceite precisamente pelo facto das suas controvérsias o deixarem muitas vezes em más interpretações e outras numa falta de filosofia. O mesmo digo de António Nobre. Coisa que não aconteceu com Antero de Quental que fora um homem de pouca aparência, e por isso menos falso, com um intelecto para além da sua época. Para mais não fosse a filosofia dos modernistas de Lisboa que por muito tetmpo vi ser a única da época em Portugal, estava muito abaixo do nível daqueça que desprezada fez erguer o Porto na instauração da Répública, e continuou durante os anos seguinte. Exmplo disso é Ângelo Jorge, quase desaparecido e tão pouco ser conhecido, que, mesmo se literáriamente era pouco interessante, apresentou uma filosofia de vida muito mais proóxima daquela por quem muitos intelectuais actuais tomam caminho. E essa questão da ideologia, de a ter ou não, são mais imbecilidades de Pessoa, como também desse jogo medíocre em que caíram de quem gosta ou não do poeta. A ideologia é uma forma rígida, polar e sectarizante? A falta dela é resignação, conmodismo e por isso nada? Ora as duas são verdades, a questão é onde está a filosofia? A de Fernando Pessoa era pobre. A poesia é rica nos heterónimos, nos espasmos contra a guerra de Álvaro de Campos, no anti-catlicismo de Alberto Caeiro, por exemplo, e isto porque com forma, mas sem conteúdo um poema não pode ser mais que um poema fraco. A estética, a técnica e a ética são os príncipios para que a arte se reúna em si mesma e se constitua.
Eu já li tudo quanto encontrei de Fernando Pessoa, e considero também uma mentalidade mesquinha por detrás de toda a falta de capacidade creativa. Para mais não seja um frustrado que utilizou isso como pretexto para representar todas as frustrações da sua época e dos anos seguintes até agora. Olhai os estudantes portuguesas e poderão ver que a maior parte deles são o reflexo da pouca poesia que conhecem, embanhados numa falta de intelectualismo, enfrascando-se em alcóol sem fins esperados, levantando pastas que benzem em igrejas, e vestidos como na idade média com capas demarcando a elite "intelectual" daquela do "macaco" que é o operário que ao menos sabe cultivar batatas melhor que comprar congelados para meter no micro-ondas e sandes de atum quando estão de ressaca para ir às cantinas universitárias. Esses doutores são os nossos engenheiros, os nossos banqueiros, os nosso ministros, os nossos representantes, e onde é que fica Pessoa no meio disto tudo sabendo que o "modesto" poeta que superaria Camões estava consciente de que também não eram muitos na época a saber ler e escrever e dos poucos que sabiam, estes estavam repletos de propagandas, guerras partidárias, religião, e no povo o anarco-sindicalismo expandia e punha em causa a república? Ora deixa-me lá não ser de nenhum, agradar toda a gente e provocar um bocadinho de tempos a tempos. Para mais não falar no amigo que mais o promoveu, Almada Negreiros, que era paupérrissimo de filosofia pois se condicionou a um nacionalismo provinciano que ainda vinha de Teixeira Pascoaes. Pessoa só foi conhecido mais tarde durante o fascismo ee ultra-valorizado a partir dos anos 80quando os portugueses já não têm uma India, uma Angola, um Cabo Verde para explorar, e pequeninos não sabemos para onde nos virar. Pessoa não sabia para onde se virar, mas tinha um desejo de glória como todo o nosso Portugal.

Pedro disse...

Fernando Pessoa... concordo e também o acuso de reaccionário, disse muitas das maiores imbecilidades que já vi em literatura, mas também vi precisamente o contrário na sua obra heterónima. Ele escreveu um dia no seu auto-retrato caracterizando-se anti-socialista e anti-comunista, mas também escreveu o facto de ser anti-fascista. Ele não era nada, agora é um grande poeta para os portuguesas segundo aprendemos na escola. No estrngeiro ainda há dificuldade em ser aceite precisamente pelo facto das suas controvérsias o deixarem muitas vezes em más interpretações e outras numa falta de filosofia. O mesmo digo de António Nobre. Coisa que não aconteceu com Antero de Quental que fora um homem de pouca aparência, e por isso menos falso, com um intelecto para além da sua época. Para mais não fosse a filosofia dos modernistas de Lisboa que por muito tetmpo vi ser a única da época em Portugal, estava muito abaixo do nível daqueça que desprezada fez erguer o Porto na instauração da Répública, e continuou durante os anos seguinte. Exmplo disso é Ângelo Jorge, quase desaparecido e tão pouco ser conhecido, que, mesmo se literáriamente era pouco interessante, apresentou uma filosofia de vida muito mais proóxima daquela por quem muitos intelectuais actuais tomam caminho. E essa questão da ideologia, de a ter ou não, são mais imbecilidades de Pessoa, como também desse jogo medíocre em que caíram de quem gosta ou não do poeta. A ideologia é uma forma rígida, polar e sectarizante? A falta dela é resignação, conmodismo e por isso nada? Ora as duas são verdades, a questão é onde está a filosofia? A de Fernando Pessoa era pobre. A poesia é rica nos heterónimos, nos espasmos contra a guerra de Álvaro de Campos, no anti-catlicismo de Alberto Caeiro, por exemplo, e isto porque com forma, mas sem conteúdo um poema não pode ser mais que um poema fraco. A estética, a técnica e a ética são os príncipios para que a arte se reúna em si mesma e se constitua.
Eu já li tudo quanto encontrei de Fernando Pessoa, e considero também uma mentalidade mesquinha por detrás de toda a falta de capacidade creativa. Para mais não seja um frustrado que utilizou isso como pretexto para representar todas as frustrações da sua época e dos anos seguintes até agora. Olhai os estudantes portuguesas e poderão ver que a maior parte deles são o reflexo da pouca poesia que conhecem, embanhados numa falta de intelectualismo, enfrascando-se em alcóol sem fins esperados, levantando pastas que benzem em igrejas, e vestidos como na idade média com capas demarcando a elite "intelectual" daquela do "macaco" que é o operário que ao menos sabe cultivar batatas melhor que comprar congelados para meter no micro-ondas e sandes de atum quando estão de ressaca para ir às cantinas universitárias. Esses doutores são os nossos engenheiros, os nossos banqueiros, os nosso ministros, os nossos representantes, e onde é que fica Pessoa no meio disto tudo sabendo que o "modesto" poeta que superaria Camões estava consciente de que também não eram muitos na época a saber ler e escrever e dos poucos que sabiam, estes estavam repletos de propagandas, guerras partidárias, religião, e no povo o anarco-sindicalismo expandia e punha em causa a república? Ora deixa-me lá não ser de nenhum, agradar toda a gente e provocar um bocadinho de tempos a tempos. Para mais não falar no amigo que mais o promoveu, Almada Negreiros, que era paupérrissimo de filosofia pois se condicionou a um nacionalismo provinciano que ainda vinha de Teixeira Pascoaes. Pessoa só foi conhecido mais tarde durante o fascismo ee ultra-valorizado a partir dos anos 80quando os portugueses já não têm uma India, uma Angola, um Cabo Verde para explorar, e pequeninos não sabemos para onde nos virar. Pessoa não sabia para onde se virar, mas tinha um desejo de glória como todo o nosso Portugal.